Elogio da Incerteza

Jackson Pollock, n.º 8, 1949

Jackson Pollock, n.º 8, 1949

Contra o pensamento dogmático, a tirania dos estereótipos, sugiro a audácia da incerteza. Por exemplo, Roland Barthes à linguagem massiva, a da ideologia, opôs uma linguagem modelada pelo discurso amoroso, simultaneamente declarativa, hesitante e fragmentada. Da linguagem ideológica, compacta, imperativa, estéril, doentia, preenchia de utopias vingadoras, teve Barthes consciência numa viagem à China comunista, momento em que conjurou a sua visão marxista-leninista da década de 50. Na de 70 dirá: “Eu quero viver segundo a nuance” (Je veux vivre selon la nuance), daí o apreço superior pela literatura, “mestre das nuances”, guardiã da pluralidade, oposta às simplificações, sectarismos ou maniqueísmos.

Seguindo esta visão – ética e funcional – do mundo, sonho com um discurso que não se imponha e, ao mesmo tempo, seja capaz de dissipar a linguagem ideológica, essa cartilha feita de dogmas que muitos companheiros, às vezes com estranho prazer, ainda seguem (é fácil, para os menos inquietos, viver segundo sentidos pré-definidos, embriagados pelas próprias crenças). Uma linguagem arrogante, que Barthes definia assim: “Reúno sob o nome de arrogância todos os ‘gestos’ (de palavra) que constituem discursos de intimidação, de sujeição, de dominação, de asserção, de soberba”.  (Curso no Collège de France, de 20 de Maio de 1978, sobre Le Neutre)

O mundo ficará muito melhor quando, como queria Albert Camus na Peste, soubermos conciliar indignação e lucidez. Mas aceitarmos também, sem fingimentos ou concursos de tolerância para inglês ver, que “A civilização europeia é antes de mais uma civilização pluralista”. (Camus, conferência em Atenas, 26 de Abril de 1955) Princípio que permite preservar a multiplicidade das opiniões contra a dominação de uma verdade única (que só pode ser impostora). E com isto também se pode descobrir, e praticar, uma certa decência ética, que Camus resumia assim: “Em nenhum caso insulto os que não estão comigo. É a minha única originalidade.” (Dialogue pour le dialogue, 1949)

Pratique-se a vertigem horizontal da linguagem (foi assim que Jean Genet chamou à linguagem de Jacques Derrida), usando todas as nuances possíveis, aceite-se a incerteza, hesite-se o mais que se puder. Tenha-se altura de onde se possa cair, os dogmáticos são sempre rasteiros (mas sem profundidade).

 

wabi-sabi

wabi-sabi

O meu corpo partido em suas
rasgadas partes vísceras aguentando
uma alma como pode

wabi-sabi

O meu ex-deus que salva e mata
dá a torrente do vinho tinto e puro
procurando à noite pelas
ombreiras egípcias a mesma cor

wabi-sabi

Uma mulher deitada comigo de olhos
colados e interior da boca desasseado
faz uma cova assimétrica no colchão para
onde gravita o despojo da minha humanidade

wabi-sabi

O meu poema amalgamado com a
pretensão decrépita de escorrer
num dia de uma primavera que fosse só minha
pelos olhos sagrados de quem hoje
me acena com o cânone

Nem eu me lembro do que a palavra quer dizer (vox propria)

Nem eu me lembro do que a palavra quer dizer (vox propria)
Pedro Braga Falcão

Lugares fugazes   perguntas tu   e nem eu

me lembro do que a palavra quer dizer

é difícil demais   di-la outra vez

vejo que agora apertaste os lábios

e escorregaste pelas sílabas abaixo   lugares

lugares nunca foi uma palavra difícil

fazem os sítios quando estamos neles

desabrocham   e não é o que estás a pensar

fazem flores sem que haja tempo

e comemoras aquele dia em que nos chegámos

e perguntaste   é sobre o quê?   é sobre o quê?

e eu fiquei gelado   parecia um monte

e respondi-te   sei que não é sobre isto

é sobre alguma coisa que foge   alguma coisa

que entra   são os pesadelos?   e eu respondi

bebe este copo e diz-me se nunca quiseste fugir

hesitaste e a partir daí soube que era tempo

de fugirmos para o mesmo sítio   eu para ti

tu para mim   e ainda me perguntaste

tens a certeza   pisquei-te o olho   saboreei-te

e por fim foi num sussurro que a minha voz

finalmente fugiu   sabes   meu amor

há quanto tempo nos conhecemos   foi então

que os lugares se fizeram num pequeno poço

enchêmo-lo de água transbordante como tu

e logo soube que frases como és a mulher

ou és a mulher da minha vida tinham pouco brilho

mais valia fugirmos daqui para fora   juntos

fugirmos um do outro   mas muito juntos

vamos deixá-los a pensar no desamor

enquanto nós nos encontrámos no metro

tu sem perceberes nada do que eu dizia

e eu ainda melhor   percebendo quase tudo

até o teu sorriso   e olha lá   afinal

lugares fugazes nem era demasiado duro

ou pelo contrário era um bosque cheio

de um pequeno pinheiro que nos suplicava

mantém-te aqui   ou melhor   fiquem aqui

ainda hoje não tive água com que nos chova

e tu disseste   mas afinal isto é uma história

daquelas que contaremos aos nossos filhos

e a resina ficou numa sombra da caruma

e saltou o chão e saltaram os ecos

que entretanto ficaram nos teus olhos   olha

disseste-me tu   tu nunca dirias isto mas disseste

olha   porque acham que todos os poetas

hão-de ficar nesta floresta   quem és   serás

serás tu ou o lugar de um pinheiro   olhei

e logo dos teus lábios desceu um rio e nele

fiz um filho que nasceu até aqui

até de mansinho   onde os pinheiros escutam

uma luz que passa apesar deles.

Canzione per te

Gosto daquela velha música de Sergio Endrigo
porque nunca mais a escutei

nas serestas de família

Do mesmo jeito, arrebenta os meus olhos
o violão de cordas arrebentadas

no qual ninguém ousa encostar a mão

seja por pena, seja por nojo

As pessoas me parecem mais interessantes
se não conheço os seus nomes

Prefiro-as extraviadas em cartas apócrifas
ou soltas em catálogos ordenados numericamente

Desculpe-me, H., mas as casas são fabulosas
apenas quando não digo: casas. Então, são fabulosas de verdade

É que, ao não dizer: casas
(assim, por inteiro, no sentido total e totalizante da palavra)
só me resta falar sobre os móveis cobertos

sobre o cinzeiro limpo, sobre a torneira fechada

Nestes dias temperamentais, o berço sem criança
tem me comovido mais que a ideia da criança

Há ainda as coisas que se cumprem
pela metade, sempre mais belas e convincentes: a ambrosia que enche
meio estômago, os trinta minutos, o chá de cacto

que não te rouba toda a consciência

Sob a marquise

espero a segunda vinda de Cristo
e torço para que o episódio não saia nos jornais
de grande circulação

Pensa em como seria
se anunciassem a chegada do Nosso Senhor
na mesma placa que agora informa

Consertam-se venezianas

Seguem em paz os coadjuvantes das próprias fantasias
Também eu quero tamanha paz, apesar de saber
que, nesta festa insólita, não me será dado um fiapo sequer

do mais breve sossego.