Atentados de Bruxelas

I Começo por uma declaração: tenho cada vez mais dificuldades em distinguir o bem do mal, mas ainda não consigo estar para lá dessa velha dicotomia. Isto não provém, como em algumas pessoas que conheço, de uma sobre-racionalização, que a partir de uma grelha lógica cheia de bondade consegue mecanicamente acusar tudo o que pulse fora dela e santificar o que se encaixa nos seus pressupostos. Para mim, pensar o bem e o mal é só uma parte de uma hermenêutica bem mais geral, onde devem estar os horizontes de expectativa da época (um Zeitgeist feito de sensos comuns) e os acidentes extremos que sacodem a nossa consciência moral.

II Por isso, se houve alturas em que me felicitava por simultaneamente não ter nem senso comum nem corpo, hoje sou um irredutível céptico proposicional, isto é, acredito pouco nas belas e justas frases (a não ser esteticamente), tudo o que penso tem de passar o teste da realidade (das realidades, não creio numa verdade fixa exterior ao homem, plena de sentido definitivo). O teste das realidades é o meu “tribunal da razão”. Incorporei, assim, o senso comum nas minhas interpretações, é ele (ou eles) que constrói parte da realidade de que vos falo, é por ele, portanto, que a posso recuperar. 

III Os terroristas de 22 de Março em Bruxelas, essa “cidade livre, onde o humor, o desrespeito, uma maneira particular de não se levar a sério, contrasta com o que os bárbaros têm na cabeça: certezas de pacotilha, o ódio ao outro, a violência dos ‘puros’.”, dizia o director do Le Monde no dia seguinte aos atentados, vieram abanar o meu sentimento de segurança e de confiança, do primeiro decorre o segundo. Como continuar a acreditar que o ser humano, a totalidade desta espécie que justificou a bondade de uma multiplicação incontrolável com narrativas religiosas, prefere, de longe, o bem ao mal? As ideias que me assaltam não asseguram que eu seja outro, uma alteridade de bondade em relação à maldade dos terroristas. André Macedo, no editorial do Diário de Notícias de 23 de Março, associa o “proselitismo islâmico agressivo” com o “niilismo geracional que nos trouxe até aqui”. E isto faria com que houvesse, diz ainda, uma diferença profunda (antropológica?) entre “eles” e “nós”. Esta, mutatis mutandis, guilhotina de Hume não é clara para mim, às vezes pergunto-me se não habitará em cada um de nós um mini-terrorista à espera de crescer? Isto encaixa em algumas justificações políticas do fenómeno terrorista: incriminando uma péssima integração, o abandono das comunidades de imigrantes, a ostentação dominante do cristianismo sobre as outras religiões na Europa, a proletarização de segundo nível pela subsidiação elementar dessas populações, no fundo o modo de ser do capitalismo e da democracia cristã fabricaria terroristas. Acho esta argumentação, exemplificada há pouco tempo pelo nosso deputado Miguel Tiago, demasiado, política e moralmente, auto-culpabilizante para me interessar longamente. Se algo ficou mais claro para mim à medida que cumpro à risca o plano biológico de envelhecer, foi o de não confiar numa visão política que assenta, por vezes estrategicamente, em condições de interpretação e acção morais

IV Outro fracasso político é o da inacção (que não é exactamente o contrário da anterior, apenas uma versão mais moderada), baseado no “politicamente correcto”, conversa fiada que ao mesmo tempo que não age, siderada pelas ideias sagradas do interculturalismo e comunitarismo, mais inclinada a culpar o Ocidente (o quê nele? Não se sabe muito bem, prefere falar abundantemente de problemas de acolhimento, como se para integrar bastasse um lado) do que pensar e combater as causas reais (das realidades de que falei há pouco) do terrorismo. Essa posição conduz ao bartleyano “I would prefer not too”, e, mais grave, deixa o campo aberto ao populismo da extrema direita, que aproveita bem as pulsões xenófobas vingativas mais arcaicas (vingança contra vingança), inscritas aquém da fina capa cultural.

V Pensar o regresso do medo e da destruição malvada precisa, pois, do senso comum (sempre plural, repito-o). Conviver com os gestos, frases, sonhos... diários dos terroristas. O que os motiva deve ser de uma banalidade e obscurantismo realmente medianos. Nenhum deles leu tratados imparciais de geopolítica, nem Freud ou Nietzsche, são seres ordinários à espera de obter facilmente um sentido pleno. E, depois, parece-me que lhes falta a modéstia, esse dispositivo, psicológico e moral, que não deixa enlouquecer de desejo e espírito de vingança a grande maioria da população mundial. Mas talvez seja necessário também, devolvendo a famigerada geopolítica a outros, ir à fonte do pensamento europeu (alguns acusar-me-ão imediatamente de eurocentrismo) sobre o ressentimento que alimenta o espírito de vingança, e a vontade de destruição, isto é, a Freud e Nietzsche.

VI Não há tempo para dar conta aqui da complexidade do tema do ressentimento em Nietzsche. Mas em resumo possa dizer que incapaz de esquecer as afrontas (reais ou imaginárias) o homem do ressentimento deixa de ser capaz de agir em favor da vida, da sua e dos outros. Sendo igualmente inapto para seguir a via do “ideal ascético”, olhando para lá desta vida, esperando calmamente pelo Céu; diferentemente, o homem do ressentimento desenvolve em si um brutal espírito de vingança. Que Nietzsche colocou como motor da cultura cristã, valorização extrema do “castigo” como redenção.[1] A moral torna-se, assim, inquisitorial e o sentido da vida passa a estar na morte, isto é, na não-vida, porque se deseja estúpida e infantilmente a Vida. Os terroristas actuais não inovam muito, continuam a reproduzir a fábula de La Fontaine onde a raposa diz que as uvas estão demasiado verdes depois de perceber que não as pode atingir, é a sua impotência em viver nas vidas possíveis do Ocidente (múltiplas e pouco constringentes, cheias de liberdade e, comparadas ao resto do mundo – não a projecções utópicas, importantes porque trazem esperança, mas perigosas quando usadas como critério de comparação acrítico –, de felicidade; é a Europa que os refugiados desejam, não a China, a Rússia ou América Latina, por exemplo), uma impotência da realidade que apela à vingança, lenta mas consistentemente desenvolvida. No seguimento de Nietzsche, Max Scheler fala do auto-envenenamento psicológico que tende a deformar o sentido dos valores, sobressaindo o desejo de vingança, o ódio, a maldade, a inveja, a estultice... No seguimento de Nietzsche e Scheler, Ludwig Klages utiliza a expressão Lebensneid (desejo de vida) para designar a forma mais virulenta do ressentimento, um apetite de Vida que passa pela destruição da riqueza vital de outrem. Num livro sobre Nietzsche (Die psychologischen Errungenschaften Nietzsche, 1926), Klages refere que o sentimento de cansaço ou de esgotamento nietzscheanos não designam especialmente o corpo, mas a inaptidão para o prazer, uma apatia crescente, impotência de envolvimento afectivo, isto é, a exclusão da vida exuberante e feliz. Esta circunstância leva os ressentidos a desligarem-se dos outros e deles próprios, hipertrofiando o sentido da Verdade para se redimirem por estarem fora da vida, e por isso a querem destruir.

