Depois das Cinco

Chegar a casa e merendar, leite achocolatado, uma sandes de fiambre e queijo,

Não havia intolerâncias, o sol punha-se na janela, lentamente, a eternidade

Além das cortinas que a mãe tricotou, ouviam-se os garotos que esperavam

Os autocarros que os levariam às respectivas aldeias, que mais tarde se acendiam

Nos montes do horizonte escuro, amanhã seria um dia certo, custava a geada,

As primeiras horas de casaco e luvas, mas havia sol nos intervalos,

Estávamos inteiros, ainda longe de nos tornarmos nos homens

Que o destino faria de nós, a geada onde o Sol não chegava, permanecia

Por várias semanas, esperando a primavera, que chegaria sempre,

Mais um dia acabava, caminhava-se para casa antes de cair uma nova geada,

Um subia pelo adro, outro descia pela rua até ao fim do bairro,

Até amanhã, certos como a vida, o sangue jovem e imortal que tínhamos,

Sem imaginar primaveras impossíveis, que não chegariam a todos,

Sem pensar em cemitérios onde erva nova crescerá, porque sempre cresceu.

 

Turku

 

22.01.2021

Casas e regressos - Yiorgos Seferis e Salvatore Quasimodo

Nikos Hadjikyriakos-Ghika, Pinheiros em Poros, 1949 Nota: Poros é a ilha onde estava naufragado o barco “O Tordo,” afundado durante a Segunda Guerra Mundial, que dá título a este ciclo de poemas de Seferis, de onde se traduziu este poema. Este quadr…

Nikos Hadjikyriakos-Ghika, Pinheiros em Poros, 1949

Nota: Poros é a ilha onde estava naufragado o barco “O Tordo,” afundado durante a Segunda Guerra Mundial, que dá título a este ciclo de poemas de Seferis, de onde se traduziu este poema. Este quadro e o poema são quase contemporâneos.

Tradução do grego e do italiano (respectivamente)
de Tatiana Faia

A casa junto ao mar

Yiorgos Seferis

 

 

As casas que tive tiraram-mas. Aconteceu
que eram desafortunados os tempos. Guerras exílios expatriados;
às vezes o caçador acerta nas aves migratórias
às vezes não acerta; caçar
era bom no meu tempo, levou muitos o chumbo;
os outros andam às voltas ou enlouquecem nos abrigos. 

Não me venhas falar do rouxinol ou da cotovia
nem da pequenina lavadisca
que na luz traça a soma com a cauda;
não sei muito sobre casas
percebo que têm a sua própria natureza, nada mais.
Novas no princípio, como crianças de colo
que brincam nos jardins com as franjas do sol,
bordam coloridas persianas e as mais luminosas
portas durante o dia.
Quando o arquitecto acaba, elas mudam,
franzem-se ou sorriem ou enchem-se de ressentimento
por quem ficou por quem partiu
por outros que voltariam se pudessem
ou pelos que desapareceram, agora que o mundo
se tornou um interminável hotel. 

Não sei muito sobre casas
recordo a sua alegria e a sua mágoa
às vezes, quando me é dado parar;
às vezes ainda, junto ao mar, em quartos despidos
com uma cama de ferro apenas e nada de meu
observando a tardia aranha, cismo
que alguém se prepara para chegar, que o adornam
de brancas e negras vestes e joias de variadas cores
e à sua volta veneráveis senhoras conversam com vagar
cabelos cinzentos e xailes de renda escura,
que ele se prepara para vir e despedir-se de mim
ou que uma mulher, pestanas tremendo, fina cintura,
regressada dos portos do sul
Esmirna Rodes Siracusa Alexandria
de cidades fechadas como persianas a escaldar,
com os seus aromas de frutos dourados e ervas,
sobe as escadas sem ver
os que adormeceram debaixo dos degraus. 

Sabes as casas ressentem-se facilmente, quando as despes.

 

De O Tordo, Parte I, 1947

 

Os regressos

 

Salvatore Quasimodo

 

Piazza Navona, de noite, deitado de costas
nos bancos em busca de paz,
e os olhos traçando retas e volutas em espiral
uniam as estrelas,
as mesmas que seguia quando menino
estendido sobre os seixos em Platani
silabando ao escuro as preces. 

Debaixo da cabeça cruzava as mãos
e recordava os regressos:
odor de fruta a secar nos varais,
goivo, gengibre, lavanda;
quando pensava em ler-te, mas devagar,
(eu a ti, mamã, num ângulo na sombra)
a parábola do pródigo,
que me seguia sempre nos silêncios
como um ritmo se abre a cada passo
sem querer.  

