Os sapatos

Natalia Ginzburg, numa fotografia de Leonardo Cendamo em que não está a usar sapatilhas.

Natalia Ginzburg, numa fotografia de Leonardo Cendamo em que não está a usar sapatilhas.

Os sapatos são quase uma colecção de boas e más ideias. São também a memória de por onde andaram, a interrogação acerca de onde ainda podem ir. Reparo que os meus sapatos são sobretudo de ténis. Não sei porquê. Gosto de sapatos de ténis e gosto de sapatos que, não sendo sapatos de ténis, se parecem com sapatos de ténis. Qualquer coisa nos sapatos de ténis é sobre conforto e desadequação, imaturidade e perpétuo movimento.

Pergunto-me com que sapatos se terá apanhado Dante naquele bosque no meio do caminho da vida. Pergunto-me isto porque um dia na apresentação de um livro ou num colóquio qualquer, lá pelos inícios da segunda juventude, fiquei sentada ao lado do Vasco Graça Moura e reparei que ele estava a usar um par de ténis brancos (eram de lona ou não? não me lembro). Acho que foi isso que materializou para mim a noção de que os ténis podiam ser objectos de intelectuais.

Tenho dois pares de sapatos literários favoritos, mas não são talvez os que se imagina. Um desses pares é o que é mencionado no início de Conversazione in Sicilia de Elio Vittorini, um livro sobre anos violentos em Itália, quando os fascistas tomaram o poder. Lemos, nas primeiras páginas, que o narrador não tinha vontade de procurar ou de falar com ninguém, que se esquecia da vida e que os seus sapatos se enchiam de água. Penso que os sapatos a encherem-se de água são símbolo do desconforto, da pesada incerteza – abstractos furores, como lhe chama o narrador –, que paira sobre o princípio do romance e que traduzem a parálise de um tempo de medo, sem direcção aparente. São talvez a prefiguração de um afogamento.

Os outros sapatos literários que admiro e me comovem são também italianos e vagamente do mesmo período. São mencionados no ensaio “Le Scarpe Rotte” de Natalia Ginzburg. Esse texto foi escrito em Roma, no Outono de 1945, e está coligido em Le Picolle Virtù. Eis o primeiro parágrafo:

Io ho le scarpe rotte e l'amica con la quale vivo in questo momento ha le scarpe rotte anche lei. Stando insieme parliamo spesso di scarpe. Se le parlo del tempo in cui sarò una vecchia scrittrice famosa, lei subito mi chiede: «Che scarpe avrai?» Allora le dico che avrò delle scarpe di camoscio verde, con una gran fibbia d'oro da un lato. 

Este é um texto típico dos temas e do estilo de Natalia Ginzburg. As personagens são ao mesmo tempo melancólicas e divertidas (como ela própria dizia que as suas personagens eram sempre). Fala-se de sapatos para falar de hábitos, de família (os sapatos de família são sólidos e sãos), para caracterizar a escassez e a pobreza geradas pela guerra, para falar de cuidado e de amizade. Na descrição da degradação e persistência dos sapatos que as duas mulheres usam há uma metáfora de sobrevivência, nem assim tão bem escondida, que no fim do ensaio se concretiza na forma como Ginzburg acaba a imaginar que tipo de sapatos os filhos dela hão-de usar.

Este tipo de descrição, que se demora nos pormenores exteriores e que apenas indirectamente se torna caracterização psicológica, é outra marca do estilo de Ginzburg. As suas descrições mantêm sempre um afastamento objectivo, uma distância onde se vão acumulando e juntando coisas até que incisivamente se revela algum pormenor agudo e inescapável sobre aquilo que ela está a descrever, qualquer coisa que emerge como uma verdade necessária – isto vê-se, por exemplo, na descrição minuciosa das várias expressões do léxico com que o pai fala com os filhos em Léxico Familiar ou nas digressões existencialistas com que Cenzo Rena descreve as outras personagens em Todos os Nossos Ontens.

