mau contato

mas esse homem gostava mesmo era da rinha. chegar no bar, tomar uma com mel, passar pelas mesas, cumprimentar as damas, atravessar a cortina de chita, a outra cortina de plástico, abrir caminho entre os outros alucinados. gostava assim, de chegar beirando o início. era como um ritual que se fosse quebrado, o azar também passaria pelas cortinas e seria instalado na escolha. blackout e os galos são cantados. no começo ele não percebeu, não se deixou perceber, apenas arrumava a franja e cuspia no chão. prezava pelo penteado a gel, pela sua gola levantada, pela sua fama de cão sortudo. lopez não tirava os olhos dele, nem quando disfarçava, olhava fundo o bico da bota ornada com o couro de cascavel, o chaveiro com um abridor de garrafas, uma pequeníssima e sorridente mulher havaiana e o chocalho da cobra que ele mesmo matou, todos sabiam a história, uma noite inteira de peregrinação no escuro, achar a borracharia e ainda voltar ao local com o carro orvalhado e manco, coisa de uma ou duas cobras no caminho, a depender do dia em que a história era repetida por mamú. jamais errou o galo e comemorava com os braços para o alto, sacudindo com o quadril o chocalho da cobra. às vezes gritava coisas como “ou ié” ou “nem deus chega perto” ou “foi assim que minha ex morreu”. lopez reprimia a louca vontade de se sentar ao seu lado na mesa, após as vitórias. o galo morto estará na cozinha, quase no ponto. o cheiro não mente, hoje o cozinheiro usou dendê. lopez ficava no balcão. raramente seus olhares se cruzavam e, quando acontecia, um dos dois ia ao banheiro, o outro ia ao caixa repôr o fumo, a pinga com mel de jataí, verificar se mamú, o dono da bodega, havia separado as balas de menta das balas de canela, os fósforos de cabeça vermelha dos fósforos de cabeça marrom, se certificar de que os corações de doce de abóbora estavam intactos e na validade para a meia dúzia de crianças que passava ali aos domingos. duas únicas vezes e por isso podemos chamar de dois milagres, duas vezes milagrosas em que tremeram os paralelepípedos daquela cidadezinha no velho goiás. o primeiro: ninguém foi ao banheiro e os dois se coincidiram na pinga com mel, nos corações de abóbora. um toque de joelhos e lopez olhava com a boca o chocalho e a havaiana, ele olhava com a pélvis as mãos de lopez. o momento que durou dias tirando a saúde de uma única fração de segundo. brindaram sem se olhar, “foi assim que minha ex morreu”, “saúde! saúde!”, cada um para o seu posto de vigiar o que não pode ser visto em direto, cada um em sua vigilante tensão. o outro milagre: a luta acabou e ele ficou lá atrás, debaixo da luminária com mau contato, olhando o cadáver do galo perdedor, sentindo o cheiro da cebola na panela que espera galo, com as duas mãos na cintura, talvez em lamento, talvez em reza profunda e silenciosa, talvez pensando naquela fresta de tempo no balcão, no voo das jataís, na gentileza de alguns insetos. lopez saiu da penumbra e se posicionou ao lado direito dele. lado a lado, duas golas levantadas, dois homens bonitos e pouco mansos, cada um à sua maneira, moderadamente brutalizados pelas quinas da vida, mas bonitos, destilados pela idade, pelo mel, pelo doce vendido como coração. rústicos por conveniência, por enfeite de alma que pode andar tranquila em terreno de olhos sombreados por chapéus imensos e coldres dos mais diversos couros. dessa vez foram os cotovelos, “o pobre não teve chance, lopez”, lopez apostou no pobre apesar de saber que o galo que ele escolhesse, seria o galo campeão. “nem chance e nem charme, lopez”, eles se olham sob a luminária, lopez fica azul, quase não respira e toma um tapa no peito, “cê é besta, homem? galo de briga precisa de charme? tava brincando contigo”. lopez forja uma risada, engole a risada forjada, passa o antebraço na boca, cospe no chão e entrega, “não gostei da brincadeira”. o clima é tão pesado que as penas do galo morto são tingidas de chumbo. o mau contato faz a luz oscilar cada vez mais e cada vez mais há mais espaço para o breu, cada vez mais. blackout. os homens se olham através do escuro, sempre se olharam. entre uma luta e outra, quando a luminária era apagada e mamú cantava os dotes dos combatentes, adaptados à escuridão, ele e lopez se olhavam, se olham pela escuridão, desde sempre se olham através do breu para que não fique claro que se olham. um brilho de lágrima, depois um anel de caveira, a pequena havaiana dança ao som do chocalho da cascavel. lopez enfia a mão no jeans dele e ele enfia os dentes no ombro de lopez. dois homens, duas jataís, duas bocas e mamú tateando o escuro à espera de alguma luz para apanhar o cadáver que estará depenado, desossado, amaciado por honradas botas de caubói. 

