the way we were - as piores canções sobre lembranças

um pequeno entulho na fotografia
daquele dia nós três e o pequeno
entulho atrás 
amontoar entulhos atrás das ocasiões de foto:

é isso que salva uma lembrança
não a foto

=//=//=

outro poema de natal 

minha mãe tem lembranças desde o 
berço se lembra da cor da madeira
da forma do lustre no teto da irmã
mais velha lhe dizendo coisas maldosas
da mamadeira de vidro
me lembro tão pouco da minha infância
e do pouco que lembro sou um vulto 
clandestino em sua própria fumaça de natal

=//=


não permita uma lembrança ser cruciante
o cérebro é feito de tão suave tecido
o fígado é mais grosseiro que a pele
beijos estalados das tias na infância
bolhas de coca-cola estourando 
no seu nariz o caminho de formigas no 
jardim a descoberta dos ovos
de lagartixa qualquer embrulho de natal
ou uma siririca
pois
meta a siririca bem nos ovos dessa lembrança

=//=

envelhecer uma lembrança no
carvalho curar a 
memória em suas próprias 
bactérias e fungos

=//=

um osso de
galinha na calçada
cheio de formigas um
gato no muro rente
ao osso uma criança atrás do muro
puxando o rabo do gato

rente ao osso
rente ao osso uma lembrança foi
desenhada e já formiga

Victor Gonçalves, Leituras 2021

Não é um best of, mas aproxima-se. Dou nota aqui dos livros que mais me marcaram neste ano, os que me fizeram desviar do caminho traçado, previsível, trazendo iluminações ou obscuridades (inocular os nossos frágeis desejos de ceticismo é de uma relevância inquestionável), compondo pequenos fragmentos de sentido e sem-sentido. São livros, essas coisas cada vez mais raras, apesar de nunca se ter publicado tanto. Faltam leitores, faltarão sempre, como faltam boas pessoas. É a vida.

François Noudelmann, Un tout autre Sartre, compõe para a Gallimard uma biografia de Jean-Paul Sartre, que contou com a cumplicidade da «filha adotiva» do escritor de L’Être et le néant, Arlette Elkaïm, falecida há pouco. Um «outro Sartre» compõe parcelas encobertas do «intelectual total» que se quis campeão da transparência, que «incessantemente comentou o seu percurso intelectual e o incarnou num modo de existência». Em articulação com o Sartre visível, Noudelmann mostra-nos o prazer de Sartre pela música (tocava piano), por férias hedonistas, pelo dolce far niente; um Sarte que desdenha o Sartre comprometido (engagé), preferindo a leveza das conversas banais, das viagens de lazer, das pantomimas ao piano. No final, prova-o a vastidão e profundidade da sua obra, venceu o Sartre engagé, mas aquele com quem gostaríamos de ir tomar um café não foi um epifenómeno, teve suficiente importância para, a par das anfetaminas e do álcool, equilibrar os campos de luz-sombra de uma vida incrivelmente exigente.

Os Factos, Autobiografia de um Romancista, de Philip Roth, é um livro para quem o costuma ler, não porque encontre nele revelações que decifrem melhor a sua ficção, mas porque a prologam, embora noutros termos. Chamar-lhe «Factos» é um exercício de ironia à la Roth. Devemos, pois, lê-lo como mais uma história, que no final é até criticada pelo seu famoso alter ego Zuckerman.

Livro no qual Vergílio julga encontrar muitos traços da sua subjetividade. O lugar central é uma aldeia que, depois da pujança vital temporária trazida pelas minas e pela «tecnificação», vai desaparecendo, morrendo, em paroxismo há até personagens que nem sequer chegam a entrar em cena, pré-mortas (como um filho que se espera em vão). Um livro feminista que ensina o ser-para-a-morte. Um elogio ao indizível, também, posto que é fundamental para a vida e a ficção. Uma aldeia, vento, neve, montanhas, pinheiros queimados na lareira, pobreza (de todo o tipo) e a energia elétrica que não substitui a falha geral que conduz ao cansaço e à morte, espiritual antes da física.

