Trinta Anos, de Bruno M. Silva

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Ernst Ludwig Kirchner, Self-portrait as a Sick Person, 1918

Suponhamos que nada se sucede como esperavas.
Não te casas, não tens filhos,
o mistério não se acumula
e à tua volta cresce um dissimulado
vazio
a que te habituaste com os anos,
como água
que esfria em torno do teu corpo,
do corpo dos mortos, das flores de plástico.

Logicamente envelheces
e entendes necessário o ódio
para tamanha solidão.

No suceder das noites
os copos estalam sem ruído
por corredores que nunca atravessaste,
por cobardia ou conveniência,
mas que talvez ainda esperem,
como os rios esperam os suicidas,
os teus pés atravessando-os,
despidos de súbito de todo o abandono.

E lanças agora a prece a um deus
que talvez permanecesse
desde a infância,
mas que sem saberes lá ficou,
espiando altares derrubados
pela luz de uma certa clareza
que a esta hora te falta.

Os convidados
deixam também eles de aparecer.
A festa agora pertence-te,
e já te podes olhar dentro de todo este vazio –
já podes aclarar a voz com que dirás à morte
o teu nome.

28/09/20

As musas não se apresentam

Imagem do filme “Il Sorpasso”, de Dino Risi - um dos filmes mencionados no texto abaixo.

Imagem do filme “Il Sorpasso”, de Dino Risi - um dos filmes mencionados no texto abaixo.

Porto, 30 de Agosto de 2020

meu querido amigo,

Como nós os dois gostamos de coisas vagamente deslocadas, não teria outra forma de estar na apresentação do teu livro senão assim, com um texto que fique só aqui entre nós. Nem se esperaria outra coisa de um evento como este, cheio de gente que tem demasiada paciência para ouvir. Há que abusar dela. Pouco ainda se ouvem os poetas, especialmente os que estão vivos, o que parece ser cada vez mais um inconveniente. Ficam aqui entre nós, portanto, estas linhas, e por amizade. Começo, pois, por pensar sobre o título Merda para as musas, que não está na capa, mas no início do terceiro poema da terceira parte do teu livro (e se foi por acaso este movimento do número três, ainda melhor – o três é um número importante para quem gosta de solenidades). Chamaste-o, a esse poema, Merda para as musas.

Merda para as musas
enchem-nos a cabeça de nuvens
e o estômago de sol
e quando nos abandonam
deixam no seu lugar
um cão raivoso acorrentado
um gato no cio
que não cessa de miar
a auto-mutilação é inútil pois
elas voltam com diferentes caras e
diferentes vozes e diferentes canções e
tudo germina e cresce
outra vez
outra primavera
merda para as musas


Disseste que as Musas “enchem-nos a cabeça de nuvens / e o estômago de sol”, e talvez noutro século as celebrássemos como justas deusas; hoje sobra-nos, a nós que as conhecemos desses calhamaços que fingimos que já lemos ou naqueles que lemos e nos pesaram demasiado, a sua experiência fingida, a bazófia da sua inspiração. Como disseste em “um buda feroz” (embora fucked up Christian também pudesse servir como título), “carrego sempre um pequeno monte / de livros quando vou para a cama (...) agradeço-lhes o frete”. Partilho também eu esse teu heróico terror perante a angústia do que deveríamos ler e nunca pudemos, especialmente se a causa é uma preguiça cristalina. Talvez por isso suspiremos e insultemos agora as musas, múltiplas e todas, e fiquemos como “gatos com cio”, tal como escreveste, perante a volúpia de uma grande e inacessível biblioteca. Reparei que a frase merda para as musas figura três vezes: no título do poema, no primeiro verso e no último, uma espécie de cápsula sagrada – como em algumas religiões se faz – para tornar sagrado o que queres revelar. És talvez um poeta mais lírico do que queres fazer acreditar, talvez porque ainda insultas as musas. Sabes, também eu acredito nelas, e sou estúpido o suficiente para saber que sou apenas mais um aglomerado de sangue e nervos: conheço os nossos erros porque partilho grande parte do universo que colocas em verso. Nunca poderia escrever como tu, mas leio muita coisa como tu. Não nos camalhaços do nosso “buda feroz”, mas apesar deles, como tu bem sabes.