«Artes da Existência» vs. Autoajuda

Nunca li um livro de autoajuda. Porque sou snob, claro, mas também porque sou cético. Não acredito em milagres e tenho pouco jeito para a estupidez. Eis tudo o que parece haver para dizer. Tanto mais que acusar os outros nos oferece um bónus moral.

Mas como desconfio dos imperativos categóricos (contra, e. g., Kant e Valéry), sobretudo dos meus, questiono-me se não terei feito, obliquamente, uma qualquer tangente à autoajuda. E claro que fiz. Não uma «tangente», mas, em boa verdade, um mergulho. Confesso que imergi na autoajuda, mas numa autoajuda que julgo afastar-se, em elevação, do que me pode propor uma qualquer livraria.

Foi o filósofo Michel Foucault (ele não se considerava como tal, no máximo, dizia, era um jornalista, um historiador ou, em homenagem a Nietzsche, um genealogista) que consolidou a suspeita de que o «conhece-te a ti mesmo» da Grécia Antiga, verdadeiro conselho popular, certificado por Delfos, que Sócrates, através de Platão, inscreveu na cultura ocidental com a marca da filosofia, era o primeiro, e importante, passo para, sem condições a priori, nos ajudarmos. É que, como poderemos cuidar de nós, ou fazer algo de bom, se não nos conhecermos? É essa, aliás, a crítica que Platão faz na Carta VII (com muito de autobiográfico, afirmam os especialistas) ao tirano de Siracusa: como se atreveu ele a escrever um livro de filosofia se nem sequer se conhecia bem a si mesmo.

Para Foucault, as «artes da existência» tinham muito de autoconhecimento. A Antiguidade formou uma lenta, mas sólida, hermenêutica de si. Não bastou, porém, esta revelação para associar a minhas leituras mais eruditas ao movimento panfletário da autoajuda. Nos volumes II e III da História da Sexualidade (com os subtítulos, respetivamente, de Uso dos Prazeres e Cuidado de Si), Foucault assegura que o «conhece-te a ti mesmo» podia ser um truque dos essencialistas para que cada um encontrasse sempre a mesma coisa, um humano universal, uma, querendo ser platónicos, Ideia de Homem.

Por isso, com menos Platão (embora o Banquete e o Fédon sejam incontornáveis) e mais, e.g., Plutarco, Epicteto, Séneca ou Plotino, propõe umas «artes da existência» que contando com o conhecimento de si (todos concordamos que «Uma vida não examinada não merece ser vivida») conduzissem à transformação de si. Nas palavras do filósofo francês: por «artes da existência» é preciso «entender práticas refletidas e voluntárias, pelas quais os homens não apenas se fixam regras de conduta, mas procuram transformar-se a si mesmos, modificar-se no seu ser singular, fazer da sua vida uma obra com certos valores estéticos e que responda a certos critérios de estilo.» (Uso dos Prazeres, «Introdução», tradução minha) Bem entendido, isto aplicava-se somente a uma pequena parte da população: machos adultos livres.