Esta técnica de acumulação às vezes passa a método para nos deixar entender uma personagem vista de todos os ângulos possíveis. Isto acontece, por exemplo, com Alessandro Manzoni, em A Família Manzoni. O escritor de I Promessi Sposi é uma figura tão imensa que Natalia Ginzburg só o consegue abarcar através da descrição de todas as personagens que o rodearam: pai, mãe, filhos, netos, genros,... e mesmo assim temos a impressão que nunca chegamos a entender Alessandro Manzoni.

Esta caracterização objectiva e cumulativa, tensa, aparece de um modo muito comovente na descrição de Cesare Pavese (de quem ela contava que uma vez ele lhe disse: “pára de ter filhos e põe-te mas é a escrever”) e do marido, Gabriele Baldini, nos ensaios “Rittrato d’un amico” e “Lui e Io,” respectivamente, ambos coligidos em Le Picolle Virtù.

Sobre Gabriele Baldini, em “Lui e Io,” Natalia Ginzburg nota que ele raramente comprava sapatos, embora tivesse um número gigante de camisas e gravatas. Diverte-me esta observação minuciosa, quase tanto quanto outra, que aparece noutro ensaio no mesmo livro, sobre Inglaterra, em que ela diz que os sapatos que se veem nas montras das sapatarias londrinas fazem mal aos pés só de olharmos para eles. Tento lembrar-me dos primeiros sapatos que comprei em Inglaterra e se eram desconfortáveis, mas do que me lembro melhor nesse ensaio é daquela frase, de uma certeza que me perturba, em que Natalia Ginzburg escreve que Inglaterra é um país que não muda as pessoas, que elas se tornam mais o que são, ou permanecem as mesmas. Penso que isto não é verdade, ou que entra noutra discussão, que me aborrece um pouco, sobre se alguém pode mudar de facto ou não. Eu creio que sim e fica implícito que Natalia Ginzburg também, exceptuando que o que as mudaria não seria Inglaterra.

Suspeito que os primeiros sapatos que comprei em Inglaterra não eram nada desconfortáveis, porque penso que talvez tenham sido um par de Camper que duraram pouco, ou menos do que eu tinha esperado, arruinados pela chuva inglesa e por umas intermináveis caminhadas numa Paris igualmente chuvosa. Não sei que sapatos lhes sucederam. Não sei se foi aí que entraram em cena umas botas de couro, com ar de sapatilhas, leves, aparentemente não muito resistentes, fabricadas no Porto, mas compradas algures numa tarde de dilúvio em Londres. Não sei bem, mas quase que duraram para sempre, e entristece-me que estejam agora muito arruinadas. Houve uma vez em que um sapateiro inglês as declarou um caso perdido, numa altura em que quis substituir-lhes as solas demasiado gastas em vez de as deitar fora. No entanto, um sapateiro megalomaníaco de Lisboa tornou a trazê-las à vida.

As ideias erradas que tenho sobre a capacidade de resistência dos sapatos aos dilúvios e às longas caminhadas dão sinal da má-fé que mantenho perante a aceitação dos limites naturais das coisas, e talvez denunciem um certo espírito lírico, ao mesmo tempo melancólico e cómico, quanto às possibilidades deixadas em aberto por todos os caminhos que serão percorridos por sapatos que ainda estão por vir.

 

Oxford, 11 de Outubro de 2021

Leonard Cohen, fotografado por Dominique Isserman nos Jardins du Luxemburgo, talvez em 1981 ou 1984, a acender um fósforo na sola dA Bota.

Leonard Cohen, fotografado por Dominique Isserman nos Jardins du Luxemburgo, talvez em 1981 ou 1984, a acender um fósforo na sola dA Bota.

