Baudelaire

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Delmore Schwartz, em Screeno: Stories and Poems (New Directions, 2004).
Tradução de Tatiana Faia

Quando adormeço, ou mesmo durante o sono,
Ouço, muito distintamente, vozes que dizem
Frases inteiras, lugares-comuns e triviais,
Sem qualquer relação com os meus assuntos. 

Querida mãe, será que nos resta ainda algum tempo
Para sermos felizes? As minhas dívidas são imensas.
A minha conta bancária está sujeita às sentenças dos tribunais.
Não sei nada. Não posso saber coisa nenhuma.
Perdi a habilidade de fazer um esforço.
Mas agora como antes aumenta o meu amor por ti.
Estás armada para me apedrejar, sempre:
É verdade. Isto data da infância. 

Pela primeira vez na minha longa vida
Estou quase feliz. O livro, quase terminado,
Quase parece bom. Durará, um monumento
às minhas obsessões, ao meu ódio, ao meu nojo. 

Dívidas e inquietude persistem e enfraquecem-me.
Satanás paira diante de mim, dizendo docemente:
“Descansa por um dia! Hoje podes descansar e divertir-te.
Trabalharás à noite.” Quando chega a noite,
A minha mente, aterrorizada por pagamentos em atraso,
Aborrecida de tristeza, paralisada de impotência,
Promete: “Amanhã: trabalharei amanhã.”
Amanhã a mesma comédia encena-se a ela própria
Com a mesma resolução, a mesma fraqueza. 

Estou farto desta vida de quartos mobiliados.
Estou farto de ter constipações e dores de cabeça.
Conheces a minha estranha vida. Cada dia traz
A sua prestação de ira. Tu sabes pouco
Da vida de um poeta, querida mãe: tenho de escrever poemas,
A mais cansativa das ocupações. 

Estou triste esta manhã. Não me censures.
Estou a escrever no café perto da estação de correios,
Entre o clique das bolas de bilhar, a algazarra dos pratos,
O martelar do meu coração. Pediram-me para escrever
“Uma história da caricatura.” Pediram-me para escrever
“Uma história da escultura.” Deverei escrever uma história
Das caricaturas das esculturas de ti no meu coração? 

Ainda que te custe uma agonia sem conta,
Ainda que não possas acreditar que é necessário,
E duvides que a quantia esteja certa,
Por favor envia-me dinheiro que chegue para pelo menos três semanas.

Yosano Akiko, "Dores de Parto"

Hoje estou doente,
doente no meu corpo,
de olhos abertos, emudecida,
estou deitada na cama de parto.

Porque é que eu,
tão acostumada à proximidade da morte,
da dor, do sangue, do grito,
agora tremo incontrolavelmente de temor?

Um jovem e agradável médico tentou reconfortar-me,
e falou sobre a alegria de dar à luz.
Uma vez que eu sei mais do que ele sobre esta matéria,
de que me serve o seu tagarelar?

Conhecimento não é realidade.
A experiência pertence ao passado
Que se calem então os que carecem de urgência
Que os observadores se contentem com observar. 

Eu estou sozinha,
perfeitamente, inteiramente, absolutamente entregue a mim mesma,
mordendo os meus lábios, segurando o meu corpo rígido,
servindo um fado inexorável. 

Existe apenas uma verdade.
Darei à luz uma criança,
a verdade movendo-se do meu interior para fora.
Nem bom nem mau; real, sem que haja nisto falsidade.

Com as primeiras dores de parto,
subitamente o sol empalidece.
O mundo indiferente fica estranhamente calmo.
Eu estou sozinha.
É sozinha que eu sou.

