fais-toi une cuirasse secrète

armaduras no castelo     no museu
na feira de antiguidades     armaduras
no cinema saem voando    outras presas
sob a pele calcificam em algo rijo 

o visor é um ponto fraco   as axilas
a virilha e as dobras do flectido movimento
não são inteira proteção     cobrir-se só
é inútil como um tanque sob espada samurai 

umas pesadas    outras leves    elegantes
armaduras de desfile ou de torneio
onde põem fitas multicores   adereço
venusino que compõe a antiga alegoria
marte amante      a proporção 

duram armaduras mais que os homens
que as vestiram     mas que triste condição
porém não esta que cresce como espinhos
sob a pele    esta cota   fina malha   de mithril 

bem menos que um adorno      bem mais
que o tigre altivo     como um elmo de pavor
a fúria do leão que em neméia se calou
hercúlea caça     sua couraça     [a ironia] 

o protegia      mas foi ela que o matou

Ulla Hahn, Este verão

[Tradução de Juliana Brina]

Este verão me ensina 
a amar minhas cicatrizes 
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento o pescoço 

Este verão me ensina 
que trancar a amargura me torna 
bonita roliça redonda como se saudável 

Este verão me ensina 
a berrar o bel canto 

Este verão me ensina 
que a solidão descansa 
e se expande em um abraço 

Este verão me ensina 
a não confundir um corpo 
disponível 
com a ânsia pela alegria 

Este verão me ensina 
a ser um espelho de água para cada pedra 

Este verão me ensina 
a amar pequenas e grandes bolas de sabão 
antes que rebentem 

Este verão me ensina 
que mesmo sem alguém 
tudo continua 

Este verão me ensina 
um rosto congelado de satisfação 

Este verão me ensina 
que devo bater eu mesma os tambores 
se quiser dançar 

Este verão me ensina 
a ser por alguns segundos sem felicidade sem tristeza 
aliada de Deus 

Este verão me ensina 
a acordar de manhã. Grata. Sozinha. 

Este verão me ensina 
que a folha do limoeiro apenas exala seu aroma 
quando esmagada entre os dedos. 

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Noutro comboio

Cá estamos nós outra vez, no tal comboio, que tantas vezes se perdeu,
Fecharam várias estações, agora, como alguns fazem com as memórias
E os velhos amigos, nostalgia engolida pela ruína e pelo monte, inúteis,
A ingratidão pelo que já não se precisa, passou, engoliu, limpou-se,
A estação é outra, a terra ainda espera o teu nome na pedra
E devo dizer que tenho vergonha do meu egoísmo inocente, mas lá está,
Apesar de tudo, sou do país dos vampiros azeiteiros, dos doutores mamões,
Dos umbigos imensos, supermassivos, a cerveja baixa como sempre,
A cada gole sake à sombra de uma cerejeira, na língua algo como aquela vez
Em que ela me disse à beira da estrada na serra, já não aguento com a segunda,
E eu a sentir aqueles anéis apertados, cada vez mais longe, o preço ignora-se,
Esconde-se o recibo da morte, a vida é melhor pagá-la de uma vez,
Pode não se viver para a pagar toda e a eternidade é muito tempo para
Passar vergonha de caloteiro, mesmo que se viva às prestações,
Fica tudo ruínas e curva apertada, espalhado por fragas e oliveiras,
Será que me perdoas o cansaço, juro que tentei levar a vida na linha,
Mas aborrece-me passar o dia a olhar o mundo que passa pela janela,
Ela agora deve dizer ao segundo marido que hoje foi um dia difícil na loja
E que não pode com a cabeça, imagino os anéis e os dedos, o meu
Cheio de mim e dela a brilhar ao luar, a pingar numa dúvida de aquilo ainda nós,
Eu a preocupar-me com os estofos do carro, agora tudo tão longe neste comboio
E tu ainda anónimo para quem te conheceu, ainda verde no monte das minhas saudades.

Inkoo

23.06.2015

[Ver aqui o perfil de João Bosco da Silva]

Carta abierta a todos mis suicidas

Todos a mi alrededor tienen ganas de gritar. Tienen ganas de tirarse de un acantilado a diez mil metros de altura y caer de pie  y seguir como soldados caminando por el puente con sus ganas de  morir. Profesando la libertad de ser solo ceniza con la carne pegada a los laterales como parches salvavidas. Se arrastran como siluetas bajo la penumbra sucia de un faro. En la noche lluviosa se encargan de gritarles a todos ¡tengo ganas de morir!. El mundo me habla muy despacio y el tiempo se me acaba.

Su dolor es circular es un vórtice infinito en el que siempre me incluyen. Y yo no se que hago para que esto suceda. Más que existir. Más que ser sincera. Más que creer en su humanidad. Más que creer demasiado en su ficción. Me miran y estoy allí parada llevo un saco negro y el cabello rubio, me debo ver parecida a la muerte bajo los anuncios de viajes de Avianca. Estoy segura que es así y con la luz encendida de los faroles de seguro, debo verme parecida a la muerte.

Los hombres con ganas de no existir me persiguen. Todos quieren ser mis amigos. Me dicen: Mira mi brazo derecho que sangra. Mira mi codo de acero, me sirve para patinar en el asfalto con que me voy a sepultar, ¡míralo!, ¡que brillante!  y sonríen y comienzan a cantar a Billie Holiday.

My heart and I have decided to end it all
mira mi puño cerrado como sangra
ayer golpee una mesa  
But let them not weep
 y pensaba en todo lo que me dijiste aquella vez
let them know that I'm glad to go
pero la sangre ya paro 
y tenias razón 
Dreaming, I was only dreaming
ayer me surci la mano
pero ya compre las tijeras  
I wake and I find you asleep
Mira como estoy cansada y ya no puedo mas
In the deep of my heart, here
Mira como la soledad se agrieta y tu estas allí
Saliendo a pasear
Darling, I hope that my dream never haunted you

Me atraviesan con dagas estas rutinas. La respiración. El silencio. Los días normales. Los días buenos. Las flechas de fuego como el aire del caos. La disforia de un ser que le aprietan los nudos pero no lo ahorcan.

Siempre con los sueños hechos costras en las rodillas. Voy con los papeles arrugados en el bolso, queriendo que se convierten en poesía o en cualquier cosa que logre salvarnos, con un ojo en la mano que no me sirve para mucho porque la mayoría del tiempo estoy muy distraída pensando en mi misma. 

Me observan como soldados de huesos pálidos y me juzgan: Esta tipa si es dura!, es una piedra – piensan -,  mientras se recuestan en el puente y el eco de una golosina los llama y comienzan a marearse y la nausea se vuelve otra sensación más que no saben distinguir.

Siguen caminando y el cielo comienza a cantar y ya no están en el mundo como un gallo, ahora son el gallo. Y los luces se escuchan como cacareos. Y la calle es una granja gigante, el vecino floricultor se sienta a mi lado en el banco de siempre con la braga llena de tierra y no tengo nada que decir,  pero aun sigo sentada dándole comida a esta ave. 

 

[Ver aqui perfil de Pamela Rahn]