VII Outra forma de explicar parte de tudo isto, enquanto tentativa, ensaio (versuch, como dizem os alemãs), é revisitar Freud e os seus Para Além do Princípio do Prazer (Jenseits des Lustprinzips, 1920)e Mal-Estar na Civilização (Das Unbehagen in der Kultur, “cultural” num sentido alargado, próximo do que Lévi-Strauss dirá ao contrapô-la a “natural”), procurando neles explicações para a vontade de destruição que contamina patologicamente os terroristas. Duas notas introdutórias: 1) na relação da psicanálise com a filosofia alemã próxima nos temas e conceitos, nomeadamente Kant, Schopenhauer e Nietzsche, aquela centra-se na especificidade humana, não no Homem enquanto animal, social ou metafísico; e o que a singulariza na sua humanidade é a maneira como se confronta, na vida e no pensamento, ao excesso constitutivo do prazer e do desprazer, a sua relação paradoxal. 2) Enquanto exercício clínico, a psicanálise não procura constituir uma qualquer visão do mundo (Weltanschauung), como dirá Freud em 1932 numa conferência sobre o tema: “Uma Weltanschauung é uma construção intelectual que resolve de maneira homogénea os problemas da nossa existência a partir de uma hipótese que determina tudo, onde, por conseguinte, nenhum problema fica por resolver e o que nos interessa encontra o lugar certo.” Apesar disso, talvez a psicanálise possa, diz ainda Freud, ligar-se a uma Weltanschauung científica e a psicologia individual advenha espontaneamente psicologia social, na medida em que o outro entra nas nossas vidas como cúmplice ou adversário. No entanto, Freud escreveu o Mal-Estar na Civilização em reacção à emergência do regime nazi, que, aliás, constituiu a sua Weltanschauung dando primazia ao natural sobre a cultural. O Mal-Estar é uma reflexão minuciosa que parte de conceitos analíticos para pensar o trágico da condição humana, reflectir sobre o mal-estar intrínseco a toda a civilização, sem o qual, paradoxalmente, não existiria humanidade. Algo que nem a psicanálise consegue resolver, o livro é também sobre os próprios limites desta ciência taumatúrgica, o mais que ela pode é transformar a miséria histérica em infelicidade banal. Uma das teses centrais é a de que para construir uma comunidade na qual se possa viver, o animal humano deve civilizar as suas pulsões (diga-se de passagem que a noção de “pulsão” passa de dois componentes em 1904, a “finalidade” e o “objecto”, para quatro em 1915, acrescentando-lhe o “ímpeto” e a “fonte”; mas no essencial Freud via na pulsão uma excitação de que não podemos fugir, cujo impulso é constante e constringente, seria, além disso, sempre de carácter sexual). A agressividade, traço indestrutível da natureza humana, ameaça constantemente a sociedade, como tinha mostrado em Totem e Tabou, a vida espiritual emerge no humano quando o homem disciplina e sublima a sua animalidade para a erigir em totem. A crueldade individual que desde sempre ameaçou o comunitário remonta ao mito da morte do pai, o pai de uma suposta horda primitiva: “É justamente o assento posto no imperativo ‘não matarás’ que nos dá a certeza que descendemos de uma linha infinitamente longa de assassinos que tinha no sangue o gosto do assassinato, como talvez ainda o tenhamos.”[2] Em Pulsão e Destino das Pulsões defende que o ódio é mais antigo que o amor, provindo da recusa do eu narcísico em dar o predomínio ao mundo exterior.[3] Mas as coisas não são tão simples e aquilo que motivou e motiva o movimento terrorista vive de contradições simultaneamente mais elementares e mais determinantes. Na verdade, a pulsão de morte, amplamente trabalhada por Freud em Para Além do Prazer, está estreitamente ligada ao princípio do prazer, e portanto às pulsões sexuais. A pulsão sexual, a própria essência de todo o movimento pulsional, contém Eros e Thanatos, a vontade de vida, de prazer, e a vontade de morte, de destruição. Diz Freud: antigamente, nos primórdios da humanidade, talvez antes da construção do primeiro totem, “A substância viva tinha ainda a morte fácil […] é verosímil que a substância vivente fosse assim facilmente recriada e morta, até ao dia em que as influências externas determinantes se transformaram, obrigando a substância que ainda sobrevivia a desviar-se cada vez mais do seu curso vital originário e a complicar cada vez mais esses mesmos desvios para atingir o seu objectivo: a morte.” Ora, o que os terroristas de Bruxelas, sósias de todos os outros, avatares da velhíssima humanidade que deseja matar o pai, que procrastina a construção do totem, quiseram foi, por caminhos pouco lineares, morrer. Passar ao inorgânico, num gesto que para eles representa a redenção pela Verdade. Claro que em torno disto houve motivações religiosas e sociais, mas creio que elas são secundárias. Se assim não fosse teriam atacado Igrejas ou Sinagogas e roubado bancos. Preferiram, pelo contrário, centros palpitantes de vida, de vida feliz, escolheram atacar Eros o mais directamente possível.

VIII O que fazer então? Pensar, continuar a pensar, para que não sejamos uma e outra vez surpreendidos por esta violência cega. Agir, continuar a agir, sobretudo de forma micro (as narrativas totais são perniciosas, já o sabemos), recompor alguns pequenos gestos do dia-a-dia, combater os preconceitos elementares que, de um lado e do outro, favorecem a incompreensão. Integrar melhor, claro. Mas também, porque isso não basta, controlar mais eficientemente as fronteiras exteriores à União (se há causas endógenas no jihadismo europeu, ele também se alimenta do caos do Médio Oriente), desenvolver as inteligências policias e judiciais, combater sem hesitação o tráfico de armas, construir uma estratégia comum europeia contra o terrorismo, reforçar o que de bom tem o nosso modelo social, evitar o desenvolvimento de bairros, vilas párias. E continuar democratas, isso é a Europa, único lugar onde, descontando algumas condições secundárias, os cidadãos se governam a si mesmos.

Mas acima de tudo é preciso que não deixemos banalizar a ideia de que o terrorismo veio para ficar. Não veio, não estamos perante um qualquer determinismo. Apesar disto, parece que estes atentados indignaram e entristeceram menos do que os de há pouco tempo em França, eu próprio demorei alguns dias a escrever sobre eles, enquanto nos anteriores reagi guiado por uma raiva discursiva bastante mais acusadora e inconformada, revoltada no sentido camusiano. Este sintoma de inevitabilidade deve, pois, ser combatido, não nos resignemos a que meia-dúzia de incivilizados (no sentido freudiano) definam parte importante do estilo de vida europeu. É por isso que devemos ser anti-terroristas.

 

 

[1] “Der Geist der Rache: meine Freunde, das war bisher der Menschen bestes Nachdenken; und wo Leid war, da sollte immer Strafe sein.” (Assim Falava Zaratustra II, “Von der Erlösung”).

[2] Considerações Actuais Sobre a Guerra e a Morte (Zeigemäßes über Krieg und Tod, 1915).

[3] Publicado em Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse, 1910/17.

 

Pequenas coisas mais literais: A tetralogia napolitana de Elena Ferrante

Romance, épica, arte poética, bildungsroman, biografia ficcional, não sabemos quanto de autobiografia, um longo ensaio sobre uma cidade, ou um longo ensaio sobre infância, adolescência, idade adulta, velhice, uma épica no feminino, uma meditação sobre Itália contemporânea, sobre maternidade ou sobre as implicações de nascer mulher no séc. XX numa sociedade ocidental, ou um longo romance sobre a vida de uma comunidade à margem de uma sociedade, todos estes ângulos vão desaparecendo e ressurgindo à medida que avançamos pelos quatro volumes da Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante.

