I’ll Be Your Mirror

I'll be your mirror
Reflect what you are
In case you don't know (...)

The light on your door to show that you're home.

- The Velvet Underground

 

 

Seguro o cinzeiro deixado para trás
por um antigo inquilino do meu corpo
e sobreponho queimaduras maiores
aos pequenos círculos de espectro
- este é o meu território.
A luz da loja de antiguidades
invade este meu quarto vazio,
ilumina a lembrança;
atraio-me facilmente pela oferta
de memórias em segunda mão
em forma de objeto barato.
Canto silenciosamente sob a voz da Nico,
o círculo negro roda,
não sai do lugar.
O carrossel pára,
as vozes calam-se,
viro para o lado B da memória.

Espero que ainda te lembres disto:
fomos juntas remexer os passados dos outros
com dedos pesados e cinzentos,
uma patina de pó do tempo.

(Ainda o tens em casa?
Imagino-te mal-acordada
a rever a noite anterior
na sua superfície cansada.)

Devia ter percebido a deixa:
descobres o espelho entre uma memória e outra,
no seu reverso um fio gasto mas
carinhosamente retorcido, reforçado
reformado, o homem da loja vende-to por uma nota.
Carregas o espelho até casa na mão.
A tua face visita-o,
desaparece
para dar lugar ao céu
depois ao chão
(estico o pescoço para me ver a ver-te).
Breve jeito de mão,
torces a prata,
capturas o sol:
farol quebrado que só aponta,
em frente, em frente.

 

[Ver perfil de Ana Carvalho]

Friedrich Nietzsche: síndroma de Ícaro e obra aberta

Comecemos por uma mise en abyme, tanto mais que se trata de pensar a recepção na sua máxima amplitude, isto é, colocarmo-nos também, desde já, como leitores, e portanto escrever sobre como é ler, lendo-nos. Assim, deixem-nos confessar que, depois de nos revisitarmos, o mais difícil no que se segue foi encontrar o tom justo; Nietzsche não se deixa apanhar facilmente, codificá-lo num estilo qualquer, filosófico ou outro, conduz quase sempre a amargos de boca. Um refluxo libertário sai constantemente, e intempestivamente, dos seus textos, impedindo que lhe façamos, na expressão de Gilles Deleuze, “filhos pelas costas”.[1] Daí a dificuldade em definir a pose reflexiva adequada às ideias nietzscheanas, fracassamos quando tentamos impor a nossa vontade, é melhor deixar-se encontrar pela sua poderosa racionalidade crítica, mas também pela força da sua irrisão e amor incondicional à vida selvagem, dionisíaca. Por outro lado, pensamos também nos destinatários mais sociológicos deste nosso ensaio (que, não o esqueçamos, quer dizer “tentativa”, propor linhas de sentido), quem nos irá ler e com que finalidades? Devemos escrever para um leitor médio, um guru das ciências sociais, um amante do tédio, alguém que nos conhece, um nietzscheano apaixonado ou um leitor compulsivo? Devemos considerar uma liberdade hermenêutica total, que na verdade é irreal, ou enquadrar o leitor para que coincida com a nossa racionalidade, estimulando, como queria Hans-Georg Gadamer, a fusão de horizontes? Prolongar cada ideia numa explicação que não alimente ambiguidades (se tal for possível) ou deixar margem para interpretações que podem deslocar-se bastante da nossa visão? Acreditar que a intenção do texto domina o processo de recepção ou conceder que tudo está nas mãos do leitor?

Bom, será melhor espreitar Nietzsche, e aceitar que um texto segue o seu próprio caminho, visto a sua ontologia crescer na trilogia autor-linguagem-recepção, enquadrada nos horizontes de expectativas do tempo e lugar.

 

I

 

Perto do colapso mental (Janeiro de 1889), mas não fazendo ainda parte das “cartas da loucura”, Nietzsche escreve ao amigo Heinrich Köselitz (compositor Peter Gast):

 

Muito curioso! Desde há quatro semanas compreendo os meus escritos, – mais ainda, aprecio-os. A sério, nunca soube qual era o seu alcance; à parte Zaratustra, mentiria se dissesse que me impressionaram. [quanto a Zaratustra] É a mãe com o filho: ela ama-o talvez, mas numa perfeita ignorância sobre o que o filho é. – Agora tenho absoluta convicção que tudo foi conseguido, desde o começo, – tudo é um e quer a unidade.[2]

 

Esta súbita iluminação parece propor a sua obra para uma auto-recepção heróica. Ao mesmo tempo – contra muito do que se disse sobre a máxima elevação estilística da fragmentação discursiva, grandeza da contradição e dispersão aforística –, inscreve agora a ideia da unidade na diversidade do que escreveu. Mas esta “unidade” não se opõe à pluralidade, Nietzsche escreveu demasiado e durante muito tempo sobre a multiplicidade de sentidos, a irrelevância da intentio auctoris, a impossibilidade de subsumir as interpretações em teses universais... para agora se entender o que avança, nas circunstâncias de uma troca epistolar, como simples união numa totalidade inteligível de todos os sentidos que teceu ao longo de trinta anos. Só citamos este excerto epistolar, enviado a alguém com quem manteve sempre uma relação ambígua, para recuperarmos um Nietzsche, perto do apagamento mental, feliz com a sua obra; depois de uma vida de sofrimento (por falta de saúde e de reconhecimento)[3]. E isto redobra de importância se soubermos que nele vida e obra, apesar do que disse em contrário, sempre se misturaram. Aliás, além do que refere no prefácio de Ecce Homo, em 1888 é muito claro ao afirmar que cada linha dos seus livros foi vivida, que eles são, por isso, um complemento de vida.[4] Recolhe-se uma nota mais intensa e precisa em Assim Falava Zaratustra I: “De tudo quanto está escrito, só gosto do que cada um escreveu com o seu sangue”[5].