Estas «artes da existência» passavam por «técnicas de si» relacionadas com regimes de saúde, gestão da casa e gestão amorosa (dietética, economia, erótica), suportadas pelo valor da moderação, mais perto da austeridade do que do seu contrário. Mantiveram-se ativas até ao período helenístico romano, acabando, depois disso, por perder muita da sua importância. Foucault questiona-se sobre por que razão um fenómeno cultural alargado na Antiguidade se esbateu, desqualificou e acabou excluído depois na idade Moderna. Por que razão a «procura, a prática, a experiência pelas quais o sujeito opera sobre si mesmo as transformações necessárias para aceder à verdade» foi afastada da filosofia? Tanto mais que governar-se a si mesmo era condição sine qua non para governar os outros. Responde acusando o cartesianismo de impor a primazia do conhecimento de si em detrimento das transformações de si. Bem entendido, com Pierre Hadot (o magnífico historiador da filosofia) e o próprio Foucault, que antes disso a pastoral cristã, e certas práticas de tipo educativo, médico e psicológico foram abafando um saber que dava demasiado importância às afrodisias. O medo das vertigens sexuais censurou 10 séculos de saber sobre as artes da existência.

Hoje, a ciência, que demasiadas vezes produz um conhecimento sem vida, diz-nos simultaneamente o que somos e as transformações que deveríamos fazer. Mas, bem vistas as coisas, parece não ter grande sucesso. Caso contrário, como se justificaria a edição pletórica de livros de autoajuda (também documentos vídeo e áudio)? Assim, com um sentido de oportunidade muito preciso, a indústria da autoajuda vem colmatar o fracasso da ciência e o desaparecimento das artes da existência. Resolve o problema? Não, claro que não. Somos uma sociedade doente, mesmo padecendo de fartura, como Jacinto. Mas que importa, um problema não resolvido cria e alimenta oportunidades para os mais ousados (não é a ousadia nietzschiana).

Para os mais escrupulosos, e corajosos, recomenda-se Espinosa, Kierkegaard ou Nietzsche, sobretudo este último, que lançou a ideia, sem saber muito bem o que fazer com ela, de fazermos da nossa vida uma obra de arte.

 

como se te soprasse um beijo no ar

(de “assim guardamos as nuvens”, 2019)

como se te soprasse um beijo no ar
feito aquelas crianças que desviam a atenção da avó
e o circuito interno das coisas que não entendemos
funcionasse exatamente como o planejado
e a luz do céu então é este anil com violeta
assim posso te olhar do alto da ladeira e
como sabem os alpinistas e as cabras
também preciso aprender a descer

invento três ou quatro rimas
com o teu nome e vou perambulando
pelos quintais dos vizinhos
se arranco uma laranja deste pé
ela é doce, e ninguém me reprime

atravesso outro portão e na esquina
o hotel com as janelas abertas
todas escuras
e, se claras estivessem, 
o que saberíamos

apreendo o fruto como um antigo
e às vezes estou lendo qualquer coisa
e um estranho com colônia forte entra
no ônibus, nessa tarde parada
lembro do meu tio, pessoa desconhecida
que morreu jovem e me dava sorvete com vinho

e sinto que posso estar feliz sem planejar a chegada
sinto que estarei feliz só porque te guardo
e guardo tantas coisas que às vezes penso 
que só na saudade existe algo grandioso

e dou risadinhas discretas para não afetar os demais
e tento decifrar quantas estrelas já aparecem
e quando alguém resmunga eu não fico bravo
porque isso também é música

da sombra de uma cadeira de praia
um velhinho na Travessa dos Cataventos me saúda
e sei que estás comigo, estrela da manhã
sei que estás comigo, fazenda luminosa
porque eu carrego há anos uma fera
e quando ela se acalma o rigor do inverno
vai embora

e as árvores florescem e vêm comigo
e os pássaros voam e estão comigo
e a estrada está aberta e a noite é limpa

Que Túmulo Em Que Talhão - Recensão

Revisão 25/06/2023

A poesia repete-se e reinventa-se permanentemente, é, como as outras artes, reacionária e progressista, tem um pé no passado e outro no futuro. Se, por um lado, pelo menos desde o modernismo, desapareceram quase todas as restrições formais; por outro, permanecem campos específicos, edições e prémios, por exemplo, que não a deixam confundir com o resto da ficção. Há, até, a crença popular (pouco justificada) do talento poético da cultura portuguesa, provando o reconhecimento de um ethos que a diferencia no mundo das artes da palavra.