Uma história de vida e morte, de sentido e sem-sentido, de amor e ódio. Uma história na qual um professor de Liceu, em Évora, percebe que o feminino é maior do que ele. Em que percebe, também, que as suas ideias são estéreis, ou criam ervas daninhas. Uma cidade na qual «é um milagre criares relações», um Alentejo comido pelo sol, um professor dominado pela situação julgando, ingenuamente, que a palavra justa, o gesto justo, a ideia justa podem salvar o mundo. Há neste livro um pouco de Manhã Submersa e a antecipação de Alegria Breve.

Um ensaio que serve de introdução (longa, 200 pp) ao pequeno texto de Jean-Paul Sartre O Existencialismo é um Humanismo (1945, que Vergílio traduz). Uma forma de entrarmos no pensamento sartriano, começando pela fenomenologia e passando pelo «existencialismo» heideggeriano. Mas é também uma obra que expõe o Vergílio filósofo, ou melhor, aprendiz de filósofo.

Um livro diferente e surpreendente de Han. Acompanha os principais momentos de uma viagem por três primaveras, verões, outonos e invernos, nos quais trabalhou num jardim. Misturando teologia e estética, refere que «O belo tem de ser tratado cuidadosamente. É uma tarefa urgente, uma obrigação da humanidade, tratar com cuidado a terra, porque a terra é bela e, mais ainda, esplendorosa.» E isto é tanto mais premente quanto «Perdemos por completo a veneração da terra.» Esse trabalho, do corpo e do coração, deu-lhe o acesso ao amor: «Não tenho filhos, mas com o jardim vou aprendendo lentamente o que significa oferecer assistência, ter preocupação com os outros. O jardim tornou-se um lugar de amor.»

Cerca de 30 críticos escrevem sobre cerca de 40 autores e uma dúzia de temas. O mais recorrente versa sobre o sentido do «cânone», são quatro artigos (António M. Feijó, Anna M. Kloblucka, João R. Figueiredo e Miguel Tamen) que nos dão a pensar acerca da construção de um espaço dos eleitos. O cuidado gráfico, a revisão esmerada e, sobretudo, a qualidade dos textos tornam este livro obrigatório. À sua escrita presidiu o seguinte horizonte (de vontade e sentido): «Não é boa ideia lê-lo como um guia neutro para a história da literatura portuguesa, ou como uma comemoração política das suas maravilhas. Este não é um livro sobre o esplendor de Portugal, é um livro de crítica literária.»

Publicado em 1964, o ano em que Sartre recusa receber o prémio Nobel da Literatura. O livro que o resgata do relativo fracasso de Les Chemins de la liberté, conta-se, de modo relativamente autobiográfico (este olhar para o passado é paradoxal com a importância do prospetivo), até aos 12 anos, explicando-se mais do que descrevendo-se. Trata-se de tentar perceber como surgiu, foi surgindo, a vocação de escritor. Mas também de lançar um olhar implacável sobre as distorções morais com que percorreu a sua infância. Quando apareceu, o livro teve talvez as melhores críticas de tudo o que escreveu Sartre. Gabaram-lhe o estilo (breve, incisivo, musculado, ácido, perscrutador), a concretização da sua psicanálise existencial, a inventividade lírica, a recuperação da ideia de genealogia da moral.

Criança frágil e feia, mas intelectualmente precoce, órfão de pai, posto de parte pelos seus colegas de escola, mimado por uma mãe e um avô que o veneram como um dom celeste, conforma-se ao gosto dos grandes, porque gosta de elogios e aplausos. Foi nesse meio que, falsificando amiúde a virtude (retrata-se muitas vezes como um impostor), nasceu o escritor incansável que foi Sartre. É por isso que no final de Les mots escreve: «faço, farei livros; são necessários; isso serve para alguma coisa. A cultura não salva nada nem ninguém, ela nada justifica. Mas é um produto do homem: projeta-se e reconhece-se nela; somente este espelho crítico lhe oferece a sua imagem.»