Por outro lado, a incansável crítica aos valores dominantes (moral cristã, verdade metafísica e humanismo democrático de massas) e a vontade de superar o niilismo que ensombrava a cultura ocidental, sem separar vida e escrita, terá sido o principal factor que potenciou a doença que o silenciou aos 44 anos. Na verdade, o pensamento crítico reclama um agonismo que desloca o crítico, o Aufklärer, para fora da zona de segurança das crenças predominantes. E ou há, como em Immanuel Kant, por exemplo, a real protecção de uma crença mais elevada e aparentemente segura, filosoficamente sistematizada e religiosamente enquadrada, ou, como no caso de Nietzsche, a tentativa de substituição dos valores dominantes por uma radicalmente, mas relativamente vaga (tinha de ser vaga para não sugar a liberdade individual), nova axiologia, mina a estrutura vital do indivíduo.

Nietzsche não era um sobre-humano, mesmo resguardando-se no seu “pathos da distância”, ele continuava dentro da humanidade que, como escreve sintomaticamente no final de Para a Genealogia da Moral, prefere “querer o nada a não querer nada.” Isto é, Nietzsche, por mais iconoclasta que fosse, e foi-o, não escapou à sua condição de humano. Sem apoio para as suas crenças ou, em substituição, um sistema de postulados partilhados numa comunidade de espíritos livres, resvalou para o sem-sentido (de que os receptores franceses pós-modernos fizeram uma fileira filosófica: o tema da loucura em Michel Foucault, o sem-sentido como condição do sentido em Gilles Deleuze, a multiplicação, ad infinitum, de sentidos em Jacques Derrida...). Além disso, ele alimentou outra malignidade com a sua obsessão crítica: a da perversa identificação entre crítico e criticado. Como escreve no §146 de Para Além Bem e Mal: “Aquele que combate os monstros deve ter cuidado para ele próprio não se transformar também num monstro. Se olhas longamente para um abismo, o abismo olha também em ti.”[6] Viandante, nómada sem pátria, experimentando uma solidão necessária, vivendo no gelo e no deserto, escreve, em 1884, um poema de louvor aos espíritos livres, onde a páginas tantas refere: “Quem perdeu / Aquilo que perdeste nunca mais se fixa em parte nenhuma.”[7]

Neste assento trágico (a sua vitória – disposição crítica – compôs a sua derrota – solidão infeliz e colapso mental) deve ler-se a força dos princípios nietzscheanos, a coincidência ética entre o que defendeu na escrita e na vida. A sua marca é a de uma responsabilidade crítica e autocrítica (sem elas costuma insinuar-se o princípio de Pangloss). Lendo-o para lá do seu auto-contentamento retoricamente calculado, fica claro que as constantes Überwindung (superação) e Selbstüberwindung (auto-superação), combustível insubstituível dos Iluministas críticos, fragilizaram os alicerces da sua saúde vital. Devemos, pois, receber Nietzsche, talvez contra a sua vontade, como um sacrificado, à maneira, mutatis mutandis, de Sócrates. Se este se sacrificou pela Cidade, aquele fê-lo pela lucidez (que, como sabemos, “é a ferida mais próxima do sol”[8], onde Ícaro queimou as asas).

 

II

 

No respeitante à leitura de Nietzsche, às condições de possibilidade da sua recepção, pensamos que a fraca conceptualização e sistematização filosóficas convidam a abrir o leque de interpretações aceitáveis e a produzir novos conceitos e filosofemas. Algo que, todavia, não pode ser facilmente realizado dentro das linhas mais tradicionais da história da filosofia, mesmo se Nietzsche legitimou uma certa torção aos discursos filosóficos mais ortodoxos. Com todos os cuidados que a diferença entre autores e épocas exige, talvez se possa aplicar a Nietzsche aquilo que ele descreve como sendo a apropriação de Sócrates por Platão: este, “o mais ousado dos intérpretes” (der verwegenste aller Interpreten), disseminou Sócrates quase até ao infinito, diz no §190 de Para além Bem e Mal. Agora é a nossa vez de aumentar as variações de Nietzsche, cuidando, todavia, de não o banalizar, fazer uma lengalenga do seu pensamento (Platão tornou, escreve ainda no mesmo § Nietzsche, Sócrates mais nobre, a recepção deve elevar). Por outro lado, de um ponto de vista quase metodológico, é importante reconhecer que a hermenêutica nietzscheana trabalha mais sobre o Devir do que sobre o Ser, permitindo-se, pois, criar sentidos a partir da sua obra, em vez de os procurar já embalados e prontos a usar no que escreveu; a obra de Nietzsche é uma “caixa de ferramentas” filosófica indefinida. Como seria de esperar, há bastantes reticências sobre esta hermenêutica aberta, visto que, dizem os puristas da compreensão, se Nietzsche critica a ideia de Verdade, pretende, ao mesmo tempo, impor a sua veracidade (verdade pessoal). Mas mais uma vez, lendo-o com atenção, mitigando as contradições através da genealogia do seu pensamento, fica claro que a sua verdade não deseja generalizar-se. Leia-se o “Prefácio” de Para a Genealogia da Moral, §4, onde diz que só tentou substituir “o improvável por algo mais provável e, nalguns casos, um erro por outro erro.” Prolongando este exercício de similitudes, retirando de Nietzsche o que queremos aplicar a Nietzsche, na Para a Genealogia da Moral II, §7, há um apontamento, repetindo muitos outros, sobre a irrelevância do determinismo (ilusório, também): para ele, os deuses gregos fartar-se-iam rapidamente de um mundo inteiramente determinado e, em consequência, adivinhável. Por isso mesmo, os bons filósofos, amigos dos deuses, não especularam sobre um tal mundo. Isso demonstra porque, continua, toda a Antiguidade venerou o espectador. Quem recebe não deve, pois, ser tratado como simples receptáculo; no teatro como na filosofia, na música como na literatura, os espectadores refazem partes desses mundos indeterminados, dessas obras e textos incompletos, desses conceitos provisórios.

