Autores convidados em Janeiro

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Carlos Bessa

Vive e trabalha nos Açores. Tem publicados os seguintes livros de poesia: Lenços de Papel, 1987; Artesanato: 3ª geração, 1988, Legenda, Edições Atlas, 1995; Termómetro. Diário, Black Sun Editores, 1998; Olhos de Morder Lembrar e Partir, Black Sun Editores, 2000; Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina, & etc, 2000; Em Trânsito, & etc, 2003; Em Partes Iguais, Assírio & Alvim, 2004; Dezanove Maneiras de Fazer a Mesma Pergunta, Teatro de Vila Real, 2007; Pai, do lado esquerdo, 2017.

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Fernando Machado Silva

Lisboa, 1979. actor/assistente de encenação, investigador de Performance Philosophy, ex-membro do CFCUL - Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. Publicou "Primeira viagem" (Orfeu, 2012), "Passageiros Clandestinos" (Companhia das Ilhas, 2012), "O coração estendido pela cidade" (Gato Bravo, 2017), "Para um outro dia Lázaro" (Enfermaria 6, 2018), "Um espelho para reproduzir as mutações da vida" (antologia 2004-2017) (Companhia das Ilhas, 2018) e um ensaio/capítulo no primeiro volume em torno da Performance em Portugal, "Intensified Bodies from the Performing Arts in Portugal" (Peter Lang, Bern, 2017). Participa em revistas de Poesia e de Filosofia. Vive actualmente em Bad Meinberg, Alemanha, onde estuda e pratica Yoga Integral, segundo a tradição de Sri Swami Sivananda.

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Ricardo Leitão

Nasce no Porto no verão de 1991. É arquitecto pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (2015) tendo frequentado, ao abrigo do Programa Erasmus, a École Nationale Supérieure D’Architecture De Paris-Belleville (França) e a Faculty of Architecture Chiang Mai University (Tailândia). Co-fundador do atelier de arquitectura atmo, é assistente convidado na Porto Academy desde 2018, tendo organizado o programa Visiting Barragán na Cidade do México (México) em 2019. Colabora desde 2017 com a Biblioteca da FAUP onde investiga e procura uma nova ordem para o repositório de revistas e periódicos do acervo da Faculdade de Arquitectura.  

AÇORES

“Sovente il sole

risplende in cielo”

  - Vivaldi (RV 117)

 

                                                                                    a Urbano Bettencourt

  

                        I

NOUGAT E GORREANA

 

Entre palavras o fio é retomado.

E doce é a entrega do encontro quente

essas mãos de apertada amizade.

 

Deitado em palhas

observa

o invejoso

o arranjo perfeito.

 

                        II

UMA VIZINHA COM ESTILO

 

Gata!

Uma espécie de leopardo das

neves

revestida de salgado marasmo

e lento tempo

desliza

 

não tem pressa.

O prazer traz entre as patas

e mia docilmente.

 

                              III

BANHISTAS DE OUTUBRO

 

A pele arrepiada do Outubro

submerge no líquido circular da ilha.

 

Nós aqui na esplanada frente ao mar

reencontramos o frio interior da espinha

como peixes que fomos.

 

Longe ela submerge para

dentro da nossa memória enquanto

à porta a nossa vontade espera.

  

                         IV

UMA ILHA CHEIA DE VIVENDAS

 

Vivenda Almeida Vivenda Botelho

Vivenda Soares Vivenda Maia

Vivenda Sousa Vivenda Melo

 

No presépio a rivalidade entre vizinhos

sempre foi muito intensa

Este é o meu palácio de dois metros quadrados

Este sou eu longe de ti, maldito!

 

No presépio as placas na parede de cimento

são sempre sinônimas de arame farpado

distância e chapadões.

  

                         V

ÓCULO DE BASALTO NEGRO

 

A Marquesa

senhora da alta elite

vai ao Teatro.

Hoje haverá Schubert e

notícias de Lisboa que

Dona Glória me trará.

 

Vestido o capote há que

espreitar através do óculo

o silêncio da calçada.

Não vá ela esbarrar com

Dom José de olhos gordos e

mãos ásperas.

