«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Deslizar
/Jackson Pollock, Numer 16, 1950
Desde a origem, filo e ontogenética, lançamo-nos em busca de um princípio que guie a nossa existência. Os chamamentos dos princípios de fé, do sucesso ou do prazer, por exemplo, mostram isso. É evidente que não são exteriores às condições bio-sócio-axiológicas, a vida, a sociedade e os valores definem muitas das nossas escolhas. Se é verdade, seguindo Sartre, que não podemos deixar de escolher (escolhe-se, inclusive, o não-escolher), também é certo que não podemos escolher tudo o que nos apetece (um apetite já por si limitado, porque não é o de Deus). Por outro lado, dada a complexidade de existir, de ser-aí no meio do mundo, só um fanático puro conseguiria manter-se nos estritos, e estreitos, limites do princípio escolhido para guia. Ora, sabemos que há muitos fanáticos (sempre excessivos), que o fanatismo ajuda os simplórios a acreditarem que, ilusoriamente, são significantes, mas também sabemos que o fanático puro é um ideal; puro ou impuro, admirável ou repulsivo, consoante o ponto de vista.
Dentro dos princípios existenciais, um domina a existência humana há séculos, embora nunca a oposição tenha sido definitivamente eliminada (e tenha até levado a melhor em certas circunstâncias): é o princípio de enraizamento. Devemos enraizar-nos, na família como no emprego, na sociedade como na confraria dos amigos, nos amores como nos ódios, em nós próprios como nos outros significativos. Daí advém o desprestígio do sobrevoo, do “parecer uma libelinha”, da desconcentração, do superficial; e, inversamente, o prestígio do profundo, do sério, do concentrado, do ser.
Portanto, estar enraizado é estar consolidado, ter uma permanência, uma decência sedentária que nos torna, aos nossos e aos olhos dos outros, confiáveis. Um neo-identitarismo, politicamente bastante evidente, declinado nos mais variados nacionalismos e regionalismos, da esquerda à direita, evidencia esta antropologia do enraizamento (que num campo mítico vai de Ulisses a regressar a Ítaca até ao retorno a Casa dos nossos emigrantes). Mas ultimamente, ressoou cada vez mais claramente um eco que vem de longe e que, embora nas margens, pontuou uma parte da dissidência.
Vislumbra-se o aumento das formas de nomadismo, que numa linha de ação estão mais próximas de Henry David Thoreau e do seu Walden; or, Life in the Woods, desenhando guias para nos depositarmos numa natureza o menos domesticada possível; e, noutra linha, mais próxima do viandante nietzscheano, propõe-se um desenraizamento através de saltos firmes entre lugares que se amam, evitando qualquer tipo de alienação (em Nietzsche, Sils-Maria, nos Alpes, Nice, Turim e um pouco de Basel), onde não nos fixamos o tempo suficiente para ganhar raízes irredutíveis.
É por isso que talvez valha a pena experimentar o princípio do deslizamento contra o do enraizamento. Deslizar é imprimir movimento para não ser capturado, conservar a liberdade, ganhar perspetiva, trabalhar mais facilmente a auto-superação, uma boa deriva (sem a angústia do centro, do abandono). E é também uma forma de não macular o mundo, não o marcar a ferros, não o subjugar, mantendo-se uma vertigem horizontal, habitar mais o horizonte do que o íntimo. Quem desliza reduz o rasto ao mínimo (pense-se no deslizar na neve ou na água), ficar na superfície das coisas, respeitar a sua condição de existência. Sem que deslizar seja sinónimo de um qualquer superficialismo estéril, ficar na superfície deslizando é outra forma de reflexão e de intuição, permite uma compreensão e um comprometimento até mais esclarecedores e intensos do que o de ir às profundezas, onde se privilegiam estratos interiores subjetivos e solitários, em vez dos exteriores, muito mais conectados, integrados no mundo, no tempo e no espaço da história, reais e vivos.
3 poemas de 'A importância do pequeno-almoço' de Francisca Camelo, com um texto de Gabriela Gomes
/Francisca Camelo, A importância do pequeno-almoço, Fresca 2021
"pequeno almoço é também café da manhã"
antes de ler este texto saiba que pequeno-almoço em Portugal significa café da manhã.