É tentador para um classicista querer ler na crónica da amizade entre Lena e Lila o eco da amizade mítica de Aquiles e Pátroclo, esse lugar atravessado pelos tambores da guerra a partir de onde a história da literatura ocidental começou a desenrolar-se. Qualquer coisa neste livro sem dúvida joga com o paradigma de lendárias amizades literárias no masculino. A comparação com Homero não é irresponsável, sobretudo se quisermos acreditar no hype (tanto comercial quanto crítico) que acompanhou a recepção da obra de Ferrante, e porque, como com Homero, há ao mesmo tempo qualquer coisa de profundamente convencional acerca da Tetralogia, isto é, dependente das expectativas que nos são inspiradas por convenções supostas por géneros literários, e partindo dessas expectativas, à medida que atravessamos as linhas temáticas que separam os primeiros dois romances dos dois últimos (ou seja, quando passamos da crónica da juventude para a idade adulta), estas são estilhaçadas uma a uma (talvez por isso a maior parte dos leitores prefira os primeiros dois romances), o que em parte explica o lado profundamente inovador da Tetralogia. A escrita de Ferrante tem sido apelidada de radical. Talvez o que este rótulo descreva seja o estilo de crónica precisa e, para usar outro termo gasto à falta de melhor, visceral dos romances, que não deixa nada intacto. Ou talvez pudéssemos aqui citar a escritora polaca Olga Tokarczuk, que nos faz pensar no método criativo de Ferrante:

Anyone who has ever tried to write a novel knows what an arduous task it is, undoubtedly one of the worst ways of occupying oneself. You have to remain within yourself all the time, in solitary confinement. It’s a controlled psychosis, an obsessive paranoia manacled to work, completely lacking in the feather pens and bustles and Venetian masks we would ordinarily associate with it, clothed instead in a butcher’s apron and rubber boots, eviscerating knife in hand.[1]

Mas podemos começar por pequenas coisas mais literais. Se estes romances são tão populares, o que é a sua popularidade nos diz sobre nós próprios, crescente exército global de leitores insones, que se perguntam entre si és Lena ou Lila, Nino ou Enzo? Chavões críticos que sem dúvida podem ser aplicados à Tetralogia Napolitana: uma das obras mais interessantes e controversas do nosso tempo. Os quatro romances foram agora publicados em Portugal na sua totalidade pela mão da sempre atenta Relógio d’Água. Talvez porque seja a Relógio d’Água uma das editoras em Portugal que tomou para si a missão de saciar as insaciáveis elites cultivadas da pátria, pequeno pormenor que infelizmente escapa ao olho de falcão de António Guerreiro nesta crónica[2] (para quem publicam editoras como a Relógio d’Água se não para essa sedenta elite de miríades, segundo AG tão extensa quanto insaciável, mas que em outras crónicas suas tende a ser apresentada como insuficiente), a editora optou por não publicar os livros com as mesmas capas kitsch com que foram publicados no original e no mundo anglo-saxónico. Com esta opção algo se perde. De alguma forma, a totalidade da obra de Ferrante pode ser lida como uma paródia negra daquele tipo de narrativas que habitam a escala entre o conto de fadas e My Fair Lady e que foram, ao longo de gerações, como a precisão impiedosa das reguadas dos professores fascistas deste planeta, reforçando estereótipos de género. Mas talvez porque a elite nacional se “dá ao respeito” (expressão que alude talvez a uma certa falta de imaginação e sentido de humor), pelo menos no que a capas se refere, belas fotografias a preto e branco animam a edição nacional da Tetralogia Napolitana.

As capas originais são de alguma forma a marca indelével do primeiro jogo da autora com as nossas expectativas. Nas palavras de Antonella Di Marzio são também outra coisa: “Whenever I see those tacky covers I can immediately identify the world that has been at the origin of the novels. It can't be denied, and such an operation is denying this authenticity. As if it weren't possible that such a world has generated literature and that we need some tweaking to make it acceptable, appealing.” É verdade, a primeira coisa que os romances de Elena Ferrante nos dizem sobre nós enquanto seus leitores é que temos um interesse em narrativas sobre injustiça social, tanto quanto sobre sonhos, criatividade, inteligências míticas como as de demiurgos, ao género de Sócrates (o outro, não esse). Que gostamos de ler romances que dramatizam a psicologia da amizade, do amor, da violência, do sexo. 

A Tetralogia existe no centro de um cânone e o seu trabalho é provocá-lo, arrastá-lo para outros caminhos, actualizá-lo. Mutatis mutandis, com Homero, Elena Ferrante partilha uma ideia de literatura enquanto empresa anónima, enquanto herdeira de uma inteligência colectiva: [t]here is no work of literature that is not the fruit of tradition, of many skills, of a sort of collective intelligence. We wrongfully diminish this collective intelligence when we insist on there being a single protagonist behind every work of art.[3]

Mais vale perguntar: como é que estas personagens passam tão rapidamente a fazer parte da nossa vida? Porque nos interessam tanto? Se há um elo com a tradição, como podem personagens anteriores, narrativas anteriores, acrescentar algo à nossa experiência de ler a Tetralogia? Todos os livros que lemos anteriormente viajam connosco até ao livro seguinte (é também por isso que devemos a nós próprios imaginarmo-nos como poema contínuo). E os livros mantêm os seus diálogos com a tradição em que são gerados. Como Aquiles na Ilíada em relação a Pátroclo, Lena tenta articular o enredo da sua própria vida a partir da sua relação com Lila. O mesmo sucede com as nossas vidas, esse é grande parte do apelo dos romances. O enredo da vida de Lena está costurado com o de Lila, a amiga genial da infância, e a vontade de Lila é de alguma forma a força autoral da vida de Lena (de vez em quando a ordem inverte-se). Um dos aspectos mais importantes acerca deste conjunto de livros é recordar-nos que o amor não é linear, pacífico, agradável. É um desafio constante, cheio de uma ambivalência que requer de nós uma certa cegueira (uma habilidade para perdoar e seguir em frente) para se manter vivo.

Em aparência sempre um passo à frente, Lila vai tentando moldar o curso da vida de Lena, como uma espécie de narrador obscuro, relegado para segundo plano. Na sua totalidade, o apelo destes romances talvez assente nisto: a opção por uma forma biográfica, cronologicamente organizada da infância à velhice, expõe afinal a operação de ambivalência por que certos objectos de arte se intrometem nas nossas vidas e se tornam parte da nossa história: eles são ao mesmo tempo perfeitamente particulares (referem-se a momentos muito específicos das vidas de outros) e universais (os outros afinal são como nós). Ao falar dos privilégios de ser um leitor, o compatriota de Elena Ferrante, Umberto Eco, disse:

An illiterate person who dies, let us say at my age, has lived one life, whereas I have lived the lives of Napoleon, Caesar, d’Artagnan. So I always encourage young people to read books, because it’s an ideal way to develop a great memory and a ravenous multiple personality. And then at the end of your life you have lived countless lives, which is a fabulous privilege.[4]

