Manuel Resende (1948-2020)

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Manuel Resende faleceu na semana passada, a 29 de Janeiro de 2020. Poeta, tradutor e um dos mais generosos homens de letras com quem tive a alegria de me cruzar. Servem estas breves linhas para o recordar e lamentar o seu desaparecimento. A primeira vez que me cruzei com Manuel Resende foi em princípios de 2011. Tinha eu então o projecto, um pouco estranho, mas que reuniu à sua volta algumas pessoas que estavam na altura a trabalhar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, gente na chamada categoria de jovens investigadores, de trazer à faculdade algumas pessoas para passarem um dia a falar de uma literatura de que raramente se fala em Portugal, mas que tantas coisas tem em comum com a nossa, o que não devia ser motivo para explicar por que é que a devemos ler (o motivo para ler qualquer tipo de literatura não deve ser tanto caso para que nos vejamos ao espelho, mas por curiosidade e porque, como dizia Susan Sontag em Sob o Signo de Saturno, ler e escrever são formas de felicidade, se não de alegria), mas de alguma forma serve para explicar que se tratava, e trata, de uma lacuna, uma coisa em falta. Nesse Inverno de 2011, eu achava que o que faltava à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa era falar de literatura grega moderna, e mais especificamente dos seus poetas. Ora, porque o Centro de Estudos Clássicos dessa universidade é um lugar aberto e generoso, deram-nos espaço e apoio institucional para organizar a coisa. Sendo isto Portugal, apoio institucional não quer dizer pagar seja a quem for pelo seu tempo e para falar desse assunto, mas antes que nos foi cedido algum espaço na Faculdade, bem como o nome da instituição para explicar o nosso contacto às pessoas que queríamos convidar. Talvez porque fôssemos jovens investigadores, ou porque a literatura grega moderna é coisa que interessa a pouca gente, quase toda a gente que contactámos, mesmo os tradutores de autores gregos, nos disseram que não. Tivemos uma imensa dificuldade em reunir um painel e a dada altura começámos a distribuir os autores de quem queríamos falar por alguns alunos e jovens investigadores. Mas, ainda assim, faltava-nos alguém que de facto entendesse verdadeiramente alguma coisa de literatura grega. Em desespero de causa e tendo recebido a nega de toda a gente que sobre esses autores poderia ter falado, resolvi ser megalómana e enviar um email à Assírio e Alvim, pedindo-lhes o contacto de alguém que não conhecia, Manuel Resende, o tradutor de Axion Esti, a obra-prima de Odysseas Elytis, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1973. A editora cedeu-me o email, mas eu, esperando que se repetisse o não com um longo atraso na resposta ao email, como sucedera com outros convidados, pedi a um colega para se ir preparando para falar de Elytis enquanto esperávamos a resposta de Manuel Resende. Lá enviei o email. A resposta veio cinco minutos depois. Não só Manuel Resende aceitou vir até à Faculdade falar de Odysseas Elytis, enviou-me imediatamente, na resposta, o texto que pretendia ler, bem como uma tradução, inédita em livro, de um poema de Elytis que eu nunca lera, Canto Heróico e Lamento pela morte do Segundo Tenente da Albânia. Hoje escrevo este texto e, apesar de nunca ter sido particularmente próxima de Manuel Resende (mas dávamo-nos bem e de vez em quando correspondíamo-nos com dúvidas de grego antigo e moderno), sinto-me triste para lá do que se pode explicar com palavras e com os olhos cheios de lágrimas. Na altura, perante a resposta tão entusiasta e generosa de Manuel Resende, quando todos os outros nomes nos mandaram passear, fiquei, por uma parvoíce qualquer que me escapa, um pouco preocupada com as expectativas que este pequeno evento pudesse gerar num tradutor de renome. Dizia-me ele no email que tinha o texto pronto porque estava há uma década à espera de alguém na Faculdade de Letras que o convidasse a ir falar de Elytis. Manuel Resende veio, sentou-se connosco, leu do Áxion Esti, do Canto Heróico, do Monograma, podia ter lido da Maria Neféli, outra das obras-primas desse poeta maior do cânone europeu, lembrou-nos em toda aquela conversa que ler poesia e olhar para a vida dos poetas é uma maneira de mergulhar em profundidade não só na beleza do mundo mas num vasto repositório da nossa humanidade, que, parafraseando um poema de Jorge de Sena, pode ser difícil de reunir e manter. Manuel Resende, a ler Canto Heróico e Lamento pela morte do Segundo Tenente da Albânia, fez pela audiência naquele anfiteatro o que alguém que não confunde o que seja falar de poesia com falar de retórica deve fazer por nós, deixou-nos profundamente comovidos, e alguns de nós lavados em lágrimas. Quero crer que, por estas horas, Manuel Resende está no céu dos literatos, com Elytis, Kavafis, Seferis, Ritsos, e tantos outros escritores que ele traduziu, pacientemente a clarificar as suas dúvidas de tradução, para garantir que aqueles de nós que o queiram, poderão ler esses poetas que seriam de outra forma inacessíveis. Só nós é que estamos mais pobres, mas, pelo menos eu, agradecida do fundo do coração.