Volto à primeira parte do teu livro. Chama-se “perguntem ao whiskey”. E logo no primeiro poema, “o buraco da cozinha”, assumes uma voz masculina, vagamente boémia, e reclamas “não escolhas uma mulher que tenha tido muitos homens / não escolhas uma mulher que tenha tido poucos homens”. Há neste poema uma certeza do feminino – que ao contrário do que se pensa, pode ser muito saudável – ou pelo menos do amor entre um homem e uma mulher – a consciência de que este não é salvação nenhuma, apenas um encontro de paranóias. E de facto, no teu pequeno livro, não se sobrevive a nenhuma. Não sei se é verdade o que João Bosco afirma no posfácio do teu livro, onde atesta que és o Bukowski português. Como teu amigo, não te desejo nada disso, seria aliás cruel da minha parte. O risco biográfico de Bukoswki é demasiado, e embora me ria muito com as suas mulheres, tenho por ele uma espécie de piedade deslocada, que não quero sentir por ti. Quanto à segunda parte, Bukowski português, então não te desejo de todo seres português, é demasiado pouco. Podes até ter duas personagens nos teus poemas profundamente portugueses, o puto da Bica, um bêbado com a proverbial bazófia de quem não é incapaz nem capaz, mas capaz de tudo, e um bulldog inglês, que “arrumava carros e motas / e insultava quem não lhe dava moeda / por apontar com o dedo certeiro / o lugar vago para estacionamento”. Mas a sua portugalidade esboroa-se na tua frieza capital, de quem conhece outras europas e outros mundos, e vê uma cidade que nunca será sua – nem Lisboa, nem Porto, nem Veneza, nem nada – contaminada por essas surdas hordas de turistas que agora desapareceram, mas não tardarão a voltar com as suas máscaras cada vez mais elaboradas. É isso que se conclui no final do teu “puto da Bica” – a ironia dos poetas da nossa geração, que cada vez mais abominam a ausência dos versos nas suas ruas, e que têm de os encontrar no sítios mais ausentes:


“isto é que é uma maravilha” disse o puto da Bica
olhando embasbacado para as estrangeiras que desciam do ascensor
com o copo inclinado em ameaça de
verter o vinho a qualquer instante
é um talento raro equilibrar ao mesmo tempo
a embriaguez e a volúpia
sem fraquejar
e nós cedemos sempre

Estas são, de facto, umas musas de merda. Não deixam, porém, de nos convocar para a tragédia da sua épica deslocada. Como nesses filmes de Hollywood de que te queixas no segundo poema do teu livro, em que o sujeito lírico “bate uma” (não sabes como estive à espera toda uma vida académica para poder dizer algo como isto – o sujeito lírico “bate uma”, e repara no pormenor das aspas) à espera de melhores filmes, enquanto no seu íntimo assoma já o segundo andamento da sétima sinfonia de Beethoven – aquele mesmo andamento que já iluminou tantas películas, como o absurdo início do The Tree of Life do Malick. Esta sinfonia é precisamente a banda sonora do teu terceiro poema, abafada pelo olhar incómodo de uma mulher e pelo ruído branco de uma máquina de lavar – 1400 rotações por minuto, 1400 ruídos que atrapalham as nossas musas de merda, a angústia de sentirmos o que quer que seja, uma angústia que não é só de Bukowski, mas do nosso mundo moderno. “Que queres tu?” perguntas duas vezes nesse poema e concluis, sarcástico como sempre, que “basta de falar de amor por hoje”.

Talvez não saibas, porque me conheceste numa aula de literatura, onde eu a contragosto me irritava com a minha voz professoral de vão de escada, prometendo saber coisas que não sabia (como gosto tanto mais de ensinar línguas mortas!), mas também eu tenho um terror religioso por musas, especialmente as de sarjeta. Almornos foi a minha pátria; uma improvável aldeia de Sintra que nos anos oitenta tinha os jovens da minha idade amarrados à heroína – não uma Fedra ou uma Cleópatra – mas à droga, pura e dura. Não conheci os vizinhos por um medo instintivo de pais refugiados. E depois veio a vida de subúrbio, sempre contaminada pela distância, Caneças, Odivelas, estertores de cidade, e eu sempre fugido para Lisboa nos autocarros da Rodoviária Nacional. Ao menos tu encontraste as musas certas em Foros de Amora, invejo-te por isso. Soubeste no teu poema sinfonia em ré menor – o som dos rateres das motas de fim-de-semana – ter como musa uma vizinha de cima, que queria fugir de casa e acabou coxa, engolida pela violência e pela polícia. E embora a tua visão seja ainda de fora, como qualquer céptico que se preze, sente-se aquele lirismo de que nunca te conseguirás libertar, espero eu, e que faz de ti um poeta que nunca terá os 27 anos que afirmas ter no teu livro – uma tensão a que nunca resistes, embora tanto tentes, e a que sucumbes de vez em quando, como no teu poema “vamos provar o sol” ou na tua “lareira”:


o cheiro de um novo amor
é como o cheiro
de lenha a queimar na lareira
entranha-se na roupa
na pele
nos lençóis
e permanece
e perdura
até que precisemos de novo
à noite
de acender outro fogo


É assim a segunda parte do teu livro, “afogado em chamas”; se bem li, estas chamas vieram da “alvura das chamas do tecto” do teu “buda feroz” – o poema que poderia servir como pivot do teu livro. Gostas de repetir versos que dão ritmo, e um em especial se destaca neste poema: “alguém que nos proteja dos nossos demónios” – um demónio bem pariensiense que se espalha por cinco poemas em chamas. “Estou fodido” é talvez o título que melhor suplica a empatia com um leitor solidário, que estuda nos teus versos a verdade ou a ficção da escrita, um leitor homem, preso ao corpo da mulher, que se tenta libertar também ele de uma femme fatale cujo ridículo conhece melhor do que ninguém:


toda a graça e mágoa
de uma diva de cinema se reuniam naquela mulher
era uma mulher de alfazema na mão
ou de bâton-rouge em riste


Nesta segunda parte ouve-se muita música, Haendel, Ray Charles, até entrar por lá uma musiquinha absurda de Vivaldi; só quem escreve em música sabe o quanto o som errado pode estragar uma musa, nem que seja uma musa fingida, como é o caso.

Ainda bem que há livros de juventude – e este teu livro é, sem dúvida, um livro de juventude, e talvez o venhas a escrever mais vezes, se a merda das musas o permitirem. Mas devo-te confessar uma coisa, que talvez diga mais sobre mim do que sobre ti, caindo aqui no ridículo daqueles que apresentam os livros dos outros sempre com um enorme espelho na audiência. A tua juventude faz-me lembrar aqueles filmes jovens dos anos 60, a preto e branco. Fazem-me lembrar o Roberto de Il Sorpasso – talvez o mesmo Roberto por quem os sinos já tinham dobrado em Hemingway. Dino Risi faz da juventude uma coisa antiga, repetida, violenta, que se vai rindo até morrer num desastre de automóvel, excitada pela velocidade, como Alexis na Phaedra de Jules Dassin. Os jovens ficaram sempre presos nos livros e nos filmes, tal como Anthony Perkins e Jean-Louis Trintignant ficaram. Uma coisa difere, porém, e que me faz respeitar-te talvez mais, ou pelo menos rir-me mais contigo; enquanto estes dois morrem em carros de alta cilindrada, excitados pela vertigem da velocidade e das rotações de um motor que excedia largamente as tuas 1400 rpm, o jovem do teu livro continuará sempre sentado na sua Vespa em vertigem de amizade, bêbeda, cantando Carosone, um Sarraccino tão napolitano como a merda das musas:


vertigem
é estar montado numa Vespa
enquanto o teu amigo guia
(os dois bêbedos)
cantam o “Sarraccino” de Carosone
e a “Malafemmena” de Murolo
e tu te apoias no assento
com a mão esquerda
e falas com o teu amor ao telefone
com a mão direita

sem capacete

porque a verdadeira vertigem
é essa voz que
te sussurra ao ouvido

Pedro Braga Falcão

Paisagens em estado de possibilidade sem limites: "Behind the Horizon" de Alexandra Roussopoulos

Behind the Horizon
Alexandra Roussopoulos
Galeria Nitra
Atenas
26 de Setembro a 24 de Novembro

1.