Os romances napolitanos são a história de uma amizade ao mesmo tempo solar e opressiva entre duas mulheres. Para voltar à minha analogia inicial, como Aquiles, Lila não existe exactamente numa escala humana, e ambos partilham uma clareza de visão que não lhes permite deixar de distinguir em quem os rodeia a mediocridade e a falta de coragem sobretudo daqueles que têm pretensões a ter sobre eles poder. O poder do dinheiro, da autoridade, da corrupção, do sexo – aspectos obcessivamente examinados nos romances. Este exame propõe-nos a seguinte realidade: que crescemos com certos papéis, supostos por outros mesmo antes de podermos escolher que tipo de história será a das nossas vidas, a bagagem que carregamos connosco desde a infância e que se apropria de nós mesmo antes de entendermos quem somos, quem são os outros, elementos que servem para reforçar convenções sociais, como o sexo com que nascemos, o bairro em que crescemos, quem são os nossos pais, os nossos amigos de infância. Ao imaginar Lila, Ferrante tem de se ter perguntado o que aconteceria se alguém escrevesse um romance que tivesse no centro uma personagem que estivesse disposta a ser imune a todas essas convenções? Como é que ela seria? Como seria a sua vida? E quem poderia narrar a sua história? E, pode-se perguntar, podemos ler o final do romance como um comentário acerca desta ideia? Poderá a autora ter hesitado e o final pode ser interpretado como a aplicação de uma moral punitiva sobre uma das personagens no centro da acção? Ler é um acto ético, político, e enquanto leitores devemos a nós próprios este tipo de perguntas. São estas perguntas que permitem que os romances se tornem explorações da nossa personalidade, dos limites do nosso universo moral, mas, mais do que isso, da nossa empatia. E para que serve a nossa empatia de leitores? Como Nicholas Dames nota num ensaio recentemente publicado na The Atlantic:

...a deficit in empathy imperils a democratic culture, and that novels keep us entwined and engaged when we might otherwise drift apart in shrill and narcissistic self-certainty...[5]

Os primeiros dois volumes da Tetralogia são particularmente eficazes a explorar a ausência da possibilidade de uma origem em branco para a história das nossas vidas (nenhum homem, ou mulher, nasce, afinal, livre e igual aos outros), eles surgem carregados ao mesmo tempo do encanto e do terror da infância, e acidentalmente expõem a hipocrisia de algumas narrativas que nos são conferidas nessa idade e que acidentalmente servem para graduar a nossa posição numa certa escala política e social (o inverosímil super-intelecto de Lila, excluída da escola mesmo antes de entrar no liceu, é também uma provocação neste sentido). Narrativas essas que, deu-se o caso, em Itália em meados do século passado foram exacerbadas e postas em causa por uma série de eventos políticos e culturais que formam o contexto histórico do romance (o fascismo, os movimentos políticos e culturais que floresceram a partir da década de 60, as Brigadas Vermelhas), e que reforçam a pertinência das personagens de Ferrante hoje: como nós, gente para um tempo instável.

Num conjunto de romances que avança por sucessivas intermitências de esperança e crise, o ponto de tensão inicial ocorre entre a imaginação de Elena e Lila e a realidade que lhes é imposta, à qual é suposto ambas submeterem-se. Se os romances se leem como a história da formação de um escritor, então eles surgem da consciência de um real em falência constante, cuja vantagem é este traduzir-se no adquirir de uma lenta capacidade de estranhar coisas aparentemente banais, como o processo de degradação sofrido pelos corpos das mulheres do bairro, a percepção de que elas se parecem com os homens com quem se casaram, ou a violência de que os rapazes constantemente se socorrem para se afirmarem sob pena de serem vistos como fracos. Num dos capítulos de A Amiga Genial, as amigas discutem Dido e Eneias, e mais tarde, um ensaio de Lena sobre Vergílio adapta uma observação de Lila que Lena involutariamente associa à decadência bairro, que onde não há amor não só a vida das pessoas é estéril mas também a das cidades. É difícil imaginar um comentário político e social mais pertinente para os dias de hoje.

Como é que o amor se transforma em poder?, é uma pergunta colocada por Anne Carson num dos mais belos livros de poemas alguma vez publicados sobre um divórcio, The Beauty of the Husband, mas talvez os romances de Ferrante arrastem esta pergunta para o nível seguinte, como é que o amor sobrevive ao poder?   

Lila intui a beleza das coisas sem poder deixar de se diluir nelas. Na amizade, como em tudo o resto, para Lila não existem meias medidas. Os episódios de sinestesia de que ela sofre talvez sejam sobretudo uma expressão desta ideia. O percurso de Lena, moderada e agradável em quase tudo, ainda que na maior parte do tempo apenas em aparência, paradoxalmente, herda alguma coisa desta ética. Num diálogo com Pietro, ele diz-lhe que ela é meio feminista, meio comunista, meio estudante de Foucault, apenas com ele meias medidas nunca foram usadas. O grande desafio destes romances tem a ver com o modo como cada leitor se relaciona com o percurso emocional destas personagens. O grande desafio do percurso emocional de Lila e Lena é manterem o controlo sobre esse percurso. Talvez a ideia de que nos compete recusar meias medidas no amor, na amizade, nas nossas diversas trocas com outros, na nossa arte (o que quer que ela seja, pode ser escrever ou informática), possa ser entendido como o grande contexto ético da obra, e nesse sentido, a popularidade destes romances assenta num desafio a que as personagens estão constantemente expostas. Entender o que lhes acontece e porquê importa-nos e é-nos útil: este é também o nosso desafio todos os dias.

As alusões ao mundo antigo abundam. Algumas estão listadas na recensão de Aaron Bady para o LitHub[6]: Lena chama-se Elena Greco, licencia-se em clássicas depois de vencer uma bolsa para estudar na Normale de Pisa, que é o que lhe permite abandonar o bairro em Nápoles, escreve uma tese sobre Vergílio, a um dado momento casa-se com um classicista. Um dos diálogos mais importantes para a caracterização de Lena e Lila é a tal conversa sobre Dido e Eneias, há qualquer coisa neste diálogo que é reminiscente do diálogo entre Míchkin e Rogójin nas páginas iniciais de O Idiota, é um daqueles casos em que duas personagens não podem evitar expor-se mutuamente e isto de alguma forma prepara o palco para o que vai suceder em seguida. E, de alguma forma, com as personagens de Dostoievsky as personagens de Ferrante têm em comum uma certa noção de um peso metafísico que precede as suas acções, que as marca de longe para o que vai acontecer em seguida, as suas acções tornam-se uma parte decisiva da sua caracterização. Talvez poucas criações depois de Dostoievsky sejam tão Dostoievskianas como Lila. E ao mesmo tempo há em Lila e Lena qualquer coisa de profundamente reminiscente das mulheres que habitam os dramas de Eurípides. Pensamos em figuras como Medeia, Hécuba, Fedra, que percorrem a linha divisória entre a civilidade e a loucura, entre as convenções morais das sociedades em que habitam e a total falta de escolha que expõe a falência (e muitas vezes a perversidade) dessas convenções e que acaba por forçá-las à vingança. Nas suas peças sobre mulheres é como se Eurípides se perguntasse, as nossas sociedades foram pensadas para proteger um certo número de privilégios, o que acontece àqueles que se tornam vítimas desses privilégios? Não só quando Elena Ferrante fala do seu interesse em narrar a diferença do seu sexo, mas mais do que isso num certo pendor neo-realista dos romances (o bairro, o poder dos camorristas, a ascensão social de Lena, etc.), pode a autora ter tido esta mesma pergunta em mente?