"Crocodilo, Dundee" e "Itália, vulcão", de Gabriela Gomes

CROCODILO, DUNDEE

já estamos demasiado velhos para fazer os mochilões
e mesmo assim andamos como crocodilos pelos
mercados de marrakech
olhando roupas de odalisca
que é o que pensamos que se vende em marrakech
e também temperos coloridos e açafrão

também costumamos pensar que se formos à índia agora
já disfarçados de outro animal
podemos ser como uma cobra ou como a vaquinha maribela
se fôssemos agora à índia
nos desapontaríamos ao perceber que o curry não existe

às vezes sonho que uso os quatro membros
como o meu meio de transporte
na maioria das vezes corro como uma chita
na savana da namíbia
mas hoje sonhei que me rastejava pelo mercado de fez
como um crocodilo gordo e pesado
procurando pedras preciosas

estamos demasiado velhos para fazer os mochilões
mas mesmo assim conseguimos matar as pessoas
com os pesos de nossos corpos


ITÁLIA, VULCÃO

andávamos por ruas tortas e parávamos sempre no mesmo lugar

a itália presente aqui
presente aí
enquanto eu
andava pela via dei poeti por entre as paredes
todas elas amarelas todas elas laranjas todas elas cor de tijolo tijolo
todos eles um pedaço de telha que é um pedaço de casa e você
alla nostra casa
chegando na sua própria cidade invisível,

você

você que precisa visitar, construir telha a telha a sua cidade
invisível e torná-la visível a itália na língua na cor da telha a itália
na língua na massa enrolada na ponta do garfo do molho no pão
(do pão no molho)
a itália
até

você

enquanto você chegava nessa itália
eu longe
caminhava nas mesmas ruas da itália entrava nas cantinas e ouvia
ciao bella arrivederci buongiorno e a língua que grita é a língua
me rasga e me rompe num início de primavera

é a língua que me queima e arde
e me faz

a língua

me faz querer servir bolonhesas dobrar tortellinis cortar na ponta
da faca com a mesma ponta do dedo cortar os pequenos pedaços
dobrar os ravioles miúdos ralar o queijo e unir no molho a
língua que fala e a língua que come a pequena cidade da pequena
(grande) nonna que fala alto que grita a língua que rasga em mim
e eu que chegava à casa da nonna e decidia como quem foge de
ti que é para cá que venho e que sem saber você por aí construía
com a mesma língua que enrola que rasga que grita a sua nova
cidade a cidade invisível mais vermelha que já vi
e talvez bolonha seja mesmo a cidade vermelha da história de
gerião e herácles
e talvez seja mesmo a cidade invisível mais vermelha que já vi

todas nós chegaremos em algum momento na itália
nem que seja pelo vulcão

Sísifo para lá da montanha

Mito de Sísifo.jpg

Em 1942, Camus publica o Mito de Sísifo (Le Mythe de Sisyphe). Fascina-o sobretudo a descida da montanha, depois de Sísifo ter sido vencido, uma e outra vez, perto de chegar com o rochedo ao topo (que provavelmente não existe). Foi esse o castigo dos deuses por tê-los desafiado. Daí que no final do ensaio diga a célebre, e celebrada, frase: «É preciso imaginar Sísifo feliz» (Il faut imaginer Sisyphe heureux). Porque no retorno incessante ao ponto de partida, Sísifo torna-se «superior ao seu destino». «Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa». Assumindo o seu destino, a sua fatalidade, Sísifo torna-se superior aos deuses, a própria luta chega para preencher o coração do homem, trazendo, paradoxalmente, sentido ao absurdo da existência. O absurdo é um dos pilares do existencialismo, representado por Camus, Sartre, Ionesco, Beckett, Genet e, entre outros, embora à sua maneira, Vergílio Ferreira.

