Próximo livro
/José Pedro Moreira
Gatos no Quintal
[poesia]
Prefácio de Simão Valente
Capa de Gustavo Domingues
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
José Pedro Moreira
Gatos no Quintal
[poesia]
Prefácio de Simão Valente
Capa de Gustavo Domingues
#1
engano nosso ao pensar
que um grande castelo
resistiria à leveza do mar
#2
origami
barco de papel
executado por mãos ocidentais
afunda sem fundamento
aparente
#3
de que adiantaria fingir
escutar o mar
quando é a sua voz
que ressoa a cada quebra?
é um imenso esforço
ouvir as ondas
como repetições, e nada mais.
envelheço
entre um estrondo
e outro.
#4
é simples, o mar existe, eu imito
feita para quebrar-se, a onda
não sacia a sede de infinito
#5
cambalhota
envolvida pela brutal onda
senti meu fôlego desintegrar-se
tingir-se violentamente pelo azul
daquele oscilo que era um oceano inteiro
de tão intenso, de tão mortal.
vivi o significado de voragem
antes mesmo de conhecer a palavra.
mergulhei num turbilhão de sensações
e lampejos como se estivesse no centro
de um tornado submerso. no ápice do trago,
o mar imprimiu toda sua implacável força, marcou
meu corpo e o ensinou a medir grandezas.
no infindável giro, gravei meu tamanho no mundo
e meus olhos passaram a inundar tudo
como os de alguém
que está prestes
a afogar-se.
#6
sensorial
pelo pouco que domino das minhas reações
suponho que meu primeiro contato com o mar
deve ter sido mais atroz que apaziguador.
estar diante do imprevisível
é uma tarefa árdua: por mais que se antecipe
certo padrão
cada sequência de ondas desloca
um cheiro um som uma textura peculiar.
é impossível interpretar plenamente o canto da água
até decidir
sugar o lábio inferior para dentro da boca
percorrê-lo cautelosamente com a língua
e tragar o sal do azul
pela primeira vez.
POÇO
Andamos muito
antes que
explicassem-nos
o quão redondo
esse mundo era
em linha reta
sem fim
nem fundo.
DEMOLIÇÃO
somos riacho
que ignora
a correnteza
: criamos atalhos
destruindo pontes
refazemos a margem
à margem de onde
andávamos antes
certeiramente destroços
xxx
se a guerra não estourar
nas próximas 72 horas então
poderemos dormir tranquilos
enquanto entupimos
o freezer com vegetais saudáveis
lavradores se suicidam
nas campos de fumo
trabalhadores agonizam
junto dos porcos nos
frigoríficos as crianças já
não sonham com as profissões
futuras porque entenderam
que se a guerra não estourar
nas próximas 72 horas
não poderá haver futuro
nem haverá.
xxx
voo de andorinha &
desastres aéreos
: a gravidade é que complica
os cálculos despreparados
o buraco no asfalto
a pedra no sapato
tudo acontece sem
aviso
o abstêmio se vangloria
de estar longe da bebida
e comemora sorvendo sem
culpa goles compridos de
enxaguante bucal
: a realidade, querida
a realidade é um diagnóstico.
xxx
estas paredes de tijolos
sobre os ombros
são edifícios
são calabouços
alguém que visse
diria como?
a contragosto
dos transeuntes
perambulo pelas
calçadas
e aguardo o toque
da caixa
a estreia da marcha
ao matadouro.
Tradução de Anna Kuśmierczyk e João Ferrão
Veio ter convosco
e disse
vocês não são responsáveis
nem pelo mundo nem pelo fim do mundo
tirou-vos um peso dos ombros
vocês são como pássaros e crianças
brinquem
e eles brincam
esquecem-se
que a poesia contemporânea
é uma luta por respirar
1959
Em ausência [pequena liturgia de um regresso] (Eufeme, 2017), Eduardo Quina experimenta uma poética do desconsolo, indicado pelo título e confirmado por uma semântica da dor, do disforme, do abandono, da solidão, do desamor, da desesperança.... Estranho, quando sabemos que há muito se estabeleceu uma corrente isomórfica entre o êxtase poético e o êxtase religioso (entre nós, por exemplo Tolentino de Mendonça ou João Moita). Mas Eduardo Quina quis inverter Novalis, em vez da criação poética ajudar à criação do Universo, vemo-la mais como um apontador, e amplificador, da imperfeição e do desespero. Os recortes que imprime no tecido do mundo abrem para lugares sombrios. A transcendência, mistura de deuses pagãos e bíblicos, não funciona como um refúgio de compaixão, é antes um catalisador do mal. Esta interpretação ousa o que talvez não devesse, como diz Pessoa “Os Deuses são a encarnação do que nunca poderemos ser.” (Livro do Desassossego). Ou seja, a Alteridade jamais compreendida. De qualquer forma, Eduardo Quina compôs a sua língua e com ela fabricou um universo (não o Universo de há pouco), mais perto de Francis Bacon do que de Gustav Klimt, de Nietzsche do que de Kant, de Joseph Conrad do que de Gabriel Garcia Marquez, de Beethoven do que de Mozart. Um universo sem paz nem alegria, mas um universo. E isto é capaz de conjurar muita coisa.
