Notas de segunda-feira: o fim-de-semana

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Sou um cidadão atípico, às vezes parece que me construí a partir dos meus próprios actos, uma auto-construção cheia de erros e definindo vias de desenvolvimento inverosímeis. Apesar disso, sou um burocrata competente e abafei quase totalmente o lado temperamental que ninguém, na devida altura, domesticou. Assim, nunca soube bem o que significava o fim-de-semana, ou melhor, ignorei sempre as euforias dos dois dias que cortam, num armistício social e emocional, a série do labor, desse estar no mundo para trabalhar. Isto ou me ilustra como um workaholic inveterado ou um hedonista sem juízo. Em boa verdade, não sou nem uma coisa nem outra. Estou no limbo, sou um ser do “entre”, não tenho qualquer território determinado, nem geográfico, nem discursivo, nem vital. As minhas tautologias são dinâmicas, o meu solipsismo, embora íntegro, está cheio de exteriores, tenho um fogo interior que tanto me ilumina como me devora. O que faço mistura prazer e dever, trabalho e festa (mesmo quando festejo sozinho, a maior parte das vezes). Se escrevo fisiologicamente ao fim-de-semana é porque passei a semana a catalogar palavras e frases. O meu calendário é impecavelmente disforme, revelando-se sistematicamente como a-sociológico, talvez a-psicológico.

Hoje é segunda-feira, milhões de indivíduos foram freneticamente atirados para a rua, logo ao despontar da aurora – e não há nenhuma poesia nisto. Eu não fiz qualquer intervalo, vivo no eterno retorno. Mas sou abanado de todas as formas, sem piedade. Seres sonolentos prontos a explodir conduzem ao meu lado, julgam-nos adormecidos e inofensivos, mas eu sei que ao mínimo contratempo vão dilacerar alguém.

Antígona encontra Os Maias? As Pessoas do Drama de H. G. Cancela

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Há duas afirmações particularmente pertinentes para pensar sobre As Pessoas do Drama de H. G. Cancela. A primeira envolve dizer que o autor é sem dúvida um dos romancistas mais desafiantes a escrever literatura em português hoje, a segunda é que este romance é, em proporções diferentes, um estudo sobre a arte, o trauma e a ambivalência, e que o resultado destas características conjugadas não é tanto do âmbito da expiação quanto da violência que é exercida sobre as personagens e que passa para o leitor, em parte porque não há exactamente uma perspectiva ética que venha a emergir como produto da leitura e resolva as personagens de um ponto de vista moral (embora algumas sejam mais fáceis de ler do que outras). Nesse sentido, este romance é um pouco como as tragédias gregas a que o título parece aludir: uma exploração dos limites do humano.

Há, a meu ver, dois clássicos com que as As Pessoas do Drama dialoga sem que se apresente como releitura de nenhum. De alguma forma, é difícil ler o romance de H. G. Cancela sem pensar no outro romance sobre incesto da literatura portuguesa, Os Maias de Eça de Queirós. Por outro lado, há uma encenação da Antígona que se repete durante um longo período de tempo numa das partes centrais do romance e o elo com a tragédia de Sófocles é relevante (mas talvez não exactamente vital) para ler o romance. Se falamos de ecos da tradição, há ainda o facto de uma parte da acção se passar em Roma, e isto abre espaço para uma das reflexões mais interessantes que o romance propõe, acerca da natureza da ideia de herança cultural. A noção de herança cultural corre em paralelo com outra, mais oblíqua, a da hereditariedade dos traços e comportamentos que os filhos podem herdar dos pais.

A primeira parte do romance abre com uma longa sequência sobre um homem, o narrador (nunca nomeado), que evita abertamente quase todo o tipo de contacto social e constrói uma vedação em torno da sua propriedade. Pode haver aqui – ou não – um jogo com o mito do beau sauvage. Através das preocupações filosóficas que o estruturam, podíamos dizer que H. G. Cancela é um romancista que pertence à tradição de Vergílio Ferreira. Mas As Pessoas do Drama estilhaça toda e qualquer expectativa de uma re-encenação pacífica de referências culturais que pudessem estruturar as expectativas do leitor. H. G. Cancela, de resto, notava numa entrevista recente ao Público:

A subversão tem de agir no interior da regra. Qualquer subversão tem de se produzir a partir do interior. A subversão da gramática tem de se produzir no interior da gramática da mesma maneira que a subversão da moral se produz no interior da moral. Não há um espaço agramatical; não há um espaço amoral.[1]

Paradoxalmente, pode ver-se uma observação quase clássica de um aspecto da tragédia grega como descrito por Aristóteles: o violento segredo no centro do enredo não acontece em palco, ou seja, não é narrado em parte nenhuma do romance, não é sequer explicitado e cabe ao leitor, chegando à última página e deparando-se com a didascália que encerra o romance e que inclui uma breve descrição de cada personagem (um pouco como uma lista de dramatis personae), tentar reconstruir os eventos que definem o comportamento e o percurso de cada uma das personagens, bem como as relações que se estabelecem entre elas. Em parte, esta omissão acontece porque a escala daquilo que o romancista procura representar não pode exactamente ser articulado através da linguagem. De facto, algumas personagens perdem e recuperam a capacidade de falar ao longo do romance, e uma delas permanece muda durante toda a acção.

