Constança de Castela funga contra o castelo de cartas de Inês de Castro

A ela reservam as lendas de um trono
de amoníaco, quando
meus quadris é que o aqueceram vivos
e sei bem que não hão
de chorar em dez cantos o meu destino:
rejeitadas, não-quistas
jamais cederam material épico ou lírico
aos que usam quizilas
alheias como seu ácido acetilsalicílico,
sem vestir nossa cútis;
e ainda que meu inimigo faça, no futuro,
rainha de uma puta,
a minha vingança eu carreguei no buxo,
de minhas entranhas,
eu, Constança de Castela, expeli o único
a subir ao trono da nada
ancha faixa de terra a que chamam reino,
e com ou sem herdeiro
rirei com a sarna que me cobre na tumba
ao vê-los, tão inferiores,
primeiro cair em domínio de minha terra,
a de outrora, e, ao fim,
se tornarem quintal do FMI e da Europa
enquanto à tal espera
de que retorne, intacto de Alcácer-Quibir,
o que os tire do cárcere
que toma os que fazem, de puta, rainha.

O "E ENTÃO?!" CONTRA A SIMPLIFICAÇÃO

Jackson pollock imitation by night hawk, RichardGeorgeDavis.

Jackson pollock imitation by night hawk, RichardGeorgeDavis.

Ontem a minha filha Maria achou bastante irrelevante uma conversa sobre a metafísica do universo estar por trás das nossas concepções morais. Disse-me algumas vezes, “e então?” “E então?!, respondi-lhe, Então essa é uma condição da humanidade, seríamos totalmente outros sem a espiritualidade polarizada entre o bem e o mal.” Sim, mas senti logo que a minha objecção era infinitamente mais fraca do que a sua. No “E então?” dela estavam contidos todos os princípios críticos do iluminismo, a inelutável investigação racional sobre as condições de possibilidade da verdade, por um lado, e a avaliação intransigente da utilidade, por outro.[1]

Esta aparente puerilidade, combate fingido entre gerações, mostrou-me como talvez o mundo adulto, por trás de uma certa sofisticação semântica, seja bem mais simples do que o dos adolescentes. O “E então?” esmaga toda a sobranceria, pedanteria discursiva com que nos escondemos e simplificamos a vida. Por vezes sem o sabermos, somos simplificadores sistemáticos, repartindo os horizontes de sentido entre amigos e inimigos, bem/mal, verdade/mentira, gosto/não gosto, metafísica/materialismo… Procuramos escapar à fatalidade das ligações múltiplas reduzindo confrangedoramente a complexidade da vida.

Surpreendentemente, escondemos muito disso na palavra “objectividade”, os negadores da complexidade são os primeiros representantes, às vezes com medalhas e tudo, da objectividade. Paradoxalmente, ela faz-se quase sempre acompanhar, na ciência como na filosofia, de demiurgos secretos que comandam o destino na penumbra. As leis que definem demonstrações, os postulados que sustentam teorias, a lógica que testa a coerência argumentativa…, são outras formas de apelarmos à Coisa que nos esconsos do Universo conduz o movimento da matéria e do espírito.

Ao pé disto, pelo menos nesta noite de insónias (é decisivo sabermos a que horas se escreveu), acho mais sensato pensar em Nietzsche como agente secreto da minha biografia (Baudelaire escolhia o poeta). Desenganem-se, saltar assim de um só golpe da teoria do conhecimento para  a da produção textual tem a sua razão, objectiva, de ser.   


[1] Atenda-se a que o “E então?” não é uma indiferença laxistas em relação ao que se discute, não é o je-m’en-foutisme francês (traduzido, sem contexto, por “estou-a-lixarme”, mais o “ismo”), niilismo popular dos preguiçosos ou irrevogáveis desiludidos. O “E então?” é afirmativo, questiona, obriga a esclarecer, explicar, justificar... É neste sentido que o uso aqui.

Salvatore Quasimodo, À NOVA LUA

No princípio Deus criou o céu
e a terra, depois no seu exacto
dia pôs os luminares no céu
e ao sétimo dia descansou.

Após mil milhões de anos o homem,
feito à sua imagem e semelhança,
sem nunca descansar, com a sua
inteligência laica,
sem temor, no céu sereno
de uma noite de Outubro
pôs outros luminares iguais
àqueles que giravam
desde a criação do mundo. Amen.

Read More