Muitas das traduções de Manuel Resende do grego moderno seguem inéditas, como suspeito que tantas outras coisas que ele foi fazendo o estão, coisas feitas como a tradução e a apresentação dos textos de Elytis, com amor, uma impecável qualidade, e por generosidade e cuidado, e seria bom, se por uma vez, não caíssemos no marasmo da indiferença que vai tolhendo a nossa cultura, que é como quem diz empobrecendo o modo como estamos vivos, e fôssemos pondo esses textos cá para fora. 

Partilho aqui o link para as traduções e poemas de Manuel Resende que fomos publicando na Enfermaria ao longo do tempo.

Tatiana Faia

Oxford, 2 de Fevereiro de 2020

Falstaff e o riso

Ou porque xis ou por que ípsilon,
os sentimentos muito direitinhos,
muito bem vestidos
com os seus andrajos de filme.
E as lágrimas a cair entre entradas e saídas.
 
A noite toda promessas, num esvair de passes e fintas,
porque porque há uma indústria
e a lista dura um dia.
Com tudo aquilo que é imprescindível
(e cada época tem a sua).
 
Ai como eu queria as filas da frente.
Ai como eu queria estrelas e requinte.
Ai como sou inteligente.
Ai como persistem os sonhos, as fantasias.
E como toda a ciência parece inútil.

Adolf Schrödter - Falstaff e o pagem, 1867.jpg

Adolf Schrödter - “Falstaff e o pagem”, 1867.

que palavra passou além da barreira dos teus dentes?

Mas depois que Ulisses e Penélope satisfizeram o seu desejo
de amor, deleitaram-se com palavras, contando tudo um ao outro.
Homero, Odisseia, canto xviii, vv 300-301

  I

que coisa te direi primeiro? que coisa no fim?
que o medo como a sombra te persegue até dentro da noite?
que os sonhos te dão a mão só até meio do caminho?
a lâmina da verdade é fria e não faz amigos
lança os teus olhos em mim        sou
um homem cujos brancos ossos apodrecem à chuva
numa ilha rodeada por ondas no umbigo do mar
mas cessei todos os lamentos
e cogitações que me mirravam como um veneno
o faz às ervas silvestres nas esquadrias dos jardins

o mais íntimo e pertinente foi para mim
a aventura e a independência como um animal
selvagem        por fora e por dentro
ora partindo de terra em terra ora
o mais frequente                           uma queda
de cabeça boca e olhos
no vazio        Mulher        nessas alturas
o dia jorrava as suas cores às coisas
enquanto me sentava nos cantos entre árvores e flores
que da cidade fica à distância de um grito
até que os anjos e as musas
sobre os meus olhos derramavam o sono

nunca um único dia me vi
livre de desejos mas esse cavalo galopa hoje
no peito com mais precisão e rédea mais curta
perdendo as estribeiras domado pelo frenesi
somente quando os meus olhos se prendem em ti
Mulher incompreensível, mais do que qualquer outra mulher

precisaram o sol e a lua revolucionarem por esta terra
as estações pelo meu corpo para a ti chegar
foi preciso        como uma lição a aprender
                 esmiuçar os bandos de aves de passagem
o teu silêncio na companhia do teu cão
e enfim dizer-te esta noite
Mulher, já tivemos ambos a nossa conta de sofrimento
olhando sabendo de tua boca e
ao ouvir-te sinto qualquer coisa a devorar-me o coração
como pode a vida jogar com dados tão viciados?