Este é um breve texto sobre alguns quadros de Alexandra Roussopoulos, vistos numa pequena galeria num dos bairros centrais de Atenas. Às vezes, parece-me que darmos por nós na presença de certas imagens convida um certo tipo de atenção silenciosa, que deixa que uma sucessão de coisas que estão enterradas dentro de nós venham à superfície, se tornem de repente objectivas ou objecto de (re)descoberta. Este ciclo de quadros revela o lado ao mesmo tempo familiar e estranho de algumas paisagens e dos seus horizontes. Podiam ser as nossas paisagens, daí apontarem acidentalmente para os nossos elos com certos lugares. A objecção que se pode levantar a esta ideia, claro, é a de que estou aqui a propor uma empatia egoísta em relação a certos objectos de arte. Que talvez haja nisto um certo romantismo imaturo. Talvez, um pouco. E então?

2.

Em Março de 2020, Alexandra Roussopoulos, uma pintora suíça e francesa de origem grega, radicada em Paris, viajou para Atenas para preparar uma exposição que deveria ter tido lugar nesse mês, mas que só veio a acontecer, na forma em que agora se vê, no final de Setembro. Alexandra Roussopoulos viu-se confinada ao seu estúdio em Atenas, sem poder viajar de regresso a Paris e sem saber quando esta exposição que agora se pode ver na Galeria Nitra, em Atenas, ia acontecer. Nas semanas seguintes a pintora lançou-se ao trabalho de compor os quadros que hoje formam o conjunto da exposição Behind the Horizon. Alexandra explica ao diário grego Kathimerini que teve de alterar a sua técnica de pintar à medida que as semanas foram passando, por receio de que os materiais que tinha encomendado se esgotassem. Há nas imagens uma qualidade de erosão, que sugere o lado fugaz e efémero de paisagens vistas a partir de dentro, desconstruídas e de novo montadas a partir da memória.

3.

Os quadros de Behind the Horizon ocupavam quatro paredes na galeria Nitra. Lá fora, no final da tarde de sábado, atenienses bem-vestidos circulavam pelas ruas interiores de Kolonaki. Homens em jeans e sapatos caros cortando pelas estradas nas suas vespas e pequenos grupos de estudantes com encontros marcados em esplanadas em redor de pequenos jardins urbanos. Por um momento, entre amigos nestas ruas interiores, esqueço-me deste ano, da impressão que carrego, de há meses, que a terra está doente. A irmã da amiga que me trouxe para ver esta exposição está a estudar para se tornar pintora, o que na Grécia, antes de se entrar na faculdade, não corresponde a qualquer educação formal. Um aspirante a aluno de Belas Artes estuda aqui e ali com quem puder, até fazer o exame de admissão à universidade. Há poucas vagas e é muito difícil de entrar. A irmã da minha amiga vai vendo exposições aqui e ali, tirando notas, falando com outros pintores, numa espécie de educação amadora que na verdade traduz a impossibilidade de ensinar alguém a ser essa coisa, um pintor. Explico à irmã da minha amiga que me agradam as pequenas galerias. Concordamos que são espaços que estendem uma espécie de convite. Há uma liberdade muita grande em entrar e sair de pequenas galerias, sem ter de pagar entrada, sem explicar ao que vimos, em certo sentido a antítese de museus. No trabalho novo há um lado experimental que é também o de ver algo pela primeira vez, sem saber o que esperar. Há nisso outra forma de liberdade: do peso da tradição, dos nossos próprios preconceitos e expectativas.

4.

Não contei ao certo quantos quadros Alexandra Rossopoulos pintou no seu confinamento ateniense. Creio que talvez entre oito e dez. Os quadros sugerem que o que fica atrás do horizonte, o título que enquadra a exposição, são sedimentos e sedimentos de paisagens que se foram tornando na memória da pintora: fragmentos que foram sendo justapostos até se tornarem às vezes estruturas que nos fazem pensar em fino gelo e no lado tridimensional e esquemático das paisagens, ou que, noutros quadros apontam para a representação da suavidade de cores de certos entardeceres em dias longos de verão.