Do narrador, que nunca é nomeado, sabemos que esteve preso, embora nunca se explicite ao certo porquê, que não possui qualquer ocupação específica, embora seja descrito na didascália como médico e ele próprio a certo ponto se descreva como historiador.

No entanto, se no centro da Antígona de Sófocles estão em conflicto as leis de um estado e o dever ancestral de sepultar um irmão, para as personagens de As pessoas do drama a preocupação com algo que as ultrapasse parece estar para lá dos seus contextos. As personagens do drama estão no limite mas esse limite não tende para um fim. O desenlace chega por exaustão. O que é a identidade, a moral, os laços de família, o valor da arte, da linguagem, da civilização, são tudo perguntas com que o romance de H. G. Cancela se debate.

No centro da acção, há a obsessão do narrador com uma actriz italiana que ele vê uma vez num filme. Algo o move a ir até Roma para a encontrar. Desenvolve-se então um opressivo triângulo entre o narrador, Laura Spirelli (a actriz) e Filippo Arboreo (encenador da peça que Laura está a representar). Laura está grávida e o pai pode ou não ser Filippo, mas a relação entre ambos parece ter chegado ao fim. Todas as noites Laura sobe ao palco para representar uma Antígona cega e grávida, duas características que não pertencem à heroína da tragédia de Sófocles. Antígona é provavelmente, de todas as tragédias que nos chegaram da antiguidade, a mais popular e encenada de sempre, talvez em parte porque ao contrário de outros dramas clássicos, há uma resposta clara para o drama moral que a peça encerra. Antígona está certa em querer sepultar o irmão porque uma lei ancestral a compele a isso, em face disso, o drama de Creonte é acessório. Uma Antígona grávida e cega, no entanto, é uma metáfora que tanto serve para caracterizar a personagem de Laura, quanto para sublinhar o traço de uma ideia de eventual culpa hereditária por um caso de incesto do qual Laura pode ter sido o fruto. Esta reinterpretação de H. G. Cancela faz o leitor pensar mais em Édipo do que em Antígona. Podíamos então dizer que, indirectamente, por inferência, no centro do enredo de As Pessoas do Drama está este velho tema, se a culpa pode ser hereditária, se passa de pais para filhos. À superfície, esta pergunta parece estruturar o percurso de todas as personagens do enredo, mas sobretudo de Laura. Há na perspectiva da própria Laura e das outras personagens, uma certa misoginia que a objectiviza. Em parte isto explica-se pela profissão de Laura, ela é uma espécie de repositório para as personagens que representa, em parte isto é levado um passo mais à frente, pelo facto das expectativas dos três homens que estão no centro do enredo – expectativa não se confunde aqui com esperança – nunca contemplarem Laura para lá da posse, isto é talvez mais verdade acerca de Filippo do que acerca do narrador, mas o comportamento de Laura é definido a partir desta perspectiva.

Há um lado violentamente irracional que, no desenlace, parece levar a melhor sobre Laura e, como consequência, sobre as restantes personagens, trazendo a acção ao fim, marcando uma viragem. No entanto, a aporia é uma constante neste romance de H. G. Cancela, o lado destrutivo da vida que pode ser convidado apenas pelo facto de vivermos em conjunto com outros (daí o isolamento inicial do narrador), de dependermos deles, de deles esperarmos algo que pode bem não ser mais do que a pista da direcção do passo seguinte. A grande categoria ausente na caracterização de Laura é a vontade. A gravidez de Laura é vista por ela como uma espécie de obrigação que talvez simbolize a inevitabilidade da vida, as forças que estão para lá de qualquer poder de decisão. Não é certo que seja o lado violentamente irracional de Laura que leve a melhor no fim. É mais o caso de que se o seu último acto configura uma rejeição dessa inevitabilidade, pode também ler-se aí, polemicamente que seja, uma tentativa de romper o ciclo dessa inevitabilidade. Personagens desesperadas tomam decisões desesperadas. As últimas páginas parecem perguntar, o que é a sobrevivência? Como continuar? É também neste sentido que As Pessoas do Drama é um dos romances mais inquietantes de 2017.