Este último, por enquanto esquecido, escreve: «Sísifo não é ridículo, nem cobarde, nem estúpido, porque é grande na sua miséria, porque é corajoso em não desistir, porque é clarividente e sabe que o alto da montanha fica sempre para lá do alto da montanha.» («Da Fenomenologia a Sartre») Portanto, não é tanto o reconhecimento de uma fatalidade (universal talvez, encontramos facilmente o eterno retorno nas nossas vidas) que mitiga o absurdo da existência, mas um pensar que nos eleva acima do destino. O pensar pára [insisto no acento] o movimento, exclui-nos do movimento, permite-nos ver ao mesmo tempo a nossa fatalidade e para lá dela. E quando, em Alegria Breve, Vergílio escreve, dando voz a Ema (é relevante que seja uma personagem feminina), que «Todos os caminhos são bons, desde que sejam caminhos», elucida-nos sobre sermos lançados para caminhos que não desenhamos ou escolhemos, mas que depois tornamos caminhos nossos ao vermos para lá deles.

Noutros termos: ninguém se safa da vidinha, cheia de eternos retornos, mas se ao lamento acrescentarmos «há vida na vidinha» (uma forma de estabelecermos um «para lá», ou, com Vergílio, «A vida está nel[a] como a brasa sob as cinzas» — «Da fenomenologia a Sartre»), então viveremos numa tragédia decente, prontos para múltiplas felicidades e infelicidades.

Por favor não dê de comer aos unicórnios - Recensão

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Longe vão os tempos em que se escrevia ou para «tornar visível o mistério das coisas» (Vergílio Ferreira) ou para, num ato voluntário de militância, mudar o rumo do mundo (Sartre e marxistas, por exemplo). Hoje temos a escrita ortopédica (os celebrados livros de autoajuda), a escrita best-seller (nascida para vencer) ou a escrita curricular (caça às bolsas académicas ou prémios reservados a génios da terrinha). José Pedro Moreira, indiferente ao incandescente, quis, neste livro, ainda mais do que nos anteriores, conversar com os leitores; sem dar lições, fazer revelações esmagadoras ou renovar a língua portuguesa, injetando-lhe metáforas-dinamite. O Zé quis falar connosco, contar-nos uma história engraçada ou perder-se um pouco, de forma reservada, em digressões de autodescoberta (neste livro parece preferir estimular a vida fora de si). Mas com isso marca uma posição no mundo da poesia: a de que devemos pontuar a aparente banalidade da vida com um sentido que a eleve à altura da sagração (cuidado, o sagrado nem sempre é grandioso). E é por esta razão que, embora paradoxalmente, «um unicórnio significa unicórnio». Ou seja, as coisas, todas elas, até a marquise de Cristiano Ronaldo ou O Beijo de Klimt, são o que são, fenómenos puros antes de nos lançarmos sobre eles a golpes de apreciação. É verdade que, por feitio académico, José Pedro Moreira recupera amiúde parcelas da Grécia antiga (às vezes misturando-as com a carne viva da atualidade), mas também aí quer apenas mostrar que as coisas aconteceram de determinada maneira. Tudo isto negociando mais «as pequenas derrotas» do que as jogadas épicas. Ou, regressando à sua condição de e(i)migrante, um estrangeiro que gostaria, como quase todos, de sentir-se um pouco menos estrangeiro, levando o processo de aculturação a sério.

Assim, este livro revela um Zé de braços abertos (embora não escancarados), desviando-se da tendência de se colocarem os braços à frente do peito, formando cancelas, para escrever poesia para dentro (permanece a ideia, nascida num qualquer decreto real, de que o interior é mais nobre do que o exterior). Mais heterográfico do que autográfico, equilibrando-se entre o onírico e o ensaio fenomenológico, o unicórnio e a égua do tio Manel. Sem nunca arriscar um poema onde umas palavras a mais deitassem tudo por água abaixo. É a partir disto, parece-me, que se justifica o discurso direto do título, um pedido singular, feito a cada leitor, para que não alimente unicórnios. Isto porque mesmo se a codificação poética é bastante livre (mas só aparentemente vive no esplendor do arbitrário), as árvores não podem crescer todas tortas.

