Pulsações verticais

De alguma forma o topo de um arranha-céus não pertence à cidade. 
Estamos longe de tudo, do concreto, dos passeios, do vidro, das pessoas, 
Até as grandes colunas que crescem do chão e que transportam cabos de energia  
Parecem esculturas ornamentais - e agitam-se ao vento como harpas metálicas
Produzindo um som seco e frio. Tornaram-se uma parte da natureza. 
As margens amarelas dos estacionamentos parecem finos fios que tecem  
Um mapa delicado das ruas. Encontram-se em cruzamentos como clareiras da floresta. 
Tudo, lá em baixo, fica distante e se altera numa agora vulgar sinfonia
Onde o ruído cortante das sirenes se transfigura em lamento de sereia. 

E quando ouvimos a voz ferida das paredes, 
Quando vemos as nuvens que viajam aqui bem perto
E observam reflectidas nos vidros altos dos prédios a sua  
Própria imagem como se fossem passeando em frente de um espelho. 
Quando, lá em baixo, todas as cores se confundem, 
O alcatrão e as linhas brancas das passadeiras, 
As múltiplas cores da multidão transformadas num arco-Íris de pequenas sombras indistintas. 
Quando os sons dos automóveis parecem uma recordação longínqua
Ou um lento murmurar da cidade como se o coração de cimento tivesse um pulsar próprio. 
Quando os prédios não são prédios mas um bosque na cidade vestido de cinzento, 

Sabemos que isto é algo de muito especial. 
Sabemos que esta subida é como uma peregrinação. 
Sabemos que a verdade da cidade só é alcançável a esta distância. 
E ficamos cá em cima toda a tarde, como num altar, em oração. 

Festival Eurovisão da Canção

Escrevo sobre o efeito narcótico de quem sempre esperou o pior do Festival Eurovisão da Canção, o que pode provocar elogios excessivos.

Salvador Sobral ganhou ontem (13 de Maio de 2017), data de milagres quase institucionalizados, o Festival Eurovisão da Canção. Fê-lo acima das habituais pobres possibilidades festivaleiras de Portugal (tínhamos conseguido no máximo um 6.º lugar) e acima (ou abaixo) também da sua consciência, moral e estética, de músico (a 1.ª vez que viu este encontro de música-fogo-de-artifício, como lhe chamou, foi o que venceu). Assim, numa rara imbricação de talento, submissão e revolução, o destino, esse acaso impuro, decidiu fazer uma jogada diferente.

Talento: o de Salvador e, há quem diga “sobretudo”, da Luísa, irmãos de sangue. O Amar Pelos Dois é uma canção talentosa, a música e a letra entram directamente no ouvido, não são necessárias muitas mediações estéticas, tudo parece perfeitamente claro, vibram as emoções que têm de vibrar, instando à convergência, à fusão. Além disso, o jogo corporal de Salvador, revelando no seu minimalismo uma entrega quase mística, está em sintonia integral com a canção. A simplicidade, de que tanto se fala, é uma arte sublime, tanto mais que a canção é harmonicamente muito rica.

Submissão: Salvador Sobral submeteu-se a uma parcela do mundo da música que, segundo ele, lhe é indiferente. Nunca tinha visto este festival, já o disse, e mesmo depois de ganhar, quando se baixam as guardas e se disparam panegíricos e agradecimentos a torto e a direito, manteve uma distância, quase higiénica, em relação à Eurovisão, acabando por dizer que o desejo de vitória que Caetano Veloso lhe tinha endereçado valia mais do que a vitória em si mesma. Certo. Mas foi lá, entrou num jogo que parece não ser o dele, numa constelação musical que lhe é, pelo menos, alheia e que agora marca um pouco aquilo que é. É verdade que se preocupou em descolar o mais depressa possível o rótulo de festivaleiro que lhe caiu em cima, mas ele fez por isso, não foi?

Revolução: “Sem a música a vida seria um erro” (Nietzsche), mas o que ele queria dizer era que “sem uma música adequada a vida era um erro”, prova-o as críticas que fez ao estilo decadente de Wagner. Traduzindo: “diz-me a música que ouves dir-te-ei o que vale a tua vida”. A Eurovisão estimula muitas vidas anódinas, à tradicional “música descartável”, como lhe chamou Salvador Sobral, correspondem com certeza vidas descartáveis. Mas era (é?) este o ADN do Festival: “música ligeira” para entreter as massas, conscientes porém da sua nacionalidade. Ora, Amar Pelos Dois revolucionou o modelo (mesmo não estando nos antípodas), ganhou a música, como referiu várias vezes o intérprete, mais do que a encenação espalhafatosa, ganhou a voz mais do que a beleza do cantante, ganhou a entrega sincera do cantor mais do que uma coreografia de cabaret. E isto é revolucionário, não sei se perdurará, mas por enquanto vale a pena saborear a inversão e, como queria Kant, dando aqui muitas voltas à relação linear, manter a esperança de que a Eurovisão tenha descoberto uma nova vocação, que seria, agora com Nietzsche, tornar-se aquilo que ela é, ou seja, um festival de música.

