Gajos Porreiros

Muitas pessoas que conheço, no género adequado a esta circunstância, são gajos porreiros. Sem grande esforço, dizendo-o (foi isto que impôs o Linguistic Turn da segunda metade do xx) e parecendo-o (é impossível parecer um gajo porreiro e não o ser, uma autêntica revolução ontológica e moral).

Numa época enredada em profundas dúvidas, com uma probabilidade elevada de passarmos os últimos 10 anos de vida a babar-nos e a tomar um cocktail de moléculas medicinais, óptimo para o aumento da esperança de vida sem qualquer esperança de felicidade, nada melhor do que uma epidemia de gajos porreiros. Massificação de pessoas sem arestas, deslizando irresistivelmente entre posições controversas, submissas, cheias, até rebentar, de senso comum, assoberbadas de inteligência circunstancial (resumida nos “cada um é que sabe de si” e “em Roma sê romano”), vagamente humanistas, vagamente ecologistas, vagamente de direita ou de esquerda, com gostos concêntricos, sorriso fácil, “amigas do seu amigo”, especialistas no dois-em-um da palmadinha/facadinha nas costas, prontas para a cervejinha e blindadas a qualquer erudição que não se verta imediatamente no mundinho onde vivem... Embora a esta capacidade de se moldar, qual gelatina humana, não corresponda um bom relativismo. Paradoxalmente, os gajos porreiros desenham um mundo aperspectívico, têm convicções duras, por detrás da tolerância de fachada, vivem fechados nos seus pontos de vista, que consideram, na estreiteza do horizonte de expectativas individualista, os melhores do mundo.

Dir-me-ão, assim “como quem não quer a coisa”, que apesar de tudo tiveram a força demiúrgica para se criariam a si próprios. Pois bem, pura mentira, é impossível um gajo porreiro ter tido a força e a destreza decisórias de se fazer a si mesmo. Eles, todos, são produto dos meios de comunicação de massa modernos e pós-modernos (os primeiros acreditavam no Progresso, substituto de Deus; os segundos viraram-se para a polifonia discursiva, o conflito de interpretações, a fragmentação das perspectivas, numa palavra valorativa: caíram no raio-de-mundo-patchwork), do Facebook à televisão, dos jornais aos blogs, da rádio ao Spotify..., os média reorganizaram a “realidade como realidade na nossa cabeça”, isto é, definiram as linhas de realidade que pode ser observada, sem risadas ou dúvidas sistemáticas, como real, depois puseram isso na nossa cabecinha para modelar e fazer emergir o gajo porreiro que há em nós (Foucault falava do nazi que se esconde em cada íntimo).

Por isso, os porreiraços apenas precisam de parecer, parecer que toleram, trabalham, ajudam, compreendem, amam, agem, combatem... para o ser. Talvez a grande novidade na ontologia do porreirismo seja a de que a representação (estar no “lugar de” e “fingir que”) é o ser. O “Mascara-te de porreiro, diz que és porreiro e serás porreiro!” tornar-se-á o princípio de doutrinamento ao porreirismo dos escassos resistentes. Onde toda a cultura acima do “imediatamente agradável” se reduzirá a pó; as controvérsias serão aplanadas em consensos claros e simples, bons para todos os contendores; os discursos revolucionários baixarão o tom e serão reciclados para as Marchas Populares; a angústia da influência dará lugar a milhares de Reforços Positivos derramados sobre todos os que se aventurem, por exemplo, na escrita de um best seller; e quando se pisarem algumas normas, bastará uma pequena multa e algumas palmadas no rabo; a entreajuda, no amor e na crítica, parecerá tão autêntica que ninguém terá a coragem de a questionar; mas acima de tudo, todos recitarão o credo no homem porreiro (substituto, até ao certo ponto, do Übermensch), uma lengalenga sem referente, tanto mais que, como nos ensinou o mestre supremo da ironia Oscar Wilde (que reprovaria no exame para gajo porreiro): “Quem diz a verdade, mais cedo ou mais tarde, é apanhado em flagrante.” E quem quer ser apanhado em flagrante, ah, quem quer?

de «Cenas de uma vida conjugal»

Andamos até ao centro do ruído,
ao círculo em que tudo se comove.
Não sei falar de outra coisa:
esta casa, vozes espantadas,
risos que bafejam mais vida sobre a
corrente daninha que nos amarra os pés.