Cumpre-me ler pelo menos um comentário grande a Nietzsche todos os anos. Desta feita, escolhi Pierre-André Taguieff, seduzido pelo subtítulo: «Por, com e contra Nietzsche». É que sob o nome de «Nietzsche» encontramos de tudo, desde o início do séc. XX foi sucessivamente escrutado, glosado, reinventado, treslido, adulado, detestado, celebrado, vilipendiado… E tantas vezes usado para causas que nunca foram as suas. Esta obra apresenta-se, assim, como um panorama criterioso das interpretações políticas e ideológicas de Nietzsche. Ao mesmo tempo que reflete sobre as múltiplas contradições internas à obra, bem como as suas ambiguidades e a extrema singularidade do autor. Pierre-André percorre o grande bazar dos nietzschianos e anti-nietzschianos, de Paul Valéry a Peter Sloterdijk, de Thomas Mann a Albert Camus, de Stefan Zweig a Michel Foucault, de Gorki a Althusser, Deleuze, Rosset… Pega também nos bolcheviques e na nova direita, nos fascistas italianos e no Maio 68, evocando intelectuais, políticos e universitários.

Vaca Preta (Bestiário/Snob, 2021) é um livro marcante de um cérebro metido num corpo há cerca de 27 anos (a idade é outra coisa). Claro que se foi rodeando de mundo, aposto que um mundo todo ele traduzível, ainda que imperfeitamente, em palavras, mas há uma irrecusável, irreprimível singularidade nas sinapses de Marcos Foz, uma fábrica de pensamentos que roça a loucura do adivinho sóbrio, esse que destapa as pulsões linguísticas que se escondem por trás dos discursos compostos pelos costumes e pela lógica. Mais tarde, ver-se-á que nenhuma verdade adâmica virá ao de cima, mas perceber-se-á o desconforto com que habitamos o mundo, traídos por uma pureza que estava ao nosso alcance e que nos abandonou porque nos fez conversar sobre banalidades vitais.

Entre a poesia e a prosa, o ensaio e a ficção, o referencial e o autorreferencial, Vaca Preta é um palimpsesto enorme e anormalmente complexo (a normalidade prefere quase sempre o liso). Mistura sons, imagens e palavras, estica os sentidos até ao limite do absurdo (que ainda é sentido, mas paralelo). Gosta de representar o nada, ou melhor, a nadificação, despojos de uma desarticulação precisa do racional. Percorre o corpo e a mente humanas, o corpo e a mente sociais com a liberdade da criança de Assim Falava Zaratustra. Esculpe tabus até fazer deles setas suicidas, um patchwork sobre a forma como nos fazemos à vida, inexperientes criaturas sobrealienadas. O narrador, F e Z compõem um fragmento de mundo observando a humanidade enquanto questionam, subtilmente, a exatidão do olhar que lançam sobre os outros e sobre si. Há sempre ângulos mortos, mas poucos os amam.

Tudo isto perfaz uma espécie de surrealismo pós-moderno (parece um pleonasmo, mas não é), tudo, ou quase, são linhas de fuga, versões do real, ou melhor, dos vários reais, uma imensa liberdade de composição, para lá do sentido tradicional que se outorga aos textos, à posição do autor e dos leitores. E se alguma crítica política (no sentido largo) há, está na obsessão com que continuamos a sonhar (que não faz pular nem avançar, é mais do campo dos narcóticos), por que raio embrulhamos o sem-sentido com peripécias que nos fazem crer na nossa boa consciência? Por que raio nos socorremos da imaginação (menos livre do que se julga) para saltar por cima da porcaria das ações humanas (que na grande maioria desembocam em lixo e comida barata)?