Mas aos mortos não é dado voltar,
não há tempo nem sequer para a mãe
quando a estrada chama;
e eu partia outra vez, trancado na noite
como a quem de madrugada dá medo ficar.  

E a estrada dava-me canções,
que são de bagos que crescem nas espigas,
de flores que embranquecem as oliveiras
entre o azul do linho e os narcisos;
ressonâncias nos redemoinhos de pó,
cantilenas de homens e estrépito de atrelados
com as lanternas que oscilam escassas
e têm apenas a claridade do vaga-lume.

 

De Águas e Terras, 1930  

Quatro pinturas de Yiannis Kontinopoulos, seguidas de um breve texto

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Με λένε Γιάννη και μου αρέσει πολύ να ζωγραφίζω. Όταν δεν ζωγραφίζω, μου αρέσει να κοιμάμαι. Αν και για να πω την αλήθεια, δύσκολα καταφέρνω να κοιμηθώ. Ένα κουνούπι γυρίζει πάνω από το κεφάλι μου και χαλάει τα όνειρά μου. Υπάρχουν φορές που καταφέρνω να το πετύχω πάνω σε μια λευκή επιφάνεια. Τότε το κουνούπι με τη στραπατσαρισμένη του μορφή εισβάλλει πιο δυναμικά στα όνειρα μου. Αποφασίζω να ξυπνήσω και να ζωγραφίσω. Σκέφτομαι να ζωγραφίσω έναν χώρο στον οποίο το κουνούπι θα ζει ευτυχισμένο έτσι ώστε εγώ να κοιμηθώ ήρεμα στα όνειρα μου. Όποτε καταφέρνω να κάνω μια ζωγραφιά που αρέσει στο κουνούπι, καταφέρνω να κοιμηθώ. Καταλαβαίνω πως το κουνούπι με ενοχλεί γιατί του αρέσουν τα όνειρά μου. Ευχαριστώ το κουνούπι που με ξυπνάει για να ζωγραφίσω. 

Chamo-me Yiannis e gosto de pintar. Quando não pinto, gosto de dormir. Mas, honestamente, é-me difícil dormir. Um mosquito ciranda em torno da minha cabeça e arruina-me os sonhos. Às vezes consigo esmagá-lo numa superfície branca. Então o mosquito na sua forma esmagada invade-me mais fortemente os sonhos. Decido acordar e pintar. Penso em pintar um espaço onde o mosquito possa viver alegramente para eu poder dormir pacificamente em sonhos. Quando consigo pintar algo que agrada ao mosquito, consigo dormir. Percebo que o mosquito me incomoda porque lhe agradam os meus sonhos. Agradeço ao mosquito que acorda para que pinte.

Utopia invertida

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O título é pouco exato, sujeita-se ao significado de contexto que depois da Revolução Industrial parece ter contaminado a realidade com um optimismo furioso (mesmo com interregnos, bolsas de tempo e de realidade que curte-circuitaram o desejo frenético de felicidade, Guerras mundiais, por exemplo). Assim, durante séculos, nas sociedades quentes (Lévi-Strauss), o futuro ganhava sempre ao passado e ao presente, ansiava-se por ele, era bem mais Pai Natal do que os outros dois tempos. Isto foi, simultaneamente, uma emancipação em relação às antigas teologias e teogonias (Cristianismo, Grécia e Roma antigas) e uma alienação à ideia de progresso. O progressismo insinuou-se em quase todos os cantos do pensar e do sentir humanos, os céticos do futuro eram agora seres possuídos por uma deformação intelectual e moral. Fosse na política (materialismo dialético), na economia, nos costumes ou na arte, havia a tremenda convicção de que os erros do passado e do presente seriam conjurados no futuro. Sem que nenhum contra-ataque em grande escala, como em Édipo Rei, fosse sequer imaginável, nessa imaginação dominante feita da soma e de mais do que soma das parcelas individuais.

Muitos autores, com tanto mais ambivalência quanto maior era o talento e empenhamento intelectuais, quiseram pensar a ideia de outro lugar, da Grécia à atualidade. Alguns que conheço:

Platão;
Aristóteles;
Thomas More;
Rabelais;
Campanella;
Francis Bacon;
Daniel Defoe;
Jonathan Swift;
Voltaire;
Sade;
Jules Verne;
Mark Twain;
Eugène Zamiatine;
Frizt Lang;
George Orwell;
Hermann Hesse;
Aldous Huxley;
Italo Calvino;
Michel Houellebecq;

Sem a mediação da arte e do pensamento científico, os esboços maiores de utopias recentes centram-se no Terceiro Reich alemão e no marxismo-leninismo soviético. A pessoalização paranoica de uma vontade de futuro assente em projetos de vida pessoais (Lenine, Estaline e Hitler), em visões do mundo alucinadas, redundou nas maiores distopias. Se a utopia busca sempre uma perfeição, parece por isso potenciar, reverso que sempre esteve presente no verso, grandes imperfeições, como, mutatis mutandis, o voo de Ícaro.