Lila pertence àquele grupo de personagens literária que nunca projectam uma imagem definitiva de si próprias, a sua existência é da ordem da interrogação, não da resposta, as suas acções não correspondem tanto a factos como a actos demiúrgicos. A sua personalidade é capturada na descrição de Lena sempre no meio do drama, no momento em que se manifesta, Lila nunca se explica a si própria, e tudo o resto é o resultado da especulação de Lena. Juntas, Lena e Lila, como Pátroclo e Aquiles, são duas versões do mesmo tipo de inteligência humana e são tão inextricáveis que, inevitavelmente, em alguns momentos, desconfiamos que estamos perante duas versões da mesma personagem.

E se aquilo que na nossa inteligência é produto de uma inteligência colectiva não deve ser diminuído em favor do enaltecimento de um protagonismo excessivo, se o que nos ajuda a tornarmo-nos no que vamos sendo depende de uma exposição e de uma atenção constantes às ideias, interesses, paixões e histórias de outros, então a Tetralogia Napolitana, a história da formação de uma escritora (e neste aspecto os dois primeiros volumes habitam o mesmo espectro do nosso imaginário ocupado pela Autobiografia de Thomas Bernhard), o conjunto da obra de alguma forma desloca e expande o conceito de autor. Ligadas desde a infância, Lila parece em certos momentos ser a autora de Lena, a inventora do seu percurso, tal como de tantos outros objectos mais ou menos mirabolantes que lhe permitem assegurar alguma prosperidade, objectos nunca menos do que miticamente emocionais. E porque as mesmas versões da inteligência humana se reinventam com o progredir das tradições a que pertencem, neste aspecto, o herói de Homero com que Lila se parece é Ulisses, que na Odisseia a espaços deixa para trás um número de objectos construídos pelas suas próprias mãos que de alguma forma permitem a sobrevivência e, em alguns momentos, a opulência. Se Lila é ambivalente pela rejeição de uma ideia fixa de si própria, isto é de alguma forma um desafio à ideia de uma personalidade que encontra a sua melhor expressão na possibilidade de um destino narrativo linear, isto é, num destino que seja consequência dessa personalidade. Este é um dos aspectos mais fantásticos da Tetralogia. Lila, como Aquiles, é esta força cega no centro do romance, mas esta força falha em manter o controlo dos acontecimentos, falha em manter a ordem embora pareça ter o poder para a manter, convida o caos, no fim falha em controlar-se a si própria. De vez em quando cruzamo-nos com estas personagens, chamamos-lhes Aquiles ou Clitemnestra ou Mefistófeles, e é com um certo desconforto que depois voltamos à nossa rotina diária, mas somos um pouco menos banais depois desses encontros. A possibilidade de uma relação de causa e efeito entre personalidade e acção explica porque é que os romances são uma longa paródia das narrativas que habitam a nossa ideia do que são contos de fadas e a sua função na nossa cultura. Explicam também o apelo de Lila, uma heroína em falência constante, cujo último acto, o gesto que abre o romance, o seu desaparecimento, consiste talvez numa última tentativa de preservar a sua própria inteligência. E, no entanto, tanto o desaparecimento como as invenções de Lila têm qualquer coisa de dionisíaco, partilham da mesma natureza que uma ideia do cavalo de Tróia enquanto triunfo da inteligência: carregam ao mesmo tempo a potencialidade da vitória, do fim das tribulações, e da aniquilação total. O romance não nos deixa entender se este lado perverso da inteligência de Lila é intencional, e eis outro elo com Ulisses.

Neste aspecto, o fio da tradição que a Tetralogia alonga é o da nossa atracção por formas de inteligência herméticas, que de alguma forma são animadas de um potencial inesgotável que rapidamente se pode tornar numa força para a destruição. Entendido enquanto romance feminista, um rótulo de resto nem confirmado nem rejeitado por Ferrante, talvez seja este o contributo do romance nesse aspecto: duas mulheres que crescem num bairro pobre, dominado pela corrupção e pela violência da Camorra, e que entendem cedo, e em certo sentido quase inconscientemente, que a única solução é inventarem-se a si próprias apesar das restrições que lhes são impostas. A Tetralogia de certo modo diz-nos, nada é tão belo como a força gasta em construir as nossas histórias.

Uma última nota. O que tem sido apelidado da extrema violência dos romances, de resto, a meu ver, mal lida por críticos de outro modo competentes[7] porque confundida com uma estratégia fácil para agradar ao leitor, um rótulo descartado por Ferrante (“Literature that indulges the tastes of the reader is a degraded literature. My goal is to disappoint the usual expectations and inspire new ones.”[8]), cuja função é traduzir a violência constante deste mundo, é um sintoma de porque é que estes romances de alguma forma são objectos tão pouco convencionais. Como notou Megan O’Rourke:

Ferrante’s project is bold: her books chronicle the inner conflicts of intelligent women (professors, novelists) who, having made their way to Florence or Rome and to good jobs, find themselves confronting memories of the crude violence and misogyny of their youth. Shaken by a surprising event, they lose their grip on reality, lapse into a Neapolitan dialect full of obscenities, and are drawn into hallucinatory quests to heal old emotional injuries. The books’ taglines might be “No self can be left behind”: in Ferrante’s world, no character can escape her past.[9]

É verdade, há uma violência comum a todos os romances de Ferrante, que podemos correr o risco de querer rotular de gratuita. Mas também é verdade que existe um certo nível de violência com que convivemos todos os dias (que os romances de Ferrante são eficazes em sintonizar, até o seu ruído se tornar insuportável e ela ter de ser enfrentada). Podemos escolher fechar os olhos, deixá-la justamente aí, no passado, tentar domesticá-la, ou mesmo reparti-la pelos dias para que nunca nos falte. Mas talvez estes romances nos causem tanto desconforto justamente por aí, porque nos lembram de uma necessidade ética de que falava Maya Angelou[10], ao afirmar que a única virtude de que realmente precisamos é a da coragem, porque esta garantirá que seremos constantes em todas as outras. Esta ideia é outra chave possível para ler estes romances. Talvez seja particularmente pertinente para ler o percurso de Nino no seu envolvimento com as duas personagens principais. Mas podemos perguntar-nos, há alguma virtude em Nino?

Violência psicológica, física, que envolve homens, mulheres e crianças, e que traz à superfície o desafio que é mantermo-nos humanos e descobrirmo-nos ou reencontrarmo-nos a nós próprios, depois de nos perdemos, decepcionarmos, sermos destruídos pelas nossas expectativas, destruirmo-las pela nossa própria vontade. Será que alguma vez nos reencontramos? Será isso o que acontece? Depois dos acontecimentos do segundo volume, Lila alguma vez se reencontra? Este é um dos grandes desafios de estar vivo e o grande desafio no centro da Tetralogia. Alguns dirão, é também a grande alegria de embarcar na aventura de ler um romance que ronda a extensão do Guerra e Paz.


[1] http://www.asymptotejournal.com/fiction/olga-tokarczuk-flights/

[2] http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/os-excedentarios-da-cultura-1724781

[3] http://www.theparisreview.org/interviews/6370/art-of-fiction-no-228-elena-ferrante

[4] http://www.theparisreview.org/interviews/5856/the-art-of-fiction-no-197-umberto-eco

[5] http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2016/04/the-new-fiction-of-solitude/471474/

[6] http://lithub.com/elena-ferrante-master-of-the-epic-anti-epic/

[7] Tim Parks, http://www.nybooks.com/daily/2015/11/10/how-could-you-like-that-book/

[8] Elena Ferrante, Paris Review, Art of Fiction No. 228 (http://www.theparisreview.org/interviews/6370/art-of-fiction-no-228-elena-ferrante).