A obra de João Moita (ele recusa tê-la, cada livro, diz, é um começo, mas a bandana de Que Túmulo em que Talhão seleciona Fome — Enfermaria 6, 2015/17 — e Uma Pedra sobre a Boca — Guerra e Paz, 2019; juntando-se a isso um trabalho profundo de tradução poética: Antonio Gamoneda, Saint-John Perse, Arthur Rimbaud, Pierre Louÿs, Paul Verlaine, Walt Whitman) tem a marca da inclemência, há sempre uma tensão que atravessa o que é dito e mostrado. Um sopro frio sacode o espúrio e o sagrado (o que se considera como tal), como nos cínicos gregos, que para serem autênticos tanto se lhes dava como se lhes deu. Neste sentido, talvez a poesia de João Moita seja dedicada a Deus, impotente ou tolerante perante o mal, um evangelho do negativo. Por isso, capturando sem falhas o concreto e o sensorial, Que Túmulo em que Talhão foi composto com símbolos incomuns: foice, bafio, ranço, peçonha, salobra, asfixia, vertigem oblíqua, gangrena, podridão, emboscada, putrefação, morte, cadáver, chiqueiro, epidemia, matança, veneno, negrume, lamaçal, vísceras, visco, pestilento, tumor, bafo, entulho, escuridão, náusea, indigesta, fome, mórbido. A solidão pobre, o tédio, as iras domésticas, uma paz que sufoca… Talvez para melhor confinar a linguagem à função de descrição física e de localização. Ou achar que são as melhores palavras para ir para lá da linguagem.

Não sei se João Moita quis exprimir ou expulsar sentidos que o compõem ou se deixou que algo emergisse através (sim, atravessando-o) dele. Die Sprache spricht («A linguagem fala», Martin Heidegger, que admirava Hölderlin e achava que o Ser habita na poesia). Respeitando a sua vontade de desaparecer por trás dos livros que vai escrevendo, avanço a hipótese de uma linguagem da Lezíria assomar na ponta da sua caneta, ditando o fulgor amoral, patético, repugnante, viril, cruel… da vida/morte. Um livro que podia, assim, não ser assinado, mesmo reconhecendo que a linguagem da lezíria não escolheu o João por acaso. Creio saber que ele não gosta nem da embriaguez dionisíaca nem do humanismo apolíneo, tomados nesta dicotomia simplista, é também avesso, quando se concentra no individual, tanto à autocomiseração quanto à autoglorificação. Daí compreender-se que tenha procurado «representar a natureza em toda a sua esplendorosa indiferença e amoralidade».

Quis também «Eximir o sujeito poético ao poema». Sim, e não. Por um lado, contra ele, é indesmentível que estabelece um discurso direto com o leitor no primeiro poema, um prelúdio disparado imperativamente. Quer introduzir-nos no desencanto, para enquadrar a leitura do livro, e abrir horizontes de expetativas existenciais. E o sujeito poético emerge noutros lugares: pp. 64 («será a minha vida»), 67 («augúrio / que não decifro»), 76 («onde me detenho», «minha vida»), nas pp. 79 e 82 ainda mais claro, repete-se um «eu» e aparece um «ouço». Como o futuro foi anulado, culmina num «eu» a imolar-se na última estrofe do livro:

E eu,
couraçado pela solidão,
busco companhia
no milheiral
benzido
pelas chamas.
(p. 82)

Por outro lado, a favor do que disse, é surpreendente encontrar tão poucas vezes o sujeito poético, e nada de metapoesia (ultimamente tornou-se um vício, sobretudo nos jovens artífices). Mais, o humano quase se ausenta de Que Túmulo em que Talhão, «crianças da vila», «homem dobrado» e pouco mais. E mesmo quando aparece uma «mãe», é de gatos que se trata. Este desaparecimento desvia o protagonismo para a lezíria, sentimos que a desolação do ecossistema precisa da escassez humana, talvez exposta em contraluz nos mistérios da ausência-presença. Sem nós, a Lezíria viveria numa amoralidade exultante. É por isso que a luz direta que João Moita diz lançar sobre a natureza talvez não morra aí, ela acerta na Lezíria, certamente, mas reflete-se em algo para lá dela, e nesse além está, acredito, o humano, mas também o divino. Terei sucumbido ao magnetismo da ausência?

