um rapaz todo barriga

os ditames sobre a morte de todos quantos 
a evitam começaram a ressurgir como 
avisos à porta de todas as portas

os disfarces amanharam-se com o 
desconforto de não saber meter-se por baixo nem 
à volta da maior das evidências, a fuga

eram velhos, em fuga
e os carros passavam com ar de descoberta das rodas
e da ilusão chapada de que não giram, só se eternizam
no puro círculo, figura estatelada ao comprido em dia de
duvidar e então ir ler 

um rapaz cheio de riso, todo barriga
todo luz verdadeira de ser real
chegou sabendo isto tudo já

escrevendo a morte, fez com
mais ou menos timbres e biografias
três vozes opacas sobre a palavra morte 
a palavra morte da palavra

[Gugu]

Gugu
não podemos dizer
que há nisto
grande verdade
no jogo
de pergunta e resposta
na descoberta
de onde
ir a seguir

as bússolas morais
foram descontinuadas
imperam as forças de mercado
demasiado dispendiosas
não é possível delegar
a prestadores de serviços externos
e depois
matéria não reciclável
aquelas agulhinhas de prata
tomos e tomos
de tratados morais
séculos de humanidade

a esperança
como nos demais
assuntos do espírito
recai na tecnologia
um GPS moral
um algoritmo que dite
o que há a ser feito
quantos e quais
os que devem morrer
que prenda dar à vovó
pelo Natal
quem e como amar
entretanto Gugu
nós podemos sonhar
um futuro mais simples
e fazer o possível
com a nossa canetinha

perdidos
numa tempestade de barulho

como se seguíssemos
um fiozinho de prata
que brilha no escuro
e passamos
pelo Minotauro
mas o Minotauro
está ocupado
a jogar
World of Warcraft

(projeto secreto melão) 


começamos por aqui: (gesto facial de rato) me sinto na obrigação de avisar que isso não será fácil e nem bonito. (abrindo a maleta) peço que notem meus gestos, sempre o extremo dos dedos e não a boca (aponta a boca). agora sim (mão na orelha) (espera o jingle) (e vem o jingle), a exposição do sudário de um tolo, ao contrário do sudário de um mártir, é azucrinante e bastante jocoso. ao final, todos serão convidados a rir. esperem o final. (toma água) o ser humano ainda se mostra incapaz de rir, falar e ouvir ao mesmo tempo, pelo menos de modo a ser compreendido e compreender. aí uma chave (ato de chave) (o gesto de chave é bem diferente do ato de chave): o tolo não quer, não depende de compreensão. seu feitos, seus trejeitos, seus desmazelos, seus dentes nas traves da vida não são para entendedores. podemos repetir para o valor se manter: nem o tolo e nem seu sudário precisam ou desejam compreensão (gesto de chave). como tola, posso confirmar isso e aí temos mais peso no valor. não que minha tolice faça alguma diferença, mas faz, simplesmente faz (ombros) (ombros, ombros). uma maçã mordida junto de outras maçãs mordidas, quero dizer, nós, os tolos, compreendemos e somos contra a validação do dito (caricatura de gente culta) “uma maçã podre em saco de maçãs boas”. não está direito e o julgamento foi feito (ato de martelo). convém lembrar que nenhuma fruta é inteiramente boa, humildemente sacana ou uma vadia sem princípios. dessa forma o correto é que uma maçã podre ou mordida, oxidada, valei-me! (muhammad ali) (?), uma maçã oxidada não oxida frutas frescas, valei-me! (?) (muhammad ali), frescas! (muhammad ali) (!), contudo, vive bem num saco ou cesta com outras maçãs mordidas, oxidadas. o que quero dizer é que não somos contaminantes da tolice. somos a própria tolice (espera pelo jingle) (silêncio) (o tolo no backstage não solta o jingle) (é um tolo), quando em bando ou em solo de saxofone de bambú, que belo exemplo, muito obrigada, mereço reverências (reverências ao lugar vazio) (vai ao lugar vazio receber as reverências), por puro exemplo (ombros, ombros). um experimento recente nos mostra que um bando de tolos, cada tolo num ponto extremo de uma multidão, não que o tolo seja extremista, cada um de seu ponto e com um pouco de força espremendo as próprias mãos e olhos (mímica), é capaz de ficar feliz com qualquer resultado. com a risada de um senhor ou com a empáfia de uma mocinha gótica (mímica), com o apagar das luzes ou com o tilintar e então o craquelar e então e por fim corridão sem a vírgula do fôlego, com o rompimento de um hidrante (mímica). no caso do hidrante é possível que algumas crianças e advogados tenham seus momentos de tolice, coisa de dez ou quinze minutos, não mais. logo, para fins etnográficos, podemos dizer que a tolice não é contagiosa em seu estado crônico, talvez um tostão em seu estado cômico breve, ou seja, ninguém está livre de ter uma porção de seu dia tomada pela tolice. nem o tolo está livre de se tornar ainda mais tolo, como é o caso do engenheiro chefe dos caralhos voadores do senhor sonso ou do último membro de uma fila de operários embaladores de bergamotas descascadas que, aliás, passam todos os meses por testes terríveis, (afina a voz) coisa de luzes e de fumaça almiscarada. (engrossa a voz) e tudo para quê? (afina a voz) para que a tranquilidade dos não tolos esteja cada dia mais firme e radiante. (voz normalizada) (nem fina e nem grossa) em verdade, nós, os tolos, gostaríamos muito de parabenizar os não tolos e desejamos oferecer à categoria (roda o braço onze vezes e meia) esses pequenos elegantes troféus muito aliciantes, talhados em grande fruta suculenta, aí está (muitos tolos no palco) (tolos para todos os lados), ergam as cortinas, aí estão as corujas muito nada tolas de melão! nossas congratulações, lágrimas e moscas (mímica)! fim. (gesto largo e propositalmente bruto, brusco, repentino, entrecortado com os braços) (zas, zas) podem rir. (fechando a maleta) podem também, por favor, não que exista uma dívida de favores entre tolos e não tolos, mas existe, é fato (gesto e ato de imitar dinheiro), podem apanhar seus exemplares e limpar o chão. tolos, sim! não a ponto de passar pano para não tolos (mãos nas orelhas) (os tolos esperam o jingle final) (entre os tolos, o tolo operador da mesa de som). 



