Conheço apenas três estações e não há

Conheço apenas três estações e não há
ano que não seja coxo – três estações
apenas: a da luz
prolongada, a da luz estiolada
e a do regresso do calor.
Retornam os dias e retornam
os poemas sobre os seus ciclos.
Olá, coração estragado
como um piano deixado ao sol e à chuva,
como uma aurora boreal
sobre a feiúra dos arrabaldes.

A avenida mais imunda é o início
do que chamo de casa: uma fileira
de terrenos baldios com bichos mortos
apodrecendo entre o mato e as pedras;
torres emulando castelos de princesas
ou coqueiros de néon imitando praias
na entrada de motéis; carcaças de carros;
depósitos de materiais de construção
deixados ao léu; o entardecer
regurgitado por máquinas fumarentas – 
a luz crua, escassa, puída
que resseca narizes e gengivas
e arreganha caninos que sentem fome. 

O meu reino é uma legião
de cavalos magros, de prostitutas
de braços como gravetos e de rapazes
aos quais a noite vêm
e deposita ovos escuros em seus peitos abertos.
Olá, inverno súbito nos estertores
de uma sexta-feira. Faz frio e o metal
das placas de trânsito e dos carros estacionados
é o fio de uma espada gelada
a separar entranhas e a torturar o tédio.
Por vezes chove e um bueiro
transborda e retornam à sarjeta
lixos e ratos. Por vezes
dorme-se se com o coração acariciado
por um sussurro brando, por uma garoa,
e instala-se a suspeita
de uma manhã, de um céu 
lavado estendido sobre a infinitude 
dos subúrbios calcinados.

Peixe-lua

Quando o sol se pôs eu estava a assar o peixe-lua.
Tinha acordado de manhã a pensar no destino que havia de dar ao peixe-lua e no cru instante em que a primeira luz entrou pela janela tomei a decisão. Ia livrar-me dele pelo fogo. Ia assá-lo.
Ao levantar-me, encontrei-o pousado na mesa da cozinha, tal como ali havia sido deixado na noite anterior. Estava cortado a meio de alto a baixo, com a linha de precisão e simetria que apenas a perfeita indiferença da faca poderia ter alcançado. Era um peixe-lua jovem; teria alastrado como um fantasma pelo fundo do oceano, se o tivessem deixado crescer. Ainda assim, o seu corpo aberto em dois ocupava toda a extensão da mesa da cozinha, deixando de fora, suspensas do tampo de madeira, a cauda e a carantonha duplicadas, o sangue pingando nas lajes do chão.
O céu da manhã estava baço e mortiço, estagnado. Preparei o fogareiro no quintal e deixei que a leve brisa que corria entre as árvores acicatasse as brasas. Eu sabia que um peixe-lua não é comestível. Ninguém, que não a faca, sentira alguma vez desejo de prová-lo. Enquanto as brasas se acendiam, pus-me a olhá-lo pela janela da cozinha. Ali estava ele: murcho e aberto, metade do corpo com as entranhas para cima como uma cabeça de medusa, a outra metade recatada, apenas a carcaça visível, recamada ainda das cintilações azuis e loiras que lhe pusera o mar.
A lua cheia desta noite será a maior do ano, rezavam as notícias de há dois dias atrás. E o peixe-lua, após anos de mergulhos profundos, tinha vindo à superfície do oceano. Tinha-se deitado de lado a flutuar para aquecer-se na maré tocada pelo luar. Assim deitado, o peixe-lua sonhava com a faca, a lâmina correndo até ele ao longo de toda a margem do rio. A faca roçava-se nas pedras como se sentisse saudades de outra coisa indizível. Como se o mar ao longe a mordesse, a faca andou toda a noite até dar com o peixe-lua que se banhava à luz da lua. O animal, raiz ou sombra, recebeu-a com a alegria inexplicável de quem acolhe o golpe e deixou-se abrir a meio, de tal forma que, quando o encontrei de manhã, se diria haver amor na lâmina.
Ao vê-lo, o meu corpo tingiu-se da tristeza daquele corpo opaco e indolor, insolente na serena inocência com que se deixara matar e mutilar, e com que agora dormia, violado, exposto, na penumbra da cozinha, confiante de que a lua cheia continuava a banhá-lo. Reconhecia, sem saber de onde, o gesto impessoal de amor que quebrasse e contornasse os meus ossos, que cindisse em silêncio a minha carne sôfrega.
Entrei na cozinha e com as mãos nuas arranquei pedaços da carne do peixe-lua. Afundei os dedos na polpa mole e repisada das suas entranhas. Era diferente de tocar algum homem ou animal terreno. Era carne intangível, oca, desassombrada como um balão que se desprende das mãos de uma criança. A carne abundava, era suficiente para um imenso banquete, e eu estava sozinha, vivia sozinha na casa e não havia ninguém que eu pudesse chamar para comer comigo. Mas, no momento em que as brasas tocaram as pontas da carne no fogareiro, os cães dos quintais vizinhos começaram a uivar.
Assim, todo o dia retalhei o peixe-lua e arrumei a carne nas brasas com a paciência de um estivador. Parti os ossos e lancei-os como aperitivo aos cães. Depois, lancei-lhes também a carne ainda em brasa, e os olhos, grandes e inertes, parados como se nunca se tivessem fechado, como se nunca tivessem estado tão vivos que pudessem agora estar mortos, arranquei-lhos da cara com a ponta da faca e lancei-os também aos cães.
Quando o sol se pôs eu estava ainda a assar o peixe-lua. Mas os cães calavam-se, e pesava-me a solidão. Tinha nos membros o torpor da faca como um presente, uma ameaça. Tinha o corpo tomado desse rigor que abrira o peixe-lua, de tal forma que, mesmo sem já quase sobrar vestígio dele, se podia voltar a uni-lo na imaginação sem que o golpe fosse notado.

