Glória

o bailarico do porquinho superou 
em excesso as mais modestas expectativas 
revezavam-se virtuosamente as bailarinas 
uma atrás da outra a escorrer suor 
e quando em ovação o chamaram ao palco 
 
e o envolveram em apoteose 
como uma larva no casulo então 
algo nele mudou irreversivelmente 
por certo o anúncio de novos começos 
deste então que não oiço notícias dele 
 
os amigos procuraram-no toda a noite 
mas depois havia os animais e crianças 
para cuidar e já se sabe como é 
com os da sua laia não se pode fiar 
em animais criados para abate 

Morte e vida do autor

Trata-se de pensar as condições de possibilidade do autor, não através de um ensaio de 24 volumes escrito em símbolos lógicos que ninguém percebesse embora todos o admirassem. Marcel Duchamp, T.S. Eliot e Hans Christian Andersen dar-nos-ão uma linha de pensamento possível, uma entre tantas outras.

Morte e vida do autor

Um mapa da cidade

 Thom Gunn

Tradução de Tatiana Faia

 

Estou no cimo de uma colina e vejo
abaixo de mim um luminoso país onde revejo
que nele pelas duas tem o marinheiro ébrio de tecer;
a pausa transiente, o seu marinheiro desaparecer.  

Reparo, ao descer o olhar pela colina
em braços pousados numa janela de esquina;
E na teia de escadas de incêndio segundo as normas;
Move-se o possível, as cinzentas formas. 

Aí agarro a cidade, completa;
E cada forma de luz repleta
É minha, ou corresponde a minha,
Aquela intermitente aquela outra firme brilha. 

Este mapa é território do meu deleite.
Entre os limites, noite após noite,
Observo o avanço da doença que traz a morte,
Reconheço o meu amor da sorte. 

Vejo nas luzes recorrentes
Possibilidade sem limites,
O apinhado, estropiado e inacabado!
Por nada quereria esse risco mitigado.   


A MAP OF THE CITY

I stand upon a hill and see
A luminous country under me,
Through which at two the drunk sailor must weave;
The transient's pause, the sailor's leave.

I notice, looking down the hill,
Arms braced upon a window sill;
And on the web of fire escapes
Move the potential, the grey shapes.

I hold the city here, complete;
And every shape defined by light
Is mine, or corresponds to mine,
Some flickering or some steady shine.

This map is ground of my delight.
Between the limits, night by night,
I watch a malady's advance,
I recognize my love of chance.

By the recurrent lights I see
Endless potentiality,
The crowded, broken, and unfinished!
I would not have the risk diminished.

Michel de Montaigne e «a pensar morreu um burro»

Michel de Montaigne

Feliz é aquele que não pensa

Neste podcast de cerca de 5 minutos veremos que talvez Montaigne, o grande Montaigne, responsável, em partes iguais com Descartes, por parte da sofisticação cultural francesa (o que seria de nós se nos séculos nascentes do pensamento crítico, XVI-XVII, houvéssemos tido mentes semelhantes a moldar o futuro?), fosse, afinal, um misólogo, como Sócrates, aliás.

3 Fragmentos de Safo

45

ἆς θελετ᾿ ὔμμες

enquanto desejares

47

Ἔρος δ᾿ ἐτίναξέ μοι
φρένας, ὠς ἄνεμος κὰτ ὄρος δρύσιν ἐμπέτων.

E o amor varreu o meu
coração, como o vento na montanha desce sobre os carvalhos.

50

μὲν γὰρ κάλος ὄσσον ἴδην πέλεται ⟨καλος⟩,
ὀ δὲ κἄγαθος αὔτικα καὶ κάλος ἔσσεται.

é pois apenas belo de ver aquele que é <belo>
enquanto aquele que é bom de imediato será também belo