José Pedro Moreira convoca Bertrand Russell para uma epígrafe, esse progressista conservador que crê que a boa vida só pode ser vivida numa boa sociedade. Uma sociedade com ou sem unicórnios? Os que não conseguem aguentar-se na caixa podem contribuir para uma boa sociedade? Não serão os destravados, os unicórnios desta vida, um empecilho social? Devemos, então, matar os unicórnios à fome? Talvez. Em «Esclarecimentos sobre a natureza dos cavalos» escreve «esperar / que a folia dos unicórnios passe / que o mundo regresse / a um ritmo / mais natural».

É para contribuir para a ordem que o Zé pega no passado trágico, e cruel, com pinças morais, mantendo uma certa distância e escolhendo facto a facto, como quando usamos uma pinça de cozinha para tirar croquetes de um tabuleiro que acabou de sair do forno com metade da fornada queimada.

Em «O belo jogo», o de uma bola chutada pelos pés e pela cabeça (a interdição de a maioria dos jogadores usarem as mãos, membros precisos, foi uma invenção perversa), é um poema que liga bola e guerra, um tratado sobre beligerância e camaradagem. A coragem e a honra matam os melhores nos piores cenários, mas as rivalidades são o cimento clubístico.  No «Esclarecimento sobre a natureza dos unicórnios», trata-se mais de heurística do que de hermenêutica, de nos levar a pensar sobre o ser de um não-ser (o unicórnio é aquilo que não é) do que descrever esse fantasma que agora designa, na boca dos políticos pós-modernos, empresas com um índice muito elevado de fracasso. Contudo, José Pedro Moreira arrisca dizer que foi avistado um na «fronteira irlandesa», esse limiar chuvoso entre amigos/inimigos.

Quando se atreve a um pouco de crítica social, escolhe os «idiotas» para justificar a imperfeição do mundo. Aos idiotas falta autoconceito e sentido da mudança, é assim que se perpetuam. Não são especialmente repulsivos, mas fazem com que haja «dias / em que até / as coisas mais simples /são impossíveis». E há também, prolongando poemas de livros anteriores, o mundo da poesia que se crê para além bem e mal, não por grandeza, mas por bazófia, como quando a Sr.ª Bouvard «decidiu organizar / um festival de poesia / e pediu-nos / um saco de livros». A Sr.ª esteve acima da devolução e do agradecimento, porque o seu tomo poético causou, como era previsível, uma «enorme comoção / entre os guardiães / da Palavra Poética» («Ascensão»). Quem causa comoção a tão altas figuras deve receber, sem gratidão, todos os sacos de livros do mundo. Talvez por isso volte a aparecer no final do livro em «Apocolocintose», ganhando, como era de esperar, um prémio atribuído por um júri loucamente sobrecriterioso. O sistema policial da poesia regressa um pouco depois em «Subsídios para a criação de uma polícia poética», há apelos pungidos a «uma entidade isenta / que certifique / a verdadeira poesia […] aplique coimas / aos que escrevem poemas / sobre escrever poemas».

Irónico, auto-irónico, o Zé faz eco de algumas críticas, reais ou imaginárias, ao seu livro anterior de poesia: Porque canta um pequeno coração (não (edições), 2019). A determinada altura diz: «este poetastro português estrangeiro / ferreiro de versos / sem música nem verdade / gente como ele / não faz cá falta» («carta de um leitor»). Esta espécie de metapoesia tem continuidade numa didascália de «Esclarecimento sobre a natureza dos cavalos»: «o poema / não é / uma esfinge / à espera / de ser interrogada / é um campo de batalha / que deve ser conquistado / e todos os métodos / são legítimos». Há também, num relâmpago autobiográfico que ajuda (será?) a perceber o ofício de poeta, uma genealogia da sua vida acompanhado por Dostoievski.