II

eu tenho os meus caprichos e quero decidir
quando a distância separa as águas
em vez destas vontades terceiras que se intrometem

saberás quantas noites me sentava à mesa
e tecia planos para nós correndo ambos por este mundo
para logo os ruir porque tardavas? e de braços
em torno do cão segredava ao ouvido        de certo
a vida abandonou-lhe os ossos
e um deus lhe retirou o regresso a casa

fiquei para trás na cidade       ocupei-me
do lar para além da minha vida
privada        preparei o teu regresso
até que a velhice te abrisse a porta
ao decaimento do corpo
mas as tuas promessas são como cabeças de dentes-
de-leão sopradas pelo vento e assim fico
a vê-las brotar da tua boca
e a se dissiparem como a espuma aos meus pés
quando pelas margens me perco em choros

e sei que és sincero e recebo-te todas as vezes
porque é de Zeus que vêm todos os estrangeiros e mendigos
e qualquer dádiva embora pequena é bem-vinda

mas tal como terra e água
se misturam e se limitam        duas vidas
para se entenderem deveriam conhecer o caroço
dessa relação        saber quando construir e erguer
com a lentidão das pedras e montanhas
e saber quando fluir e correr por todos
os caminhos e mesmo se uma ausência
se faz presente ao trazê-la uma e outra
vez à boca ao pensamento
quando surge a que cedo desponta, a Aurora dos róseos dedos
até à noite escura como pez        para uma vida
a dois dois corpos têm de estar presentes
para estar só não preciso do casamento

(e foi sentar-se na lareira no meio das cinzas
junto ao fogo e permaneceram em silêncio)

III

se foi proferida alguma palavra
terrível que agora a levem os ventos da tempestade
a dor que te causo ainda me morde
o corpo        traz-me corvos à soleira dos olhos
antes voltar ao estreito entre Cila e Caríbdis
ser lançado entre uma e outra        engolido e cuspido
mil vezes até nivelar a balança
e fazê-la pender então para o lado
do amor        o que o vento sopra outramente traz
e nessa mão cheia de nenhuma promessa
que ao meu rosto abres te entrego eu
o meu coração e tal como
no campo um homem que não tem vizinhos esconde
uma brasa ardente na negra cinza salvaguardando desse modo
a semente do fogo a ti te guardo
a ti volto
retorno e entrega        sabe-lo bem        que só a morte
mo impedirá de uma vez não cumprir

IV

(beijando-o repetidamente como alguém que à morte escapara
e falando dirige-lhe palavras apetrechadas de asas)

Homem já não roda ao longe
como disse o aedo outrora
                                               o outono        está nas dobradiças das nossas vidas
a água do rio passa por ti
lava a tua carne e ossos
e quando enfim a decisão tomar conta
porque já tudo pesa do teu coração
ou do teu cérebro                                  nenhum olhar
reconhecerá o teu rosto        deixa que te apraze
a cama o lar a brasa nas cinzas
a minha voz o meu silêncio        permite que eu escute
porque sei        Homem
                                      no teu peito está sempre um pensamento
senta-te à mesa com o cão aos teus pés
pega na linha que o aedo te deixou livre
e canta a vida que foste e és ainda a ser

e outra coisa te direi e tu põe-na no teu coração
detesto repetir aquilo que já foi contado com clareza
não leves demasiado tempo        a solidão e a espera
queimam sem rasto a candeia do amor

V

conheço bem essas duas estações
na via de uma vida e não mais te quero
fazer sofrer        a minha intenção é somente
encontrar-te a meio caminho
aí erigir uma casa livre de
desejos sonhos tentações        todos esses pretendentes
que sempre nos apartem e nos arredam do rumo
a essa felicidade que se abre no fim do conhecimento

Mulher mais bela que todas as deusas
não digas nada não penses agora não faças perguntas
vem comigo ofereço a minha própria vida em testemunho

Dezembro 2019-Janeiro 2020
escrito com versos, ligeiramente modificados aqui e ali, da Odisseia na tradução de Frederico Lourenço.