Recusa-se, assim, qualquer hermenêutica do sentido (baseada na crença de que há sentidos fixos que é possível, pelo menos em parte, recuperar em toda a sua verdade), substituída por uma que enobrece, sem atraiçoar, os originais: assaltando-os, rasurando-os, plagiando-os, refazendo-os, complementando-os, prolongando-os... uma hermenêutica plurissignificativa que reconhece a multiplicidade inesgotável de significados no que lê, ouve e vê, e faz uma interpretação activa, procurando enriquecer esses mesmos originais.

Acreditamos que uma boa recepção deve afastar‑se de funestas codificações, de metodologias que separam a priori leituras correctas de incorrectas, recusando a experimentação e a suplementação. Deve seguir-se a lógica da vida, obedecer ao guia que sugere uma permanente disposição para a invenção, uma arte da reescrita abrindo o originário a outras significações, impossíveis de prever, mas já inscritas potencialmente nas condições do seu nascimento. Uma estética da recepção onde sentidos vivos acolham a herança dos textos e um gesto artístico de reescrita os suplemente, uma dança da intertextualidade que em frenesim afaste os pés‑de‑chumbo, irremediavelmente sérios, visitantes sombrios da cena da vida hermenêutica. Tudo porque cada obra é uma “obra aberta”.

 

[1] Mesmo se um optimismo retórico o compromete a pensar que no futuro será o slogan de uma revolução sem precedentes (e, desta forma, acolhido pelas massas que, como sabemos, engravidam tudo de vulgaridade): “Conheço a minha sorte. Um dia, o meu nome será associado à recordação de algo espantoso – a uma crise como nunca houve no mundo, à mais profunda colisão‑de‑consciências, a um veredicto inexoravelmente tomado contra tudo o que até então fora crido, reclamado, santificado. Eu não sou um ser humano, sou dinamite.” (Ecce Homo, “Por que sou um destino”, §1).

[2] 22 de Dezembro de 1888, Sämtliche Briefe, kritische Studienausgabe, Munich-Berlin-New York: dtv-Walter de Gruyter, 1986, vol. 8, 545: “Sehr curios! Ich verstehe seit 4 Wochen meine eignen Schriften, – mehr noch, ich schätze sie. Allen Ernstes, ich habe nie gewußt, was sie bedeuten; ich würde lügen, wenn ich sagen wollte, den Zarathustra ausgenommen, daß sie mir imponirt hätten. Es ist die Mutter mit ihrem Kinde: sie liebt es vielleicht, aber in vollkommner Stupidität darüber, was das Kind ist. – Jetzt habe ich die absolute Überzeugung, daß Alles wohlgerathen ist, von Anfang an, – Alles Eins ist und Eins will.”

Nota: as citações em alemão seguem a grafia original.

[3] Assim Falava Zaratustra, a opus magnum de que fala na carta, vendeu, na época, entre 10 e 20 exemplares.

[4] “Das Zeugniß ist sogar in meinen Büchern geschrieben: die, Seile für Zeile, erlebte Bücher aus einem Willen zum Leben sind und damit, als Schöpfung, eine wirkliche Zuthat, ein Mehr jenes Lebens selber darstellen.” (Nachgelassene Fragmente (NF) 23[14]; kritische Studienausgabe, ed. Giorgio Colli and Mazzino Montinari, Berlin/New York: dtv-Walter de Gruyter, 1967-77 (KSA). Vol. 13, p. 613,14)

[5] “Vom Lesen und Schreiben”, KSA 4, 48: “Von allem Geschriebenen liebe ich nur Das, was Einer mit seinem Blute schreibt.”

Ainda assim, não se trata de qualquer tipo de sangue, no §53 do Anticristo diz que desdenha a escrita de sangue dos mártires religiosos, algo com um significado parecido estava já em Para a Genealogia da Moral I, §15, lamentando-se de que substituímos os atletas gregos pelos mártires, que agora temos o sangue de Cristo. Isto serve também para recordar que se o acto de afirmar é em si mesmo nobre, nem tudo o que se afirma o é. Este quase paradoxo acompanha Nietzsche ao longo de toda a sua obra e retoma, noutros termos, um velho problema da filosofia idealista platónica.

[6] KSA 5, 98: “Wer mit Ungeheuern kämpft, mag zusehn, dass er nicht dabei zum Ungeheuer wird. Und wenn du lange in einen Abgrund blickst, blickt der Abgrund auch in dich hinein.”

[7] Guilinao Campioni dá-nos conta da interpretação que Gottfried Benn faz deste sem-lugar: “talvez o reconhecimento de que é impossível qualquer comunidade. E talvez também, especialmente, o reconhecimento de que os povos não têm nenhuma necessidade dos seus grande homens. E portanto também dele próprio. Têm muito mais necessidade dos seus homens medíocres. Os grandes são apenas ridículos.” (“Espírito livre e niilismo: Acerca de uma composição poética de Nietzsche”, in Sujeito, Décadence e Arte. Nietzsche e a Modernidade, Lisboa: Relógio D’Agua, 2014, p. 359)

[8] René Char, Fureur et mystère.