[9] http://www.theguardian.com/books/2014/oct/31/elena-ferrante-literary-sensation-nobody-knows

[10] Entrevista a Harriett Gilbert: http://www.bbc.co.uk/programmes/p02023bg

APOCALIPSE

Árvore erguida, jorrada dos teus ossos de granito vivo, eco e forma do sangue, arranhada, ferida pelos quatros ventos e as sete estrelas, árvore de granito, sacudida por todas as correntes de arte, mas que teimas em ser a tua pedra, poema.

Poema de cinco sentidos que todos os dias me arrancas à morte. Ergue-te mais, ainda mais, ainda mais uma vez. Cantemos.

E tu poeta que dizem obscuro os que te lêem e não te escutam, a quem roubaram três vezes a vida e a morte até que as consumaste por tuas mãos, mas continuas a viver dentro de nós, do poema. Quero levar¬-te comigo, erguer¬-te o corpo de terra, da terra, e levar-te comigo como a voz sem preço.

E tu também que iluminaste as palavras na luz mais negra, também tu pedra viva, como aquela pedra que é navio e navega pelo tempo, sujeita a uma bela longevidade que não é sem fim, porque a água cava nela a rota que a leva e que ela traz consigo, mas que mesmo assim perdura quanto pode. Quero levar-te comigo, porque é preciso gritar à beira do abismo, inaudito dom de humanidade, tu, outra voz que só morrerá de viver noutras vozes.

Vós sabeis que a vitória é nossa inimiga e que a sua hedionda face jovial é o nosso pesadelo – nós estamos do lado da derrota. Vós sabeis que não queremos a verdade, porque, hoje, a verdade fala a fria fala da noite da noite, da morte morta, da morte sem vida, sem olhos, nem boca, nem mãos.

Fixámos um destino, um destino pequeno, um destino que cabe nas mãos, uma pequena pedra que ninguém conhece, nem nós, que a descobrimos como um cego descobre a pele funda de cada coisa. Essa pedra é o côncavo, a concha, o aconchego da mão, a pressão na mão, da mão. Não procuramos a verdade, porque somos irmãos das coisas, vivemos com elas, e com elas e por elas respiramos, terra, ar, mar e fogo.

Um raio de luz, o raio de luz que não se consegue separar nas suas fibras. Chega¬ se às coisas, está nas coisas, afeiçoa¬ se a elas, transforma¬ se na sua forma, aquece¬ as.

A verdade existe, deixá-la existir. Hoje, porém, os que a perseguem com todos os seus poderosos instrumentos, são capazes de a encontrar, mas deixaram-na em que estado?

Uma frase obscena não me sai da cabeça: os gloriosos malucos das máquinas voadoras. Mais alto, mais forte, mais rápido. Aí, tão altos, tão fortes, tão rápidos, estais tão fortes, tão altos, tão rápidos, ó arcanjos da morte branca, que não conseguimos sequer imaginar-vos. Por mim, desço, deve ser isso, umas escadas escuras, penetrada de estilhaços, com a cabeça a rebentar de ordens loucas, sirenes, poeira e fogo sem sentido, fugida de mil guerras. Só quero sair daqui, não pedi isto, não encomendei esta comida.

E de novo nessas terras de nomes estranhos se formam os rios humanos de estropiados, com raras palavras coladas aos lábios como beatas apagadas. Voltam as mesmas imagens, que é como se nascessem cá dentro e para nascer me rasgassem de novo a carne como outras tantas farpas de fogo. Chegámos a um ponto em que até a piedade, a compaixão, o riso ou as lágrimas, são matéria de vergonha e estão a mais.

Que raio de reportagem insuportável pode ainda extrair um resto de humanidade destes fragmentos, destas letras que se espalham pelas estradas, quando as bombas dispersaram a fala e as poucas palavras? Por vezes, das janelas altas fico a olhar quem passa cruzando-se com as línguas de aço que saem da bocarra das ruas. Não se ouve nada por detrás das janelas. Estarão a escrever um livro, o livro, lá em baixo?

Civilização, quero ser, quero ser, o único escravo, o único escravo no teu mundo de homens livres. Um escravo ao menos ainda pode aspirar à liberdade, à liberdade, trazê-la, trazê¬ la consigo, escondida, fazer-lhe um abrigo, na sua própria carne. Foram os escravos, os escravos, que a fizeram.

Casas de terra tornando à terra, como os mortos que cavaram a própria cova, fazendo no chão o lugar do corpo, sujos da terra que os iria cobrir. Não tinham o direito de se calar nem de falar. Porque havemos nós de falar ou de nos calar? Mas que falar ou que calar?

Arcanjos da morte, deixais grandes marcas no chão e nos corpos. Vincais o tempo com as marcas que deixais e às ruínas dizeis: "Sois passado". Ficam no ar paredes imperfeitas, a provar que por ali passou o tempo irrevogável, imaturo, o que não foi crescendo nas nossas memórias nem teve tempo de se fundir em nós. Um tempo que não fizemos, nem nos fez. Um que está ali fora, como um exército ocupante. Minutos que a custo expulsamos para uma rua vazia como nós.

Quero crer que uma noite o piloto de um bombardeiro soluçou. Quero crer que uma bomba humana está desfigurada, num hospital, a repetir sem fim: "A minha alma está morta". Palavras irrisórias, tardias, onde se precipita e se esmaga tudo, como num buraco negro. Movimento dos corpos despojados de si, despossuídos, que se retorcem ainda como se estivessem vivos.

Ou melhor, se posso dizer isto, corpos que caem connosco nas cataratas, levados num remoinho sem sentido mas que tem por destino fatal o abismo.

Archeiro, verga o teu arco, prepara as flechas. A violência que é vida é o teu alvo e o teu voo.

Não sou bom, nem santo, nem herói, nem pretendo sê-lo. Apenas estava a instalar-me na casa nova, a arrumar a roupa nos armários e ia abrir a janela por onde entraria a luz. Havia uma janela para a luz entrar. Tinha tudo bem pensado: passaria a mão pelos móveis devagar até me impregnar de móveis, havia tudo de cheirar a lavado até o meu corpo se desfazer no ar e ser ar, as paredes iam aquecer-me com o seu sol.

Subitamente, e não tenho a desculpa de estar numa ilha exótica, nem de haver tornados, a casa ruiu. Fito o focinho estranho do céu que me fita e ocupa todo o espaço, outro abismo para o alto. Quer uma palavra minha, mas tenho de lha comprar, é o dono das palavras. Não posso dizer que são palavras de contrabando, nem que as envenenou. São as mesmas palavras que eu tinha, as mesmíssimas. Quem não as cantou?

"O meu coração que odiava a guerra" - disse o poeta. E quando deixou de a odiar, entrou-lhe dentro o sangue do inimigo, a voz do inimigo, o coração do inimigo, do odiado odioso inimigo. É esse o momento do perigo e temos de passar por ele.

Verga o arco, archeiro, pois também tu vais ter de odiar. Não esqueças, não perdoes, não fraquejes. O teu ódio há-de ser um ódio meticuloso, gelado, mudo. Vais ser imperfeito como estas casas, como estes mutilados, como todos os injustiçados. É urgente, não há tempo para mais. Ergue-te da terra, sujo, cansado, sem amor, morto de sono.

