Carta-convite 2

Two Greek Dancers, John Craxton, 1951

Two Greek Dancers, John Craxton, 1951

A Clara Crepaldi

Desta perdi-me a tentar encontrar a exposição que vim ver e antes tinha passado um longo tempo sentada no chão do imponente átrio de entrada atando os atacadores dos ténis, olhando com um pasmo bovino (que não se confunde com o epíteto de Homero para Hera) os turistas cirandando em redor da loja, do café, os grupos de adolescentes sentados nas escadas, que não sendo pagodeiros não ensaiam o seu batuque, sentam-se antes cansados no chão como eu, com os nós das gravatas do uniforme da escola mal desfeitos. Quando penso em cosmopolitismo, penso no átrio deste museu. Talvez uma parte do nosso trabalho seja colecionar momentos das nossas vidas em países cheios de contradição. Embora seja bem pretensioso isto, espero mesmo que sim, porque dentro do meu bolso tem um bilhete para ir ver a exposição do Rodin, aquela que explica porque é que ainda não consegui mostrar ao Tadeu os mármores do Partenon, e penso que devia trocar este bilhete por um bilhete de amigo permanente do museu, com opção de adquirir um passe gratuito por mais vinte libras, para te trazer aqui e vermos todas as exposições quando me vieres visitar. Há-de haver aqui de certeza algum quadro sobre a batalha de Waterloo, onde algum soldado há-de aparecer também de camisa aberta até umbigo, e nós concluiremos que em face de pintar algo assim, escrever uma tese é canja.

Pergunto-me se a esta hora o nevoeiro já se terá levantado sobre Salvador e imagino que as flores na minha macieira em Oxford tenham desabrochado um pouco mais. Clara, se tu vieres até ao fim do verão podes comer maçã do pé e podemos montar uma destilaria clandestina no barracão do jardim, ao lado das bicicletas para tentar fazer uma mistura que saiba um pouco a esse vinho da Grécia, retsina, que aqui eu nunca encontrei mas que nós bebemos não longe da biblioteca de Adriano em Atenas.

Clara, a coisa que se percebe logo, assim que se entra no amplo átrio do British Museum é a disciplina imponente, ampla, ordeira, com uma cascata de imponentes escadarias, que chega com um eco de um certo tom imperial, mas não sei porquê, a mim primeiro isto sempre me fez pensar numa descontrução da Acrópole, no facto de este átrio ser coberto, uma alusão à eterna chuva de Inglaterra, ao facto de que não dá para cantar ao sol entre as colunas, e não há neste átrio Cariátides, claro, mas a estátua equestre de algum dignitário romano que eu nunca senti curiosidade de verificar ao certo qual, pela cara suspeito que talvez Galba ou Balbo. Em Oxford, que não é longe de Londres, a fachada do Ashmolean é uma imitação menos intimidante das fachadas dos templos da Grécia, e tem até uma réplica da máscara do Agamémnon, que naquela tarde no Museu Nacional de Arqueologia em Atenas os turistas asiáticos não nos deixaram ver em paz.

Mas se tu me visitares antes do verão terminar em Londres, há numa destas salas do British Museum, para além de tudo o que o Lord Elgin saqueou na Acrópole (um hábito questionável, assiduamente praticado por países ditos de primeiro mundo), os quadros que John Craxton pintou em Creta e em Hidra e em Poros, de marinheiros gregos e paisagens com sol a pique e cabras, ainda que nada indique que Craxton tenha alguma vez subido os degraus de Thoriko para ter uma conversa sobre política, e não muito longe daqui, em Holborn, tem a Ship Tavern, onde não tem aquela cerveja boa do anão, que nós bebemos em Amsterdão, mas onde tu e eu podemos beber Camden Ale, antes de caminharmos de volta até Trafalgar Square, onde tem a estátua do Lord Nelson e eu tagarelarei sem parar sobre Emma Hamilton, amante de Nelson, enquanto a tua atenção errará na amplitude deste verão cinzento que, no entanto, não é como o de Amsterdão, e os leões de Trafalgar parecerão de repente um pouco menos autoritários, os ingleses não tinham imaginado, no regresso de Nelson de Nápoles, que uma mulher ao mesmo tempo tão bem-parecida e tão aparentemente apagada podia afinal ser uma desculpa para tanto tumulto na casa do mais lendário dos almirantes ingleses, e eu notarei que não dá para nadar na fonte, embora as águas também sejam muito azuis. Ou depois de entrarmos na National Gallery e termos discutido aquela mulher de pescoço desnudo pintada por Del Piombo, se o tempo não estiver mau, talvez um mergulho na fonte esteja em ordem. Clara, se não contigo, com quem?