Arrancar sem pavor contra a montanha

 

Sai da minha casa, não te suporto. Apático, quase dessensibilizado, Américo acolheu a frase pela milésima vez com um encolher de ombros. Fechou-se na casa de banho e, como de costume, levou à boca o gargalo da garrafinha de whisky escondida dentro da bolsa em que guardava o pente, o after-shave, a gilete e outros produtos destinados ao embelezamento masculino. Desaparece daqui, suíno. Escutava com um sorriso. Dou-te o suíno, minha grande cabra. Entrou na banheira, agarrou-se ao peito e morreu de ataque cardíaco. A imaculada esposa continuava a espargir insultos na cozinha. Energúmeno. Disléxica, dizia energume. Quem me mandou casar com esta avantesma? Antes de morrer, Américo fora funcionário de repartição no ministério das finanças, um funcionário exemplar que tirava fotocópias como ninguém, e cliente assíduo de qualquer tasca que vendesse álcool barato e investidor, talvez um dos investidores mais comprometidos de sempre, do prostíbulo pertencente ao “Doutor”, figura assim chamada por conjugar a arte de ingerir absinto com uma oratória à prova de bala — mesmo a cambalear ou a espancar alguém, não prescindia do assaz, do deveras ou mesmo de expressões como esdrúxulo ou aureolar e arroxear. E antes de ser uma nulidade, Américo fora um jovem sonhador, um estudante de economia que fornicava com estrangeiras e ambicionava leccionar em prestigiadas universidades mundiais. A média de final de curso, um pobrezinho dez vírgula quatro, destruiu-lhe o futuro académico e a gravidez da namorada saloia e de largas ancas, cada vez mais largas ancas (“Armário”, começaram a chamar-lhe a partir de certa altura), impôs-lhe um casamento que se alimentava de frustração. O filho só lhe dava ralações. Não raras eram as vezes em que a directora da escola convocava os papás para reuniões em que se tentava compreender os motivos que levavam uma criança efeminada a baixar as calças nos intervalos e a dizer a todos que era uma menina, que era uma senhorita, eu sou uma madame. Os espancamentos não funcionavam. “Até com o cinto lhe enxertei o lombo”, desabafava o pai, e logo se resignava a uma triste realidade: o filho perdera-se para o mundo da mariquice. A mulher sabia pouco, para não dizer nada, sobre qualquer assunto. A não ser que o assunto fosse a novela das nove da noite. A esse respeito se encontrava muito documentada e era até capaz de prever o futuro de cada uma das personagens da referida novela, mesmo antes de assistir aos episódios. O cinto de Américo soltava-se das calças tanto para arrear no filho como na mulher. Bastava que o apanhassem num momento errado, ou melhor, que o apanhassem em casa. O cinto foi aos poucos perdendo a sua eficácia disciplinadora e a esposa foi ganhando cada vez mais coragem. Insultava Américo por questões tão mesquinhas como: compraste um tomate mais verde do que era suposto, idiota. No dia da sua morte, Américo preparava-se para mudar de casa, de país e de mulher. Apalavrara-se com uma das prostitutas do “Doutor”, comprara bilhete para a Venezuela e tinha quase vendida a casa em que moravam a mulher e o filho. O destino matou os seus sonhos. Américo matou os seus sonhos. Américo percebeu tarde que o seu nome era o seu destino.

The Artisan

His friend sneaks him cadavers
out of the freezer; vagabonds
and those that still wait
for a family that will never come.
Their flesh wanes until only bones
remain, resting half-buried
in the woods.

He digs them back up
and carves so many relics.

There are skulls filled with sawdust
to be sandbags of a hot-air balloon
free-falling after a sudden gust;

there are two lanky candles, once
index fingers of an abandoned body,
that when blown, extinguish the light
coming from the velvet-coated
rib cage sconce, and then all
is dark.

He also sells his wares
to those who aren't disgusted
by shaking hands with the dead –

scalemail from a thousand fingernails
and lead-coated patellae that will lie
on a plate against three pounds of flesh
as soon as the butcher arrives at work.

He grabs the chisel's handle, a tibia
sprinkled with bone dust, and resumes his task.
After that day's work is complete,
the excess is left out for the dogs.

EU E MINHA PRIMA MÍOPE

 -me salve
-você conhece aquele poema que descreve um casal dormindo?
-e que começa falando das partes do corpo que estão em contato
-"o queixo dela nas costas dele" -"o ombro dele no cotovelo dela"
-"o calcanhar dela na coxa dele"
-de uma forma que até um determinado ponto poderia ser tanto a descrição de uma briga
-como de uma transa entre contorcionistas
-mas no final dá pra perceber que é só um casal dormindo de conchinha
-e apesar do início do poema passar uma sensação de desconforto físico
-ele termina com algo parecido com
-"pelo menos assim parece/que eles estão indo na mesma direção"
-nossa, eu consigo quase reescrever o poema na cabeça
-mas não tenho idéia de quem seja
-de qual é o título
-se o autor é brasileiro ou não
-nem de onde o li pela primeira vez
-estou há duas horas no google tentando achar e nada