a primeira vez que eu li “a importância do pequeno - almoço” ainda era verão. esticada no solinho enquanto matilda tirava alguma das sonecas do dia. um pdf pelo celular mesmo, fiquei tão feliz que a poeta queria a minha opinião. significava confiança. a segunda vez foi neste domingo, de uma vez só. estava sol, Matilda dormia novamente e a live da Maria Bethânia era a trilha sonora de fundo. uma constatação soprando no meu ouvido repetidamente: ler a Francisca Camelo é ter a certeza de que você está diante de um acontecimento. de uma poeta acontecendo no seu estado mais fértil. já no prefácio a autora marca o quão política é a sua poesia e os seus poemas prontos pra primeira refeição do dia. quem os cozinha? o pequeno-almoço nós sabemos: quase sempre uma mulher, e os poemas cozinhados por ela por muito tempo. não o cozer dos alimentos mas o cozer da escrita (se bem que no fim são quase o mesmo); o tempo de cozimento das experiências que vão se acumulando nos ombros femininos durante tantos anos. falando em alimento o livro é dividido em quatro capítulos: pão, café, fruta e leite. itens necessários em qualquer pequeno-almoço. Francisca está viva em tudo o que escreve, na poeta mulher do norte de pele pálida e sardas da terra que come à mesa pelo prazer da comunhão, mas come-te no chão pelo prazer de estar viva. na mulher que não tem nem tempo de chorar porque tempo é dinheiro dinheiro é saúde e nós sem dinheiro tempo ou saúde sorrimos. na forma como o coração arde, nas caminhadas por berlim acompanhada dela mesma as duas da madrugada, mesmo na tentativa de apagar uma vida ela está viva, chá de carqueja mata tudo. nos poemas sujos porque ela nunca conseguiu escrever nada que fosse limpo, nos acidentes, nos naufrágios (meu querido, há naufrágios que nos salvam) ela está ali, viva e gritando na sua voz em chamas cortando cirurgicamente os poemas para que doam no sítio certo. se um dia lhe disseram da dificuldade em amar uma poeta eu lhe digo, não a ti.
Gabriela Gomes
a importância do pequeno-almoço
If workers’ labor produces all the wealth in society, who then produces
the worker? Put another way: What kinds of processes enable the worker to
arrive at the doors of her place of work every day so that she can produce the
wealth of society? What role did breakfast play in her work-readiness?
Tithi Bhattacharya, Introduction: Mapping Social Reproduction Theory
qualquer mulher sabe que
é preciso manter as tropas:
passar a ferro as fardas parir herdeiros esfregar o chão / de joelhos o sarro sai melhor
quem mais poderá explicar às crianças a ausência
do soldado do empregado fabril do político fervoroso que põe o pão na mesa [1]
se o sexo é político, imagina as lides da casa
lavar à mão as manchas de vinho / sémen / sangue
fazer a cama quando vazia
reunir no prato os nutrientes necessários
para a capitalização do pai adúltero
depois de fazer o pequeno-almoço
as mulheres-âncora atracadas à enseada
assistem em silêncio à partida das armadas de dom joão, o primeiro / o anterior / o pai deste
para que agora - isto não é novo -
pelo menos quinze mil machos sigam audazes.
a ideia é a de sempre:
queimar florestas / rapinar minas / estuprar indígenas / baptizar terras que já tinham nome
reproduzir hospícios e quartos forrados a papel de parede amarelo
enterrar a semente bem funda no colo do útero
e aos poucos gerar novos e delicados manequins de mãos calejadas
deixar que a geração anterior ensine a seguinte a fazer o café
(atenção. não se faz café de qualquer maneira, é preciso formar uma pirâmide de pó, não deixar que a
água toque no funil, não ligar de imediato na temperatura máxima, dar-lhe o tempo certo de ebulição, mas continuando,)
vertê-lo quente na chávena de manhã
sementar esse pão vaporoso na mesa milagrosamente limpa
colher fruta fresca valorizar a louça lavada
não regressar nunca
à sodoma abandonada
porque nessa
o café já esfriou
quem faz o pequeno-almoço
sabe de tudo isto
retorna a casa só e as mãos
sempre invisíveis
costuram dores como contas de rosário
nos dentes e figos abertos no lugar dos lábios
só quem come o pequeno-almoço
tem a boca demasiado cheia
para perceber o fundamental:
é que sem elas
o mundo não chegaria sequer
ao meio dia.
1 (“pôr o pão na mesa” é: a) produzi-lo de raiz, a partir da massa mãe (a massa mãe leva entre 5 a 7 dias a desenvolver-se com água engarrafada a 27-28 graus e outros ingredientes que encontram no google); b) poder comprá-lo e depositá-lo num cesto em cima da mesa; c) uma frase utilizada para iniciar a sondagem que descobrirá finalmente “quantos pequenos-almoços preparou o teu pai enquanto crescias?”)