Por favor não dê de comer aos unicórnios, parcialmente resumido no que acabei de escrever, parece abrir para uma nova ecologia a partir de «Graceful errors». Li a partir daí uma poesia amiga do evanescente (exceto «Apocolocintose» e «Casa»). Mesmo se há «a certeza irracional / de que o mundo / obedece a leis fixas / que avança / do caos para a ordem» («O prémio lá no fim»). Pergunta-se pelas coisas, com nostalgia, e resta cansaço. Os mortos, em «Raquel», são guardados em caixas e «uma vez por ano /abrimo-las / para deixar / entrar o ar».

Por último, num desfecho que parece dizer «não levem isto do cansaço, do irrelevante e da morte muito a sério», José Pedro Moreira compõe um quadro sobre a alegria de viver, esses momentos mágicos, e até um certo ponto negacionistas (como se poderia viver sem alguns filtros hedonistas?), que pegam nas coisas banais do dia a dia e lhe dão um movimento epicurista. Em «Casa», começamos com a nostalgia das origens, cores, cheiros, palavras, família. Mas depois um riso semelhante ao da criança de Zaratustra enche os pequenos corações exilados «e a Tatiana / verte nos copos / o que resta / da garrafa de Papa Figos». 

Nadar

 

Para Antonella Di Marzio,
que nem nunca me disse se gosta de nadar.

Há aquele poema da Sophia em que ela diz que quando morrer voltará para viver todos os momentos que não viveu junto do mar. Penso também que, se desse, queria voltar para nadar em todas as extensões de mar em que não vou conseguir nadar. É um pouco o mesmo dos livros que não vai dar para ler. O filósofo alemão Lessing dizia que a diferença entre a pintura e a poesia é que uma se desdobra no tempo e a outra no espaço, mas de cara na linha de água tenho sempre a impressão que nadar é alguma espécie de soma das duas coisas: tempo e espaço claramente desaparecem um no outro à medida que os braços e as pernas se movem na água. Cresci longe do mar e comecei a aprender a nadar cedo, numa piscina construída dentro de um pinhal, por onde se chegava de bicicleta, por uma estrada de terra batida que era mal iluminada e, por isso, era preciso ter especial cuidado no inverno. Havia um instrutor que era um oficial da marinha, um homem alto e bem-parecido e por quem as minhas quatro ou cinco colegas se apaixonaram todas na viragem da infância para a adolescência. Eu não, porque tinha parado de nadar. A adolescente chata que eu fui andava de nariz escondido dentro dos livros de latim. Esqueci-me de nadar e, consequentemente, da vida algures entre a primeira e a quinta declinação e os exercícios de tradução das Filípicas. Não me lembro bem se os romanos, mortos há séculos, mas para quem o mar era tão importante, só me fizeram voltar a pensar em nadar quando cheguei àquela imagem no De Rerum Natura de Lucrécio:

Suave, mari magno turbantibus aequora ventis,
e terra magnum alterius spectare laborem;
non quia vexari quemquamst iucunda voluptas,
sed quibus ipse malis careas quia cernere suave est.

(“Pleasant it is, when on the great sea the winds trouble the waters, to gaze from shore upon another’s great tribulation: not because any man’s troubles are a delectable joy, but because to perceive what ills you are free from yourself is pleasant,” na tradução, um pouco tosca mas inteligente (não me convence o pleasant por suave), de W.H.D. Rouse na Loeb.)

O equipamento de natação passou a andar dentro da mochila talvez às quartas ou às sextas-feiras, não me lembro bem, quando o terror das provas globais no primeiro ano da secundária passou. O equipamento viajava pouco mais de cem quilómetros por dia entre o liceu e a piscina, para que eu pudesse nadar um pouco já de noite, fora da hora da minha turma normal. E não me lembro de quase nada daquelas sessões de natação, excetuando o edifício da piscina aceso entre os pinheiros e a libertação do corpo no mergulho da prancha, aqueles poucos segundos de voo, a pressa em entrar dentro de água e em começar a mexer-me porque era preciso aquecer. Lembro-me do falhanço espetacular de entrar de chapão, um erro que nem sempre se evita. Quando mais tarde vim a ler As Memórias de Adriano da Marguerite Yourcenar achei que o ritual daquele mergulho tinha de ter qualquer coisa que ver com uma das últimas frases do romance, quando se diz que é preciso entrar na morte de olhos abertos; e só muitos anos mais tarde, a destoar entre um bando de turistas americanos diante do túmulo do mergulhador em Paestum, vi claramente a alegria simples de um mergulho de colunas em esquema para uma água esquemática. A alegria do último mergulho como coisa banal no mundo dos vivos e metáfora de entrada no mundo dos mortos.

