Quatro poemas de "Ancestrale", de Goliarda Sapienza



Goliarda Sapienza

Goliarda Sapienza

Tradução: João Coles



Certo dia duvidei
e em plena luz
comecei
a ver a árvore
o pão
a faca e a tesoura
a madeira
o cobre.


As flores crescem
pelos mortos.
Rego-as à noite
com cuidado.
Espio-as na alvorada
da tua lembrança.


Escuta não há palavras para isto
não há palavras para sepultar uma voz
já fria no seu sudário
de cetim e de jasmim.


Separar juntar
espargir no ar
encerrar no punho
conter
nos lábios o sabor
dividir
os segundos dos minutos
discernir ao cair
da noite
esta noite de ontem
de amanhã

In Ancestrale

Bruno M. Silva, "Toda a noite, o fogo" (lido por José Pedro Moreira)

O poema "Toda a noite, o fogo", de Bruno M. Silva, lido por José Pedro Moreira. Poema do livro A Cabeça em Tróia. Para mais informação ver https://enfermaria6.squarespace.com/bruno-m-silva-a-cabea-em-tria

Daqui à morte será apenas um clamor
e homens à procura de um nome
entre clarões e cavalos doentes
a febre de um deus feroz

mil anos
e chove em Tróia

e daqui à morte serão as mulheres
a inchar como palmeiras
em frente aos espelhos
as crianças a engolir o nome
os barcos presos no sal

Fizemos tudo
trouxemos a palavra, o incêndio
para que nos vissem um rosto saturado de beleza

ainda assim um deus feriu-nos
                                   ainda assim a morte

Tróia, meu deus, toda a noite, o fogo
de manhã, a luz nos meus olhos doentes
e um rosto que das águas emerge puro

Bruno M. Silva, A Cabeça em Tróia (Enfermaria 6, Março 2021)

DJ Enright, O Rebelde

Tradução de Ricardo Marques

Quando toda a gente tem cabelo curto,
O rebelde deixa o seu cabelo crescer.

Quando toda a gente tem cabelo comprido,
O rebelde usa o cabelo curto.

Quando todos falam na sala de aula,
O rebelde não diz uma palavra.

Quando ninguém fala na sala de aula,
O rebelde cria um motim.

Quando toda a gente usa um uniforme,
O rebelde veste-se com roupas exóticas.

Quando toda a gente usa roupas exóticas,
O rebelde veste-se com sobriedade.

Na companhia de amantes de cães,
O rebelde expressa preferência por gatos.

Na companhia de amantes de gatos,
O rebelde fala bem dos cães.

Quando toda a gente elogia o sol,
O rebelde discute a necessidade de chuva.

Quando todos estão a saudar a chuva,
O rebelde lamenta a ausência de sol.

Quando todos vão para uma reunião,
O rebelde fica em casa e lê um livro.

Quando toda a gente fica em casa e lê um livro,
O rebelde vai para uma reunião.

Quando todos dizem, sim, por favor,
O rebelde diz: Não, obrigado.

Quando toda a gente diz, não, obrigado,
O rebelde diz: Sim, por favor.

É muito bom existirem rebeldes.
Ser um deles pode não ser muito bom.


THE REBEL

When everybody has short hair,
The rebel lets his hair grow long.

When everybody has long hair,
The rebel cuts his hair short.

When everybody talks during the lesson,
The rebel doesn’t say a word.

When nobody talks during the lesson,
The rebel creates a disturbance.

When everybody wears a uniform,
The rebel dresses in fantastic clothes.

When everybody wears fantastic clothes,
The rebel dresses soberly.

In the company of dog lovers,
The rebel expresses a preference for cats.

In the company of cat lovers,
The rebel puts in a good word for dogs.

When everybody is praising the sun,
The rebel remarks on the need for rain.

When everybody is greeting the rain,
The rebel regrets the absence of sun.

When everybody goes to the meeting,
The rebel stays at home and reads a book.

When everybody stays at home and reads a book,
The rebel goes to the meeting.

When everybody says, Yes please,
The rebel says, No thank you.

When everybody says, No thank you,
The rebel says, Yes please.

It is very good that we have rebels.
You may not find it very good to be one.

D. J. Enright (1974, s.l.)

2 poemas de Pentti Saarikoski

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amo-te

como um país estrangeiro

                penhascos e ponte

como uma noite solitária que cheira a livros

         caminho até ti no mundo

    sob a atmosfera

entre duas luzes

o meu pensamento que é esculpido e tu.

 

 

 

está um belo dia

mulher com olhos dourados

e vento que anuncia a primavera à humanidade

 

sob as pálpebras um lugar fresco

o vento sopra através

da retina dourada

 

as maçãs crescem grandes

crianças atiram-nas contra a árvore

depois de Setembro vem Maio pela segunda vez neste ano.

 

 

Pentti Saarikosko, Mitä Tapahtuu Todella? (1962)

 

 Traduzido do finlandês por João Bosco da Silva

Bruno M. Silva, A Cabeça em Tróia

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Bruno M. Silva

A Cabeça em Tróia

poesia

Enfermaria 6, Lisboa
Março de 2021, 52 pp

Posfácio de Pedro Eiras

Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha

8€

 

Não há caminhos, não avisto luz nas veredas
sob os montes há apenas as vozes dos lugares
e o peso que o amor faz sobre os trilhos

 

Bruno M. Silva

Bruno M. Silva nasceu em 1990, no Porto. Estudou Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem poemas publicados na revista Ler, na Enfermaria 6, na Tlön, na Eufeme, na escamandro, na Gazeta de Poesia Inédita e no Jornal Universitário do Porto. Três dos seus poemas foram traduzidos para espanhol de forma a integrarem a antologia Lluvia oblicua. Poesía portuguesa actual, pela Valparaíso Ediciones. Venceu a 17ª edição do concurso Aveiro Jovem Criador 2018 com o conto O Que São os Mortos?.

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