Gilgámesh, Enkídu (dois poemas do novo livro de João Gabriel Madeira Pontes)

Gilgámesh

Os bichos fogem à distância

Não nasci do silêncio
nas estepes ou da argila morna
da Mesopotâmia

A água não alegra os meus sentidos
mas o pão, a cerveja e esta cidade

que alguém lhe trouxe da feira
depois de apostar todo o salário na loteria

e perder a quina premiada.


Enkídu

 Há quem duvide disto

mas a criação da humanidade
não pode ser mero fragmento
na epopeia particular do herói

não importa qual herói
não importa qual humanidade

De toda maneira
dramas, façanhas e fiascos
quase sempre se acabam
em palavras estéreis

que devem ser batidas no liquidificador
com um toque de lima-da-pérsia
e uma pitada trágica de benzedrina

Os salões dos museus
também são alternativas viáveis

Destinado a ser o orgulho da Suécia
na guerra contra a Polônia
o navio Vasa afundou
em sua viagem de estreia

Hoje não passa de quinquilharia colossal
em algum museu de Estocolmo

Diz uma de suas biografias que, em visita
à capital sueca, Wisława Szymborska
comentou, referindo-se ao Vasa:

“É muito lindo quando, depois
de um conflito bélico entre nações, resta
apenas uma exposição num museu.”

Anos antes, os futuristas
clamaram por heróis
que glorificassem a guerra
e destruíssem os museus

Para eles, não eram simples palavras.

João Gabriel Madeira Pontes, Manobra de Heimlich, 7 letras, 2021

Make Holywell great again [um poema do novo livro de José Pedro Moreira]

tumblr_0657da1ebb501d3c147e1ea7164a7067_03bd38f0_2048.jpg

para Shirley e Gordon Clark

 

1

quando terminou
a peça de Clara Schumann
e depois dos aplausos
o pianista se levantou
para apresentar a obra
de uma jovem compositora
Natalie Klouda
(n. 1984)
Mrs. Regan
agora convertida
em futura viúva
de um matemático britânico
não conteve
a sua indignação
e abandonou a sala em protesto
contra o progressivo aviltamento
dos padrões artísticos
da Holywell Music Room
a mais antiga
sala de concertos
da Europa
espalhando
à sua passagem
a redolência violenta que leva
alguns de nós
a evitar
o lado este da sala

 

2

o que me trouxe à memória
o dia
em que pela primeira vez ouvi
os Carducci Quartet
tocarem
o Oitavo Quarteto de Cordas
de Shostakovitch

Mrs. Reagan
alardeava triunfante
um cachecol vermelho
ainda mais nauseabundo

insuportável
aquele Shostakovitch
porque é que ele não se matou logo
e nos poupou o sofrimento?
mas o Beethoven que tocaram a seguir
era muito agradável

 

3

debatendo-se com os sintomas iniciais
de esclerose lateral amiotrófica
forçado a tornar-se membro
do Partido Comunista
Shostakovitch
fechou-se num apartamento em Dresden
e no espaço de três dias
12 a 14 de Julho de 1960
compôs
o que ele julgara ser
uma nota de despedida
um epitáfio que fala
da alegria de noivos
suados e exaustos
mas por fim reunidos
na conclusão
da mitzvah tantz
de aventureiros de mascarilha
em arriscadas cavalgadas nocturnas
por entre bosques românticos
da mão do assassino
seca e tremente
cada vez mais incapaz
de tocar o piano

no centro está
um homem sozinho
fechado numa casa
a chorar
a sua miséria

lá fora
chovem bombas

quando as iluminações cessarem
da cidade
restará apenas
a linha do violoncelo

 

 4

a saída é sempre penosa
anciãos venerandos
recusam deixar o assento
arrastam os pés em protesto
adiando o mais possível
pagar o preço
que a cidade impõe
aos que se refugiam
na terra da música

se um dia houver um fogo
morremos aqui todos
diz-me o Professor Clark
e sorri
um homem sábio
sabe
como negociar
as pequenas derrotas
como quando
teve de correr pelas ruas de Tóquio
em fuga
de um grupo de bacantes
em frenesim
por o terem confundido
com Harrison Ford

chegados por fim à rua
a Shirley abraça-nos
até para a semana meus queridos

e de cada vez
nos sentimos
um pouco menos estrangeiros

José Pedro Moreira, Por favor não dê de comer aos unicórnios, não edições, Junho de 2021

Sobre o autor

Nasceu em Lisboa, em 1983.