 

“Se ao menos fosse pianista!”

  

                     VI

     O DIABO DA FOME

Vermelho sobre branco.

Um papel mais velho do que eu.

Queria ter desenhado este sangue!

 

O diabo semeador de misérias

corre pela ilha procurando vítimas

entre as 11 e a meia-noite.

 

Dona Josefa nunca sai de casa

a tais horas não vá a corrente

do diabo agarrar-lhe a perna.

Mas às vezes arrisca e segue

para casa do padre Rui.

“Não há peito peludo má linde!”

  

                   VII

À CHUVA E AO VENTO

 

Meu rico Santo Cristo

mudo-te as flores todos os dias

a lamparina está sempre acesa

meu pão meu senhor meu bom amor

faça de mim uma mulher justa.

 

Ao relento numa parede do quintal

o moço no quadro em lágrimas

reclama tão triste destino

desprezado à chuva a ao vento.

  

                         VIII

UM LAGO DE METROSÍDEROS

 

Num jardim já sem grades

D. Carlos e D. Amélia sentados

numa esplanada não

apreciam as mudanças

“Corre tão depressa esse tempo

hoje, já reparaste?”

 

Indiferentes à mudança os metrosíderos

reúnem-se no vazio do céu

deixam entre si

no meio do jardim

um lago de céu azul.

 

Combinaram entre si manter a memória

do lago circular que os homens

insistiram em destruir.

 

                   IX

O ELEFANTE CINZENTO

 

Muitos nichos quadrangulares retangulares

pés direitos muito altos

basalto negro e cimento branco

uma alta chaminé sobre o dorso.

 

O elefante caminha lentamente

tem mil pés de aranha

tão finos que ninguém os vê.

 

                                            X

MADRE MARGARIDA DO APOCALIPSE

 

Lembro-me do ano de 1988.

Havia crianças entre a entrada e o jardim

e eu morta conhecia ao fim de séculos

alguma alegria.

 

Na roda da dança havia sempre um

miúdo que olhava para mim

sentia-me viva.

Era o único que conseguia ver-me!

 

Hoje tento ir à janela mas não vejo ninguém.

Tenho por passatempo avistar o universo

na humidade das paredes mas confesso

que trocava esse universo pelo olhar

de uma criança um olhar vivo

um que me fizesse lembrar

padre chico       meu perdido amor.

Tatiana Faia lê o poema "Açores" de Vítor Teves
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Vítor Teves - Ribeira Grande


Para 2020

Paul Klee

Paul Klee

Para 2020, “torna-te o que és”!

Esta máxima, atribuída a Píndaro, está perfeitamente enquadrada na sabedoria apolínea, irmã, por exemplo, do célebre “conhece-te a ti mesmo” délfico (que o Sócrates de Platão tão bem ilustrou). Ela será retomada por Nietzsche, destacada no subtítulo do seu último livro, Ecce Homo: Wie man wird, was man ist (como vir a ser o que se é)

Para este pensador (nunca tremo ao designá-lo assim), todas as antropotécnicas são válidas para virmos a ser o que somos, não no sentido heideggeriano de uma autenticidade metafísica que substitua, e supere, as formas de ascese religiosa, mas como encontro do impessoal que até certo ponto governa a nossa pessoalidade (considerada, com muita imprecisão, o “eu”). Mas não será Nietzsche o inventor do eremitismo heróico moderno, que em vez de esvaziar a subjectividade a amplifica até ao estouro? (Übermensch = super-homem) Não, essa é apenas uma velha e desajustada forma de o ler. Se lhe prestarmos a devida atenção, partindo, por exemplo, do que escreve em Assim Falou (ou Falava) Zaratustra, o sujeito é a soma de uma ficção linguística com um dispositivo religioso para manter viva a ampla economia da culpa e do ressentimento. E mesmo quando confrontado com aquilo que pouco tempo depois dele dirá Freud (afirmava não o ter lido seriamente porque temia descobrir que o plagiava), resiste coerentemente à tentação de tudo, ou quase tudo, convergir para o eu (em Freud, deve-se escavar o inconsciente e enchê-lo de uma consciência cada vez mais plena, pessoalizar o impessoal). Em Nietzsche, o devir individual (um tornar-se que nunca se conclui, dinâmica assimptota) conduz, por linhas mais travessas do que direitas, ao “si” (Selbst), em Freud, com a ajuda do psicanalista nos casos mais difíceis, ao ego.