Escreve Marcos Foz (?) sobre o cardápio dos que não aguentam, não se aguentam, e pulam e julgam avançar: «Há quem reaja a esta promessa de mundo sem tecto escrevendo um romance de oitocentas páginas enquanto pontapeia a mãe subsidiária, há os que vão viajar pelo oriente, entre fotografias e haikus, há os que fazem voluntariado na Guiné, há os que organizam manifestações ecológicas, há os que arquitectam tratados para a nova religião que despontará com o despertar transmecânico, há os que colocam todas as esperanças nos filhos, há os que matam os filhos por piedade, há os que se refugiam no ginásio, há os que levam questionários de inclusão aos bairros problemáticos da periferia, há os que gostavam que isto andasse dois passos para trás, há os que investigam até onde podem ir no sadomasoquismo e os seus quinhentos utensílios.» (pp. 40-41)

Além disso, a edição é magnífica.

Desconstruir / Construir

«Uma herança lega‑nos sempre subrepticiamente formas de a interpretar. Ela impõe‑se a priori à interpretação que produzimos, transformando-nos quase sempre, numa certa medida, e até um ponto difícil de estancar, em repetidores.» (Jacques Derrida, Du droit à la philosophie, Paris: Galilée, 1990).  Em resposta, os críticos da marginalidade pós-moderna — e da sua aposta, bem nietzschiana, em que tudo é interpretação — acusaram várias vezes Derrida de relativista estéril (sobretudo Jürgen Habermas e John Searl). É que Derrida multiplicou os textos de desconstrução das velhas tradições filosóficas, textos sedutores, ainda por cima. O exemplo paradigmático é Glas (Paris: Galillé, 1974), onde pôs lado a lado, na mesma folha, o metafísico Hegel e o mestre da violência metafórica que foi Jean Genet. Tudo em estado puro, sem qualquer nota de rodapé ou citação bibliográfica. Os dois campos discursivos afetam-se mutuamente no espaço que partilham (a folha), manifestam uma heterologia de corpo a corpo, e dessa forma desenvolvem uma (de)formação que os ultrapassa individualmente. Este jogo diferencial entre discursividades heterogéneas faz emergir a própria desconstrução, i.e., o que no interior de cada texto tem a força de o arruinar enquanto depositário de um sentido homológico; mas, ao mesmo tempo, também o projeta para outras possibilidades de sentido. Marca-se, assim, a crise do discurso filosófico logocentrado, numa crítica sem complacência às habituais grelhas discursivas. Para combater a acusação de leviandade filosófica, de falta de rigor ou capacidade sistematizadora, repetiu algumas vezes o que, primeiramente, escreveu no posfácio a Limited Inc («Toward An Ethic of Discussion»), onde deixa claro que nunca encorajou a leitura caprichosa, o dizer «não importa o quê». Por exemplo, uma boa leitura de Rousseau exige, segundo ele, a compreensão progressiva da língua francesa e o conhecimento do corpus rousseauniano e contextos que o estabeleceram e estabelecem.

Mas levado por este jogo de ordem e excesso («Il faut l’ordre e il faut l’excès», Georges Bataille), de determinismo cultural, talvez antropológico, e de desconstrução libertária e provocadora, quero, como quem quer, a medo, a sua parte do saque, pensar um pouco ao lado, exercer, talvez, uma pequena desconstrução sobre Derrida. Sigo em parte Michel Foucault e recupero algumas ideias dos últimos anos, presentes também aqui na Enfermaria 6.

É possível tornarmo-nos estranhos a nós, interpretar de forma livre não se funda, ao contrário do que muitos dizem, no aprofundamento da soberania do Eu. O Eu é sempre um produto histórico, um patchwork, com camadas de preconceitos, da época, da cultura, ou culturas, dominante (ou, sendo minoritária, com suficiente força para desenhar sentidos próprios). Por isso, na procura quase insana de uma verdade universal, Descartes, e depois a fenomenologia husserliana, pretendia que o Cogito fosse estritamente racional, sem contexto, uma fábrica divina de algoritmos autossustentados. Tratava-se, pois, de desencarnar o homem, de o des-historizar (compreende-se o anti-cartesianismo de Ortega e Gasset quando diz «Eu sou eu e a minha circunstância»), de o purificar, epistemologicamente, primeiro, e depois, talvez, ontologicamente. Seria um ser sem as «paixões da alma».