Para se saber um pouco mais sobre Salvador Sobral, um belo artigo no El País.

nervoso invisível indiscutível molhado e como que de veludo acelerado 

acelerar  
comboios e pontos  
para ser galinha velha
devo gemer cores velhas
tomar banhos opacos
vaporizar as ventas as plantas e as crianças que
chegam pela velhice  
aceleradas
trocar de nariz diariamente
trocar os dias enlouquecer de hora em vez
tocar as orelhas condescendentemente
minhas tuas de ney
bordar as calcinhas novas
cerzir as calcinhas antigas tão cheias
que vazam novidades das noites mal cozidas
abrir a porta do guarda pratos
repetidamente até que o som seja
portanto assim tão parecido  
minha velha vogal mais aguda
ser galinha velha deverá ser encanto para a frente
pele sobre pele sobre pelanca tatuada
tetas verdes de bico para dentro
uma batata doce antes de seu tempo
sem pelos pelas raízes pelo ralo  
feito a escova feito um porco feito espinhos
dar corda ao velho soldadinho russo  
ver graça e tristeza mais graça que tristeza
nova a marcha enferrujada suja bonitinha que só 
sublimar samambaias especialmente
especialmente
tomar o novo uísque envelhecido a fórceps   
deixar a agulha
falar por ney
deixar apitar a chaleira trocar a lâmpada com o troca lâmpadas  
correr pelada pelo corredor no jardim acelerado
me enroscar com heras e ervas impulsivas
acelerar na velhice a guilhotina cabeluda
embebida de tudo que por lá fez casa
estacionamento boate escritório mictório  
e acelerar isso cada dia mais e tanto
me disseram
na velhice é que se sabe o nome daquilo
aquilo nervoso que toda jovem meio que quase sabe e quer saber inteiro
aquilo que todo mundo quer saber o nome nervoso
nervoso invisível indiscutível molhado e como que de veludo acelerado

Perpetuum mobile

isto não é para te perguntar pelo pão
da manhã 
não
se posso levar os binóculos para a escola
que tempo vai estar amanhã 
não
isto não é para te pedir para não deitares
migalhas no chão
se me podes dar boleia à social poesia  
não
isto não é para te telefonar a dizer
que realmente o fogo é uma fascinação do homem e da mulher antigos que a lareira está ótima que o guarda-sol na praia é o  
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se é finalmente prozac ou escitolapram
que devíamos ter ido ao Alentejo colher palavras ceifar outras
enquanto era tempo o arbusto de podar                    não

é só mesmo
que São’cente não é tão longe assim  que sim, ali é Sant’antão
que respondeu   nhô Almeida   sussurrou-te ao ouvido
alguém sonhou ontem contigo  
eu não
mesmo só  
é para te dizer que tenho a caixa de madeira e as chaves na mão. 


A vez que você sonhou com W. W. 

é engraçado que as coisas resultem nisso:  
linha do Nilo como se fosse primeira vez
       mas na verdade
cidade imaginada à dois:  
      mão sobre mão
   eu mostro o que te digo
olha como tossem e como resfriam
os donos da quinta chamada das luzes fazem as coisas
      como a terceira penetração pergunto: travessia permanente
olho: como eles colocam força nisso das imagens como se protuberam
e se esforçam dos buracos
até chegarem no primo que lê amostras
      que ninguém lê: até que ponto se firmam nas luzes
leem entre os olhos  
não um lócus    
o terreno baldio
cercado de mar em que você fica perdida  
no meio dos costumes
     deitada  
pedindo um campo árido cheio de flores
ficando viva (não como todos à sua volta) 
descalça  
     arrastando pedras
(fez um sol maior: um terço de ano
que não te vejo): 
aos domingos vou às encruzilhadas
escrevo vendetas: xisto: 
vou à encruzilhadas procurando meu nome
acho são longuinho fumando pedra todas as terças
       “vim te buscar  
mas não sei se te levo” 
os seus desejos  
   matando o tempo enquanto você não sabe de nada  
 faz nada aguardando
 a forma ilusória de vida  
        que assumem as meninas aos 30 anos
os movimentos que alguns fazem aos ônibus
    que chegam e partem a forma ilusória de vida  
que assumem os meninos aos 30 anos
aquilo nas filas
  as manias vindas a cada vestígio – e no que  
isso resulta? – 
os cercos  
em que é preciso avisar
        do vestígio tocar as coisas com o pulso  
os sustos
sempre a acontecer   
a ideia volúvel de imaginar os rostos que lerão
  no futuro ao momento que se escreve
(as imagens matando o tempo) 
o bafo quente como os que riem e não olham  
pra trás absurdamente como suas falas se limitam no espaço
       nos lugares mal sinalizados
– os lugares sem vestígios –  
os nomes que quase chegam ao país vizinho
sem um apelido
podem te procurar pra sempre que te acharão  
             todas as vezes

porem neste filme são todos loucos  
      cozendo as mãos em almíscar: 

         defensores do estado jogando badminton com a tua presença
oráculos do jogo do bicho
enxergando todas as coisas onde não estão
o lirismo: o bem último da paranoia

e por exemplo: como te dizem o nome? Por onde
   chegam quando te dizem
o nome como se te contassem pela primeira
                                             vez teu nome
e o assoprassem no ar depois de anos  
    se desfizesse aos poucos  
em farelos nos queridos
deixando aquilo como que alguns no museu
          se afastam mais dos pedestais
e dizem tem algo faltando ali tem
                       uma mancha.