Vive em Oxford.

Publicou traduções do 'Agamémnon' de Ésquilo (Artefacto Edições, 2012) e de Catulo (juntamente com André Simões, Livros Cotovia, 2012). Em 2020 foi publicada a sua tradução dos 'Hinos Homéricos' (juntamente com Tatiana Faia e Miguel Monteiro).

É um dos fundadores e editores da Enfermaria 6 (www.enfermaria6.com).

Em 2018 publicou o seu primeiro livro de poesia, 'Gatos no Quintal'. O seu segundo livro, 'Porque canta um pequeno coração', seria publicado na Colecção Mutatis-mutandis da não (edições) em 2019.

"Entrevista sincera com Pier Paolo Pasolini sobre o mundo, a arte, o marxismo", por Laura Bergagna (1968)

Retrato de Pasolini por Graziano Origa, 1972

Retrato de Pasolini por Graziano Origa, 1972

Tradução: João Coles


Porque é que protesta constantemente, senhor Pasolini?

Porque protestar é a função dos literatos.


Então protestaria mesmo que não houvesse nada por que protestar?

A génese de um escritor está codificada por leis biológicas. Desde crianças que os escritores se assemelham entre si, como os loucos. Têm em comum a sensação de estarem excluídos do mundo.


Sente-se excluído do mundo?

Não, eu estou lindamente no mundo, acho-o maravilhoso, sinto-me preparado para a vida, como um gato.


Então porque é que protesta?

É da sociedade burguesa que não gosto. É a degeneração da vida do mundo. Hitler foi o produto típico da pequena-burguesia.


E Estaline?

Estaline também é um produto pequeno-burguês.


E Atila?

Atila era uma força descontrolada da natureza. A sua atrocidade não se disfarçava de justiça, de ordem.


O que pensa de Che Guevara?

Parece-se demasiado a Hemingway para o meu gosto.


De que é que não gosta em Hemingway?

Do burguês que troca o seu desassossego, por muito nobre que seja, por uma palingenesia, o seu moralismo pequeno-burguês por moralidade revolucionária. Isto é também o que me ofende com Che Guevara, a sua atitude arbitrária e respeito pré-estabelecido pela revolução.


Conheceu-o?

Não, li o que dele escrevem os jornais. Mas sinto que seja assim.


Como gostaria que fosse o mundo para que lhe agradasse?

O mundo agrada-me tal como é. Teria dito em tempos que gostaria de uma sociedade socialista. Mas agora estou desiludido.


Há um homem, uma sociedade no mundo que o satisfaça?

Indicaria Fidel Castro e Cuba.


Conhece bem Fidel Castro e Cuba?

Não.


Porque não vai conhecê-los?

Não tenho tempo, tenho de trabalhar.


As suas opiniões políticas, dada a sua celebridade, têm grande ressonância. Não se sente responsável pelo efeito que podem ter?

Ignoro ser uma pessoa com poder de representação e gostaria de reservar-me o direito de errar. Se eu fosse a Cuba e me apercebesse de me ter enganado, di-lo-ia.


Acredita numa moral?

Eu acredito numa moral contra o moralismo burguês. Qual é a diferença? Explico-lha: o moralista diz não aos outros, o homem moral di-lo somente a si mesmo.


Diz não a si mesmo?

Isso é conversa fiada.


Prefere então falar das férias? Onde vai de férias?

Não vou de férias. Nunca vou.


É um não que diz a si mesmo?

Não tenho tempo para férias. Tenho muito trabalho para fazer. O trabalho é uma obsessão, não consigo desprender-me dele.