Regressemos ao Eu como produto da situação, de um processo de subjetivação (o «para-si» de O Ser e o Nada de Sartre) alimentado pelo exterior. Sabendo isso, como tornar nossa parte das interpretações, evitando reeditar constantemente o que já se pensou e disse? Há exemplos que podemos seguir, emulando-os mais do que imitando-os. Indico o de Michel Foucault e o seu trabalho metódico para se tornar outro, pensar de outra forma (como Nietzsche queria que cada um fosse, uma força permanente de autossuperação). Na década de 60 do séc. xx escreveu sobretudo sobre literatura (Raymond Roussel, Georges Bataille e Maurice Blanchot), a morte do autor e do próprio homem (Les Mots et les Choses). Depois, consagrou-se à questão do poder (Surveiller et punir e Histoire de la sexualitéLa volonté de savoir). Na década de 80, regressou ao sujeito a partir da Grécia Antiga, (L’usage des plaisirs, Le souci de soit e vários cursos no Collège de France); mas não o fez para glorificar os gregos ou esboçar um manual de autoajuda, antes para que o sujeito se reinventasse, porque estudá-los permitia desenvolver uma estranheza em relação a nós.

Ora, este «estranhamento» é a melhor forma de nos libertarmos dos preconceitos que conduzem as nossas interpretações. Trata-se, pois, de nos desfazermos do que somos, reavivar o nosso processo de subjetivação, superar-nos, advir outros, reconfigurar as mil-folhas que enquadram a nossa visão do mundo, estimulando um pensamento livre (uma liberdade em situação, nada que ver com o cogito cartesiano ou a subjetividade transcendental kantiana). Desejarmos ser mais margens do que uma centralidade ruminante e redundante. É que não somos somente um labirinto de segredos ou um catálogo de categorias, mas sobretudo exterior, exteriorização, o íntimo foi abusivamente sobrevalorizado (Freud, Estruturalismo…). A vida é um campo dúctil, modificável, a ética de Foucault, o ethos fabricado de cada um, seria o resultado de um trabalho pessoal sobre si («techniques de soi»), um esforço de transformação, de apropriação de novas formas. Pensar é um artesanato que vai compondo cada indivíduo, na sua relação com os outros e com o mundo, ou melhor, com a Terra.

Mas não haverá aqui mais do mesmo? Esse exercício de libertação não será ainda uma astúcia, mais subtil contudo, das várias instâncias de condicionamento? Talvez, mas vale a pena arriscar, pormo-nos a andar de lado, obliterar o que somos, desconstruir as caixas onde nos vão, e nos vamos, colocando.

Que o horizonte de expetativas futuro seja o de sermos heterodoxos canonizados.

 

Anne Carson

Anne Carson

O percurso de Anne Carson enquanto escritora é bastante difícil de classificar. As designações mais óbvias poderiam descrevê-la como poeta, tradutora e ensaísta mas estas três práticas contagiam-se umas às outras mais ou menos constantemente. Por exemplo, em 2009, Anne Carson publicou uma tradução da Oresteia. A Oresteia, assim explicará qualquer estudante do primeiro ano de clássicas, é uma trilogia composta de três peças de Ésquilo (Agamémnon, Coéforas, Euménides). O Agamémnon narra a história do regresso do Rei Agamémnon de Tróia e da morte deste às mãos da sua mulher, Clitemnestra, depois de este ter morto a filha de ambos, Ifigénia, para propiciar os deuses e poder partir para Tróia. Coéforas narra o dilema e a decisão do filho de ambos, Orestes, de matar a mãe para expiar o homicídio do pai. Orestes é instigado a tomar esta decisão pela irmã, Electra. A última peça é um marco na história do teatro na Europa e na história da filosofia ocidental sobre a justiça, talvez ainda mais do que todas as outras. É sobre como Orestes é perseguido pelas Fúrias, divindades tresloucadas que o enlouquecem por causa do crime que ele cometeu e de como, em Atenas, ele é finalmente julgado segundo uma nova forma de justiça, no tribunal do Areópago, o que põe fim a um ciclo de violência ancestral que, de outra forma, se perpetuaria infinitamente. Tudo isto estaria certo, mas a peça de Anne Carson não é nada disto. Anne Carson desconstrói a Oresteia de Ésquilo, agrupando três peças que não estas exactamente: passamos do Agamémnon de Ésquilo para a Electra de Sófocles e daí para Orestes de Eurípides, cujo final opõe ao peso da justiça esquiliana (e à narração vagamente propagandística do mito fundador de um respeitável tribunal ateniense) uma acção tragicómica, preocupada com a mesquinhez humana e com a vingança, com muito humor negro e melodrama à mistura, numa das representações mais negativas de Helena de Tróia que a tradição clássica nos legou. A peça termina com o casamento de Orestes com Hermíone, filha de Helena. É só depois de casado com a prima que Orestes é enviado para Atenas para ser julgado.