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Nenhuma das paisagens é urbana, embora uma ou outra sugira essa possibilidade nos volumes que se avistam no horizonte. Há qualquer coisa de difusamente reminiscente de Turner, mas também de Hokusai. Há horizontes em certos quadros que parecem pertencer a um passado profundo, superfícies de infância vistas por um olhar adulto (isto parece-me sobretudo verdade acerca de uma paisagem de montanha e floresta onde se veem escuras árvores), o que, por outro lado, nos faz pensar na distância a que a memória segura certas passagens – com um certo anoitecer que é o tom em que a lembrança persiste face ao esquecimento, apoiando-se em alguns pontos salientes.

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Outros horizontes são claros e abertos e o movimento do olhar do plano da terra para o horizonte faz-nos pensar no que está para lá dessa distância enquanto meta, enquanto futuro: paisagens em estado de possibilidade sem limites. Porque não são paisagens humanas, as destes quadros, a sua presença em frente do nosso olhar parece não pedir nada de nós, mas antes sugerir a possibilidade de que nos podemos perder numa vasta paisagem que, no entanto, mesmo com os seus pormenores dissonantes, parece sempre acolhedora, possível de navegar. Há no exercício de olhar os quadros de Behind the Horizon algo de profundamente libertador, fora do tempo e fora das circunferências que, para lá dos confinamentos, habitamos. O conjunto de Behind the Horizon recorda-nos que o tempo da terra é outro tempo: silencioso, vasto, misterioso, em certo sentido fora da história, que é preciso respirar com essa história paralela do planeta, que coexiste com a nossa. Pontos de referência, coordenadas parecem refazer-se de quadro para quadro, reorganizar-se constantemente na sugestão da possibilidade de movimentos com que estas paisagens poderiam ser cruzadas. Mas, abarcando amplos espaços, mesmo nas mais pequenas telas, é o próprio movimento das paisagens que gera essa impressão: o que nestes quadros se move acompanha o nosso movimento interior em direcção à memória das paisagens que carregamos connosco. Há aqui qualquer coisa de uma paixão silenciosa, paradoxalmente premeditada, mas constante e resoluta.

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5.

Os meus três quadros preferidos são quase miniaturas. Três fragmentos de paisagens marítimas em três entardeceres diferentes, o último é um fragmento da rebentação. Talvez a mesma paisagem vista de diferentes ângulos, a diferentes horas. Não podendo dizer ao certo se se trata de perspectivas diferentes sobre a mesma paisagem, ou três paisagens diversas, sugere-se ao mesmo tempo o que disso no princípio: a familiaridade das paisagens e a sua estranheza. Os diferentes tons apontam para o modo como o transcorrer das horas sobre um determinado horizonte pode traduzir um sem número de emoções. Vastas paisagens, mesmo se apenas representadas em fragmentos, pintadas durante um período em que confinamento se tornou a obsessiva palavra chave de todos os vocabulários, sem nenhuma narrativa fixa, lembrando-nos que a amplitude do horizonte é como sair para fora, como regressar à possibilidade de encontro constante com algo em estado de recomeço.

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Nota: Gostaria de agradecer a Alexandra Roussopoulos a disponibilização das fotografias dos quadros que podem ser vistos nesta nota.

três poemas de Michel Houellebecq no supermercado

tradução de Inês Morão Dias a partir de, respectivamente, La poursuite du bonheur (1997), Le sens du combat (1996) e Renaissance (1999), reunidos no volume Poésie, Michel Houellebecq, Éditions J’AI LU (2010)

hipermercado - novembro

Para começar, tropecei num congelador.
Pus-me a chorar e tive um bocado de medo.
Alguém resmungou que eu estava a estragar o ambiente;
Para parecer normal, retomei o meu passo.

Suburbanos minados e de olhar brutal
Cruzavam-se lentamente ao pé das águas minerais.
Um rumor de circo e de semi-deboche
Subia das prateleiras. O meu passo ia torto.

Estatelei-me na secção dos queijos;
Havia duas velhinhas que levavam sardinhas.
A primeira vira-se e diz à vizinha:
“Que triste, um rapaz desta idade.”

E depois vi uns pés circunspectos e muito grandes;
Havia um vendedor que tomava medidas.
Muitos pareciam surpresos pelos meus sapatos novos;
Pela última vez, eu estava um bocado à margem.

