5 poemas de Macaio Poetônio

SOB SETE PALMOS O AMOR DO PAPEL

E então
cavar os buracos que
silenciam em que humanos
engolem entram em êxtase
abraçam as paredes frias

procurar as canetas
que escrevem o sangue
pegar levantar e lamber
o moinho de onde nasce
nossa tosse.


QUANDO OS VIOLINOS RASGAM E O CORAÇÃO CAI

Cadeiras craquejam lentas –
os músicos
tristes insetos
se levantam sombras em
assombro –

gestam a escalada do ar
e a aranha faminta

cabeças pendem
para o teto corais subterrâneos
tombam sons
dentro do peito.


PROFUNDO ECO DO BERRO

: escorrer esse líquido
quente escutar a memória
prudente dos pelos o
terror dos dedos
quando o sol queima quando
o sol queima a pele
se levanta e morre,

na sua direção. Cozinheira
do querer, afia
minhas línguas lapida
meus gritos


ELOS CAMINHOS E PEDRA ONDE JAZEM A POESIA

Nenhuma flor como essa flor
que se sabe no jardim

orquídea impossível da
realidade

o poeta fumegante
essência clara viril
clichê

seu corpo casas bahia
seu tenro corpo manso seu

sem tempo fluido
coração submarino
em que rangem um ou dois poemas

existindo em perpétua e furiosa mudez.


SEM TÍTULO 2

, não importa a dança,
se a sombra estremece
essa voz de solilóquio químico

ou de rosas despedidas esses
enfeites desfeitos
nessa noite
nessas nuvens de morte


Fernando Guerreiro, Imagens Roubadas

Sobre o autor

Fernando Guerreiro é docente na Faculdade de Letras de Lisboa de cadeiras de cinema sobre o qual tem escrito, nomeadamente na revista Vértice.

Publicou os livros de ensaios: Negativos (1988), Art Campbell (1994), O Canto de Mársias (2001), Italian Shoes (2005) e, mais recentemente, Cinema El Dorado – Cinema e Modernidade (2016).

Fernando Guerreiro
Imagens roubadas
Textos sobre cinema

Enfermaria 6, Lisboa,
novembro de 2017, 146 pp.
Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha  

12€

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O verdadeiro cinema é o que (se) passa na nossa cabeça – melhor, na parte de trás (a rádiotransmitir da morte) da nossa cabeça. Um processo alucinatório – como se diz das drogas, assistido. Daí poder-se afirmar, na senda de Epstein, que o cinema é a poesia exteriorizada, continuada por outros meios visíveis, as imagens.

Thank you, mother.

You gave me fucking Cohen.
Not the brothers the Leonard.
He was always late in December.
But I’m on Mars
and it has been lonely. It’s dry and arid,
like a Christmas flooding.

That’s why you made me a poet
as you said, for art’s sake,
and it does look like art.
But I see you, mother,
it is not all about being present.
It is about being absent.

In absence,
you can always say you were here,
that poets tend to be alike.
But verses are made of wood,
and like wood is solid, detailed,
so dawn has its darkness.

But, mother, thank you mother,
don’t look at me, you know,
woes are without comfort.
That’s why they do smile,
believe me, they do smile
like aged teen spirit.

(To Tatiana Faia)

27 de Janeiro

Dia gelado. Sol frio. Bafos brancos. 
Mas nessa Sexta-feira não sabíamos ao certo
o que celebrar, o que lamentar
– porque era ao mesmo tempo
o dia da memória pelas vítimas do Holocausto
e o solene aniversário de Mozart. 
A nossa memória não sabia o que fazer. 
A nossa imaginação estava perdida. 
A vela no parapeito chorava
(pediram-nos que acendêssemos velas), 
mas das colunas chegava a música tranquila
do primeiro Mozart, Rococó, 
época de perucas de prata, e não dos cabelos cinzentos
que conhecíamos de Auschwitz, 
época de trajes, e não de nudez, 
de esperança, não de desespero. 
A nossa memória não sabia o que fazer, 
a imaginação perdia-se em especulações. 

Da utilidade e dos perigos da caricatura para a vida

Dada.jpg

A caricatura exagera os traços do objecto, verga os limites, rasga-os por vezes, introduzindo, assim, o risível, o ridículo no que representa. Neste sentido, diz José Gil, “A caricatura é como um monstro cultural”.

Mas deformar o significante ou o referente é útil para a vida porque acrescenta significados, enriquecendo o sentido do que é caricaturado (a Contra-Informação, e.g., ampliava os ângulos e os pontos interpretáveis das personagens).

Pelo contrário, ela é perigosa para a vida porque contamina com suplementos espúrios o significante ou o referente, mostrando-o disforme e volátil, numa palavra: sem valor (nas guerras os inimigos também se combatem assim). Retirar a seriedade ao objecto fá-lo implodir ou torna-o irrelevante, a não ser quando ele próprio se apresenta desde a origem constituído no e para o anedótico (por exemplo, o movimento DADA). Na cultura do sério, cheia de quantificações e de moralidade, a introdução da irrisão desbarata a estrutura que a mantém ordenada.

Desta forma, a caricatura é um pharmakon (dispositivo linguístico grego para a ambiguidade). E não vale a pena conjurar a sua negatividade, já que ela se aloja na própria utilidade (devíamos ter mais presente a metafísica do yin/yang). Por outro lado, o impasse político-social que aprisiona actualmente a Europa (com uma brutal crise demográfica, de que quase todas as outras são, parece-me, consequência) pode levar ao recrudescer da seriedade mortífera (necessariamente conservadora e dogmática, é impossível ser sério sem acreditar na Verdade e numa escala de valores que polariza simploriamente o bem e o mal, juntando-lhe as respectivas interdições/permissões e punições/recompensas). Revejam os semblantes cadavéricos dos facínoras nazis (e também, claro, os risinhos cínicos). Apesar de tudo, se controlarmos os riscos, a caricatura será uma das poucas formas de, numa época niilista como a nossa, combater a rigidez conservadora, sobretudo a intolerância moral que parece pronta a conquistar novamente a Europa, a começar pelo Leste.