Do teu Quarto em Atenas (dois anos depois)

Do teu Quarto em Atenas (dois anos depois)

(…) Por isso te digo o seguinte: tu escreves fundo. Demasiado fundo, pouco fundo, à superfície e por dentro. Escreves por todo o lado. Mas mais do que tudo, o teu quarto não está vazio de gente. Pode ser pequeno, pode não haver espaço para todos os livros, filmes e gesso que lá guardas, mas ele está profusamente habitado e é acanhado porque tem muita gente lá dentro. (…)

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Oku no Hosomichi 

Recebi um livro de Bashō que não me lembro de ter encomendado, 

Não é sequer um livro de haikus, é um diário de viagem, 

Não sei quem o enviou, provavelmente alguém que já me esqueceu 

E no entanto, julga conhecer-me, li a versão em português, 

Numa das últimas visitas a Portugal, terá sido alguém com lugares comuns, 

Mas distantes, como as ilusões que partilhamos, as mentiras em que escolhemos acreditar 

E as verdades que não quisemos ver, deve ter sido alguém que me teve 

Como ninguém e mesmo assim me deixou secar na certeza de um aperto estrangulador, 

De Bashō, prefiro a poesia, em cada haiku a eternidade na simplicidade, 

Um beijo que se toma sempre fresco a cada nova leitura, um olhar que não se apaga, 

Mesmo assim, fiquei feliz com o livro, como quando se encontra uma carta 

Do dia de São Valentim, entre os cadernos de escola, uma carta ridícula e inocente, 

Agora inócua, como todos os amores que se consumiram até à cinza, 

Contudo seguro o livro com tristeza, nunca o irei ler, há viagens irrepetíveis e ainda bem. 

São Paulo 

12.03.2020 

Bónus para "um crítico" entediante

"Até a poesia (não me refiro a uns versos miseráveis que

um vate presumido deu ao país, há poucos dias), hoje

sentida como a mais entediante das artes, começa a

circular como um bónus, um suplemento pra gente entediada".

- António Guerreiro, telegrama de sexta-feira 27.03.20

       UM POETA FALA

 

Sempre estive mais preocupado

em ser melhor pessoa do que

melhor poeta ou outra coisa

qualquer. Sempre estive mais

preocupado em dizer o que

os outros fingem não ver.

Sempre estive mais preocupado

em terminar uma frase banal do

que suar por mais uma metáfora

de merda. Sempre estive mais

preocupado com a real vida do

que com a ausência de vida.

Sempre estive mais preocupado

em morrer e não voltar do que

voltar para dizer o mesmo que

agora e banalmente dito. Banal

como a flor que cai sobre as mãos

dos que ainda querem acreditar.

Sempre estive mais preocupado

em dizer a água transparente do

que a enigma mais elaborado.

Sempre estive mais preocupado

em ser esquecido do que lembrado.


MEIA LARANJA DE TÉDIO

 

Sobre a lareira um jasmim

pedia ao vento da janela

a vibração que não tinha.

Sem braços fechado na

caixinha do tédio só lhe

restava namorar a laranja

sobre a mesa – sossegada

tão segura da sua perfeita

cor pouco tinha a oferecer.

Se ao menos nessas chamas

do tédio pudesse tocar-lhe

ganharia meia dose para

aturar-se a si próprio por

mais uma longa temporada.

          Exercício Cesaryniano

 

É preciso dizer Intervalo em vez de dizer Morte

é preciso dizer Outro em vez de dizer Umbigo

é preciso dizer Ternura em vez de dizer Febre

é preciso dizer Planeta em vez de dizer Mundo

 

É preciso dizer Oração em vez de dizer Tablet

é preciso dizer Hoje em vez de dizer Amanhã

é preciso dizer Silêncio em vez de dizer Rapidez

é preciso dizer Mãe em vez de dizer distância


GUSTON CRUCIFICADO EM PRAÇA PÚBLICA

 

O grupo ria muito.

Tinham entre si aquela facilidade de fingir

como quem vai às comprar num domingo à tarde.

A Gallery of the king fechara cedo.

Amarelo carmim azul cobalto

algum verde esmeralda sob o braço

era a altura de estender as telas e

escrever tudo aquilo que era suposto escrever.

Pintar quero eu dizer!

E pintava “macacos” figuras grotescas que saiam

do padrão aceite

afinal eram o grupo da expressão calculada

sem linha fechada sem contorno.

Com a galeria fechada Guston mudou de rumo

sentou-se no seu estúdio e começou a desenhar

freneticamente mas antes

prevendo as linhas do tempo futuro

como bom artista que era

desenhou a tabela das inimizades.

E os dias foram crescendo

Amigo D.F.    X    Amigo D.K.    X    Amigo E.F.   X

Amigo G.S.   X    Amigo F.H.     X    Amigo F.F.   X

E a cada dia que passava a lista crescia crescia

e nada o demovia a regressar aos

padrões do grupo

era teimoso tão teimoso como

um perfil geométrico de Piero della Francesca.

Meio ano depois

Guston tinha matado todos os Deuses outra vez.

um a seguir a outro e outro e outro e outro.

Ao fim desse ano

a fogueira foi armada na praça pública -

o castigo era agora inevitável.

Guston queimado despedaçara o seu coração

mas chegara ao cúmulo do seu destino certo:

o pódio da liberdade.

 O LADO CERTO


É a capacidade de produzir discursos

(ou será Descursioós?) trôpegos,


precários, ricos em jogos telúricos, em

ERROS de bárbara transcrição; herdeiros


da educação mais elevada, feita na

sombra, no silêncio e na recusa, que 



conseguem evitar o lado errado da vida!

Porque o excesso de razão cega loucamente

como se pode ler na cuidada gramática

do teu pulso que nada acrescenta à vida.

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 Julian Schnabel, 2020

Páris

ao António Alves Vieira


Quando se sentou no sofá
à luz hemisférica da mesinha
consegui perceber-lhe
a fenda helénica do queixo
os lábios sempre húmidos
e os caracóis dele
da mesma aveia dos olhos
que cumpriam uma constante algébrica qualquer

“- Então fazes mais televisão ou teatro?”

tiniu o balanço do candeeiro
e o olhar dele
que mesmo destriunfado
com toda a força das pálpebras
me despia

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Rafael Mantovani, você esqueceu uma coisa aqui

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Rafael Mantovani

você esqueceu uma coisa aqui

poesia

Enfermaria 6, Lisboa
Março de 2020, 72 pp

Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha

10€


 

(o que eu estaria disposto a prometer pra vida
pra você não ir embora
mas provavelmente não teria cumprido)

(será que é andando em círculos que vamos achar a cidade
que às vezes acreditamos que existe?
mas não sabemos nenhum outro jeito). 


Rafael Mantovani

Rafael Mantovani nasceu em 1980 em São Paulo. Formou-se em Linguística pela USP e sempre trabalhou como tradutor. Publicou poemas em diversas revistas e sites do Brasil, Portugal e Alemanha, além participar de leituras, performances e festivais, principalmente em Berlim. É autor dos livros cão (Hedra, 2011) e você esqueceu uma coisa aqui (Macondo, 2019 e Enfermaria 6, 2020). Hoje vive entre Berlim e o Porto. 

© Adelaide Ivánova

© Adelaide Ivánova