João Miguel Henriques lê «Terceiro poema húngaro»
/O poema pode ser lido aqui.
Constará do Caderno 2, a ser publicado brevemente.
«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
O poema pode ser lido aqui.
Constará do Caderno 2, a ser publicado brevemente.
I.
Não sinto a menor falta do campo. Com morar lá tantos e tantos anos (uma eternidade aproximada), acabei por me render a toda espécie de dualismo fácil. Envergonha-me dizer que houve para mim, em algum momento, o campo – e para lá da rodovia, uma cidade, o seu plural, acidentes (as estradas que nos cintavam). Rapidamente se impôs a necessidade de rarefazer um pouco as coisas, sutilizá-las – afinal, era uma vida que não se colocava, dava-se ao fim e ao cabo em qualquer canto. Suavizada a luz a que me apareciam de costume estas questões, pude finalmente concluir que toda terra é estrangeira para alguém. Reconheço, não é difícil atinar com este raciocínio; há mesmo nele certo ranço a lugar-comum; torná-lo uma segunda natureza – não precisar remontá-lo a cada vez, por exemplo, que pego numa câmera – isto sim me custou um bocado.
II.
Não sei se entendi a sua pergunta. Você quer dizer estes retratos? Não, não sei de quem são, são meus irmãos, foram passar o ano-bom no sítio de um amigo. Sim, parecem muito felizes.
O homem que se olha ao espelho sabe
Que vai morrer. Não sabe quando ou como,
Mas reconhece a finitude da vida
– Da sua vida, de cada vida.
Contempla o processo biológico
E admira-se perante o zelo do tempo
A modelar-lhe a velhice no rosto.
172. ADAPTAÇÃO
Sofria, sofria sempre, sofria de uma forma contínua e invariável; sofria de tal forma e com tal intensidade que qualquer alegria, por pequena que fosse, lhe era completamente insuportável.
191. ANTECIPAÇÃO
Desiludido com o presente, sentou-se à espera do futuro. Muitos anos depois, olhava para o passado com desespero e sentia ainda mais saudades do futuro.
211. FÉ
Todos os dias pela manhã, antes de ir trabalhar, levava o cão à rua. Ao fim-de-semana fazia o mesmo, apenas um pouco mais tarde. Caminhava ao ritmo do cão, num percurso quase invariável. Acreditava que era ele que passeava o cão, quando na verdade era o cão que sempre o passeava.
P.S. Pode ser de interesse para os leitores saber que o cão era branco.
232. CUSTO
Era um escritor de renome internacional, considerado porém um rematado machista, porque todas as suas personagens femininas obedeciam exclusivamente a uma exagerada visão masculina. Um dia o escritor cansou-se e escreveu um romance visto pelos olhos de uma mulher, considerado o melhor dos seus romances. Um ano depois da sua publicação o escritor ainda se vestia de mulher e estava a considerar colocar implantes mamários.
Livros, filmes, ideias.
Fotografia de Egídio Santos