Coordenadas do Invisível: A partir de Os Degraus do Parnaso de M. S. Lourenço

O presente ensaio, afastando-se de uma pretensão de conjunto, visa olhar para alguns dos textos da obra Os Degraus do Parnaso, do poeta, ensaísta e tradutor M. S. Lourenço.

Assim, o ponto de partida será constituído pelas seguintes quatro meditações: Canções com PalavrasA Abelha do InvisívelUm sonho de Mallarmé e Os Estilos de Wittgenstein, o que não impedirá referências e conexões com outras obras do autor.

Além do desvelo de nós temáticos singulares saídos da nossa escolha, aceitaremos o convite de expansão, materializado em incontáveis diálogos possíveis, que cremos estar contido nas deambulações de M. S. Lourenço. É o autor que se mostra.

 

 

1. No princípio era a Literatura

 

Numa entrevista, M. S. Lourenço diz o seguinte: “ (…) com 25 anos de idade, já não me foi possível desfazer o hábito de pensar que só pessoas de uma imaginação inferior pensam que o mundo é a realidade imediata e permitem que a sua vida seja ditada por ela.1” 

Ao lermos esta afirmação, que praticamente conclui uma entrevista dada poucos anos antes da morte do poeta, somos intimados a ver uma pequena, mas fundamental e sintomática, cadeia lógica: a opressão que resulta de uma perspectiva estropiada, porque pobre, da vida. A pedra-de- toque é, pois, a imaginação.

Se fosse possível, num exercício quiçá arriscado, tentar encontrar a presença mais obsidente em Os Degraus do Parnaso, talvez não errássemos por muito ao dizer que é a Literatura, nas mais diferentes e originais construções, constituindo uma espécie de núcleo de irradiações da obra. 

Ora, em Um Templo no Ouvido, M. S. Lourenço assimila a ideia de Poesia lato sensu à de Literatura, perspectiva que poderá possuir suporte no étimo grego poiesis (ποίησις) que significa fazer ou criar. 

No ensaio Canções com Palavras – cujo título já deixa antever a relação (bastante) próxima entre ambos os domínios artísticos – a frase inicial é uma verdadeira interpelação, reforçada pelo tom sentencioso: “Toda a Arte aspira a alcançar o estatuto de Música.” Em M. S. Lourenço, o adjectivo “musical” serve precisamente para elogiar a escrita de alguns dos seus escritores dilectos, como sejam Samuel Beckett e a sua “prosa musical” (Lourenço, 2009, p. 463) ou todo o universo criado por Marcel Proust (ibidem, p. 450 e ss)2.

O estádio elevado da Música fica a dever-se à “ausência de um conceito de denotação” - ideia que iremos reforçar aquando da referência a Ludwig Wittgenstein – e ao seu carácter fluido, ou seja, descontínuo e que sobretudo enforma ou estiliza.

Pegando no exemplo nacional privilegiado para expor na prática a sua construção ideiativa, M. S. Lourenço serve-se de Camilo Pessanha e da “mais bem sucedida tentativa de reclamar para a poesia lírica o estatuto de Música” (ibidem, p. 454). Se bem que Pessanha,  mormente no seu poema Violencelo, seja visto como “continuador” do trilho criado por Cesário Verde – ambos os poetas, mas especialmente o segundo, são presenças regulares no Parnaso, como se pode constatar, por exemplo, no olhar direccionado para o poema O Sentimento dum Ocidental, especialmente em As Três Graças e Epopeia Crepuscular  – a verdade é que terá sido o simbolista português o mais perfeito descendente de Paul Verlaine e da sua Art poétique assente no primado da Literatura melódica ou ritmada3.

O trabalho encetado pela “eufonia”, pelo “contraponto” e pelo “material temático que possibilite a construção e o desenvolvimentos do pensamento lírico” (ibidem, p. 455) é a conditio sine qua non para a Literatura recuperar – note-se que M. S. Lourenço ao empregar a palavra “reapropriação” faz menção a um passado em que a Poesia ocupou um degrau mais elevado na medida em que se aproximou da Música/musicalidade – o estatuto de “poesia pura”, cujo parente mais próximo será a “música absoluta” (ibidem, p. 457). Lado a lado, Música e Poesia criam obras de arte que fogem à mera representação – entendida como mimésis – desembocando numa “suspensão temporária do sentido”, i.e., não se preconiza um desaguar no vácuo mas, pelo contrário, a dimensão propugnada poderá ser vista como a-significante. O que se elogia não será a arte pela arte, a técnica pela técnica, mas a abertura de infinitas hipóteses irredutíveis até porque não cristalizáveis num sentido essencialista porque pré-existente e absolutamente definidor e definitivo. 

O texto A Abelha do Invisível vem reforçar a ideia de elogio ao intangível.

Se algumas das tentativas para identificar o objecto da Poesia resvalaram praticamente no inútil– são referidos os empreendimentos de Dante, Shelley ou Hegel, entre outros –, na opinião de M. S. Lourenço isso poderá ter ficado a dever-se a um entorse pré-existente advindo do estudo aristotélico sobre o tópico. Mais concretamente, é a poesia lírica – afastada do estudo por Aristóteles, o que suscita a crítica feita ao estagirita e à sua “irrelevante geografia conceptual” (Lourenço, 2009, p. 589) – que facilita uma aproximação ao objecto da própria Poesia.