Bom, mas então como e para quê tornarmo-nos o que somos?

Como: buscando a base da estrutura orgânica, as forças construtivas e destrutivas (nisto, Nietzsche e Freud coincidem) que alimentam a nossa passagem por aqui (estamos, quer queiramos, quer não, sempre num devir inexorável). Não ser de nenhum lado (o nacionalismo é tão arcaico que custa acreditar na sua sobrevivência), não ter nenhum nome. Os caprichos individuais substituídos pela biologia do sistema respiratório. Venerar também o inorgânico que somos, até porque essa será a nossa condição dominante futura.

Para quê: para amarmos outras coisas para lá de nós próprios, amá-las verdadeiramente, não como fazemos agora em modo boomerang. O verdadeiro amor só pode ser incondicional, e por isso acontece apenas em relação ao distante, ao mais distante possível. Não cabe nele, com certeza, o amor paixão (invenção recente) ou o familiar. Não cabe também, embora se aumente a distância, a amizade. Nem qualquer neo-humanismo. Começa a ocorrer no amor por outras espécies e outras formas de vida. Aproxima-se quando chegamos, por exemplo, ao reino mineral (em pura contemplação). Intensifica-se se amarmos uma estrela, não porque nos ilumina, mas porque a amamos em si mesma sem querer nada em troca. Finalmente, fica pleno quando amamos o nada. Aí tornamo-nos aquilo que somos, já que as forças afirmativas que nos compõem se libertam de qualquer resquício narcisista e aceitam, sem conflitos, patentes ou latentes, que também nós somos nada, a máxima potência da impessoalidade.

Claro, com isto vou contra a epistemologia, a ética, a política, a economia... Enfrento todo o magnífico senso comum que nos governa, sobretudo nos fins de ano. Mas enfim, ninguém se dará ao trabalho de me lançar bombas incendiárias.

Para quem vir aqui uma qualquer forma de niilismo, parabéns, acertou. Mas cuidado, é o niilismo completo de Nietzsche. Que na altura combatia o grosseiro fetichismo da importância última do eu, do eu acima de tudo, a derradeira hipertrofia do eu. Alimentado e exacerbado na viagem que nos trouxe dos primórdios da consciência até aos glutões do Planeta. Como pensava Nietzsche, à morte de Deus deveria seguir-se a do homem, desde homem, para que o sobre-homem possa surgir, até porque só ele conseguirá, verdadeiramente, amar o distante. Pelo contrário, sem superação do humano, as actuais sociedades imunitárias tenderão a ser governadas pelo absurdo, cheias de querelas de egos e de sem-sentido, festa da autodestruição.

Livros de 2019 (parte 2)

José Pedro Moreira

Modris Eksteins, Rites of Spring: The Great War and the Birth of the Modern Age, 1989 

Um estudo cultural sobre o mundo em mudança no princípio do séc. XX, desde a estreia do ballet Le Sacre du printemps até à ascenção de Hitler, e sobre como os grandes movimentos de massas que definem o período retomam os gestos ensaiados pelo Modernismo.

Nan Goldin, The ballad of sexual dependency, 1985

Uma sequência de fotografias que documentam anos vividos na margem da sociedade e o grupo, a “família”, que o olhar de Goldin capta. Pequenas narrativas vão emergindo: histórias de intimidade, de perda, violência, procura, amor.


W. G. Sebald, Austerlitz, 2001

O último romance de Sebald e talvez o seu melhor. Numa prosa contínua, sem parágrafos, o narrador conta uma série de encontros com Austerlitz, um historiador de arquitectura obcecado por estruturas de defesa, onde ficamos a saber a sua história, a sua infância em Gales, a sua relação com um dos acontecimentos históricos definidores do séc. XX.