Sentada no colo de ti mesma,
num canto remexendo cabelos,
nunca soubeste de tal encontro.
A conversa entretida com seu arrombo,
puxando varizes, convertendo noções,
eu a morder o menos possível numa
hora discreta para que chegues.

Mas a hora não avança nem resolve
e eu pensei que estávamos juntos.
Os meus sinais são teus papéis ilegíveis
deixados sobre a mesa, ardendo
fundos num prato sujo. A persiana
faz subir a luz: equação mirabolante.

Espadas de aço fino

Francis Bacon 'Study for Portrait II (after the Life Mask of William Blake)', 1955

Francis Bacon 'Study for Portrait II (after the Life Mask of William Blake)', 1955

Nunca a horas. Sem dinheiro para apanhar um táxi. Os autocarros atrasados. Mais um sermão do psiquiatra. O senhor é uma criança, cumprir compromissos não é consigo, o que é feito dos duzentos euros de dízima? Um calhau no meio do caminho e os olhos pregados ao relógio parado e a criatura afocinhando no alcatrão, entrando na clínica a escorrer sangue do nariz. Pálida de espanto, a recepcionista abriu a boca mas não falou. Um homem ensanguentado perguntava-lhe pelo doutor, se já tinha chegado, se faltava muito para a consulta, se a consulta tinha sido adiada. A boca da senhora aberta de admiração. Um homem coberto de sangue. A criatura enfiou a língua para dentro da boca aberta da recepcionista e depois de ser mordida sentou-se no chão e perguntou pelo doutor. Que estava desesperado, que os medicamentos não faziam efeito, que as obsessões tinham regressado. Que não saberia exprimir-se de maneira conveniente. Que só o doutor o ouvia.  Com os lábios manchados de sangue, a recepcionista abriu a porta do consultório e afirmou entre, que Zeus aguarda-o vai para meia-hora. Zeus esperava impacientemente, chupando um cigarro maior do que uma caneta e tremendo da perna, hipereufemismo, provocando terremotos mediante patadas na mesa. A criatura ajoelhou-se, colou a testa aos sapatos do doutor e suplicou ajude-me, tentei matar-me ontem à noite, a mulher saiu de casa e levou os miúdos e as vozes dentro de mim. O doutor não quis ajudar logo, disse eu sou Zeus e não nasci para esperar, nem para mendigar, lamba-me os sapatos e talvez a partir daí possamos dar início a um diálogo, digamos, profícuo. A criatura lambeu e mordeu o cachucho do doutor quando este lhe esticou o anelar. O que lhe aconteceu à fronha?, perguntou o doutor. Caí, não tive tempo de me limpar, respondeu a criatura. O doutor pediu-lhe, não pediu, Zeus não pede, ordenou que explorasse melhor esse assunto da mulher e dos filhos. A criatura repetiu que a mulher tinha desaparecido com os miúdos. Qual mulher? A minha. Zeus puxava a criatura para os factos: você não tem mulher, a sua falecida esposa enfiou-se com os miúdos numa fogueira há uma vida, não é assim? É, é, doutor, é assim, mas sinto como se fosse agora. Uma dor profunda que escavaca como uma picareta. O doutor prosseguiu: e se lhe disser que nunca teve mulher? A criatura acreditava, Zeus não se enganava. Altere-me a medicação doutor. A criatura desesperançada. Receite-me mais comprimidos, injecte-me mais daquele líquido. Ontem tentei matar-me com uma faca. A criatura acordara de madrugada, dirigira-se à cozinha e espetara uma faca no ombro. Esperava morrer com uma faca no ombro? A criatura pediu licença para se explicar melhor: não me tentei matar, doutor, tentei substituir uma dor por outra, substituir a saudade ou amor ou paixão, ou o que raio lhe chamam as gentes normais, por uma dor física, substituir uma dor por outra. Zeus de cigarro na boca. Amor?, perguntou.