Tu que, ao cruzares uma desconhecida, sentes crescer em ti uma roseira de luz. Tu cujas mãos choram de alegria diante dum gato só por ser gato. Tu que, na bicha da padaria, secretamente sentes a padeira nascer e crescer em ti durante anos, com um amor de vidro transparente.

Vais ter de odiar.

Odeia com um ódio gelado, feroz, eficaz, certeiro, um ódio das mãos, da cabeça, de todos os teus órgãos, como os nenúfares, os jardins de estrelas, o frio das vidraças, a paisagem oca dos desertos, tudo o que tu queiras, mas mantém-no longe do coração, não lhe abras a porta, tem-no como um armário fechado numa cave que nem exista.

A violência, que é vida, seja o teu alvo e o teu voo.

Tu sempre aqui a reviver os mesmos momentos, como quem revira o colarinho gasto duma camisa velha, querendo dar¬ lhe nova vida, mas só para o gastar ainda mais. O mar dança sobre si próprio, de novo e de novo, vai e vem. Dobra-se como um guardanapo de medusas, chama o Inverno, o Verão, a Primavera, o Outono. Pulsa, mas mesmo assim não aprendeu o tempo e tu também não: a onda precisaria de encontrar as ondas antigas, deitar-se longamente sobre elas, sentir o seu molhado. Tactear o rasto delas na areia, bebê-lo.

Tu precisas de sentir um sentimento pesado, denso e líquido como o ferro em fogo ou a lava, a puxar-te para ti, para o fundo. Fundar-te num chão duro para te ergueres outra vez. Seja o ódio esse salto.

Chamam paz à guerra e guerra à paz os que peroram contra a violência.

Um eléctrico na noite leva na barriga as suas esculturas de luz e com elas pedaços de ti, quem sabe a última esperança de beleza. E na janela da frente reflecte¬ se a tua janela, a única iluminada, e tu nela que te fitas a ti próprio, tentando perceber¬ te a ti próprio. Havia uma maneira de fazeres as pazes: estares assim cansado, cansado como estás. Mas quanto tempo podes estar cansado, com essas facas de fogo frio que remexem em ti?

Vê, vê como eu fui apanhado com a lista das compras, ou meio nu, ou a recitar palavras incompreensíveis no meio das bestas joviais armadas. Escreve isto, por favor. Escreve: andou a aprender a lentidão dos gestos, passava horas, semanas e anos a ver surgir o mundo das mãos, como um fruto. Era como uma reserva, um verdadeiro pudor. Escreve, escreve. Não te cales. Era como um recato, um autêntico pudor. Suspendia o gesto, sem o parar, apenas um esboço de carícia que ia ser, tinha tempo, tinha todo o tempo, tinha o tempo. Era tudo fácil e preguiçoso. Não tocava nas coisas, elas nasciam-lhe como um fruto. Elas nasciam-lhe como um fruto.

Isso, isso, escreve. Uma pétala nos lábios, uma pétala nos olhos, uma nuvem que assoa a montanha. Uma mulher, uns olhos de vidro vivo. Vós, escreve, escreve, vós roubastes¬ nos o dom mais precioso, mas virá uma inundação, um animal grande como o mundo, que é o mundo. O céu ficará escuro, porque nos roubastes o que era mais nosso, o que não se pode possuir. Hᬠde vir um mundo animal com uma voz rouca e profunda e caninos de fogo.

Roubastes¬ nos essa pétala nos lábios e nos olhos e o vidro vivo que nos consolava com a sua brisa loura quando lhe dava o vento quente. Um grande deserto sai dos vossos peitos e derrama¬ se por todo o lado. Mas os rios vão entrar nas cidades, crescerá a bela erva selvagem nos prédios abandonados, assim o quisestes.

A água e o fogo serão o vosso desastre. E quando não houver mais nada, apagarão o vosso nome até à quinta geração, mas haveis de sobreviver também vazios nesse mundo vazio, sem sequer o humano conforto da dor.

monólogo acerca del instinto y de la entrega

san francisco de asís se dirigió a las aves las llamó hermanas impuso el silencio les dijo  -ahora me toca a hablar a mí

a mí

que sueño con todas las alas de mariposa que se arrancaron una a una para enterrarlas junto al cuerpo de miles que perecieron hace miles y miles de años                                        

                                                                  (pétalos  pequeñas deidades animales hechas de arcilla vientres que se vaciaron para dar paso a la mirra)

pero me toca hablar a mí

que soy un organismo como cualquier otro infinidad de posibilidades de células chocándose (o escribiéndose) las unas con las otras una multitud de impulsos –repito- como los de cualquier otro debatiéndose dentro por igualentre los estímulos de la destrucción y de la supervivencia

a mí

que estoy escribiendo estas líneas que lees porque hevuelto a buscar la técnica de la datación por carbono los entierros en el paleolítico el proceso de embalsamiento y preparación de difunto en el antiguo egipto

a mí

        que como tú quieres el remedio la bondad el ejercicio exacto para perpetuarse
        el reconocimientoel refugio la venda el duelo
        todo lo necesario

 

a mí
que miro mis dientes y mis manos
cada parte de mí abreviada
como todas esas veces que tecleas ADN pero ni haces el intento de escribir ácido desoxirribonucleico
a mí
que me gusta llamar las cosas por su nombre
situarlas en la región exacta darles un significado proveerlas de una historia

a mí
que no soy san francisco
ni vosotros mis hermanas las pobres golondrinas
a mí
que no soporto la idea de verme hablándole a un animal
para pedirle que se calle
que prefiero la cura y no el silencio
pero cada vez que escribo
estoy contradiciéndome
a mí misma
convirtiéndome en la hermana
en el profeta que se sienta delante de los pájaros
pidiéndoos por favor
silencio
porque es ahora
cuando me toca hablar a mí

        

o dia em que perdi a cabeça

eu estava em casa um dia meio doente, cansado, muito trabalho, aquela correria e tudo mais. e era quase hora do almoço. friozão lá fora, resolvi: era dia de feijão com pimenta.

pus a panela de pressão com agua no fogo, adicionei temperos, sal e os grãos. e voltei pra sala pra continuar respondendo emails.

achei estranho a panela começar a “assobiar” rápido. mas tudo bem, eu estava concentrado. o tempo deve ter dado aqueles saltos de quando a gente se perde em pensamentos.

marquei mais ou menos os 10-15 minutos de assobio e voltei pra cozinha. daí a descorta. o respiro da panela não estava bem encaixado; não tinha mantido bem a pressão.

isso aborrece. e agora? ligo de novo pra cozinhar mais? abro pra ver? tive preguiça. ajeitei o respiro na posição certa e: fogo!

estava ali por uns segundos contemplando o vapor, a panela, a vida, o nada, quando a panela explodiu. BUM! e eu acho, sem certeza, que vi tudo acontecer em camera lenta. por um milésimo de segundo contemplei a beleza plástica daquela erupção de metal e comida.

não por muito tempo. a droga da tampa, uma parte dela, voou em direção a mim e se chocou como um tiro de canhão contra a minha testa. e é claro, foi aquela lambança de massa cinzenta e sangue por todo lado.

fiquei ali parado ainda contemplando a cena, com a mão na cabeça, o tampo aberto, o sangue escorrendo. pensei um instante no aborrecimento. sabe como é na europa. vem aquele monte de bombeiro e polícia, paramédico. ia dar aquela trabalheira.