Carta-Convite 

 

A Tatiana Faia

 

Quem chega pela Rio-Santos, sentido Rio de Janeiro, e vira à direita para cair na avenida antipaticamente batizada com o nome de algum figurão da região, vai descer uma ladeira, passar pelo shopping center (esse já com o nome simpático de Piratas Mall) e então virar à esquerda na avenida Caravelas – nesse momento, ele já estará visível à distância. Agora é preciso explicar um pouco mais o entorno. O mar está à esquerda, a cerca de 50 ou 100 metros do asfalto (perdão: nunca fui boa em estimar distâncias), à direita, a cidade avança para o norte e noroeste, espremida pelos morros ao fundo, morros sobre os quais a ocupação humana continua a avançar em formas precárias e violentas que preocupam a Defesa Civil e a Polícia Militar e até me lembram, para o meu aborrecimento, do Third World daquele professor holandês que me irritou tanto. Daí do topo da Av. Caravelas (pois ela começa com um pequeno declive), a 400 metros de distância (dessa vez, usei o Google Maps), você vai ver lá embaixo, cercado pelo colorido da favela nos morros das redondezas, o glorioso Acrópolis Marina Hotel. A primeira coisa que achei engraçada no bendito foi justamente essa sua posição em relação à paisagem circundante: se, na acrópole ateniense, a que fomos juntas pela primeira vez há uns anos atrás, a cidadela é mais elevada do que a mancha urbana que respeitosamente a envolve, no caso do hotel angrense, a situação foi invertida, e a ‘acrópole’ local ficou no fundo da cidade, bem no nível do mar, com risco real de afundar de vez, uma hora ou outra, quando as calotas polares acabarem de derreter. E não é só o nome desse hotel que me faz lembrar de Atenas, mas também sua baixíssima frequência, mesmo em alta temporada, um abandono não tão radical quanto àquele do Classical Acropol Hotel, de nossa segunda visita à Grécia, mas que rapidamente me faz pensar nele, com seus cinzeiros repletos de cinzas, as louças sujas dos últimos hóspedes ainda espalhadas pelas mesas, feliz cenário para o Non-Visitor Center de uma exposição de arte quase impossível montada na zona da exclusão de Fukushima. Quase impossível, mas que, no entanto, está lá, como nós mesmas podemos testemunhar... Ou não? Don’t follow the wind. 

Por falar em radioatividade, se você vier, também quero te levar à Praia do Laboratório, vizinha à usina nuclear. Pelo que eu entendi, a usina utiliza a água do mar para resfriar os reatores e é por isso que a água de lá é deliciosamente tão morna, uma verdadeira jacuzzi marítima. Dizem que os tubarões também curtem a temperatura e vão àquelas águas para criar seus filhotes. Mas quem há de ter medo de tubarões bebês? A praia, além do mais, tem correntes fortíssimas, redemoinhos presumidamente causados pelo sistema de captação de águas da usina. Nada disso, é claro, nem mesmo o perigo de um desastre, é capaz de afastar os banhistas de águas tão mornas e tão azuis (assim como não afastará a nós, tenho fé). 

Falando francamente, Angra, enfim, é só um canto como qualquer outro no mundo, tão acolhedor quanto insuportável. Mas entre a necessidade de novidades e o pavor das coisas inteiramente novas, o equilíbrio é decididamente delicado, e aqui há pelo menos a vantagem das coisas semiconhecidas: breves semelhanças com outras paisagens já visitadas, o eventual alívio de uma anagnórisis engraçadinha. Então, por favor, não demore, deus sabe quanto tempo mais eu ficarei por aqui, quanto tempo mais você estará por aí, e é sempre bom que a gente se encontre às vezes, nem que seja para observar, com galhofa, a desolação ao redor. Prometo que posso até maneirar no papo de catástrofes e abandono, mas venha, venha logo. Temos aqui uma Grécia de ponta-cabeça à espera de nossas risadas. 