Talvez seja uma evasão.

Digamos antes uma droga?


Porque é que se droga?

Já lhe expliquei. A minha relação com a sociedade histórica em que me encontro é uma relação infeliz.


Mas disse-me que se sente bem no mundo.

Tenho uma relação maravilhosa com o mundo: a natureza, o amor, pessoas concretas. Também com os pequeno-burgueses. Os meus melhores amigos, as relações mais sólidas, são da burguesia.


Não lhe parece contraditório?

A burguesia, mesmo nos momentos mais horrendos, deu-nos coisas estupendas. Tenho de reconhecer que mesmo hoje em dia a humanidade faz belíssimos quadros, romances, filmes, grandes progressos no saber. Eu nego a ideologia do consumismo. Aquilo que a sociedade contemporânea ainda nos dá de bom e de bonito provém das suas raízes humanísticas, de um mundo antigo, pobre e religioso. Mas a sociedade consumista é irreligiosa e, por conseguinte, árida.


Mas não é ateu?

Sim, sou ateu. Mas as minhas relações com as coisas estão repletas de mistério e de sagrado. Para mim, nada é natural, nem sequer a natureza.


As suas respostas parecem-me abstractas.

Tal como as suas perguntas.


Falemos de si. É tímido?

Sim, sou tímido. Aliás, a bem dizer sou ingénuo, mas ninguém acredita em mim. É penoso viver em mal-entendidos. Acreditaram durante anos que eu assaltei um funcionário de uma bomba de gasolina apontando-lhe uma pistola. É uma angústia viver assim. Acusam-me agora de ter escrito um poema contra os estudantes. Escrevi-o num momento de impulso para uma revista lida por pouca gente. Autorizei mais tarde que um semanário publicasse alguns trechos no âmbito de um debate com jovens. Porém, publicaram-no por inteiro. Quando o vi no semanário já me arrependera de o ter escrito. Eu estou do lado dos jovens, apesar de não aprovar a posição deles à esquerda do comunismo. É uma atitude veleidosa. Nos países onde existem partidos marxistas fortes não se pode prescindir deles sem correr riscos de extremismo que acabam por ser auto-lesivos, como infelizmente aconteceu em França.


Porque é que apresentou o seu Teorema ao Premio Strega para depois o retirar? Diz-se que o retirou porque obteve poucos votos. O que responde?

Não existe um escritor que não apresente a sua obra a um prémio, para dá-la a conhecer, para vencer, para ter uma fonte de lucro. Quanto às coisas graves soube delas depois. O que acontece no Premio Strega já não é uma pequena luta eleitoral, como era dantes, é um jogo em grande plano que se torna perigoso.


O senhor escreveu um guião para um filme e depois fez dele uma obra narrativa para o Premio Strega. Corre o rumor que também o reduziu para uma peça de teatro para concorrer a outro prémio, o Pirandello. Não lhe parece que seja uma exploração intensiva de uma ideia?

Sou um literato e o meu guião já é uma obra narrativa. Não é verdade que vá concorrer ao Premio Pirandello.


Acha bem abolir doravante todos os prémios?

Não, os prémios são necessários para dar a conhecer as obras ao público. Eu e o Moravia fundámos um numa pequena cidade que se chama Zafferano. O que é urgente é garantir que os prémios escapem da indústria cultural.


Moravia, Pasolini, sempre os mesmos. Isto também não é uma forma de monopólio cultural? Como é que em vinte anos ninguém tomou o vosso lugar? Já não nascem escritores dignos de vos substituir?

Se o Ludovico Ariosto fosse vivo, excluí-lo-ia dos júris? É natural que haja uma certa forma de poder devido ao prestígio de um escritor. De resto, o Moravia está a demonstrar que não está ultrapassado, que ainda tem muito para dizer. Se não o conseguem substituir no cume, é porque a sociedade italiana está morta. Uma sociedade pequena e analfabeta produz literatura medíocre. De resto, os jovens não se interessam pela literatura, como demonstra o movimento estudantil. Eu comecei a escrever aos sete anos de idade. Os jovens de hoje sentem-se atraídos por vocações políticas, técnicas… Não quero dizer com isto que estas sejam menos válidas.