Expressionismo niilista. O único consolo — numa remissão tão frugal que é preciso ter a força de um estoico experiente — está, pontualmente, na indiferença. Mesmo quando não compõe uma imagem de fealdade e desarmonia, acaba por escrever: «acocoradas sob as telhas / as sombras preparam / uma emboscada». Quem se lembraria de mostrar num poema que

O frio eriça
as vísceras dos frangos,
enxameadas de moscas
para a postura
dos ovos.
(pp. 31-32)

No mesmo poema — do capítulo «A Vila», o outro é «Os Campos» — retoma episódios de elementos naturais que invadem a polis decadente, percorrida pelo destino do desaparecimento: «o sonar de um morcego / varre a ignomínia do quintal». Neste caso, o metafórico ganhou a relevância exata de um lirismo negro, como sucede na estrofe que se segue:

O sol lança chispas

sobre o caixão.
Jazem azuis e bolorentos
os limões,
como as chagas
imputrescíveis
da devoção.
(p. 33)

Há nisto um ver as coisas a partir de um ângulo pós-convencional, mas há também a vontade de inverter a pastoral, e desde logo uma das figuras mais emolduradas, a aurora: «Amanhece na campina / como o caruncho alastra / no sudário» (p. 39) Uma lírica perfurante para chegar à vida nua campestre, ou um neorrealismo desumanizado:

Coalha de lêndeas
o pêlo das grandes
ratazanas,
mosquitos sedentos
mugem os úberes
das vacas da charneca,
rodopiam,
em sua grande
transumância,
as pedras frias
do entardecer.
(pp. 50-51)

A aurora, o belo crepúsculo dos românticos, a terra, a luz, o céu…, nada dito tem suficiente força redentora para fazer frente ao poeta, ou aos poemas. Nem mesmo a metafísica resiste ao teste de esforço hermenêutico:

Cai varado
um deus
como um limão
na aridez
da charneca.
(p. 59)

É a segunda vez que limões e divino se cruzam, não o limão jovial dos cocktails, mas o da acidez que também apodrece, e antes cai desamparado. É por isso que me senti assombrado pela ideia da decomposição (termo que o João usa), do orgânico, seguramente, mas também a decomposição de uma certa forma de escrever poesia. É assim que ousa criar esta surpreendente analogia: «o negrume de um céu / de amoras pisadas.» (p. 69) Uma traição ao hábito, a que alguns chamam inventividade. Mas pode também ser, deixem-me arriscar, uma extrema fidelidade aos pormenores, envolvidos, dia e noite, num bafo pestilento.

Daniel Mendelsohn

Não me lembro bem da primeira vez que ouvi falar de Daniel Mendelsohn. Talvez o livro mais popular dele seja aquele que eu não li, An Odyssey: A Father, A Son and an Epic, que é um livro sobre a relação entre um pai octogenário e cientista, o pai de Daniel Mendelsohn, e o filho, um classicista que ensina em Bard College, em Nova Iorque. Já reformado, o pai resolve ir assistir ao seminário que o filho ensina a estudantes de licenciatura sobre a Odisseia, e ambos vão-se contradizendo ferozmente acerca da interpretação do texto, até que resolvem fazer uma viagem pelo Mediterrâneo em que, talvez um pouco como Telémaco e Ulisses, se descobrem um ao outro.

Não me lembro bem da primeira vez que ouvi falar de Daniel Mendelsohn, mas lembro-me de um dia dar por mim numa sala muito ensolarada com a sua tradução completa de Kavafis na mão. Essa edição é talvez a mais conveniente que conheço do poeta de Alexandria porque inclui todos os poemas, os do cânone, os que Kavafis rejeitou e aqueles poemas inexplicáveis que Kavafis não rejeitou, mas também não incluiu no seu cânone e que são bastante importantes para entender a sua trajectória. Estava eu nessa sala ensolarada, com essa tradução na mão, quando se aproxima um rapaz que conhecia mal e que começa a tagarelar com grande entusiasmo sobre um ensaio que tinha lido de Daniel Mendelsohn na New Yorker, acerca dos romances sobre Alexandre, o Grande, de Mary Renault. Aquela conversa trouxe-me à memória uns verões em Lisboa em que a Assírio & Alvim teve umas promoções desses romances, de que eu li um volume ou outro, achando-os grande entretenimento, e umas aulas de grego com Frederico Lourenço, nas quais ele a mencionara, não me lembro bem a propósito de quê, e tudo isso me fez pensar nuns capítulos de uma monografia sobre Eurípides, lidos à pressa para um teste qualquer de literatura grega, que tinham sido escritos por este tal Daniel Mendelsohn. Então, Kavafis, Eurípides, o discurso de um rapaz tagarela, umas coisas numa vida passada em Lisboa. Mas aquela conversa acabou e eu não tornei a pensar em Daniel Mendelsohn, exceptuando por causa daquele volume da Knopf, com os poemas de Kavafis, mais ou menos omnipresente na minha vida.