Thomas Bernhard, Collected Poems, 2017

Um dos livros de poesia que me acompanhou este ano. Um Bernhard muito diferente dos romances e do teatro; uma voz mais lírica, mais exaltada e celebratória, menos resmungona.


Hannah Arendt, Origins of Totalitarism, 1951

Um estudo consagrado sobre como o totalitarismo acontece, como se estabelece e enraíza, usando o nazismo e o estalinismo como casos de estudo. Senti que era um livro que tinha obrigação de ler em 2019.

João Coles

The psychoanalysis of fire (Beacon Press Boston, 1968), Gaston Bachelard

Bachelard enriqueceu a filosofia e a ciência através do considerado inimigo desta última: a rêverie na literatura, ou a imaginação poética. Portanto, de um ponto de vista científico, apoiado em imagens literárias e em narrativas mitológicas, ou na chama delas, Bachelard esboça um estudo sobre o nascimento do fogo na história da humanidade e da sua componente libidinosa: toca em temas como hierarquia paternal e a desobediência inteligente, que será o impulso da coragem libertadora da curiosidade, a ansiedade de conhecer, o fogo sexualizado sem nunca (curiosamente) mencionar Freud, a fertilidade imaginativa do fogo na dilatação das ideias, o instinto de morrer e o de viver ou, nas palavras do autor, “o apelo da pira funerária”, entre outros. Um livro sobre os instintos; sobre o que se acende neste nosso cérebro de lagarto para o bem e para o mal; o que impele a natureza humana a querer conhecer e a auto-destruir-se: After having gained all through skill, through love or through violence, you must give up all, you must annihilate yourself (D’Annunzio, Contemplation de la mort).

O Tchekista (Antígona, 2012), Vladimir Zazúbrin

Em poucas palavras, o mais terrificante dos livros sobre a clandestinidade e o modus operandi do matadouro da Tcheka que traz a Srubov, o protagonista, grandes dramas morais. A violência contra a vida e a justificação incontestável das mortes pela revolução revela-se um choque para Srubov que se torna vítima de uma loucura febril. A transcrição de um dos telegramas de Lenine resume a sua desgraça: “Fuzilem sem perguntar nada a ninguém e sem delongas imbecis.”

PS: nomeada história de embalar do ano pelas várias associações e ministérios nacionais.

Il fascismo degli antifascisti (Garzanti, 2018), Pier Paolo Pasolini

Uma breve recolha de ensaios de Pasolini, escritos entre 1962 e 1975 em diversos periódicos, que nos dá luz sobre as diferentes evoluções do fascismo - culturais, linguísticas e políticas - em Itália. O rosnar de denúncia de Pasolini sobreviveu décadas e numa fase da nossa história em que os movimentos de extrema direita se agitam e ganham maior dimensão nos parlamentos, ler este livro e ler PPP assume-se como um acto corsário: compreender as formas anteriores do fascismo e do capitalismo que nos trouxeram aqui de forma a entender e lutar contra as suas novas mutações: ” […] o velho fascismo, ainda que através da degeneração retórica, distinguia: enquanto que o novo fascismo – que é toda outra história – deixou de distinguir: não é humanamente retórico, é americanamente pragmático. O seu objectivo é a reorganização e a homologação brutalmente totalitária do mundo.”

O uivo do coiote (Contraponto, 1996), Luiz Pacheco

Um conjunto de entrevistas reunidas feitas a Luiz Pacheco em 1985, 1988 e 1992, escolhidas, editadas e publicadas pelo próprio na Contraponto. Uma entrevista nunca é de uma autoria só, há dois intervenientes que guiam mutuamente os passos um do outro, improvisando quando necessário. E por isso poderíamos compará-la a uma dança: quando boa, parece que o par flutua; quando má, até nós sentimos calcados os nossos próprios pés. Mas estas pertencem a um bom tango. Enfim, este breve livro resume, como que em pequenas polaróides, a vida de um autor e de algumas das suas peripécias, da sua libertinagem, borracheiras, amizades e inimizades e “visitas” ao Limoeiro (não que fosse necessário contribuir ainda mais para o mito da figura marginal e desbocada de Pacheco), bem como da geração do Café Gelo. Podem contar nestas entrevistas com Luiz Pacheco sempre fiel ao seu estilo, cáustico quando necessário, com humor e larachas e mais larachas. Deste coiote solitário da literatura portuguesa - não digam escritor maldito que ainda vos chega à cara uma lambada pachecal vinda da orla do mundo dos mortos - esperemos ver num dia não muito distante a sua obra reeditada. Até lá, que nos nutram as bibliotecas.