Há alguma pergunta que gostaria que lhe tivesse feito?

Gostaria que falasse das coisas sérias que faço. Publiquei um manifesto sobre o teatro na “Nuovi Argomenti”, que me parece inovador e importante, mas caiu em saco roto.


Talvez se espere de si uma nova peça de teatro, em vez de um manifesto novo.

Tenho seis dramas prontos, seis tragédias em verso. Aparentemente o Stabile di Torino vai dar-me a possibilidade de representar uma delas. Mas agora tenho coisas a fazer, estou a preparar o Teorema. Adeus, Sr.ª Bergagna, deixe-me ler a entrevista antes de a publicar.


Adeus, Sr. Pasolini, deixe-me ver o seu filme antes da estreia.

Texto de Laura Bergagna. "Intervista sincera con Pasolini sul mondo, l'arte, il marxismo" 12.07.1968 © La Stampa


"Intervista sincera con Pasolini sul mondo, l'arte, il marxismo"

Perché protesta sempre, signor Pasolini?

Protestare è una funzione dei letterati.



Allora protesterebbe anche se non ci fosse nulla da protestare?

La genesi di uno scrittore è codificata da leggi biologiche. Da bambini gli scrittori si assomigliano tra di loro, come i pazzi. Hanno in comune il senso della esclusione dal mondo.



Lei si sente escluso dal mondo?

No, io sto benissimo nel mondo, lo trovo meraviglioso, mi sento attrezzato alla vita, come un gatto.



Allora, perché protesta?

È la società borghese che non mi piace. È la degenerazione della vita del mondo. Hitler è stato il tipico prodotto della piccola borghesia.



E Stalin?

Anche Stalin è un prodotto piccolo borghese.



E Attila?

Attila era una forza scatenata della natura. La sua atrocità non si ammantava di giustizia, di ordine.



Che cosa pensa del Che Guevara?

Assomiglia troppo a Hemingway per i miei gusti.



Che cosa non le piace di Hemingway?

Il borghese che scambia la sua inquietudine, per quanto nobile, per una palingenesi, il suo moralismo piccolo borghese per moralità rivoluzionaria. Questa è anche ciò che mi offende in Che Guevara, il suo atteggiamento arbitrario e precostituito rispetto alla rivoluzione.



L'ha conosciuto?

No, ho letto quello che scrivono di lui i giornali. Ma sento che è così.



Come vorrebbe che fosse il mondo per piacerle?

Il mondo mi piace così com'è, una volta avrei detto che mi piacerebbe una società socialista. Ma ora sono deluso.



C'è un uomo, una società al mondo che la soddisfi?

Indicherei Fidel Castro e Cuba.



Conosce bene Fidel Castro e Cuba?

No.



Perché non va a conoscerli?

Non ho tempo, devo lavorare.



Le sue opinioni politiche, data la sua celebrità, hanno una vasta risonanza. Non si sente responsabile dell'effetto che possono avere?

Ignoro di essere una persona di rappresentanza e mi voglio riservare il diritto di sbagliare. Se andassi in Cuba e mi accorgessi di avere sbagliato, lo direi.



Crede in una morale?

Io sono per la morale contro il moralismo borghese. Qual è la differenza? Glie la spiego: il moralista dice no agli altri, l'uomo morale lo dice solo a se stesso.



Lei dice no a se stesso? Quando?

Sono domande da salotto.



Preferisce allora parlare delle vacanze? Allora dove andrà in vacanza?

Non vado in vacanza. Non ci vado mai.



È un no che dice a se stesso?

Non ho tempo per le vacanze. Ho molto da lavorare. Il lavoro è una ossessione, non riesco a strapparmici.



Forse è un’evasione?

Diciamo piuttosto una droga?



Perché si droga?