(sem título)

Os insectos correm entre as pedras,
Prisioneiros das suas metamorfoses
Nós também somos prisioneiros
E em algumas noites a vida
Reduz-se a um desfile de coisas
Cuja presença inteira
Define o quadro das nossas falências
Fixa-lhes um limite, uma evolução e um sentido;

Como esse lava-louça que conheceu o teu primeiro casamento
E a tua separação,
Como esse urso de peluche que conheceu as tuas crises de raiva
E as tuas abdicações.

Os animais socializados definem-se por um certo número
de relações
Entre as quais os seus desejos nascem, desenvolvem-se,
tornam-se por vezes muito fortes
E morrem.

Eles morrem por vezes de repente,
Certas noites
Havia certos hábitos que constituíam a vida e
eis que já não há mais nada
O céu que parecia suportável torna-se de repente
extremamente negro
A dor que parecia aceitável torna-se de repente
lancinante
Já não há senão objectos, objectos no meio dos quais
estamos nós próprios imobilizados na espera,
Coisa entre as coisas,
Coisa mais frágil que as coisas
Pobrezinha coisa
Que ainda espera o amor
O amor, ou a metamorfose.

transposição, controle

A sociedade é aquilo que estabelece as diferenças
E os procedimentos de controle
No supermercado faço acto de presença,
Faço muito bem o meu papel.

Acuso as minhas diferenças,
Delimito as minhas exigências
E abro o maxilar,
Os meu dentes estão um bocado escuros.

O preço das coisas e dos seres define-se por um consenso transparente
Onde intervêm os dentes,
A pele e os órgãos,
A beleza que se esbate.

Certos produtos glicerinados
Podem constituir um factor de sobrestimação parcial;
Dizemos: “Você é bela”;
O terreno está minado.

O valor dos seres e das coisas é normalmente de uma precisão extrema
E quando dizemos: “Amo-te”
Estabelecemos uma crítica,
Uma aproximação quântica,
Escrevemos um poema.

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Um mito de devoção - um poema de Louise Glück

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de Averno, 2006

Tradução de Tatiana Faia


Quando Hades decidiu que amava esta rapariga
construiu-lhe uma cópia da terra,
tudo o mesmo, até o prado,
mas com uma cama acrescentada. 

Tudo o mesmo, incluindo a luz do sol,
porque seria difícil para uma jovem rapariga
passar tão depressa da luz clara para a total escuridão. 

Gradualmente, pensou ele, introduzirei a noite,
primeiro como sombras das folhas ondulantes.
Depois lua, depois estrelas. Depois sem lua, sem estrelas.
Que Perséfone se habitue devagar.
No fim, pensou ele, vai parecer-lhe reconfortante. 

Uma réplica da terra
exceptuando que aqui há amor.
Não é amor o que toda a gente quer? 

Esperou muitos anos,
construindo um mundo, observando
Perséfone no prado.
Perséfone, com sentidos de cheiro e gosto.
Se tens um apetite, pensou ele,
tens todos. 

Sentir na noite o corpo amado
não é o que toda a gente quer, bússola, estrela polar,
escutar a quieta respiração que diz
Estou viva, que também quer dizer
estás vivo, porque me escutas,
estás aqui comigo. Depois um volta-se,
o outro volta-se. 

Isso foi o que ele sentiu, o senhor das trevas,
ao olhar o mundo que tinha
construído para Perséfone. Nunca lhe passou pela cabeça
que não haveria aqui nada para cheirar,
certamente nada para comer. 

Culpa? Terror? O medo do amor?
Estas coisas ele não as podia imaginar;
Amante nenhum as imagina. 

Ele sonha, pergunta-se que nome dar a este sítio.
Primeiro pensa: O Novo Inferno. Depois: O Jardim.
No fim, decide-se por
A Adolescência de Perséfone

Uma luz suave a ascender sobre a superfície do prado,
detrás da cama. Toma-a nos braços.
Quer dizer-lhe Amo-te, nada te pode magoar 

mas pensa
isto é mentira, por isso no fim diz
estás morta, nada te pode magoar
o que a ele lhe parece
um começo mais promissor, mais verdadeiro.



Louise Glück é uma poeta norte-america, nascida em 1943. Venceu hoje o Prémio Nobel da Literatura. Uma selecção de poemas seus saiu na revista Averno (12. 2009) em tradução de Rui Pires Cabral. Não nos ocorre outra publicação onde tenhamos visto a poeta editada em Portugal.