Assim, após retirar a lírica da sombra, M. S. Lourenço olha para Martin Heidegger encarando-o como detentor do contributo que se revela mais interessante. Ao caber na categoria, algo abrangente, de “autêntico criador de enigmas” (ibidem, p. 589) pode, assim, depreender-se que a necessidade do enigmático - ou, porventura, da enigmaticidade que remete para o reino do sentir -, é uma ferramenta imprescindível para ensaiar algo próximo a uma tangibilidade de sentido, uma vez que, como se poderá ir constatanto, a Poesia furta-se a perspectivas que se pretendam completamente deterministas e consensuais.

O ensaio de Heidegger, de 1946, parte de Friedrich Hölderlin – e da pergunta-lamento “...e para quê poetas em tempo indigente?” - de modo a problematizar uma caracterização bem mais elástica e que se prende com a posição e contributo do poeta na sociedade, mormente numa época “estéril”, mas, mais concretamente, com a relação entre a poesia/arte e a existência do humano no mundo – grosso modoDasein e Da-sein

Se Rainer Maria Rilke nos aparece em Heidegger como ensaio-resposta à questão colocada por Hölderlin, essa aproximação hermenêutica encetada pelo filósofo é aproveitada por M. S. Lourenço que, contudo, acabar por se distanciar, uma vez que sugere um caminho tendencialmente complementar e pessoal.

O conceito heideggeriano de “descompreensão”, que será sinónimo de um recalcamento involuntário dirigido ao objecto das percepções cognitivas, o qual vem a causar a esterilidade ou, pelo menos, o entorpecimento da imaginação com a correlativa produção inconsciente de um artifício daninho, serve a M. S. Lourenço para condensar o rio de pensamento de Heidegger no seu ensaio. Estando a imaginação e a capacidade de conhecimento como que sequestradas, será necessário elaborar uma saída que mais não será do que uma sucessão de intervalos. De novo, M. S. Lourenço deixa-se ir, continuando a porta aberta por Heidegger, Rilke e Hölderlin, este último um poeta “para quem o único objecto da Poesia é a própria Poesia” (ibidem, p. 590), dimensão fundamental para que o terreno de exploração acerca do objecto da Poesia possa veicular-se graças e através do desdobramento da Verdade incalculável4. 

Tendo a Técnica dado ao humano a obsessão pela objectivação e imediatismo, reforçados pela ideia de M. S. Lourenço de “filistinismo” que serve para reafirmar a pobreza espiritual humana, o tal amolecimento da disponibilidade para o êxtase terá de ser substituído pelo “exercício da memória, o qual é um retorno ao coração”, por força a que se opere “o insistente zumbido da abelha do invisível, a qual é o símbolo do poeta que canta o carácter preliminar de tudo o que é apenas objecto de visão.” (Lourenço, 2009, p. 591) O múltiplo, mais do que o plural, é o que postula a abertura ao mundo, a relação e reacção à Verdade: só “a voz da Poesia [nos] pode salvar”. Não parece haver espaço nem lugar para pretensões que visem o abandonado da palavra, entendida como proveniente do reino da Literatura; muito pelo contrário, e sublinhando de novo a tónica na intangibilidade, M. S. Lourenço volta a lançar a ponte com a Música, ou mais concretamente, com o melódico e o intraduzível porque integrantes de uma relação de confiança. Stephen Dedalus no Ulisses, de Joyce, diz-nos “Fecha os olhos e vê”: é precisamente a criação desse espaço-tempo em relação ao qual em grande medida só se pode inferir, tactear ou, melhor dizendo, sentir, a que se vem aludindo nestes ensaios de M. S. Lourenço, e que é o tal “sonho de Mallarmé”5 6.

No texto intitulado Um sonho de Mallarmé, que é o de “escrever um período que pudesse ser considerado um labirinto” (ibidem, p. 582), M. S. Lourenço, mais uma vez partindo de uma hipotipose pessoal – a qualidade estética da prosa kantiana - mas ampliando-a em feixes criativos, diz-nos que “Em última análise conta para a definição do valor estético de uma obra de arte literária o papel desempenhado pela, e os resultados alcançados na, criação de símbolos, que são ao mesmo tempo ícones e veículos, eficientes e plásticos, da representação do pensamento.” Se o diálogo, eminentemente estético mas não só, entre Immanuel Kant e Samuel Coleridge é aí posto a nu, não se trata, porém, de forçar a união absoluta entre filosofia e literatura – desejo que raia o cliché; como lemos, a criação de símbolos deve-se à “imaginação”, ou “navegação”, sem as quais “a obra de arte literária nem é sequer pensável” (ibidem, p. 582). A proposição de hipóteses, do que se materializa necessariamente numa abertura, encontra apoio directo quando M. S. Lourenço veicula o seguinte:

 “Quando falo da eficácia de um símbolo não quero ser entendido num sentido exclusivamente pragmatista, mas antes num sentido alargado, segundo o qual a utilidade de uma construção simbólica é medida pelo impacto que a construção simbólica tem em criações do mesmo domínio ou domínio afins”. (Lourenço, 2009, p. 582)

O conhecimento, e muito concretamente a sua busca, são magmáticos. Ainda nesse texto do Parnaso, tomamos contacto com três características ou “predicados estilísticos” que têm relevo para o caminho infinito que é o labirinto de Mallarmé: a “repetição”, a “expansão” e a “ramificação”. Aniquilando o pretensiosismo de quem menoriza a prosa de Kant, M. S. Lourenço, graças às três referidas componentes da “prosa de arte”, regressa à valorização da ideia de movimento ou fluidez que contribui para a valorização estética da prosa. Se, simbolicamente, em Kant e em Coleridge encontramos a “Ilha da Verdade” rodeada pelo “oceano da Ilusão”, a referida “navegação”, símbolo-irmão da potenciação criativa, materializa a des-cristalização de que a busca do conhecimento carece. 