            Entretanto, fiquei amiga do rapaz que falava sobre Daniel Mendelsohn e numa visita que me fez, trouxe-me, com renovado entusiasmo tagarela, um livro dele, The Elusive Embrace: Desire and the Riddle of Identity. The Elusive Embrace é o primeiro livro de Daniel Mendelsohn. É um livro de memórias ensaístico em que ele tenta explicar como uma pessoa se torna quem é, falando dele próprio, da relação entre homossexualidade e identidade, da paixão de ler e escrever, de melancolia dos primeiros amores, que por vezes podem dar às pessoas vontade de mudar de cidade, da cultura gay em Nova Iorque, da contradição talvez apenas aparente entre cultivar o caos e ajudar a educar um filho que não o seu. Diria que The Elusive Embrace é um livro magnífico, sobre a extensão interminável de uma vida. Contém a mais bela comparação que conheço entre um objecto de arte da antiguidade e um elemento da cultura contemporânea. A dada altura, Daniel Mendelsohn compara a pose de um diadoumenos a um rapaz, Mike, a endireitar o seu chapéu de basebol:

 

There is a pose in Greek sculpture of the high classical period called diadoumenos: an athlete stands with arms raised, tying a ribbon around his head. At one point in our conversation Mike reached up with both hands to straighten his cap; if you squinted, the comparison wasn’t too much of a stretch.

 

            Gosto muito de estátuas de diadoumenoi. Da antiguidade, não sobreviveu uma completa. Não há então nenhuma que mostre a figura com as mãos a atar a fita, quase todas perderam os braços. Temos de imaginar esse gesto no vazio, a partir do fragmento. A descrição deste momento do rapaz com o boné talvez sugira a ligeireza da prosa de Daniel Mendelsohn, mas é ele o autor de um dos livros que mais me perturbou nos últimos anos: The Lost: A search for six of six million. Um pouco como em An Odyssey, o ponto de partida é a família Mendelsohn. O livro começa por contar a história do avô de Daniel Mendelsohn, sob o signo da intuição que o neto sempre teve de que algum segredo devastador era escondido pela família. Esse segredo acaba por ser revelado com a descoberta de uma série de cartas, crescentemente em tom desesperado, que o tio-avô materno, que vivia em Bolechow, hoje Bolekhiv na Ucrânia, tinha escrito ao avô de Daniel Mendelsohn em 1939, pedindo ajuda para escapar à ocupação Nazi. Os seis que eram parte de seis milhões eram este tio-avô, a sua mulher e as quatro filhas. Durante a Segunda Guerra, a família desapareceu sem deixar rasto. O livro tenta reconstituir o que lhes aconteceu, tenta responder à pergunta: no caos de um horror interminável é possível que alguém desapareça sem deixar qualquer rasto? Queria poder dizer que o livro de Daniel Mendelsohn sugere que não, mas talvez isso seja demasiado optimista. É preciso o cuidado de um descendente com uma inteligência proustiana para tentar contar a história do modo como uma família inteira desaparece durante uma perseguição genocida. Six out of Six Million expõe a dificuldade de reconstituir a narrativa de uma vida quando todas as pessoas que a testemunharam desapareceram. E talvez aqui a educação de Daniel Mendelsohn enquanto classicista não seja inteiramente irrelevante. Os classicistas são, dos filólogos, aqueles que por norma estão mais habituados a trabalhar com vestígios muito fragmentários, com pouca informação. Em certo sentido, é um milagre este livro. Mas a premissa do livro é agora, tristemente, especialmente válida. Quantas pessoas estão a desaparecer sem deixar rasto neste momento da história da Europa, naquele mesmo país onde há apenas alguns anos Daniel Mendelsohn pôde ir para recuperar uma parte da história da sua família? Pensado a partir dessa perspectiva, Six out of Six Million é então não só um relato historiográfico que tenta reconstituir os últimos meses nas histórias das vidas destas seis pessoas, em face do contexto histórico que as obliterou, mas é também um livro sobre um dever de memória enquanto forma de cuidado colectivo. Fala ainda da persistência de um trauma que passa de geração em geração. No melhor dos mundos possível, seria uma narrativa profilática. O horror de imaginar um mundo onde pessoas são trancadas em caves para mais tarde desaparecerem devia ser tão eficiente a criar a nossa mais profunda revolta e repulsa que aquela frase que se lê à entrada de um museu judaico algures em Paris, “nunca mais,” devia mesmo valer para sempre. Mas li Six out of Six Million no auge da pandemia, num contínuo de cinzento e distopia, em que o presidente dos Estados Unidos, então infectado com covid, se fazia desfilar em cortejo pelas ruas de Washington em direcção à Casa Branca, o que inevitavelmente faz pensar em Nero agarrado à harpa enquanto Roma arde. O que fazer perante isto? Tentar ler mais Daniel Mendelsohn, não esperar muito de política, mas votar melhor e tentar fazer a nossa parte. Começar por nós, sem desculpas.