Isto para dizer que a era COVID-19 (talvez fique conhecida assim) introduziu a controvérsia: perdemos o encanto pelo futuro, com ou sem vacinas, embora, talvez porque mantemos resquícios do velho optimismo progressista baseado na evolução tecnológica, continuemos a manifestar uma certa esperança de que nos trará coisas boas. Mas estas “coisas boas” são baseadas na antiga normalidade, na era pré-COVID-19. Regressamos ao modelo utópico das antigas mitologias da Idade de Ouro, que o Cristianismo recuperou e desenvolveu a partir do mito da Queda, embora a desgraça de Adão e Eva fosse a própria razão de ser do novo religioso, garantindo que, com mais ou menos percalços, alcançaremos a Realidade, depois da festa final do apocalipse. O que surpreende é a rapidez com que passamos de aspirar aos milagres seculares do futuro ao desejo consistente de que o passado próximo regresse. Quando vou à baixa lisboeta desejo o retorno das enchentes, estrangeiros e nativos. Não me passa pelo pensamento qualquer vislumbre de um futuro mágico.

É a nova utopia invertida. Que pode não passar de um epifenómeno, mas por enquanto parece mais presente e disseminada do que as utopias futuristas. Terá isso um grande impacto na forma como habitamos a Terra? Seremos mais frugais e gentis, mais racionais e comedidos? Haverá uma prevalência do altruísmo sobre o egoísmo, da tolerância sobre o fanatismo? Não sabemos, mas se isso não acontecer, então a nova utopia invertida será tão desinteressante como as utopias futuristas. Porque, em boa verdade, não é através do sonho que o “mundo pula e avança” (mesmo que sejam sonhos bonzinhos, porque há outros), mas de uma lucidez extra, extravagante, conservadora porque conhece as leis empíricas que determinam o mundo, e vanguardista porque desenha com rigor novas formas de estar no mundo, num altruísmo que deixe de ser especista e racista.

Leituras 2020: Victor Gonçalves

A morte de um livro está frequentemente ligada ao mais miserável dos acasos: súbito obscurecimento dos espíritos, crises de superstição, antipatias patológicas, mesmo à preguiça do escriba, aos insectos ou à meteorologia. A vida de um livro resulta da vontade que temos, que ainda temos, de tocar o céu.

Acima disso, como dizia, crê-se, Diógenes: o sábio também lia livros e comia bolos, mas podia viver sem eles. Não é uma missa de miséria, mas poder passar-se de fardos que nos limitam a liberdade.

Abaixo disso, receio muito que o ser humano deixe de ler, rastejando depois pela vida num autocontentamento puramente orgânico; e, não sendo sábio, quero alienar-me um pouco, em elevação, pelo que outros escrevem.

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Ler/traduzir: Jean-Paul Sartre, L’être et le néant (O Ser e o Nada), Gallimard, 1943; múltiplas edições (um dos livros mais importantes na cultura francesa do século XX), uso a da coleção tel, corrigida pela filha adotiva, Arlette Alkaïm-Sartre, 2009. Traduzido em português (Editora Vozes, no Brasil, com mais de 10 edições; Círculo de Leitores (esgotada), em Portugal, 1993). Compete-me, neste momento, concluir uma nova tradução para as Edições 70, com saída prevista para 2021.

É um livro mundo, onde se confrontam o eu e o outro para resistirem à alienação, ou manterem a liberdade, à qual, quase paradoxalmente, estão condenados, apesar do olhar do outro. Exemplo do tom e do conteúdo: «No entanto, não se deve acreditar que uma moral da “permissividade [laisser-faire]” e da tolerância respeitaria mais a liberdade de outrem: uma vez que existo, estabeleço um limite de facto à liberdade de outrem, eu sou esse limite e cada um dos meus projetos traça esse limite à volta do outro: a caridade, a permissividade, a tolerância – ou qualquer atitude abstencionista – é um projeto de mim mesmo que me compromete e que compromete outrem sem o seu consentimento

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Lido: T.S. Eliot, Ensaios Escolhidos (da saudosa Livros Cotovia, 3.ª ed. 2014). Ensaiam-se explicações sobre autores (Shakespeare, Baudelaire, Wordsworth, Coleridge, Yeats, Poe, Valéry, Dante, Goethe, Irving Babbitt, Pascal); obras (sobretudo Hamlet); correntes e domínios (o que é um clássico, o sentido da cultura, poesia e drama, literatura da política, crítica, estoicismo…). São textos, ensaios, que vão de 1917 a 1962, portanto não de um T.S. Eliot, mas de vários, e isso nota-se (que privilégio). Surpreende e encanta o que diz, por exemplo, de Hamlet, peça inquietante e perturbadora como nenhuma das outras; mas «É de todas as peças a mais longa, e é possivelmente aquela em que Shakespeare despendeu mais esforços; e, contudo, deixou cenas inconsistentes e supérfluas, de que mesmo uma revisão apressada teria dado conta.»