Túmulo do Mergulhador, Paestum, ca. 470 a.C.

Túmulo do Mergulhador, Paestum, ca. 470 a.C.

Havia nadar nas piscinas da Cidade Universitária durante o curso e no Atlântico enquanto vivi em Portugal. Havia as diferenças entre nadar nas praias de Lisboa e do Porto. Há muito tempo que não entro no mar em Portugal. Não gosto de nadar no Atlântico. É demasiado frio, mas tenho alucinado noutras piscinas e noutros mares as ondas e as correntes, a beleza cortante de nadar num estado de alerta que é uma resposta consciente a sentir à nossa volta o campo de forças de um elemento que nos ultrapassa completamente. A última vez que senti algo como isto foi numa praia muito recôndita do norte da Grécia, numa tarde em que no espaço de poucos minutos, de um céu carregado que li mal, uma tempestade de granizo desabou sobre o mar e uma força imensa podia facilmente ter-nos puxado para longe da costa se não tivéssemos sido rápidos a sair. É importante escapar a tempo ao que nos quer destruir, acho, uma coisa que se aprende cedo com a natação e também dá jeito para outras situações. Em Inglaterra as piscinas fizeram-me falta durante o confinamento e durante muitos meses vi gente nadar diariamente no Tamisa, gente indiferente a saber que esses braços de rio são zonas poluídas, com depósitos de resíduos industriais. Via-os entrar e sair da água nas cancelas que estão construídas para os remadores e penso que a solidão dos nadadores é a mesma dos escritores. Não sei que amigo é que me contou que Anne Carson tem sempre de nadar, onde quer que esteja.

Em Oxford, antes do mundo confinado, costumava nadar na piscina da universidade, num sítio que se chama Iffley Road, a que me apeguei porque também lá chegava de bicicleta, mas não por uma estrada de terra batida, e onde filas de sapatos se empilhavam em bancos à entrada porque é proibido entrar calçado. Às horas a que eu aparecia era eu e um grupo de cinco velhinhas que no balneário cantavam em uníssono no fim do treino, em alguma língua que me parecia mandarim, gloriosamente alto e (um pouco menos gloriosamente) nuas, olhando-me com a pena e o desdém que se reserva aos intrusos mais inconvenientes. Em três ou quatro anos de nadarmos juntas, isto é, em faixas adjacentes, nunca trocámos uma palavra. Não sei porquê. Às vezes via-as na sua disciplina cantante e vinha-me à mente uma fotografia de Cartier-Bresson que vi uma vez em Paris, tirada na China, que mostrava estudantes da cidade de Beijing a construírem a piscina da Universidade, a baldes e força de braços numa era para lá de industrializada. Gosto de pensar que tenho nadado em piscinas isentas de crueldade. Às vezes entramos numa piscina e é o que basta para ficarmos sozinhos com a persistência da memória, como sugerem as cenas em que se vê Juliette Binoche a nadar no Bleu de Kieslowski. (Considerações sobre outras piscinas cinematográficas, nomeadamente as que aparecem em La Piscine de Jacques Deray e A Bigger Splash de Luca Guadagnino, vão ficar para crónicas de outra estação porque os leitores da Enfermaria 6 são de todas as idades e porque, infelizmente, o outono inglês é previsivelmente vitoriano.)