Há nos clássicos uma intensidade e uma violência que de várias formas são profundamente próximas do estilo de Anne Carson. Em Grief Lessons, outro volume de traduções de tragédias gregas, desta vez dedicado à tradução de quatro tragédias de Eurípides, Anne Carson escreve a propósito de Eurípides:

 

Who was Euripides? The best short answer I’ve found to this question is in an essay by B.M.W. Knox, who says of Euripides what the Corinthians (in Thucydides) said of the Athenians, “that he was born never to live in peace with himself and to prevent the rest of mankind from doing so.” Knox’s essay is called “Euripides: The poet as Prophet.”

 

E continua:

 

There is in Euripides some kind of learning that is always at the boiling point. It breaks experiences open and they waste themselves, run through your fingers. Phrases don’t catch, theories don’t hold them, they have no use. It is a theatre of sacrifice in the true sense. Violence occurs; through violence we are intimate with some characters onstage in an exorbitant way for a brief time; that’s all it is.

 

“There is in Euripides some kind of learning that is always at the boiling point...” e “through violence we are intimate with some characters onstage in an exorbitant way for a brief time…” Há qualquer coisa nesta frase que podia servir para descrever a inteligência de Anne Carson e a experiência de a ler. Pensamos, por exemplo, nas suas traduções dos fragmentos de Safo, a mais importante das poetas líricas gregas, intitulada If Not Winter onde, com um cuidado que relembra um pouco o cuidado mítico dos tradutores do Pentateuco em Alexandria, Carson traduz todos os fragmentos de Safo, enfatizando assim a nossa relação com a perda desses textos e expondo a paixão da nossa curiosidade pelo que é fragmentário, enquanto ao mesmo tempo somos envolvidos nas paixões fragmentárias de Safo. Este “some kind of learning that is always at the boiling point,” por outro lado, assoma no seu primeiro livro de ensaios, Eros the Bittersweet, o seu estudo das representações da fragmentação das emoções na literatura erótica da Grécia antiga.

Há depois livros que são alicerçados num dos traços mais vincados do estilo de Anne Carson, as ligações inusitadas, extremamente improváveis, que definem o seu pensamento crítico. Anne Carson é provavelmente a grande poeta comparatista do nosso tempo, se bem que esta etiqueta não descreve exactamente o seu método. Mas, The Economy of the Unlost, por exemplo, é um longo ensaio sobre a relação entre outro poeta lírico grego, Simónides de Ceos, o primeiro poeta a colocar um preço a um poema e a vendê-lo por dinheiro e não por outra coisa qualquer, e o poeta alemão Paul Celan, que, tão isolado no seu contexto como Simónides, teve de escrever poemas sobre coisas às quais é impossível colocar um preço. Penso que esta ideia de quanto vale um poema é uma obsessão de poetas de um modo geral, mas uma obsessão muito particular de Anne Carson, que, por vezes, nos seus livros, encontra expressão indirecta noutros contextos. O que vale um poema em face do suicídio de um irmão é uma das perguntas que pode parecer estruturar Nox, o livro que ela escreveu após a morte do irmão e sob a influência de um poema do poeta romano Catulo, um poema também ele escrito sobre a morte de um irmão, o chamado carmen 101.