Filosofia como Modo de Vida - nota de leitura

Sabemos, sobretudo pelos estudos de Pierre Hadot e Michel Foucault, que os gregos tomavam a vida, enquanto bios, como matéria, material, e não como zoe, sequência biológica, determinismo psicológico. Um bios enquanto material dúctil, modificável, vulnerável. Por isso, a ética designava para eles um processo, um esforço de transformação individual com implicações coletivas. Que cada cidadão se imponha as suas próprias formas, maneira de educar para a temperança, o que trará ordem à Polis. A ética, na leitura que Foucault faz dos gregos, seria um trabalho sobre si-mesmo, lento, paciente, progressivo. Estas «técnicas de si» que o pensador francês descobre e trabalha na década de 80 do séc. xx fá-lo reconsiderar a filosofia como arte da existência, ela escolheria e acompanharia as técnicas a aplicar sobre si para traçar as linhas éticas essenciais de cada um que filosofa. Prolongando as linhas socrática, estoica, epicurista e cínica (Aristóteles interessa-se mais pelo funcionamento do mundo).

Reparem como estamos longe da filosofia como profissão professoral ou atestado de erudição numa linguagem para iniciados. Para Foucault e Pierre Hadot, como antes deles para Sócrates, Montaigne ou Nietzsche, ser filósofo é uma arte, no sentido de prática artesanal que deve ocupar-se de ir definindo a ética de cada praticante.

Escrevi a minha última Nota de Segunda Feira, aqui na Enfermaria 6, em torno disto, reincidi, num café filosófico que mantenho na livraria Snob, Lisboa, cerca de uma semana depois. E eis que ontem, talvez levemente guiado por um zum-zum amigo, encontrei na Almedina do Saldanha a Filosofia como Modo de Vida. Ensaios Escolhidos, organização de Federico Testa e Marta Faustino, editado pela Edições 70. E aí pensei: não há mesmo duas sem três. Claro que há, mas fiquei contente com esta trilogia, uma consistência que nasceu das minhas vontade e interesse, mas também do acaso. E, como dizia Nietzsche, é «preciso amar o acaso».

O livro agora editado «pretende dar expressão, em língua portuguesa, às principais linhas do pródigo e multifacetado debate contemporâneo em torno da filosofia como modo de vida» (p. 43) Assim, «Tomando como ponto de partida e inspiração esta reinterpretação da história da filosofia, o volume que aqui se apresenta consiste numa colectânea de ensaios subordinados ao tema “filosofia como modo de vida”, escritos por alguns dos mais renomados autores do debate anglófono contemporâneo, nomeadamente, John Sellars, Michael Chase, Ian Hunter, Daniele Lorenzini, John Cooper, Martha Nussbaum, Julia Annas, Matthew Sharpe, Martine Béland, Michael Ure, Keith Ansell-Pearson, Tobias Dahlkvist e Arnold I. Davidson.» (da contracapa)

Os ensaios versam sobre metafilosofia (o que pode ser e como pode funcionar a filosofia como modo de vida) e, sobretudo, sobre pensadores bem conhecidos que, de um ou de outro modo, se relacionam com o tema: Pierre Hadot, Michel Foucault, Sócrates, Séneca, Nietzsche, Bergson, Cioran e Primo Levi.

Despeço-me com uma citação de Hadot: «para permanecermos fiéis à inspiração profunda — socrática, poderíamos dizer — da filosofia, seria preciso propormos uma nova ética do discurso filosófico, através da qual ele renunciaria a tomar-se a si próprio como fim em si mesmo ou, pior ainda, como meio de ostentação da eloquência do filósofo, tornando-se antes um meio de autossuperação e acesso ao plano da razão universal e da abertura aos outros.» (p. 31 / La philosophie comme manière de vivre, pp. 102-103)