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diário
1.
perguntei-lhe
se me queria beijar
beijos pequenos
pelo meu corpo inteiro
povoar a minha pele de amor
ele respondeu
quero rebentar-te toda
2.
antes de ingerir
a primeira dose de atmosfera
devíamos ler a bula
sobre os efeitos secundários
mais frequentes:
10 em 10 utilizadores
sofrerão de náuseas
fraqueza e indigestão
um ou dois tipos de abuso
(por vezes simultaneamente)
normalmente segue-se a falta de libido
e alguma solidão asfixiante
(consulte o seu médico
se esta se prolongar
após a morte)
1 em cada 1000 utilizadores
poderá eventualmente
vir a ser feliz
mas não foi ainda possível
comprovar esses efeitos.
3.
ela disse que como voluntária
ensinava as crianças a nadar
eu pensei para mim
que não existe tal coisa
e que na melhor das hipóteses
só aprendemos a afogar-nos
mais devagar
dei-lhe os parabéns
pelo gesto de generosidade
ela explicou que na verdade
odeia fazê-lo
justificou-se com o ruído infernal
que ecoa na piscina:
most of the times
i just tell them
to shut the fuck up.
4.
nada nisso me pareceu estranho
lembrei-me só que a diferença
entre os demónios a gritar
na minha cabeça
e a piscina pública
em hora de ponta
é que na vida
não nos obrigam a andar de touca
em contrapartida
é mais difícil nadar
fora de água
5.
ele sonhou que um amante antigo
o salvava debaixo de água
(sendo mais precisa,
salvavam-se mutuamente)
mas nunca chegavam a vir à tona
enquanto me descrevia
o tom premonitório deste sonho
eu pensava nos versos
escritos no dia anterior
as piscinas e crianças o eco sísifo
estamos todos ligados
pela arquitectura sinuosa
dos líquidos,
pela engenharia estrutural
dos amores
(meu querido,
há naufrágios que nos salvam).
6.
de manhã chorei de raiva
ao sair de casa vi um cartaz:
“oficina para preencher espaços vazios”
não quis acreditar
(o meu inconsciente
passeava na rua)
mas segui decidida
em direcção ao mcdonald’s
ao jantar fiz um bolo
vegan e sem lactose
mas com muitas velas
pus muitas velas nesse bolo
de alguma maneira não conseguia
parar de acrescentar fogo
como se fosse necessário que
alguma coisa ardesse
de repente
tinha-me tornado mestra
em como preencher espaços vazios
mentira
continuo a aprender.
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scenes from a long lost may
we live in a perpetually burning building, and what we must save from it, all the time, is love.
Tennessee Williams
ainda tirei uma ou duas selfies
à procura de mim
por tempo demais perguntei-me
onde está a minha libido
para onde foram os meus orgasmos
não tinhas o direito
e aquela casa-miniatura
que não me deixaste trazer:
eu queria a casa dentro da casa
tu querias a casa fora da casa
vai sujar, disseste
e percebi naquele momento
que as nossas moradas
não coincidiam
recortes
a boca de um homem
aos urros
aos gritos aos murros
a boca aberta
de um homem sempre
fechado
(quem te ensinou
a gritar tão bem?)
a gata nos teus braços
provavelmente o meu presépio favorito
será dela que sentirás mais saudades
porque os animais
são inocentes mas eu não
e depois teve o limão
que no dia seguinte
estava podre
assim de repente
achei bonito
fotografei-o
uma espécie de nan goldin
fruta ferida
(não esquecer a papaia
o figo a maçã)
e depois faz todo o sentido,
não é:
a última foto do álbum
tem um rapaz muito magro acabado de acordar
de alguma forma surpreso por existir
por algum motivo cuidadoso com o que poderá dizer agora
veste uma t-shirt amarela com o imperativo:
“dê sangue”.
Deirdre Bair: Parisian Lives: Samuel Beckett, Simone de Beauvoir and Me
/Deirdre Bair e Simone de Beauvoir
Um dos momentos mais tensos de Parisian Lives é também um dos seus momentos mais cómicos:
The most amazing thing happened today. I was sitting in the Dôme after SdB [Simone de Beauvoir] told me about Algren, trying to digest it, and I don’t know why, but I started thinking, what if SB [Samuel Beckett] should walk by just now? What would I do? And just then—he did!!! I almost fainted is what I did. And then I just sat there, unable to move and sure I was about to black out and cause a big scene. My heart was pounding as I watched him pause at the door and I held my breath but he didn’t come in and he didn’t see me. He walked on down the street. I was turned into stone. I couldn’t move.