            O livro mais recente de Daniel Mendelsohn, Three Rings: A Tale of Exile, Narrative and Fate, tem uma certa continuidade com Six out of Six Million. Nos capítulos iniciais ele fala um pouco da exaustão que se seguiu ao processo de escrita desse livro. Three Rings é, por um lado, um livro sobre e estruturado por um aspecto da composição da Odisseia, a composição em anel. Este mecanismo é um subterfúgio narrativo que surge nos poemas homéricos, que de alguma forma dá espessura à narrativa principal, em que histórias digressivas interrompem a principal, como por exemplo no episódio da cicatriz de Ulisses. Mas depois de narrado o excurso, a narrativa é retomada no ponto onde tinha parado. Uma volta, como num anel. É também um estudo sobre três intelectuais que se interessaram pela Odisseia ou por digressões, e um pouco sobre a relação da Odisseia com a história da literatura moderna e contemporânea enquanto fonte de inovação e resistência. Ou talvez não seja sobre nada disto, mas sobre três espécies diferentes de exílio, que, no entanto, estão de alguma forma ligadas, começando pelo de Erich Auerbach, forçado a exilar-se com a ascensão dos nazis, em 1936, em Istambul, onde, privado da sua biblioteca, começa a escrever Mimesis, um estudo fundamental na invenção daquilo a que hoje chamamos literatura comparada. Mas aquilo em que Auerbach estava interessado, como herdeiro de Goethe, não era tanto em inventar uma disciplina quanto numa ideia de literatura mais universal, capaz de ligar o espírito humano para lá de quaisquer fronteiras. Mimesis inclui um capítulo que é um famoso estudo do episódio da cicatriz de Ulisses. Daí, Daniel Mendelsohn parte para falar, no capítulo seguinte, de Les Aventures de Télémaque, uma reescrita didáctica da épica homérica feita no século XVIII por François Fénelon, que foi um best-seller no seu tempo, destronado apenas em 1774 por Werther. A obra explora uma lacuna na Odisseia, a das aventuras possivelmente vividas por Telémaco quando em busca do pai. Encerra ainda uma crítica aguda ao reinado de Luís XIV. Télémaque é um livro ferozmente oposto ao autoritarismo. Fénelon acabou por ser enviado para uma espécie de exílio interno, para a remota diocese onde era bispo titular, como castigo pela sua perspectiva anti-autoritária. Télémaque é lido e admirado na Recherche de Proust pela avó do narrador. Daniel Mendelsohn vê neste movimento de digressão em Proust e Fénelon um elo entre as duas obras e comenta: “In Search of Lost Time suggests that a vast series of digressions could themselves form the largest imaginable ring, one that embraces all of human experience.”

