jonas ou a reinvenção

Manuscrito Walter, W.547, fol. 40r

Manuscrito Walter, W.547, fol. 40r

jonas,
voltaste hoje a israel.

era já noite e
bem sabes que
depois das dez
o silêncio jurídico do teu prédio
proíbe
banho água sabão azul.
depois das dez
és sempre essa
coisa suja e ruim em
repouso aristotélico
bactéria-verme e impureza

jonas,
queria lavar o teu corpo uma
última vez

talvez esteja demente
quando te digo que
passo as minhas tardes
com os rebanhos do mar,
talvez esteja demente
quando te digo que
alimento nas rochas
a lembrança de uma
humidade corrompida
em águas cervicais

jonas,
a vontade aperta-me as escamas
e as ondas queimam como o ar


espero-te três dias e três noites e
peço-te
que voltes comigo
para celebrar o batismo
da primeira traição

5 poemas de "Porque Canta um pequeno coração", de José Pedro Moreira, lidos pelo autor e por João Concha

É fácil perceber quem leu quais: as leituras expressivas e claras são as do João, o tipo com má dicção e que ainda por cima murmura os poemas sou eu (José Pedro).

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Amigos do Porto (e arredores): se puderem venham à leitura conjunta, com a Francisca Camelo, a Mafalda Sofia Gomes e o Vítor Teves, na próxima sexta-feira, 4 de Outubro, pelas 17h30 na Flâneur. Mais informações aqui.

Amigos de Lisboa (e arredores): se puderem, venham à apresentação do livro, no próximo dia 5 de Outubro, pelas 18h30. A apresentação estará a cargo de Elisabete Marques, e contará com leituras de Tatiana Faia e Victor Gonçalves. Mais informações aqui.

Os Cobardes

La belleza no es un lugar donde van a parar los cobardes.
Antonio Gamoneda


Talvez venhas a morrer perto
violentado pela luz, pelo assombro
de uma vida pensada junto ao fogo
mas de onde nunca trouxeste nada 

A vida é tanto mais pesada
se te não fere a violência de um deus
se regressas da solidão com o mesmo porte
com as mãos abertas e laceradas

como praças descobertas para a morte

"Cascando" de Samuel Beckett

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Tradução de Tatiana Faia

1


por que não apenas os desesperados
de ocasião de
derramamento de palavras 

melhor antes abortar do que ser estéril

as horas depois de te ires embora são tão de chumbo
começam sempre a arrastar-se demasiado cedo
as garras rasgam cegamente o leito da carência
trazendo ao de cima os ossos os velhos amores
cavidades preenchidas outrora com olhos como os teus
tudo sempre é melhor demasiado cedo que nunca  
a negra carência salpica-lhes os rostos
diz nove dias nunca fizeram flutuar o amado
nem nove meses 
nem nove vidas

  

2

diz de novo
se não me ensinares não aprendo
diz de novo há uma última
mesmo última das vezes
última das vezes para suplicar
última das vezes para amar
para saber não saber para fingir
uma última mesmo última das vezes para dizer
se não me amas não serei amado
se não te amo não amarei

palavras rançosas batidas no coração de novo
amor amor amor baque de um velho pistão
pisando o inalterável 

coalho de palavras
aterrorizado de novo
para não amar
para amar e não tu
para ser amado e não por ti
para saber não saber para fingir
para fingir
eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem

3

a menos que te amem