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Relido: William Faulkner, Luz em Agosto (várias edições em português, usei a da Dom Quixote, 1996). Muitos consideram O Som e a Fúria a sua Magnum opus; talvez, escrever um livro desses é estar além do humano. Mas eu prefiro Luz em Agosto, é um mundo onde entro melhor, sem nunca deixar, porém, de ser maior do que eu. Li-o, novamente, como um tratado das pulsões, destrutivas e criativas, Eros e Thanatos, testemunha de uma crise da vida humana que rastreia a endémica violência racista do americano médio, e indica, no nevoeiro, as forças do mal que começavam novamente a erguer-se na Europa (o livro é do início da década de 30 do século XX).

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Relido: Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade (Dom Quixote, 1992/1978). Regressei a este livro porque Eduardo Lourenço Morreu. Na verdade, nunca tinha saído dele. Foi a principal lanterna que usei para iluminar o para lá das cortinas de fumo da consolidação democrática em Portugal. Não se trata, de modo algum, de uma hagiografia, mas de uma radiografia de um esqueleto cheio de manchas negras, aguentando-se, apesar de tudo. E aqui vamos nós rumo ao futuro, cheios de esperança e temor, de grandiosidade e pequenez, de universalidade e de particularismos enfadonhos. Aqui vamos nós, já sem Eduardo Lourenço, que nos sabia pôr num lugar aproximadamente verdadeiro.

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Lido: Paulo Faria, Gente Acenando para Alguém que Foge (Minotauro, 2020). Uma revelação. Escreve sobre Portugal, olhando, contudo, pouco para o futuro; interessa-lhe religar presente e passado próximo, vasculhando nos despojos do Império. Se uma das especialidades portuguesas é atulhar o inconsciente com as falhas do passado, Paulo faria inverte o passo e escava a história viva e a mente para relembrar, no consciente, a porcaria que fizemos em África, e que agora eles, de uma certa maneira, perpetuam. Parece-me um autor capaz de acrescentar linhas importantes à literatura portuguesa., sinto uma grande admiração por ele.

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Lido: Richard J. Evans, O Terceiro Reich no Poder (Edições 70, 2020); Parte II, de III, da história do Terceiro Reich. Obra decisiva para quem deseja compreender o que se passou no país mais avançado (científica, cultural e politicamente) da Europa, permitindo que uns arruaceiros tomassem o poder e fossem seguidos, a pouco e pouco, por uma significativa maioria da população. É a história de uma inverosímil distopia, baseada mais em factos e provas do que é usual neste contexto.

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Lido: José Pedro Moreira, Porque Canta um Pequeno Coração (não(edições) 2019). Apetece-me recordar uma frase de Paul Celan (cito de memória): «Não vejo qualquer diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema.» O livro de poesia de José Pedro é um aperto de mão, um abraço e sobretudo uma janela que ele nos abre, enquanto aponta com o dedo e sorri sorrateiramente, para os seus caprichos de vida, como no «Notas sobre o Prosciutto di Parma», de que a poesia deve dar conta, agora que acabou a era da metafísica; os sítios que frequenta para se abastecer de prosaico e enobrecer poeticamente a vida comum; momentos originários da civilização europeia; mas, sobretudo, no lado B do livro, para aquilo que foi há bastante tempo, festejando, celebrando em vez de conjurar o passado, incarnado na magnífica Alzira. Tudo isto sem deixar de falar com a história da poesia, ser poeta é, por princípio, ser um metapoeta.

É por tudo isto que canta um pequeno coração.   

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A Ler: Sally Rooney, Normal People, 2019 (traduções portuguesa e brasileira). Há cerca de duas semanas acabei de ver a mini-série, baseada nesse romance, disponível na Netflix (Portugal), do realizador Lenny Abrahamson, e foi a série que mais me sacudiu desde Chernobyl. Tenho a máxima espectativa em ler o livro, mesmo se for um pouco menos intenso do que o produto televisivo, como alguns críticos dizem, será ainda assim excelente.