Cantiga Oitava

O apego vai ser melhor
que a solidão
quase canta assim
e assim carrega o Benjamim
e a gente vai atrás
vai atrás e acredita
a gente pisa nas mais lentas
e baixinhas sílabas
e com elas monta a mensagem
quer ficar nesses emblemas
para guardar e pelos meses
capazes de transportar
naquela rima que fica 
e desenha a cambalhota
da passagem
uma qualquer
e então sim
estilos da malta à janela
fica um bocadinho melhor
na solidão

de Cantigas da Malta à Janela [inédito, 2021]

Deslizar

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Jackson Pollock, Numer 16, 1950

Desde a origem, filo e ontogenética, lançamo-nos em busca de um princípio que guie a nossa existência. Os chamamentos dos princípios de fé, do sucesso ou do prazer, por exemplo, mostram isso. É evidente que não são exteriores às condições bio-sócio-axiológicas, a vida, a sociedade e os valores definem muitas das nossas escolhas. Se é verdade, seguindo Sartre, que não podemos deixar de escolher (escolhe-se, inclusive, o não-escolher), também é certo que não podemos escolher tudo o que nos apetece (um apetite já por si limitado, porque não é o de Deus). Por outro lado, dada a complexidade de existir, de ser-aí no meio do mundo, só um fanático puro conseguiria manter-se nos estritos, e estreitos, limites do princípio escolhido para guia. Ora, sabemos que há muitos fanáticos (sempre excessivos), que o fanatismo ajuda os simplórios a acreditarem que, ilusoriamente, são significantes, mas também sabemos que o fanático puro é um ideal; puro ou impuro, admirável ou repulsivo, consoante o ponto de vista.

Dentro dos princípios existenciais, um domina a existência humana há séculos, embora nunca a oposição tenha sido definitivamente eliminada (e tenha até levado a melhor em certas circunstâncias): é o princípio de enraizamento. Devemos enraizar-nos, na família como no emprego, na sociedade como na confraria dos amigos, nos amores como nos ódios, em nós próprios como nos outros significativos. Daí advém o desprestígio do sobrevoo, do “parecer uma libelinha”, da desconcentração, do superficial; e, inversamente, o prestígio do profundo, do sério, do concentrado, do ser.

Portanto, estar enraizado é estar consolidado, ter uma permanência, uma decência sedentária que nos torna, aos nossos e aos olhos dos outros, confiáveis. Um neo-identitarismo, politicamente bastante evidente, declinado nos mais variados nacionalismos e regionalismos, da esquerda à direita, evidencia esta antropologia do enraizamento (que num campo mítico vai de Ulisses a regressar a Ítaca até ao retorno a Casa dos nossos emigrantes). Mas ultimamente, ressoou cada vez mais claramente um eco que vem de longe e que, embora nas margens, pontuou uma parte da dissidência.

Vislumbra-se o aumento das formas de nomadismo, que numa linha de ação estão mais próximas de Henry David Thoreau e do seu Walden; or, Life in the Woods, desenhando guias para nos depositarmos numa natureza o menos domesticada possível; e, noutra linha, mais próxima do viandante nietzscheano, propõe-se um desenraizamento através de saltos firmes entre lugares que se amam, evitando qualquer tipo de alienação (em Nietzsche, Sils-Maria, nos Alpes, Nice, Turim e um pouco de Basel), onde não nos fixamos o tempo suficiente para ganhar raízes irredutíveis.

É por isso que talvez valha a pena experimentar o princípio do deslizamento contra o do enraizamento. Deslizar é imprimir movimento para não ser capturado, conservar a liberdade, ganhar perspetiva, trabalhar mais facilmente a auto-superação, uma boa deriva (sem a angústia do centro, do abandono). E é também uma forma de não macular o mundo, não o marcar a ferros, não o subjugar, mantendo-se uma vertigem horizontal, habitar mais o horizonte do que o íntimo. Quem desliza reduz o rasto ao mínimo (pense-se no deslizar na neve ou na água), ficar na superfície das coisas, respeitar a sua condição de existência. Sem que deslizar seja sinónimo de um qualquer superficialismo estéril, ficar na superfície deslizando é outra forma de reflexão e de intuição, permite uma compreensão e um comprometimento até mais esclarecedores e intensos do que o de ir às profundezas, onde se privilegiam estratos interiores subjetivos e solitários, em vez dos exteriores, muito mais conectados, integrados no mundo, no tempo e no espaço da história, reais e vivos.