A luta pelo dinheiro

Estação de Forest Hills, Queens, Nova Iorque

Estação de Forest Hills, Queens, Nova Iorque

Acordado desde as seis da manhã, enlatado no comboio, depois no metro, a navegar entre Newark, Bronx e Queens, a preparar aulas de português que serão leccionadas em inglês, a ler em espanhol, a palrar em inglês, a matutar em três línguas, de olhos cerrados varado por imagens de outra vida mais silenciosa e pacífica, passada em Santa Clara, mesmo ao lado do Panteão, com um cão enorme do qual toda a gente fugia - porque eu o soltava para as rotineiras flexões nocturnas - , pressinto ter descoberto o sentido do pós-modernismo, e logo corrijo pós-modernismo por realismo americano, o realismo do trabalho abismal, despersonalizado, este realismo guardador de vozes espanholas, portuguesas, americanas e indianas que se vão esbatendo à medida que o relógio se aproxima da hora de jantar. Os dias repetem-se, a mecanização ocupa o espaço interior, questões existenciais brotam cinco minutos antes de adormecer, repousamos os ossos, há sufoco, desespero e drama, um drama gigante como cenário, o drama da subsistência, olhamos para trás e surge a penúria, o não ter onde cair morto (pobre Lisboa), mas o tempo é escasso, não paramos, isto é como nos romances de Foster Wallace: tristeza, depressão em abundância, mas o trabalho primeiro, há que espargir notas de rodapé por todas as páginas, enviar um email, preparar um powerpoint, decorar o tal verbo, telefonar a fulano, comprar um tinteiro, falar a beltrano. Dramático, isto de lutar pelo dinheiro, quando o que pretendíamos era ler uma biblioteca inteira a apanhar sol à beira-rio. E a arenga vem a propósito de um excerto do prefácio de Eduardo Prado Coelho ao livro Poemas Quotidianos, de António Reis, em que se escreve: “Atravessamos nós uma rua e quantas vezes um poeta nos espera, ansioso e feliz.” Outros tempos, deste lado do planeta não se vislumbra um poeta, muito menos um poeta descrito como feliz, ao virar da esquina.  

Pequenas variações sobre a queda

O território sagrado do seu corpo
Adentrar
O território sagrado do corpo,
Claves em direção ao fetiche
Gozo múltiplo de formas em redondilhas
Curva imperfeita para a esquerda –
manter-se à esquerda é sinal politico
De polis
A cidade citiada com o fogo
Calmaria sobre lençóis emaranhados
Poderia ser Sade,
mas é apenas lira sentimental pós-moderna
Tudo é volatile
Mas o desejo não.
Muda,
Dentro do território sagrado do seu corpo:
I'm always falling up inside your head

O território sagrado do que lhe despedaça a carne.

*

I'm always falling up inside your head:
Acertar o fundo a ferida
Cair um pouco mais
Sentir o peso do corpo
Que pende para o solo.
Queda frágil
Cair
Cair
Cair
O solo detém o que sustém

Passos na direção de um corpo em queda livre
Não desvencilhar-se do desejo
Que range o tremer do solo que o recebe
Um pouco mais fundo:
Dentro e seco
Adentrar
O território sagrado do que lhe despedaça a carne;

Always falling up inside your head.


O tempo da terra 

Fumaste o teu primeiro charro comigo, 
eu falava-te das propriedades relaxantes da matéria. 
Aí habitava a matéria-prima de tudo, onde
a noite desceu sobre a floresta sobre nós, 
duas crianças entre escarpas áridas a verter, 
a calcar a terra a velar o ruído primordial. 
Perguntaste-me se os grilos não se cansam de
cantar toda a noite. Rimos a bom som e descobrimos que
o céu tem estado escondido no solo. 
Como as redes de pesca presas ao submundo marítimo. 
Fomos juntos. 

Sem eletricidade somos nós a noite. 
Ouvimos a Mayra Andrade ao longe, 
a lua cheia por cima do mundo, 
eu disse-te que as pessoas que pagaram o
bilhete ficaram de costas para o clarão lunar, 
chamaste-me romântico e sorriste. 
Cansámo-nos e dançámos tolos. 
Achámo-nos entre poemas entre palavras entre signos. 
Diz-me: é previsível o trajeto de uma pedra rolante? 
E de duas depois de colidir? 
A partir deste verso falarei enfim de amor. 