como estava meio desmiolado, achei sinceramente que deveria pelo menos dar uma leve geral na bagunça, a começar pelo meu cérebro, que estava escorrido pelas paredes e chão junto com a comida.

não queria deixar as células se desoxigenarem. a imagem que me veio foi das células como peixinhos fora da água. eu tinha que juntar o quanto desse e por de volta no lugar.

a cabeça estava doendo pacas. parecia que ia explodir. quer dizer, você entendeu.

peguei uma travessa de porcelana que, olhando rapidamente, pareceu limpa. e foi, com cuidado pra não pisar em nada importante, procurando pelo menos os pedaços maiores.

eu já tinha vivido uma situação parecida na infância quando quebrei o copo favorito do meu pai, um copo do corinthians, da celebração oficial de sei lá o que. (nunca liguei pra futebol.) o copo caíra no chão, quebrou como a minha cabeça, e no chão ficaram pedaços de todos os tamanhos.

lembro como hoje dessa experiência absolutamente fatídica na minha vida.

copo quebrado, a merda estava feita, agora restava ver como resolver aquilo. e por anos volta e meia me pego desejando que a vida tivesse botão de rewind. sei lá, umas quatro chances, pra não complicar muito a vida do sujeito. cagou feito, rewind, e bola pra frente.

mas como no caso do copo do meu pai, a principio eu tive esperança. muita esperança. primeiro porque a maior parte do crânio tinha ficado no lugar e segundo porque encontrei o tampo principal, o pedaço de osso que cobria quase inteirinho o buraco.

mas daí é aquela coisa: fui juntando os pedaços de tripa com feijão, separando o que era meu na tijela, tentando pegar mesmo o menorzinho. e de perto olhando pro chão, ia encontrando fiapos que eu não sabia, pelo tamanho, identificar se era meu ou do feijão.

na verdade, apesar de estar naquele momento claramente vivendo um momento de negação, eu sabia lá dentro que aquilo tudo era uma besteira. - claro, eu pensava, que aquilo já era lixo. não tinha nada a costurar nem a emendar. fora a contaminação. mas você sabe como é a teimosia em situação de desespero. demora pra ficha cair.

nessa altura, eu já ouvia vozes do lado de fora da casa. gente que tinha escutado a explosão e estava querendo saber o que tinha sido. acho que vi alguém de raspão quando olhei de relance pela janelinha basculante na cozinha. mas o sangue nos olhos e a sensação de que era tudo verdade e que rewind não aconteceria só aumentaram o meu pânico.

a minha travessa estava um terço preenchida mas eu também já estava passando do estado de negação pra revolta. a massa cinzenta restante me dizia que aquilo era aquilo, mas ainda assim eu lutei.

os bombeiros tocaram na porta justo na hora que eu estava passando agua pra ver se tirava o resto do feijão pra dar o resultado da coleta pro medico, pra ele ver, ser testemunha de que eu tinha feito merda, mas que tentei me redimir.

o bombeiro já estava olhando pelo basculante quando gesticulei pra ele que estava indo abrir a porta. mas na verdade eu ainda não tinha decidido se seria melhor colocar os restos da cabeça na geladeira ou de volta pelo buraco do crânio.

não ria de mim, seja razoável. além de estar com menos de 100% da capacidade mental - por razões que dispensam explicação - eu estava em choque e com adrenalina correndo nas veias. além do que, mesmo repensando no assunto, vejo que houve uma lucidez ou uma tentativa de, talvez. porque pela minha quase total falta de conhecimento na área médica, achava que a solução obvia, a geladeira, poderia não ser tão bom quanto proteger e transportar as partes no habitat natural delas, digamos assim. compreende?

mas antes de eu me decidir, bombeiros arrombaram a porta, o que, pra ser sincero, quase me fez derrubar a travessa no chao. já pensou? que merda. ter que catar aquilo, pedaços de porcelana cortante, os pés dos bombeiros agitados.

logo que me viram, tive a impressão que eles fizeram um grande esforço pra manter a calma. eu tinha consciência, apesar de ainda não ter me olhado no espelho, que a cena não era pra quem tinha estômago sensível.

as coisas daí correram rápido. (engraçado, isso, a vida não ter rewind mas ter fastforward.) foi isso que eu senti. quando me dei conta, a travessa foi tirada da minha mão e um enfermeiro bem forte me abraçou pelo lado do corpo para eu sair do apartamento.

por um instante quis gritar que eles tomassem cuidado de fechar a porta. é que temos duas gatas. elas são de casa, não podem sair porque se perdem. mas se eu estendi a mão pra falar alguma coisa, acho que logo mudaram de assunto.

aqueles quatro ou mais paramédicos, bombeiros, policiais, vizinhos mais adiante. o mundo estava rodando e em fastforward e as minhas lembranças daquela situação são meio caleidoscópicas, com cores e formas se misturando e se recompondo. bonito até.

a situação do bendito copo do corinthians voltou à minha mente - veja, então, como era funda a memória. naquela situação, sozinho em casa, tentei heroicamente juntar os fragmentos do objeto. havia um maiorzão, vários médios, e um monte de tamanhos variados, entre caquinho de vidro e pó. não haveria como. colar aquilo seria acionar um processo irreversível que se concluiria com uma fantástica surra de cinturão.

a minha “ideia genial”, então, foi usar os poderes da invisibilidade que estavam ao meu alcance e se traduziam em: dar sumiço daquilo e me fazer de desentendido. afinal, um troço que ficava guardado numa mala velha no guarda roupas. era um plano. mas, sabe-se lá como, ele descobriu; deve ter feito engenharia reversa com o meu raciocínio. pensando agora, deve ter sido.

o fato é que levei não uma surra, mas duas. pelo menos foi o que ele disse. porque pior do que quebrar era ter escondido. e por isso até mais do que pelo copo, o meu corpo precisava sofrer. (mas, se me permitem a rápida digressão, a dor maior daquela história não foi a surra, mas saber ter decepcionado ele. essa dor-vergonha ainda ronda sempre que alguma coisa a chama de volta ao palco das lembranças.)

e foi assim que o episódio terminou. me puseram sentado na ambulância (porque eu estava consciente e pra eu não perder mais sangue), e fui espetado com uma droga que da sensação física de abrir espaço agressivamente nas minhas veias, se tornou rapidamente uma gostosa paz etérea.

ouvi o barulho da rua e os ruídos do motor da ambulancia se tornarem um burburinho cada vez mais suave e eu me peguei sorrindo para o que pareciam ser fadas quase invisíveis flutuando suavemente ao meu redor.

tudo durou algum tempo impreciso, talvez não mais do que a distancia entre a minha casa e o fim da rua. flutuando como sementinhas voadoras de dente de leão, essas criaturas (?) foram gradualmente caindo como flocos de neve. e ao tocar o meu corpo, elas não rolavam pro chão, mas ficavam ali, presas à minha calça jeans.

adormeci olhando nos olhos do meu pai. não o de hoje, homem velho e amargo, mas aquele da minha infância, meu herói. eu quis pedir desculpas por ter aprontado de novo. mas a minha boca e lábios estavam dormentes. ficamos assim nos olhando e senti ainda mais paz, e que nada ia ficar bem ou mal porque não havia nada para melhorar ou piorar. tudo estava bem, tinha sempre sido bom e isso era tudo.