Prosseguindo os gestos de densificação topográfica relativamente à Literatura, M.S. Lourenço, no ensaio Nihil Sub Sole Novum, revela-nos as duas faces da mesma: a cognitiva e a intuitiva7.

Ora, a primeira, a de teor cognitivo, prende-se com a “investigação das leis da vida interior” (Lourenço, 2009, p. 480), i.e., a literatura pode ser/é um medium privilegiado para o (auto) conhecimento, tornando-se imperioso, nesta sede, referir Paul Ricoeur e toda a sua construção hermenêutica no que respeita, precisamente, a identidade-narrativa como auxiliar da identidade-pessoal (ipse). Atente-se que para o filósofo francês, as identidades pessoal e narrativa não se confundem: a segunda pode, sim, influir na primeira, na medida em que a ficção literária pode constituir um veículo interessante e importante de auto-conhecimento para quem com ela toma contacto. Apoiando-se em Proust, mais concretamente, quando o escritor francês nos diz que deseja que os seus leitores sejam leitores deles mesmos, o pensamento filosófico de Ricoeur precisa de ser, a propósito de M. S. Lourenço, como que peneirado8.

Inferindo, a verdade é que a segunda faceta da literatura - “face intuitiva” - possibilita, através de “uma linha de um texto literário (...) ouvir o som do infinito.”, prisma que, em conjugação com a índole cognitiva, cimenta a posição tida como optimista do autor (Lourenço, 2009, p. 480). Mais uma vez, numa recorrência que simboliza evidência, M. S. Lourenço enfatiza a importância da imaginação, umbilicalmente ligada ao ambíguo e à infinitude, como força propulsora, no caso, do fazer artístico ou poiético. E é aqui que cabe incidir o foco no autor porventura mais presente, se bem que muitas vezes a título implícito, nestes ensaios de M. S. Lourenço: Wittgenstein.

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ENSAIO SOBRE ELE

we must love one another or die

w. h. auden

so only one life can't be enough
para esperar o teu regresso
(qual penélope, qual quê)

numa casa sem telhado
pergunto-me o que fazer com o frasco
de nescafé, a tua caneta da sorte, 
os teus dentes de leite, o teu postal
dos jardins de butchart, do katmandu,
o teu petit larousse, 
                        os teus óculos

dói-me o corpo todo e esta cidade
nada mais me trouxe do que uma dúzia
de charros numa noite perdida:
i should learn to look at
an empty sky and feel its total
dark sublime, though this might
take me a little time

não há muito a fazer, my dear.
aguardar é tudo por agora
tecer, adiar um dia de desordem
e acreditar que a vista para o pátio
é o teu tapete de chegada

PRIMO LEVI EM TEMPOS DE CÓLERA

    Ler Platão é uma actividade que se persegue com tempo entre mãos. Um amigo meu, um académico dinamarquês que está a escrever uma tese sobre Platão, tende a racionalizar qualquer problema pensando em Platão. Durante uma longa parte do tempo em que ambos estávamos a escrever as nossas teses no mesmo país, adquirimos o costume de nos encontrarmos todas as manhãs. Ele, assumia o papel de Sócrates, falava-me em Platão e eu respondia-lhe em Homero. Platão tinha questões com poetas, como reagiria ele à capa de hoje do inenarrável Daily Mirror (talvez em modo Bukowski: I see where I have made plenty of poets/ but not so very much/ poetry)? O sistema político em que vivemos hoje é uma democracia? Não, Platão descreveria isto como uma oligarquia. Mas concordarias que um poeta pode descrever uma mesa ou uma cadeira mas não construí-la? 

    Perguntas deste tipo povoavam as nossas sessões e estas sessões às vezes levavam a becos sem saída, quando tínhamos sorte, a discussões sobre os problemas mais concretos, sobre coisas que mais nos interessavam, ou que na altura nos preocupavam profundamente. Porquê ler Platão? Platão é um autor que nos obriga a perguntarmo-nos todas as perguntas que importam: o que é justo?, qual a melhor maneira de viver na cidade?, qual a melhor maneira de governar a cidade?, como podemos viver bem a nossa vida?, como devemos vivê-la?, qual o papel do amor nas nossas vidas?, na nossa moral? Se suspeitarmos de Platão nas doses certas, nas quantidades certas, vamos amá-lo para o resto da vida. Quando somos ainda muito jovens e lemos o Fédon não temos como não acreditar que Sócrates inventou o espírito humano. Não importa tudo o que vamos aprender a seguir, não importa se depois disso não temos como não amar a chateza sóbria, pragmática e honesta de Aristóteles, que ao contrário de Platão tinha uma fé inabalável na habilidade dos humanos para aprender a bondade, o que às vezes penso é o único grande ponto de ruptura entre Aristóteles e Platão, o motivo pelo qual o discípulo se afasta do mestre.  