Glie l'ho detto. Il mio rapporto con la società storica in cui mi trovo è un rapporto infelice.



Ma lei ha detto che al mondo si trova bene.

Ho un rapporto meraviglioso col mondo: la natura, l'amore, le persone concrete. Anche con i piccoli borghesi. I miei migliori amici e i più solidi sono nella borghesia.



Non è in contraddizione?

La borghesia, anche nei momenti più orrendi, ha dato cose stupende. Devo riconoscere che anche ai giorni nostro l'umanità fa bellissimi quadri, romanzi, film, grandi progressi nel sapere. È l'ideologia del consumismo che io nego. Quello che la società contemporanea dà ancora di buono e di bello, viene dalle sue radici umanistiche da un mondo antico, povero e religioso. Ma la società consumistica è irreligiosa, e quindi arida.



Lei non è ateo?

Sì, io sono ateo. Ma i miei rapporti con le cose sono pieni di mistero e di sacro. Per me niente è naturale, nemmeno la natura.



Le sue risposte mi sembrano piuttosto astratte.

Come le sue domande.



Parliamo di lei. È un timido?

Sì. Io sono un timido. Anzi, per meglio dire, un ingenuo. Ma nessuno mi crede. È doloroso vivere nel fraintendimento. Per anni hanno creduto che io abbia rapinato un benzinaio puntandogli la pistola. È angoscioso vivere così. Adesso mi accusano di avere scritto una poesia contro gli studenti. La scrissi in un momento d'impulso per una rivista che pochi leggono. Acconsentii poi a che un settimanale ne pubblicasse qualche brano in occasione di un dibattito con dei giovani. Invece l'hanno pubblicata per intero. Quando l'ho vista sul settimanale, ero già pentito di averla scritta. Io sono dalla parte dei giovani, anche se non approvo il loro mettersi a sinistra del comunismo. È un atteggiamento velleitario. Nei paesi dove esistono forti partiti marxisti, non si può prescindere da essi senza rischio di estremismo che finiscono con l'essere autolesivi, come purtroppo è accaduto in Francia.



Perché ha presentato il suo Teorema al Premio Strega, se poi l'ha ritirato? Si dice che l'abbia ritirato perché aveva ottenuto pochi voti. Cosa risponde?

Non esiste scrittore che non presenti la sua opera a qualche premio, per farla conoscere, per vincere, per guadagno. Le cose gravi le ho sapute dopo. Qual che avviene al Premio Strega non è più una piccola lotta elettorale, come una volta. È un gioco in grande, che diventa pericoloso.



Lei ha scritto una sceneggiatura per un film, poi ne ha fatto un'opera di narrativa per il Premio Strega. Corre voce che l'abbia anche ridotta in opera teatrale per concorrere a un altro premio, il Pirandello. Non le sembra uno sfruttamento intensivo di una idea?

Io sono un letterato e la mia sceneggiatura è già opera di narrativa. Non è vero che concorra al Premio Pirandello.



Crede sia bene abolire d'ora in poi tutti premi?

No, i premi sono necessari per far conoscere le opere al pubblico. Con Moravia ne abbiamo fondato uno in un piccolo paese che si chiama Zafferano. Ciò che è urgente, è far sì che i premi sfuggano all'industria culturale.



Moravia, Pasolini, sempre gli stessi. Non è anche questa una forma di monopolio culturale? Come mai in vent'anni nessuno ha preso il vostro posto? Non nascono più scrittori degni di sostituirvi?

Se fosse vivo Ludovico Ariosto, si sentirebbe di escluderlo dalle giurie? Una certa forma di potere dovuta al prestigio di uno scrittore, è naturale. Del resto, Moravia sta dimostrando di non essere un sorpassato, di avere ancora molte cose da dire. Se altri non lo sostituiscono al vertice, è perché la società italiana è morta. Una piccola società analfabeta produce una letteratura mediocre. Del resto, i giovani non sono interessati alla letteratura come dimostra il movimento studentesco. Io ho cominciato a scrivere all'età di sette anni. I ragazzi di oggi sono attratti da altre vocazioni, politiche, tecniche... Con questo non voglio dire che siano meno valide.