Ou, para falar dos livros que a não edições tem traduzido e editado em Portugal, eles às vezes expandem a nossa percepção do que os géneros literários podem fazer para lá de quaisquer designações mais óbvias. Por exemplo, em teoria, Autobiografia do Vermelho, originalmente publicado em 1998, publicado pela primeira vez em Portugal em 2017, em tradução de Ricardo Marques e João Concha, é uma reescrita do mito de Gerião, mas é também algo que nunca antes tinha sido escrito, é um bildungsroman, um romance de formação, que é também a autobiografia de uma metáfora. Gerião é Gerião mas é também a metáfora de uma infância e adolescência de um artista, definidas pelo trauma e pela desadequação, pela auto-descoberta e pela auto-invenção. Gerião, a personagem e a metáfora, apesar do trauma, não se fecha, continua a procurar fora de si qualquer coisa que o traduza, apaixona-se, descobre-se parte de um triângulo amoroso, e regressa para uma sequela, red doc. Anne Carson chama a esta autobiografia um romance em verso.

Autobiografia do Vermelho, não edições, 2017

Alguma relação entre consequência, sequela e crise existe entre os outros dois livros que Anne Carson publicou e que eu traduzi para a não edições, A Beleza do Marido e Vidro, Ironia e Deus. A Beleza do Marido é o mais recente dos dois, foi publicado originalmente em 2001, enquanto Vidro, Ironia e Deus foi publicado pela primeira vez em 1995. A não publicou-os inversamente, A Beleza primeiro, em 2019, e Vidro, Ironia e Deus em 2021. Estas coisas confundem-se na cabeça dos leitores, mas A Beleza do Marido foi um dos primeiros livros de Anne Carson que li, durante um verão parcialmente passado no quarto de uma residência de estudantes que ficava nos arredores de Budapeste. Estava a dividir este quarto com uma jovem académica oriunda de Israel que encheu as minhas noites de um relato épico sobre a complicada linha de contactos a cultivar se queria ver os meus artigos publicados numa determinada revista da especialidade, um discurso cheio de confiança debaixo do qual se escondia a terrível precariedade e a competição muitas vezes amarga que são a condição da vida de jovens investigadores. Partilhava esse quarto e pensava constantemente em voltar a Oxford para desistir da tese de doutoramento que estava quase a acabar de escrever para escrever outra tese, o que na verdade acabou por acontecer. Dentro da minha mochila tinha viajado comigo de Inglaterra esse livro de Anne Carson, The Beauty of the Husband: a fictional essay in 29 tangos e eu costumava pôr um fim abrupto àquelas sessões gratuitas de aconselhamento profissional de alguém que, bem vistas as coisas, estava tão perdida como eu, dizendo que precisava de ir fazer um telefonema e ia lá para baixo, para o campo de basquetebol, ver os jogos e ler A Beleza do Marido. Eu estava nessa altura a vários anos de distância de começar a traduzir Anne Carson e de me cruzar com um famoso poeta norte-americano que tinha sido colega de Anne Carson na NYU e que, quando lhe contei que estava a traduzir este livro de Anne Carson, disse que quem lia o livro ficava com a impressão de que o marido era o único responsável por aquele divórcio. Noutra altura eu teria querido mesmo saber mais, mas não me interessou perguntar. Algures entre 2012, quando eu primeiro li A Beleza, e 2018, quando ouvi este comentário, a minha curiosidade febril acerca da biografia de Anne Carson tinha passado. Não há muito que se possa dizer sobre o grande trauma de um divórcio que seja particularmente original ou edificante quando o tom com que a conversa começa é normativo e aponta para questões de justiça retributiva. Nunca tinha pensado em A Beleza do Marido como um livro óbvio desse ponto de vista. O marido que aparece em A Beleza do Marido é certamente uma figura peculiar e tóxica, caracterizado como é pelas infidelidades recorrentes, pelas mentiras compulsivas e desnecessárias, pela fascinação com os jogos perigosos. Mas há qualquer coisa na natureza da mulher que é atraída por esse comportamento e que permanece inexplicada, o que talvez sugira uma natureza elusiva como a do marido. A ambiguidade do marido e a ambivalência da mulher, por outro lado, têm paralelos com o tipo de inteligência conjugal que se encontra na Odisseia, tornam-nos parte de uma longa tradição de literatura acerca de gente casada. Ao longo desses vinte e nove poemas talvez se reconstrua a linha de atracção, decepção, perda e, finalmente, resgate da beleza que podem sobreviver ao fim de uma relação. Pode-se então dizer que A Beleza do Marido é um livro que é um pouco como algumas das tragédias gregas que Anne Carson gosta de traduzir, é sobre expiação e veneno e sobre o veneno enquanto cura também. Desta forma, o livro evoca o lado inexplicável de certos laços que nos definem e da beleza que se agarra a esses laços, coisas que não se confinam puramente a uma lógica da tristeza – amantes, amigos, fragmentos de conversas, torradas, quartos de hotel, bolos de casamento, bagos de romãs, Tolstoi e Homero.