Querido trágico

Querido trágico,

   por alguma razão a ópera morreu. Não que estivesses fechado dentro dela, os monstros agora já não estão vazios, decorrem. Há algum tempo dir-te-ia que nunca poderias proibir Turandot de gritar, mas agora não estou securo, sabes, perdi as tuas coisas. Tinha-as demasiado perto e gritavas, casa com a mãe, casa com a mãe, pobre rapaz, tinha pena de ti, as tuas histórias vinham sempre uma oitava acima e tinham ritmo por trás. Escrevo-te por uma razão. Tenho sempre uma razão, nem que seja porque aranha e razão partilham diversas letras. Vivo neste mundo pós-mundo, sabes, a religião agora não tem crucifixos nem ateus, fica parada, estamos todos tão presos, sabes, derramam as letras e elas formam-se em forma de crucifixo. E pensas: lá do oriente, lá do oriente, mas os antropólogos deram cabo disto tudo, sabes, sei que sabes muitas coisas, querido trágico, ficas aí tão no teu milénio, mas eu tenho modernices, sabes, posso “telefonar-te”, e depois tens de me pedir desculpa e dizer: “continua lá a falar do teu trágico”, e eu digo “qual trágico?”, e tu respondes: “não somos todos uma tragédia, meu querido?”, e eu penso, querias que casasse com a mãe, não era, seu porco, mas não, não, nunca matei nenhum pai, quer dizer, matei já trinta ou quarenta, mas nunca um, e tu perguntas, “confessas?” e eu: “confesso o quê?” e tu continuas-me a tratar-me por “trágico” e eu fico confuso, afinal que carta era esta, ouvida ao som de Turandot, eu fico a pensar, querido trágico, nervos e pele, pele e ossos, ossos e pó, pó e nada, nem sombra, sombras-me, e penso, “tragédia, meu querido?”, tragédia nunca vem do oriente, é sempre mais modesta, não tem escalas pentatónicas, nem hexatónicas, queria que criassem escalas sem notas, isto é, vicissitudes de som, desafinadas, queria que criassem, espero que leias estas notas em voz alta, soa sempre melhor, as pessoas lêem demasiado baixo, queria que os comboios se enchessem de pessoas a ler alto, Shakespeare de um lado, A Bola de outro, o Segredo dos Trinta e Sete de um lado, a Jóia de Peterson de outro e mais cinco mil livros que nunca existiram e no fundo o revisor seria verdadeiramente um revisor diria: “ponto e vírgula, senhor”, e outro responderia: “não aceito”, e tu, querido trágico, farias a tua fulgurante intervenção: “o senhor é pai deste senhor?”, e eu, eu seria forçado a dizer, enquanto lia, ou melhor leria do meu livro: “é sobre mim que fala, senhor?”, e o outro senhor ficaria na esquina, isto é, se os comboios tivessem esquinas, faria um leve diminuendo, e diria “Deus, que fazes?”, e outro responderia, “não sabes? sofro, sofro” e tu dirias: “mas vocês sofriam muito no século XIX” e tu dirias “no século xis i xis?” e tu pensarias: “que coisa esta, Turandot, Turandot, Turandoooooot?”. É claro, tens cinco tons. Não te cales por enquanto, estamos dentro da cena. “Deixa-me passar”. Deixa-me passar, não dividas atenções.

 

Com os melhores cumprimentos, e aguardando resposta,

 

Pedro Braga Falcão

A filosofia deve explicar a totalidade

Captura de ecrã 2018-05-06, às 17.47.49.png

Jürgen Habermas deu uma entrevista ao El Pais, disponível aqui. Falou da sua linhagem marxista (apesar de agora se inspirar em Emmanuel Macron), ele que é o último sobrevivente da Escola de Frankfurt, das rápidas mudanças provocadas pelos novos meios de comunicação de massa, da atomização da opinião pública, com as múltiplas parcelas que a constituem a lerem e verem apenas o que encaixa na sua visão do mundo, anulando-se a velha figura do intelectual público, capaz de formar opiniões através do esclarecimento (ainda há intelectuais, diz, mas já não existem leitores para eles), referiu-se também às migrações massivas, consequência do colonialismo e do capitalismo, e até se mostrou favorável a um patriotismo constitucional, na medida em que uma Constituição é lavrada pela história de um país. É neste sentido que se vê como um patriota alemão.

Por tudo isto, a entrevista tem o maior interesse para esses leitores que ainda mantêm viva a necessidade de apanhar ideias diferentes das suas, vindas de alguém que aponta cuidadosamente antes de disparar (a metáfora é dele). Mas o que me motiva mais a escrever esta nota é o que diz acerca da filosofia. Como sabemos (força de expressão), a filosofia está em declínio, à força de querer ser mais uma ciência, com protocolos de rigor que decidam da validade ou invalidade do que se diz, deixou de pensar nos problemas tradicionais que durante séculos fizeram dela o espaço privilegiado do pensamento crítico. E para Habermas eles são aqueles que Immanuel Kant formulou no final da Crítica da Razão Pura: o que posso saber? o que posso fazer? o que me é dado esperar? o que é o ser humano? Ora, estes problemas são globais, não é possível responder-lhes com uma filosofia redutoramente especializada em encontrar, através de uma lógica modal, na melhor das hipóteses, o que torna um discurso válido, logicamente válido (mimetiza-se Ludwig Wittgenstein sem o aparato complexo da sua genialidade). Para Habermas, a filosofia “devia tratar de explicar a totalidade, contribuir para a explicação racional da nossa maneira de nos entendermos a nós mesmos e ao mundo.”

Frase primeira; "Que caia o amanhecer"; Cada osso

Frase primeira

E como falar
de outra forma?
de cortar
e reformatar o futuro,
e assim querer
e ser sem par.
Por que ser assim
pura forma?
tanta cor
entre ares dúbios,
ferrugens,
e sorrateiros costumes
de manter
sombras assimétricas,
como a de pensar
antes de ser,
como a de escrever
e andar
por entre cadeiras
que margeiam limites
intangíveis,
formas sem abdômen,
sem retina.
Ainda quero uma frase
primeira,
nua,
ligeiramente inteira.


Que caia o amanhecer,
o raiar do entardecer,
que os dias acumulem-se,
não na incerteza,
mas na pureza do sacrilégio.


Cada osso

 Quando nossos corpos fundirem-se,
cada osso se desintegrará,
o gozo irá surgir aos poucos,
até que nossas almas se toquem,
meus olhos não chorarão de prazer,
meu corpo não soluçará dor,
mas reagirá forte,
a qualquer tentativa de cura.