C'è una domanda che le piacerebbe io le avessi posto?

Mi piacerebbe che ci si occupasse delle cose serie che io faccio. Ho pubblicato un manifesto sul teatro in Nuovi Argomenti, che mi sembra cosa nuova e importante, ma è caduto nel vuoto.



Forse ci si attende la lei, invece di un nuovo manifesto, un nuovo teatro.

Ho sei drammi pronti, sei tragedie in versi, Sembra che lo Stabile di Torino stia per darmi la possibilità di rappresentarne una. Ma adesso ho da fare, sto montando teorema. Addio, signora Bergagna. Mi faccia legger l'intervista prima di pubblicarla.



Addio, signor Pasolini. Mi faccia vedere il suo film prima che sia rappresentato.



Un testo di Laura Bergagna. "Intervista sincera con Pasolini sul mondo, l'arte, il marxismo" 12.07.1968 © La Stampa

Os besouros

Ora é preciso que as pessoas entrem e saia
 Que vivam por toda a parte, por causa da verosimilhança
                                                      Eu gosto muito da verosimilhança

                                                                                                                                                Herberto Helder

 

 

 

O poeta abre a porta  e  um enxame de besouros
entra pelo poema  em revoada e infesta
a ortografia do silêncio. 

Que nome terá  uma matilha
de insectos zunindo as canelas da métrica  
pérolas negras   atravessando a culpa 
para embater  às cegas   nas paredes... 

Na verdade
antigamente também eu gostava bem mais da verosimilhança.       

A mosca --por exemplo-- é um insecto muito  verosímil
na  esfrega diária de quem fuça a  crosta    aninhando (ternamente)
os ovos  na  face  da ferida.  E as formigas.Um pingo de mel
sobrante do verso e chegam  brilhando ao trilho em perfeita ordem. 
Não fora o bulir apressado    mentiriam as letras   as palavras
ocultos símbolos  
que tempo não houveram de ser
na  ociosa lamúria do verso.  

Ah,
as moscas e as formigas verosímeis
a descerem dos cabelos até ao braço
para  se alojarem perfeitamente credíveis
na infecção poética!
 

Eu também gostava muito ( muito!) da verosimilhança…
até abrir a porta
e um enxame de deus ex machina
me entrar   poema  dentro em revoada  
zumbindo na caligrafia triste do silêncio. 

Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa Escolha e apresentação de Rosa Maria Martelo Porto: Assírio & Alvim, 2020.

image.jpeg

E talvez assim se tenha tornado esse rio subterrâneo que corre na literatura portuguesa, com a sua aluvião de melancolia e música. Podem tentar abafá-lo com acordos ortográficos, políticas educativas, poemas de festival ou de carreira, mas felizmente é muito difícil calar um rio. E o marulhar do seu caudal continua a pressentir-se noutros tempos, noutras vozes.

Inês Dias.

 