Ars Erotica

Mulholland Drive, David Lynch

Mulholland Drive, David Lynch

Eyes Wide Shut, Stanley Kubrick

Eyes Wide Shut, Stanley Kubrick

O Segredo de Brokeback Moutain, Ang Lee

O Segredo de Brokeback Moutain, Ang Lee

No primeiro tomo da História da Sexualidade (A Vontade de Saber), Michel Foucault discute a ausência de uma ars erotica no Ocidente, substituída pela scientia sexualis. Mas, é esta a novidade, Foucault não liga essa falta à repressão sócio-moral da sexualidade, como o fez apressadamente Maio 68. Na verdade, desde o século xvii que se multiplicam os discursos sobre a sexualidade. Numa longa análise dos dispositivos legais (direito canónico) e morais (pastoral cristã) sobre o lícito e o ilícito sexual (incesto, adultério, sodomia, homossexualidade, pedofilia, sexualidade dos loucos...), descreve genealogicamente uma “verdade do sexo”, que no Ocidente se declinaria numa scientia sexualis, assente na polarização entre permitido e proibido; enquanto o Oriente, um certo Oriente, estava há muito mais interessado numa ars erotica, onde a verdade sexual se ligava ao prazer.

O nosso conhecimento sexual, controlado inicialmente pela moral cristã, inscreveu-se na compreensão dos mecanismos da sexualidade através da confissão. Algo que favoreceu o nascimento da Psicanálise freudiana. De seguida, séc. xviii, uma certa objectividade científica decidiu explicar – biologicamente, sociologicamente e psicologicamente – a acção que mantém viva a espécie humana, discutindo-se a sexualidade sob a capa da procriação. Tudo isto aumentou imenso o aparelho discursivo em torno da sexualidade, começámos a falar de sexo pelos cotovelos (mas sem abordarmos explicitamente a questão do prazer, vamos mais facilmente, sobretudo no anedotário misógino, para o campo da sujeição, do domínio machista e dos aspectos clínicos ou reprodutivos).

Entretanto,  o cinema, mas também a fotografia e a pintura, foi desenvolvendo a ars erotica que não tínhamos. É esse testemunho, em reduzidíssima amostragem, que deixo acima, algumas encenações eróticas tão intensas que se alojam numa espécie de metafísica do amor, servindo de modelo a possíveis deuses (é isso que um grande realizador faz: um filme para deuses, nos bons exemplos de Kubrick, Lynch ou Lee).

Mas há diferentes níveis de jogos de linguagem/imagem eróticos. Hoje, fora da arte, o sexo é ao mesmo tempo um facto omnipresente e dissimulado, banalizado, dramatizado, desprezado e apreciado. Nunca a intimidade tinha irrompido tão fortemente no espaço público, uma forma de narcisismo e de comércio, seja, das duas ao mesmo tempo. Mas isso não aclarou certos problemas, sobretudo o de sabermos pensar e comunicar a nossa intimidade. Aliás, quando decidimos falar dela, refugiamo-nos na performance ou no idílio sexual. Continua a ser penoso confessar as dificuldades sexuais, a forma como nos submetemos aos interditos, as controvérsias entre impulsos e moral, as fantasias inapropriadas... Por outro lado, há um movimento em França onde se pode vislumbrar um novo paradigma: o “plan cul” (tradução livre: “plano f.”). Assenta em encontros com objectivos estritamente sexuais, “fazer amor sem relações amorosas”, e pode abrir para um novo tipo, muito menos preconceituoso, de educação sexual. Alguns objectam que tal já foi experimentado no movimento hippie de 60, mas julgo que então a contra-moral era ainda um forma de moralizar. De uma certa forma, parece que nos queremos aproximar do Oriente, de um hedonismo sexual sem compromissos morais. Ou será mais um bombom envenenado? (Upss, às vezes, fugindo a Nietzsche, parece que quero sobretudo discutir a melhor maneira de ser pessimista).