AÇORES: East of the sun, West of the moon*

“Up among the stars we'll find a

harmony of life to a lovely tune”

- Diana Krall

“Alguém se metia no teu silêncio”

- Santos Barros

"A tempo" - Vitorino Nemésio
"Exercício de socorro a náufragos (tranquilos ou (...)" - Urbano Bettencourt
"S. Mateus, por exemplo" - Ivone Chinita
"Alguém nos afoga" - Santos Barros
"Ítaca - I" - Ângela de Almeida
[depois do Isilda ou A nudez dos (...)] - Carlos Alberto Machado
"Pedra-Poema para Henry Moore" - Emanuel Félix
"O caixote e o lixo" - José Martins Garcia
"Quatro regressos e uma confissão" - Emanuel Jorge Botelho
"Um poema da minha terra" - Maria de Fátima Borges
"Salmo" - Renata Correia Botelho
"Berloque" - Nuno Costa Santos
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Miradouro de Santa Iria, norte de S.Miguel, Ribeira Grande, Açores.

*Diana Krall: https://www.youtube.com/watch?v=ElAP4LF4a1o

Nota: Vítor Teves não tem nenhum talento para ler poesia (faltou a todas as aulas de teatro), mas ele insiste porque está farto de leituras estandardizadas, feitas sempre à volta dos mesmos poetas.

Uma Náusea no Elevador 

Houve tempos em que a mesa da cozinha fazia mais sentido 

E os versos surgiam enquanto na janela em frente o Sol acendia 

Os montes em despedida, preparando-se a geada para abrir a manhã, 

Sabia bem acordar apesar do aparente vazio dos dias, 

Mas esse vazio foi-nos tornando o que hoje traímos, 

Mais um gole, porque estamos perdidos, mais um suspiro, 

Porque a mesa da cozinha longe, e aquelas mãos capazes 

De aceitar tão pouco, hoje estranhas somando nadas 

Como cartas em castelos, estamos perdidos há anos, 

Pouco sentido se encontrou no caminho depois da última 

Gota de inocência ser trocada por mais uma direção errada, 

Tomada com a sede que a carne pede ao fogo a perdição, 

As galinhas eram uma companhia segura enquanto se ouviam 

Ao longe os garotos que esperavam o último autocarro 

Que os levasse às aldeias, deus morria, tudo era certo 

Na novidade que lhes pesava, as palavras pareciam dançar 

Como chamas, as páginas ardiam na fome da alma, 

Hoje todos os mares gelaram, a profundidade é algo impossível, 

Não há mergulho que resolva o cansaço de cada inspiração, 

Levamos a solidão aos olhos, o copo aos lábios, 

As memórias ao esquecimento, porque é melhor assim, 

Esquecer aqueles muros de aldeia e as mãos sem carne 

Que um dia passaram dias inteiros a meter pedra sobre pedra, 

Para que depois o tempo e os herdeiros lhes passem por cima, 

Nada dura tanto como os sonhos, no entanto à noitinha 

Já não se teme nada que a almofada possa revelar, 

Falar com um avô morto no tanque onde te tomaram na boca, 

Numa daquelas noites de verão douradas como a palha, 

Hoje nem as letras novas onde os dedos resignados pousam, 

Fazem qualquer sentido, o Big Sur espera, continuando a afogar 

Estrelas até ao fim dos tempos, a ponte Bixby Creek será mais 

Uma daquelas mulheres que se prometeram na língua dos gatos 

Para outra vida, quando nem esta foi realmente tua, 

Depois das andorinhas em Fevereiro, foi só um somar 

De lábios desencantados e gemidos secos, que é feito do pecado, 

Quando se tem certo o ar poluído da eternidade cega, 

Que diria Torga com dois tordos à cinta, se te visse, 

Com esse ar enjoado, esses olhos de ódio desencantado pela humanidade, 

Nunca fomos postos aqui para durar muito, só durar, 

O resto cabe a cada um iludir-se à medida do nome ou da sorte, 

Temo que isto vá acabar num atraso de uma carta que não terá resposta, 

Se ao menos as portas um dia abertas ainda pudessem 

Abrir-se novamente douradas, se ao menos ainda se encontrasse beleza 

Nas folhas que caíram no outono, além da beleza da morte como única justiça 

E igualdade, este mundo de plástico engolido pelos olhos inocentes 

De todos os que nascemos, todos os que fomos completos, todos, 

A estas horas tenho a alma pintada da mesma cor envelhecida da loucura 

Daquelas paredes do Conde Ferreira, um enjoo em lençóis quentes e vazios, 

Robert Louis Stevenson na mesa de cabeceira e uma náusea no elevador. 

 

Turku 

 

15.01.2020

Chagall - l'âne musicien à saint-paul. 1975.jpg

Chagall - “L'âne musicien à saint-paul”, 1975.