            O capítulo final de Three Rings é sobre um exilado muito particular, Sebald, e uma das suas obras mais emblemáticas, Os Anéis de Saturno, em que, ao contrário das digressões homéricas, que segundo Auerbach, iluminavam o percurso das personagens épicas, a digressão do narrador por Suffolk, leva-nos em direcção ao vazio:

 

Like Proust’s digressions and “ways,” Sebald’s meanderings ultimately form a giant ring that ties together many disparate tales and experiences; but if Proust’s ring appears to us as a container, filled with all of human experience, Sebald’s embraces a void: a destination to which, as in some narrative version of Zeno’s paradox, no amount of writing can deliver us.

 

Central em Os Anéis de Saturno é o encontro do narrador, que se assemelha a Sebald, com o tradutor, poeta e ensaísta Michael Hamburger, que escapara de Berlim em criança, um refugiado por causa de Hitler, e que a dado momento descreve a tentativa fútil de reconstituir o passado regressando à casa dos pais em Berlim. Mas o regresso, assim o descreve Hamburger, não lhe permite reconstituir a história e também isso deixa o presente mergulhado em obscuridade. Há um pequena e ténue ligação, mas vital, que Mendelsohn estabelece entre a história da tradução turca do romance de Fénelon, por Yusuf Kamil Pasha, e Auerbach. É na antiga casa de Pasha, que por um gesto de filantropia do dono se convertera num dos edifícios da Faculdade de Letras de Istambul, que Auerbach, no seu exílio, em fuga da Alemanha e dos nazis, acaba a trabalhar no livro que seria Mimesis, onde se contrapõe à obscuridade do episódio bíblico do sacrifício de Abraão, a que Deus mantém sobre as personagens e o seu destino, a narrativa iluminadora da cicatriz de Ulisses, cheia de pormenores de como o herói homérico recebe essa ferida que é a que permite que mais tarde, ao regressar a casa no fim da Odisseia, ele seja reconhecido inequivocamente por Euricleia, a sua velha ama. E talvez haja aqui um contraponto entre a parálise horrorizada das personagens de Sebald e este outro exilado que encontra, depois do terror e do cansaço da fuga, um lugar de onde recomeçar a escrever.

Há nas narrativas de Daniel Mendelsohn, e nos seus ensaios uma ternura paciente, aberta e cândida (vale muito a pena ler um livro como The Bad Boy of Athens, que inclui discussões igualmente eruditas, e igualmente comoventes, sobre coisas aparentemente tão díspares como as tragédias de Eurípides e a importância do Titanic na cultura contemporânea). Há também o lado obsessivo, que é o da busca dos sentidos que unem as coisas, na ausência dos quais a vida colapsa. Não na ausência dos quais, na ausência de uma habilidade de investigar as causas da sua presença ou ausência. Um pouco como Fénelon, Daniel Mendelsohn é um pedagogo, que não é a mesma coisa que um moralista. Há nele uma beleza e uma limpidez de estilo que me comovem verdadeiramente. Esta beleza e limpidez de estilo surgem muito claramente, por exemplo, no ensaio sobre Mary Renault de que o meu amigo me falou em tempos. O ensaio chama-se The American Boy e é sobre a correspondência que Mendelsohn manteve durante anos com a escritora sul-africana Mary Renault, uma correspondência que começa com uma carta de fã que o então adolescente Daniel Mendelsohn lhe envia e termina com uma visita dele em adulto, anos depois da morte da escritora, à África do Sul para conversar um pouco com as pessoas que a conheceram e que sabiam da correspondência entre ambos. A história desta correspondência é também uma história sobre amar alguns livros e sobre como certos livros podem ler os seus leitores, amando-os de volta. É um dos relatos mais comoventes que conheço da formação de um leitor, que é dizer, de como uma pessoa pode ser salva por um livro. O ensaio pode ser lido aqui . Daniel Mendelsohn é um autor discreto e que é há muitos anos ensaísta na New Yorker. Se Wes Anderson fizesse um French Dispatch 2,  gostava muito que Daniel Mendelsohn fosse uma das personagens.  

Detalhe de uma cópia romana do século I, encontrada em Delos, de um diadoumenos . A estátua original era de Policleito e remontaria ao séc. V a.C.