Durante vários anos Deirdre Bair viajou e viveu entre Paris, o Connecticut e Filadélfia, escrevendo duas biografias que se tornaram dois estudos de referência acerca das vidas de Samuel Beckett e Simone de Beauvoir. A autora morreu no ano passado e Parisian Lives: Samuel Beckett, Simone de Beauvoir and Me é o seu último livro. Nele, Deirdre Bair regressa ao início da sua carreira e aos bastidores destas suas primeiras obras (Samuel Beckett, A Biography publicado em 1978 e Simone de Beauvoir: A Biography, em 1990).
A primeira frase de Parisian Lives é a primeira frase que Samuel Beckett diz a Deirdre Bair: “So you are the one who is going to reveal me for the charlatan that I am.” Muito de Parisian Lives é sobre a relação tensa e ambivalente que desde o primeiro minuto ela mantém com Beckett. Mas muito do que se lê nestas páginas é sobre o que significa ser um(a) escritor(a) no mundo real, com as dificuldades de todos os dias: a precariedade que é parte da trajectória de escrever um livro entre empregos académicos menores e muito mal pagos, com muito tempo perdido a escrever candidaturas a pequenas bolsas para financiar a investigação necessária e comissões de casas editoriais que são como esmolas, a culpa que advém das expectativas sociais que são criadas em redor do facto de que escrever não era o papel tradicional que se esperava de uma mulher casada e com dois filhos na década de ’70, as barreiras impostas pelo sexismo, frequentemente repugnante, de meios académicos, editoriais e literários, os desafios de gerir relações e expectativas dentro dos círculos próximos de dois autores profundamente mediáticos.
É possível que Parisian Lives se possa ler como uma espécie de nota ou adenda às duas biografias, também elas mediáticas (a biografia de Beckett, embora recebida com grande azedume em meios académicos e no círculo de Beckett, os Becketteers como Bair lhes chama, venceria o National Book Award) ou como um caderno onde o biógrafo vem meditar sobre a sua arte, expor os bastidores, frequentemente inóspitos, onde as biografias são escritas: Beckett que a princípio não a leva a sério, visitas de poetas irlandeses amigos deste que aparecem tarde e a más horas e com a família toda para passar longas temporadas em casa da autora, académicos respeitados que oferecem o “favor” de publicar os resultados das investigações de Bair em nome deles próprios ou momentos em cafés de Paris onde ela se senta em pânico a tentar anotar as conversas que tinha com Beckett, que nunca lhe permitiu tirar notas enquanto eles conversavam.
Se Beckett é profundamente esquivo e reservado, ao ponto de Bair nunca estabelecer uma relação próxima com ele, algo que ela de resto evita para não comprometer a objectividade necessária ao trabalho a que se propusera, como Beckett dizia, ele “would neither hinder nor help,” em parte porque a princípio não leva Bair a sério (sendo que, obviamente, a partir do momento em que a leva sério, frequentemente lhe dificulta a tarefa), a atitude de Simone de Beauvoir é a oposta, não só estabelecendo uma relação de grande proximidade, mas esperando, e rapidamente se desiludindo dessa ideia, que Bair escreva apenas o que ela lhe dita nas suas entrevistas.
Uma das melhores coisas acerca de Parisian Lives é que é um livro que documenta a evolução de uma escritora, as expectativas, as obsessões, os erros, os falsos começos e as muitas versões por que os livros passam até serem escritos. É também um livro sobre a determinação e a alegria de escrever. Outra coisa notável é a impecável ética de Bair, tanto a lidar com as suas fontes (a dado ponto ela explica que todas as informações que entraram na biografia de Beckett tinham de ser confirmadas por pelo menos três fontes diferentes, às vezes cinco) como com as pessoas que são próximas de Beckett e Beauvoir (a maior parte delas personalidades nada fáceis, uma excepção notável é a irmã de Simone de Beauvoir, a pintora Hélène de Beauvoir).
Há qualquer coisa de profundamente comovente no cuidado com que Bair recorda a sua história com estes dois gigantes da cultura contemporânea, retratados nos seus habitat parisienses, um pouco fora da carapaça dos mitos em redor deles, com uma objectividade que consegue descrevê-los a uma escala humana, com qualquer coisa de solene e cómico, na sua imensa importância mas também nas suas vulnerabilidades, e talvez – talvez – sem ponta de voyeurismo. Há um nível um pouco mais profundo em que Parisian Lives não é tanto um livro sobre a proximidade de Deirdre Bair de Samuel Beckett e Simone de Beauvoir, mas sobre a intimidade de uma escritora com os temas dos seus livros, sobre o cuidado com que um escritor precisa de se questionar a si próprio e definir o grau de objectividade que é necessário para essa delicada operação que é falar das vidas e obras de outros com justiça e acuidade.