Fiquei preso ao álbum das polaroides. A corda aperta. 
Demos uma festa! Como se fosse ficar mais perto de amar
como se amar seja deixares que te olhem nos olhos sem tempo. 
Sem falar. Sem mexer um músculo. 
Ouvir a respiração apenas. Inquieta-te? 
Então foge, porque a seguir é ilusão. 
Demasiado preguiçoso. 
Ou medo demasiado de não acertar. 
Só sei não acertar e faço-o com precisão. 
Vivo para me vingar desde que cheguei, 
mas acerto em todos menos no alvo. 

O meu coração secou numa festa, em que
o mundo me convidou para dançar, 
batida a batida a náusea destilou febre e
vomitei sem fazer barulho. Na manhã seguinte
pus os óculos de sol novos: renasci. 
Fiz oitenta e nove anos há duas semanas. 
Nós durámos algumas horas. Lembras-te? 
Liguei-te no concerto dos Explosions in the sky. 
Quis que ouvisses a 'your hand in mine'. 
Disseste-me que havia demasiada interferência do mundo e
não percebeste nada. Esperaste que eu chegasse
a casa no fundo da madrugada e amanhecemos. 

Agora vivo para sobreviver. 
A taxa de sobrevivência cai. 
Decai até zero. 
Publicar fotografias com crianças africanas para
aliviar a neurose de que sou o responsável pelo
impercetível processo de sedimentação ou
entupimento da vida toda? 
Ir ao grogue a vinte escudos na vendedora da Praça? 
Vejo-os todos os dias a falar para
varandas sem gente dentro. 
A senhora deve dormir de dia. 

Eu? Eu falo para mim sem eu estar. 
Tu também, mas concordámos não falar disso. 
Amanhã esqueceremos. Estás aí? Atrás da porta? 
Vem. O mundo é enorme. E o teu lugar está garantido porque
quando morreres o tempo vai parar. Por ti. Só por ti. 
Quando mais precisaram de mim não estive por falta de habilidade. 
Achava que sim, mas tive uma
arritmia a um milésimo de segundo de abrir o coração. 
Há muito barulho na cave. E sempre o esforço para sair. 
Partir? Ficar? Se fossem embora eu ficaria radiante. 
E cheio de medo. Sou sempre estrangeiro. 
'É melhor ser esbofeteado com a verdade do que
ser beijado com uma mentira', diz um provérbio russo. 
Não me falaste dele nem do que significa. 
Continuas sem falar e convenço-me de que me resta a redenção. 

Não compres um espelho para a casa ou
verás como te coseram a boca. E que nada se aproxime de ti, 
debaixo da linha aguda das manhãs. Continuarão ao teu lado
por serem demasiado cuidadosos
por ilusão
por fatalidade. 
A desilusão? Perder nuvens pelo caminho, 
ver o sol uma vez por festa, 
o traço fino a deslizar do céu ao nada, 
as paredes concêntricas de que foges. 
Que não te reste fechar a persiana sem fresta. 
Precisamos da ilusão a três centímetros de cortar a meta. 

Dizer a verdade é apocalítico. 
Há mundo novo a suceder? 
'Mundo novo' é Mindelo, disse um acidental mindelense. 
Vem para cá. Tens o estômago farto da verdade nas solas dos europeus? 
Como a pedra no sapato, a ferida de canela, a caspa nos colarinhos de Bruxelas. 'Transmitir os
valores da Europa ao mundo'! 
Como será receber o mundo em território europeu? 
Devia ter tirado a fotografia com os embaixadores. 
Fiquei sem provas sem cara. Ainda me aceitam? 
A partir de hoje publico todos os dias na minha
página de facebook para que acreditem. 
Ei, não me viste na televisão este natal? 

É isso: pensar e construir uma história, 
treinar o discurso até parecer nosso. 
Que mais importa? 
Escolher as palavras certas e acreditar nelas como
os que vão à igreja aos domingos. 
É preciso acentuar as que dão prestígio! 
Terei então confiança para entrar na conversa. 
Uma palavra em falso e caio no vazio, por isso seduzo. 
E se não atingir o objetivo digo o que vier à cabeça
como se fosse a última grande verdade de
um tempo sem a medida exata da constância. 
Depois é só apontar aos pontos fracos. 
Estar pronto para premir o gatilho. 
O importante é controlar! 
Sou demasiado benévolo para o mundo. 
As pessoas são as verdadeiras culpadas por
todo o mal que causei e que possa vir a causar. 
Vítima simples que não sabe
de que alambique verteu este sangue. 

Ao escorrer na cara o sangue faz cócegas. 
E às vezes só nos apercebemos quando tocamos. 
Pode ser a ferida viva. 
Pode ser o ressalto do crime. 
Podes ser tu a confundires-te comigo.