Henri Cartier-Bresson, Beijing, 1958

Henri Cartier-Bresson, Beijing, 1958

Às vezes antes de entrar no edifício da piscina em Iffley, via, das janelas, o cronómetro aceso sobre os tanques, com a inscrição Poseidon acima, e lembrava-me do título do livro da Golgona Anghel, Nadar na Piscina dos Pequenos. Em Iffley não há piscina dos pequenos, onde cresci sim, e costumava jogar uma espécie de voleibol aquático com as minhas irmãs, a irmã mais nova ficava no meio, para gáudio das mais velhas e às vezes penso que íamos jogar para aquela piscina só para encenarmos imperfeitamente aquele fresco da Villa Romana del Casale, na Sicília, onde se vê raparigas em biquíni a jogar com uma bola.
Mas para onde terão as velhotas que cantavam ido? Para onde os estudantes que construíram a piscina a braços? Onde estarão eles a nadar agora?

Gostei de nadar no Pacífico, que por qualquer coisa me lembra o Mediterrâneo, mas acho que as minhas extensões preferidas de mar ficam nas ilhas gregas, em Paros e Naxos, em Cefalónia (onde às vezes a água é tão clara que os barcos fazem sombra no mar, mas cujas correntes podem ser tão traiçoeiras que nos lembramos que são estas as costas de Ulisses), em Creta e Rodes e na pequena ilha de Symi, numa aldeia que se chama Nimborio, onde uma vez, depois de beber muito ouzo, uma velhota me contou que quando era mais jovem costumava sair de noite com um pequeno barco que era do marido, para nadar sozinha e depois lançar as redes ao mar; e houve um ano em que apanhou tanto peixe que todos os pescadores em volta lhe vieram pedir conselho. É raro nadar de noite, mas às vezes gosto de ver o sol nascer sobre o mar enquanto nado.

Depois da tempestade de granizo lá naquela praia do norte ter passado, voltei para caminhar junto ao mar com um par de amigos e durante alguns quilómetros tivemos a impressão que nada tinha acontecido. Depois começaram a aparecer as árvores derrubadas e os barcos arrastados para a costa e na vila mais próxima um iate tinha sido lançado para a praia e um minúsculo barco tentava puxá-lo de novo para o mar. Ficámos ao longe, de cocktails na mão, comprados num dos últimos bares abertos e tentei falar de Lucrécio enquanto víamos o barco ser puxado pelo piloto maníaco no seu barquinho, que dentro da cabine devia estar a amaldiçoar a hora em que atendeu aquele telefonema; e achámos que era impossível até que qualquer coisa se desprendeu e de repente as velas se ergueram e todo o barco virado de novo para cima voltou a flutuar no mar, para aplauso geral na praia.  

Às vezes alucino os fantasmas de gente que vi nadar e nunca mais tornarei a ver. Alucino os barcos, os pontões, as pranchas que foram seus e de onde os vi mergulhar. Regressam os seus gestos, imagens às vezes submersas no lusco-fusco da lembrança, às vezes tão claras como fotografias. Lembro-me de praias, de cores e modas de fatos de banho, dos corpos nas diferentes estações das suas vidas, do ritmo das suas braçadas, das extensões que percorriam, por onde exactamente, até onde o meu olhar os perderia de vista. Lembro-me às vezes da luz a que os vi e não os tornarei a ver. Tenho nostalgia de ver certas pessoas nadar. E deve ser qualquer coisa dessa alegria que volta à memória do meu corpo sempre que posso voltar a nadar.

Oxford, 25 e 26 de Setembro de 2021

Luca Zingaretti em Inspetor Montalbano, nadando a cada manhã para refletir nas suas investigações.

Luca Zingaretti em Inspetor Montalbano, nadando a cada manhã para refletir nas suas investigações.

Pontão de Agios Pavlos, Lindos, Rodes, 2020

Pontão de Agios Pavlos, Lindos, Rodes, 2020