    Ler Platão é uma actividade que devemos perseguir sobretudo no que um amigo meu costuma definir com recurso a Ruy Belo, em tempo detergente. Uma porção considerável das nossas vidas decorre em tempo detergente. Devemos ler Platão em qualquer altura, mas sobretudo em tempo detergente. Quando estamos deprimidos, quando carregamos connosco a humilhação de uma dor cinzenta, os nossos sonhos quando morrem, a esperança de um tempo inteiramente de portas fechadas, um amor que reconhecemos ao olhar para a sua cara doente que ele vai apodrecer até se tornar na nossa maldade, quando nos sentimos rodeados de mediocridade e a única resposta ao nosso alcance é a da reciprocidade básica de todos os nossos instintos banais, esta desarrumação em que temos dissipado os dias, é aí que mais precisamos de Platão. Devemos ler Platão quando reconhecemos o pior de nós ao virar de cada esquina, Platão pode ajudar-nos a combater o pior da nossa personalidade, conceder-nos, se mais nada, a distância vital da ironia. 

    Enquanto a lenta abolição de uma educação em artes liberais não for inteiramente substituída pelo cenário catastrófico de um treino escolar que sirva simplesmente as necessidades de um mercado de trabalho, uma educação que não permita a um indivíduo inventar-se a ele próprio, que incentive apenas a demagogia triste de estudos que inspirem uma mentalidade meramente utilitária, o Banquete continuará a povoar a imaginação de adolescentes pelo mundo fora, com respeitáveis figuras públicas da Atenas do século V em versão drunk & horny men invent love, e o inegável sex appeal de Sócrates, definido por Alcibíades como inversamente proporcional à sua aparência física, continuará a inspirar esperanças talvez pouco razoáveis em todos os adolescentes que não lograram ficar bem em nenhuma fotografia. 

Capa do Better Book Titles para o Symposium. 

Capa do Better Book Titles para o Symposium. 

    Ler o Banquete é como adoecer. Não é uma descrição apelativa, esta, mas é o que é. Outras coisas nos serão dadas enquanto a maleita faz o seu trabalho. A mais importante delas relaciona-se com a descrição que se pode ler na capa da edição deste discurso para a série Penguin Books Great Ideas: “our human race can only achieve happiness if love reaches its conclusion.” Esta edição contém uma das traduções mais agradáveis e mais bem conseguidas do texto platónico, a de Christopher Gill. É possível adquiri-la por cinquenta cêntimos de libra, um preço que, já agora, nos lembra o quão saudável é desprezar livros.

    O que é que se discute neste diálogo? O papel do amor na formação moral do indivíduo (qualquer introdução à obra dirá que, mais do que prescrições pronunciadas a partir de uma posição de autoridade moral, o que preocupa Platão é o processo, como é que o amor faz parte desse processo), o seu papel na felicidade, na criatividade, no (re)conhecimento da nossa natureza e no (re)conhecimento da dos outros. O papel do amor na vida da mente, na vida social e política. Quando chegarmos ao fim do diálogo, e estivermos mesmo nas últimas páginas, outro pensamento terá ganhado raiz. Enquanto Sócrates se diverte a desfazer a ingenuidade de Ágaton (o amor é um deus belo), com a perícia do professor que será sempre percebido pelos seus alunos como o super-herói, a ideia básica na sequência lógica de todas as que a precederam ganha forma. O amor é uma forma de desejo, a necessidade de alguma coisa. Uma das personagens, o tragediógrafo Aristófanes, já tinha aludido a isto ao narrar o mito das almas gémeas: os humanos são apenas metade dos humanos originais (um crítico da BBC em tempos imaginou estes humanos como sendo um pouco como o homem de Leonardo Da Vinci e esta ideia agrada-me), e foram separados ao meio pelos deuses, porque estes temem a arrogância da criatura. Assim, os humanos não se podem reunir como dantes, e morrem com a ausência do outro. Os deuses resolvem isto com uma modificação nos orgãos genitais, permitindo a cada alma gémea que esta se reúna à sua, uma vez encontrada. Esta abstracção tão literal encerra outra, mais vaga. O desejo é uma coisa que move a nossa perseguição de cada descoberta, os caminhos que escolhemos. 

Platão, Banquete, Penguin Books Great Ideas, Christopher Gill (trad.)

Platão, Banquete, Penguin Books Great Ideas, Christopher Gill (trad.)

    Há lugares a que vamos chegar sem escolha. Num dos poemas mais belos do século passado, “I dream I am the death of Orpheus”, a poeta americana Adrienne Rich explica a sensação que isto causa:

I am a woman in the prime of life, with certain powers
and those powers severely limited
by authorities whose faces I rarely see. 
I am a woman in the prime of life
driving her dead poet in a black Rolls-Royce
through a landscape of twilight and thorns.

Adrienne Rich em The Will to Change, Norton, 1971.

    Aos lugares a que vamos chegar sem escolha, importa o nosso percurso, para nos lembrarmos bem de quem julgamos que somos, para sermos capazes de sobreviver à imposição dos factos da vida sobre a nossa personalidade. Não o que é esperado de nós, não as expectativas das “authorities whose faces I rarely see”, mas o que carregamos connosco. No alongado olhar que Platão demora sobre o espírito humano no Banquete pode ler-se que o amor (Eros) nasceu de um encontro fortuito entre a Pobreza e o Recurso (sendo que o Recurso etava embriagado e a Pobreza tira vantagem). Segundo Sócrates, é por isso que o amor é sempre pobre, não é nem sensível nem belo, como a ingenuidade de Ágaton sugere, mas seco, com a pele endurecida, sem sapatos nem casa. E Sócrates diz-nos que o amor dorme no chão, sem cama, nos limiares das portas ou pelos caminhos. E porque ele partilha da natureza da mãe, ele tem sempre necessidade de alguma coisa. No que se parece com o pai, ele anseia por apoderar-se do que é bom e belo. Sócrates diz: o amor é corajoso, impetuoso e intenso, um caçador formidável, sempre a preparar o próximo truque. E conclui: um amante da sabedoria para sempre, esperto a manipular magia, drogas e sofismas. O amor, segundo Platão/ Sócrates, é a nossa mente colorida no grau mais interessante. O amor é o desejo, constantemente. E há nele algo de intrinsecamente divertido, vindo do lado do riso (a embriaguez do recurso, essa metáfora que explica o lado hermético do amor), um pendor do estado de ser livre quando este se parece com a descoberta da alegria, com as fontes da felicidade.  