A cidade das mulheres (Coisas de Ler, 2007), Christine de Pisan

Christine de Pisan (1364-1430) foi a primeira escritora, que até hoje se tenha conhecimento, a escrever sobre os direitos das mulheres e a insurgir-se contra a misoginia no mundo das artes na sociedade de Veneza do seu tempo. A cidade das mulheres de Christine (1404) em nada se assemelha ao La città delle donne de Federico Fellini, caso isso vos tenha ocorrido: quando Snaporaz entrou na pequena cidade governada por feministas saiu dali achincalhado, mas o que Fellini releva é uma sociedade desorientada e confusa. Christine de Pisan, pelo contrário, constrói uma cidade amena e racional, bem à moda do Renascimento, ao longo de passeios e diálogos com a Razão, Rectidão e Justiça, as três figuras alegóricas que a acompanham e preenchem a cidade de figuras femininas virtuosas sem as quais uma sociedade não pode viver: poetisas, intelectuais, santas e guerreiras: sejam exemplos Safo e Ortensia, Nicostrata, que teria inventado o alfabeto latino, e Leontina, que publicou escritos criticando Teofrasto, ou a força e coragem de Santa Catarina, Lampheto e Marpasia e todas as amazonas. Isto entremeado com conversas não tão inocentemente didácticas que pretendem desconstruir os preconceitos que Christine, mas não exactamente Christine nem apenas Christine, permitiu entranharem-se nos meandros da sua mente sobre o carácter vicioso e fraco da natureza feminina oriundos de um mundo predominantemente masculino.

Nota: enquanto editor da Enfermaria 6, permiti que o meu preconceito substituísse a capa da edição portuguesa por uma alheia e mais bela, nunca, porém, desconsiderando os meandros legais: ou seja, por decreto-lei de fealdade.

Scusate l’amore (Passigli Editori, 2013), Marina Tsevetaeva

Perdoem o amor , uma possível tradução para o título, é uma belíssima antologia de poemas desta autora russa do séc. XX que escreve despudoradamente sobre uma força, uma grande vertigem chamada amor. Tsevetaeva, numa poesia pejada de emoção, escreve de maneira ao mesmo tempo crua e lírica poemas sobre o cósmico e o grito surdo do amor a amantes, amigos e desconhecidos. No miolo maior do livro, a poesia de Marina entrega-se à urgência de amar, à necessidade constante de uma grande paixão (“tenho de ser amada de maneira absolutamente extraordinária para poder amar extraordinariamente”); são versos com uma sede de amor que precisa de ser renovada e consumada uma e outra vez e em todas formas: a paixão cega, o ódio pelo traidor sobre quem a vingança de olhos vermelhos se lançará, o ciúme pungente (“Como passas com aquela / fácil? Aquela sem traços de divindade? // […] logo tu que conheceste Lilith!”) e a vontade de se abandonar desprendidamente nos braços de alguém. A segunda parte do livro tem como protagonistas as vozes femininas de heroínas antigas e através delas fala-nos do amor impossível: da vontade de não querer mais sentir o corpo graças à violência do amor, como Fedra, que por um desejo exasperante (“uma úlcera em chamas”) suplica em vão a Hipólito algum alívio através de beijos antes de se suicidar; a renúncia de tudo ao corpo dem Eurídice que, contrariamente à tradição, não quer voltar para Orfeu e reviver de novo a dor; e a impossibilidade do amor divino numa sensual, erótica e ternurenta relação entre Maria Madalena e Jesus. O amor em Tsevetaeva é o desejo cego de consumar-se num fogo e depois noutro. Se o amor na sua poesia fosse o Etna, Tsevetaeva seria Empédocles.