“Na poesia, / natureza variável / das palavras, / nada se perde / ou cria, / tudo se transforma: / cada poema, / no seu perfil / incerto / e caligráfico, / já sonha /outra forma.” (OLIVEIRA, 2011, p. 27): O poema “Lavoisier” de Carlos de Oliveira, poeta particularmente querido a Rosa Maria Martelo, poderia ser também um ponto de partida para esta antologia poética. Antologia Dialogante da poesia portuguesa reúne 102 poemas de 44 poetas cujos textos são ordenados numa sequência cronológica que convoca nove séculos de escrita, de Martin Codax a Golgona Anghel, esta antologia mostra-nos um diálogo vivo, ininterrupto e plural: “Podemos pensar a história da poesia, da arte, como um extenso diálogo? Podemos entender a experiência da leitura como um vínculo intersubjectivo, uma forma mediada de amizade? E poderemos entender a escrita como uma prática imergente deste tipo de leitura?” (2020, p. 10) A pergunta de Rosa Maria Martelo encontra também um eco e vibração próximos em algo que a poeta Inês Dias afirma na antologia Refracções Camonianas em poetas do século XXI[1]: “Ninguém existe sozinho, nem escreve sozinho. Existimos e escrevemos com outros vivos, mas também com outros mortos, pois mortos e vivos constituem o mesmo pó, uns e outros, como nos lembra Padre António Vieira num dos seus sermões. É uma corrente de luz, esta, passada de mão em mão – e, se os ossos se tornarão impreterivelmente cinza, o fogo permanecerá”. É uma questão de atenção ativa a esse fogo impessoal que a Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa celebra enquanto contacto e assonância de diferentes vozes. Enquanto criação do texto através da releitura, da reescrita, da homenagem e da correção. Fazem por isso todo o sentido as palavras de Manuel António Pina que Rosa Maria Martelo recolhe na sua apresentação: “Isto está cheio de gente / falando ao mesmo tempo / e alguma coisa está fora disto falando disto / e tudo é sabido em algum lugar”. (2020, p. 8) Contra o fundo do diálogo, da gente falando ao mesmo tempo, contra o fundo do ruído, interessa reter um fio de diálogo vivo, uma corrente de luz, uma incorporação que nos faz crescer conjuntamente e concretamente (algo que não se apaga). Só esse diálogo fica naquilo que tem de impessoal e coletivo. Outra vez em contacto com Carlos de Oliveira um poema não para de nascer e de se transformar, e nisso a voz torna-se plural e só podemos falar verdadeiramente também com a voz dos que nos antecederam. A atenção a esse diálogo vivo faz de Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa um texto central para aprofundar as relações intertextuais da poesia portuguesa  e para perceber o seu contacto com a tradição, diálogo que se faz de rupturas e  de continuidades, cada texto como uma homenagem hipertextual a outros textos sem os quais não poderia existir, uma homenagem dinâmica, transformadora em que a leitura implica uma releitura e reescrita, e nisso é de vital importância o sentido de uma leitura viva que Rosa Maria Martelo privilegia: na sua origem, a palavra legere possuía a conotação de escolher (eleger), nesse sentido ler é para o conjunto dos poetas representados um processo ativo, de escolha em que leitura é acima de tudo um processo ativo e vigilante, de reescrita, em que a polaridade leitura/escrita perde os seus contornos para se manifestar como parte de um processo criador e unitário de transformação e revitalização da linguagem. Em Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa, Rosa Maria Martelo mostra um olhar atento, empático e original a esse diálogo, feito de nuances, linhas que se cruzam, aderências, e iluminações de um contacto textual que é também um contacto físico, o sonho da palavra como parte do tecido do mundo.

Iluminar esse diálogo torna-se assim vital, o exercício proposto é por isso de uma iluminação que pede que paremos e consideremos cada um desses vínculos que se põem em evidência e os vejamos como parte de um processo dinâmico, continuo indissociável da procura de novas formas, um ato que nos faz crescer. De uma outra forma Elias Canetti nos afirmaria que “o poeta é o guardador de uma metamorfose” (CANETTI, 1979, p. 241). Mostrar como o poema sonha já com outra forma, também ela física, é parte inerente da natureza deste livro, que nos mostra a importância de ler como um processo de escolha, uma forma múltipla geradora de empatia e uniões, cabe-nos pensar nesse fio, segurar um pouco nele, e lê-lo devagar é uma forma de homenagem e por isso uma forma de bendição.

 

Referências Bibliográficas:

 

CANETTI, Elias. The conscience of words. New York: The Seabury Press, 1979.

MARTELO, Rosa Maria. Antologia Dialogante de Poesia Portuguesa. Porto: Assírio & Alvim, Documenta, 2020.

OLIVEIRA, Carlos de. Trabalho Poético. Porto: Assírio & Alvim, 2011.

DIAS, Inês. em Refracções camonianas em poetas do século XXI. Coimbra: Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos, 2021. [Em fase de publicação].


[1] Texto em fase de publicação, organizado pelo Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos da Universidade de Coimbra.