Aquela Puta Grega

Nunca me fingiu um orgasmo, a sinceridade é como um outono que não acaba,
Agora dorme, se calhar, enquanto bebo mais um Campari com sumo de laranja,
O Hemingway espera numa capa vermelha de 1958, não sei porque esperei tanto
Pelos meus dezasseis anos, não sei porque não vivi mais os meus únicos dezasseis anos,
A amiga da minha irmã com as pernas abertas na cama do meu avô bêbado morto,
Agora ambos a olhar os meus dedos a tirar da cova mais uma mão de terra em direção
Ao inferno, nos pêlos do meu mento a sua excitação viscosa e adolescente,
E todas dormem de certeza, a não ser que um filho acorde, um marido bêbado
Regresse com os dedos azedos e um hálito vermelho, ou já esteja a ressonar
Há horas depois do último jogo de futebol ou de outra merda qualquer
Que iluda como mais um orgasmo, não os nossos, esses estão garantidos
Até nos sonhos, trocamos só a roupa interior, o hálito o mesmo,
Nunca me fingiu um orgasmo, mesmo assim, diz que tenho um caralho perfeito,
Contudo engulo um pouco mais de vitamina c e ecos de escaravelho,
E choro, ressono, bato a porta com força sem querer e sonharei com aquela puta grega.

 

Turku

 

09.10.2020

“Ask the Dust”

 

Foi tudo como um sonho de madrugada, breve como um último beijo,
A humidade dos pinheiros em Novembro, os lábios um sorriso curto,
A lua uma unha envergonhada na bruma, como o segredo de dois amantes,
Que lado a lado vivem as vidas que escolheram mostrar,
Foi tudo leve como as manchas da relva na ganga de umas calças pequenas,
Uma rã que cai no tanque, ou uma maçã que desiste de amadurecer,
Tudo fica longe, os anos ditam responsabilidades que não se aceitam,
Tantos, quando só uns dez ou quinze valeram realmente a vida,
O resto é acordar, dia após dia e fazer de conta que o amanhecer
Trará algo de novo às papilas saturadas pela cinza e pelo pó.

 

Turku

 

15.10.2020

"Depois deste dilúvio" de Ingeborg Bachmann

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Tradução: J. Carlos Teixeira


Depois deste dilúvio

Depois deste dilúvio,
queria a pomba
e nada mais do que a pomba
ver - salva uma vez mais.

Eu afogar-me-ia neste mar!
Não voasse ela para longe,
não trouxesse ela
a folha na última hora.


Nach dieser Sintflut

Nach dieser Sintflut
möchte ich die Taube,
und nichts als die Taube,
noch einmal gerettet sehn.

Ich ginge ja unter in diesem Meer!
flög’ sie nicht aus,
brächte sie nicht
in letzter Stunde das Blatt.

Fraenkel

Eduard Fraenkel em Corpus Christi, Oxford

Eduard Fraenkel em Corpus Christi, Oxford

1

Sr.ª Professora
é verdade que Fraenkel
costumava assediar as alunas?
e a Sr.ª Professora Doutora
Maria Helena da Rocha Pereira
franziu os olhos
e perguntou
o Eduard ou o Hermann?
como quem pergunta
o senhor é idiota todos os dias
ou só quando está embriagado?

2

como aquelas figuras em Homero
que aparecem apenas
para serem despachadas
em meia-dúzia de versos
mas que antes
têm de merecer o privilégio
de uma morte ilustre
contando como o avô
anos antes
tinha caçado
um javali metafísico
ou da glória que o pai tinha trazido
à sua aldeia
nas guerras de boxe e xadrez
ele firmou os pés
e começou a desenrolar o pergaminho
da sua obsessão
que começara no texto de Ésquilo
mas que alastrara
para a edição comentada
de Eduard Fraenkel
um monumento filológico
com quase duas mil páginas
que com um humor perverso
não hesita em corrigir o Latim
dos editores que o precederam

 3

mas a verdadeira questão
era
mais difícil de formular

poderíamos tentar reunir
o maior número possível de fenómenos
que rodeiam a vida de um homem
filho de judeus berlinenses
o pai um comerciante de vinhos
a mãe herdeira de uma família de editores
Eduard começou por estudar direito
mas cedo mudou de área
e foi discípulo
de classicistas lendários
primeiro de Wilamowitz em Berlim
e depois de Friedrich Leo em Göttingen
inicialmente um Latinista
publicou importantes estudos sobre Plauto
e mais tarde sobre Horácio
o seu interesse
parecia voltar-se cada vez mais para os Gregos
quando em 1933
perdeu o lugar na faculdade
nas purgas nazis
e fugiu para Inglaterra
e se refugiou em Oxford
onde viria a morrer
a 5 de Fevereiro de 1970
mas este exercício
falharia em cartografar
a natureza de um homem
que submeteu a alma
a uma distensão e especialização tamanhas

 4

sim
eu estava lá
quando o
Agamémnon saiu
disse Rocha Pereira
o rosto menos severo
quase um sorriso
ele estava
tão alegre
foi como se um peso
lhe saísse de cima
o peso
de três enormes calhamaços
e riu
como sabe
dedicou-o à mulher
Ruth
eu jantei em casa deles
boa gente
um homem bem-parecido
não leve a mal que lhe diga
tocava muito bem guitarra
apesar do braço paralisado
boa gente
isso dos apalpanços
era bem sabido
a mim nunca me apalpou
talvez por achar
que não valia a pena
havia outras histórias
inclusive um caso
com a Iris Murdoch
ela foi aluna dele
nos seminários do
Agamémnon
os alunos lutavam por um lugar
nos seminários dele
verdade ou não
ele foi durante muito tempo
um mentor para ela
mas era óbvio
para quem os conhecesse
que ele e Ruth
se amavam profundamente
quando se conheceram
tiveram
de namorar às escondidas
os pais dela
não o viam com bons olhos
era uma família muito abastada
ambicionavam mais para a filha
do que um mero classicista
e depois o final
horas depois
de Ruth morrer
até nisso um classicista
na banheira
os pulsos abertos
bem
boa gente
disse Rocha Pereira
com os olhos a brilhar
boa gente
mas já o estou a aborrecer
com as minhas histórias
disse Rocha Pereira
e com um gesto brusco
estendeu
a sua mão
minúscula e firme