Vidro, Ironia e Deus, que acaba de ser publicado, é um dos livros mais estranhos de Anne Carson, embora pareça, em teoria, um dos mais convencionais. De todos os que aqui mencionei é aquele que em termos de classificação de género literário parece mais fácil de arrumar: cinco longos poemas e um ensaio. Mas os poemas são ensaísticos. Criam até o efeito estranho de subordinarem a uma dicção que muitas vezes parece convocar o tipo de estranheza que caracteriza a linguagem de um poeta difícil e caro a Anne Carson, Ésquilo, versos decididamente prosaicos, de onde qualquer musicalidade parece estar ausente. Este estilo de poesia ensaística gera cortes e elipses que se enchem de associações inusitadas, é fonte de drama e paródia, instaura muitas vezes o ritmo que se podia dizer que é o de alguém a pensar na própria música silenciosa do pensamento.

A Beleza do Marido, não edições, 2019

Vidro, Ironia e Deus é um livro que começa com a crónica de uma leitura obsessiva de O Monte dos Vendavais de Emily Brontë e que termina com um ensaio sobre o género do som ou, melhor dizendo, um ensaio sobre interpretações misóginas de certas vozes. Entre um texto e outro, muitas outras vozes se ouvem: a da narradora, a da mãe da narradora, a de Anne Brontë, a de Sócrates, a de Heitor, a de Deus, a de Isaías, a de uma mulher romana chamada Anna Xenia a quem morreu um filho. À medida que estas personagens se sucedem questiona-se o lado nocivo de sociedades estruturadas por convenções patriarcais, o que sabemos do passado, como reconhecemos os outros, como é que eles nos conhecem a nós, porque decidimos viver de determinadas maneiras, porque viajamos ou empreendemos longas caminhadas pelo gelo. Sentimos, à medida que lemos, que nos tornamos “…intimate with some characters… in an exorbitant way for a brief time…” Porquê essa exorbitância?, é uma pergunta que Anne Carson, que gosta de analisar primeiras causas aristotelicamente, poderia colocar. Não sei se existe uma resposta exacta a esta pergunta, mas no último parágrafo de Vidro, Ironia e Deus lê-se:

 

Ultimamente comecei a questionar a palavra grega sophrosyne. Interrogo-me sobre este conceito de auto-controlo e se realmente é, como acreditavam os gregos, uma resposta à maior parte das perguntas sobre bondade humana e dilemas de civilidade. Pergunto-me se não haverá outra ideia de ordem humana para lá da repressão, outra noção de virtude humana para lá do auto-controlo, outro tipo de eu humano que não um fundado na dissociação de interior e exterior. Ou, de facto, outra essência humana que não o eu.

 

Anne Carson, Vidro, Ironia e Deus, não edições, Lisboa, 2021, p.162 (tradução minha).

VIdro, Ironia e Deus, não edições, 2019