O primeiro poema do livro, “[nota]”, mostra um trilho que podemos seguir para nos aproximarmos do pensamento, mais vasto do que o do autor, que lhe deu origem. Aí se evoca, numa tonalidade trágica, Orpheu, a penúria, a impunidade dos deuses, trazidos à luz pela palavra poética, que não passa de “estilhaços repercutidos e insignificante”. Uma evocação que revela o pano de fundo do livro: “memória e ausência.” Serão estes termos – teológicos e históricos – a compor a possibilidade do recomeço, com gestos tensos, elementos de um corpo que aguçou os sentidos do sofrimento, por isso as palavras, como diz em “[Re]começar”], só podem explodir-nos nas mãos e silenciar-se na voz.
Eduardo Quina desafia o vórtice do tempo com “relâmpagos poderosíssimos / para que se erga a luz sobre as imagens”, mas, como julgamos acontecer aos humanos que juntam arte e eternidade, compõe pequenas ramificações poéticas que parecem rijas, embora acabem por não pesar na política do Cosmos. Por isso, não deve haver “remorsos ou falsos consolos”, a escuridão combate a luz, e parece ganhar-lhe. E quando isso não acontece, a resplandecente e magnânima luz divina tem somente a força caprichosa do seu ensimesmamento: “a vida é apenas um conjunto de subtracções / e parece que os deuses nos sabem magoar / como são belos os deuses desprovidos de misericórdia.” (“3.”). Os deuses transportam “morte e ilusão”, até porque vivem numa “arbitrariedade compulsiva”, mesmo quando imaginamos essa compulsão feita de amor.
Se isto poderia heroicizar o homem, como pensava Nietzsche? Não. A nossa incompetência, com as palavras e com a vida, revela-se irredutível quando lemos Ausência. Não sabemos dizer as coisas demiurgicamente e deixamos morrer a amada duas vezes. Resta ao poeta ir de “alucinação em alucinação”, embora aqui, como não podia quase deixar de ser, Eduardo Quina abra uma frincha por onde entra claridade, permitindo-lhe, quando abandonar o ofício e se proteger com a armadura de uma espécie de amor fati, ainda “escrever humildemente / longe do mundo”.
Isto dá-se sensivelmente no meio do livro, a partir de onde parece ser possível construir “os vícios, etapa a etapa”, mesmo no impasse de “um estático clarão” ou na inclinação para o mal que provoca uma segunda morte. É assim que lemos no poema “13.” “uma papoila que floresce uma última vez: / abre-se onde já nada se espera / no som definitivo da demência”. Este desvio à lucidez é uma pequena bênção que permitirá outra liberdade do corpo (talvez o marcador semântico mais usado por Eduardo Quina), lembremo-nos de Dioniso. A alteridade é agora partilhada entre a transcendência e a imanência, sem empatias salvíficas, mas vemos aparecer uma nova política dos afectos. Pode olhar-se o futuro, mesmo quando nos “rendemos à ideia de tragédia.” O mito e a metafísica, o labirinto e o Céu, envolvem-nos agora sem nos esmagar, podem dilacerar-nos, mas não esmagar como quem se alegra do som de uma barata pisada numa geometria calculada de sapatos caros. E mesmo terminando, noutra “[nota]”, a revelar-nos que há somente medo, facas, barbárie, delírio, inferno, demência e que “a poesia é uma farsa.”, e talvez seja isso mesmo, Eduardo terminou um livro que alguém lerá embebido pelas forças emotivas da vigília. O autor, mão dos deuses, da alma e do corpo, terminou um livro que viajará pelo mundo, com a sua orografia acidentada e a combater – perdendo? – o tempo da pressa. Escolheu cuidadosamente as palavras, teve essa liberdade (apesar de nos alertar para a pujança do destino), olhou para as folhas em branco e anteviu o olhar do leitor em parágrafos com formas orgânicas. Acusou os deuses ao mesmo tempo que os louvou (a indecisão habita os crentes genuínos). Deformou o corpo. Invocou a morte, não como um fim mas como um meio (a pior das mortes, diz-se). Esboçou uma metapoética, à semelhança dos seus companheiros de ofício (quem resiste a esta tentação?). Olhou para o alto e percebeu que se afundava no sem-sentido ou pisava um campo minado. Mas fez tudo isto em júbilo; sombrio, se quisermos. E este trabalho, que exige uma recepção audaciosa, é a luz negra que prova a nossa filiação prometeica, insistimos e rimos, mesmo quando não conseguimos sair da esquina da primeira circunvalação do labirinto e isso nos deveria entristecer para sempre. Experimente-se, pois, a ausência.
Livros, filmes, ideias.