    Sobre Sócrates circulam anedotas acerca de quando ele cumpriu o serviço militar, de como ele era capaz de passar um dia e uma noite parado no mesmo sítio, a meditar sobre um assunto em pleno tempo de batalha. A vida moral de um indivíduo exige uma imensa quantidade de tempo para se desenvolver, uma imensa quantidade de solidão para que se chegue a distinguir com nitidez os contornos do vasto continente da nossa imaginação que pode ser iluminado pelo nosso amor. O discurso de Platão é um tributo a isso. Sócrates, se acreditarmos no relato em terceira pessoa de Platão, vislumbrou-o numa noite de vinho e insónia em Atenas, na casa de Ágaton, talvez sobretudo na antecipação da humilhação despeitada e desajeitada de um amante que não consegue instilar nele a quantidade necessária de igualdade para que o amor funcione. Sócrates não ama Alcibíades, e enche a noite com um discurso assente sobre a sabedoria de uma amante anterior, Diotima, com a memória de uma longa conversa, que abunda na lógica da dialéctica, pela qual é hábito examinar-se alguém a uma certa distância. Há que amar o bom senso de Platão, que na presença e no discurso de Alcibíades desautoriza Sócrates apenas o suficiente para que nos lembremos o que é um amante, e que também o super-herói vive à escala humana. 

Orfeu e Eurídice, Rodin, 1893. Orfeu é descartado por Platão como exemplo negativo de amante. Os deuses pensavam que ele era soft: tratava-se apenas de um músico, que não teve a coragem de morrer de verdade por Eurídice, recorrendo a um su…

Orfeu e Eurídice, Rodin, 1893. Orfeu é descartado por Platão como exemplo negativo de amante. Os deuses pensavam que ele era soft: tratava-se apenas de um músico, que não teve a coragem de morrer de verdade por Eurídice, recorrendo a um subterfúgio para descer ao Hades que lhe permitiu entrar no submundo sem estar de facto morto (cf. a este respeito o conto de M. Kundera, "Symposium": "No fim do verdadeiro amor está a morte, e só o amor que termina na morte é amor."). Segundo Platão, o castigo que os deuses reservam a Orfeu pela transgressão é a morte às mãos de mulheres. 

    Em A Tabela Periódica, Primo Levi no capítulo dedicado ao elemento do fósforo, recorda um amor de juventude. Sobre o momento da separação definitiva, quando o que não pôde ser evitado, regressa, à distância de anos, no trabalho da examinação tardia, como uma revelação, Levi escreve:

I felt growing within me, perhaps for the first time, a nauseating sensation of emptiness: so this is what it meant to be different: this was the price for being the salt of the earth. To carry on your cross bar a girl you desire and be so far from her as not to be able even to fall in love with her: carry her on your crossbar along Viale Gorizia to help her belong to someone else, and vanish from my life. 

Primo Levi, The Periodic Table, Raymond Rosenthal (trad.), Penguin Books,  2000.

    Platão é o autor a quem se atribui aquela máxima sobre a vida que não é examinada não valer a pena ser vivida (o contrário é ainda verdade, uma vida insuportavelmente examinada também não pode ser vivida). Primo Levi é outro autor que merece ser lido em tempo de crise. A única coisa para que o exame das perguntas de Sócrates, as suas soluções, não nos preparam, podemos encontrá-la extremely loud & incredibly close na autobiografia de Primo Levi, que o carácter moral de um homem pode estar certo, ser certo (a escrita de Primo Levi obedece ao critério da tríade platónica: bom, belo (mais do que tudo talvez na ideia da redenção do horror pela intuição de que tudo o que é humano não nos é alheio e o que é digno de condenação precisa de ser olhado de frente, de olhos bem abertos) e justo), ser de uma qualidade na ordem do que o discurso de Platão pretende inspirar, e ainda assim o resultado continuar a ser a dor inesgotável cuja única condição para ser experimentada é estar vivo. Mas, é também neste aspecto que a nemesis de Platão pode ser encontrada. Ao ler Primo Levi em tempos de cólera, lembramo-nos à distância do eco de outro escritor judeu, Saul Bellow em As Aventuras de Augie March, naquela cena em que uma das personagens diz a Augie que, no fim das contas, não é possível salvar a vida ou o espírito por pensar, mas, se pensarmos, o mínimo dos prémios de consolação é o mundo. 

    Não existe absolutamente nada de frívolo ou de acessório no Banquete de Platão. Continuará a ser, antes e depois da tonalidade de qualquer tempo, uma dessas ferramentas preciosas para a perseguição do lento e difícil trabalho de nos mantermos humanos. E se vocês se estão a perguntar porquê, aqui podíamos acabar com o Banquete de Kundera:

Just because it is groundless. If there had been a reason, it would have been possible to find it in advance, and it would have been possible to determine my action in advance. It’s just because of this groundlessness that a tiny scrap of freedom is granted us, for which we must untiringly reach out, so that in this world of iron laws there should remain a little human disorder. 

Milan Kundera, “Symposium”, Laughable Loves, Suzanne Rappaport (trad.), Faber & Faber,  1999. 

 Oxford, 6 de Agosto de 2015 & 17 de Agosto de 2015