Três poemas de Os anos (The Years) de Jamie McKendrick

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Três poemas de Jamie McKendrick

de The Years/ Os anos (Arc Publications, 2020)

 Tradução de Tatiana Faia

 

Corte dos Leões

 

Quem saberia distinguir com árduo e suave tão próximos,
líquido de sólido, mármore de água? Qual flui?

Ibn Zamrak

 

Depois de cinquenta anos revisitar Alhambra e testemunhar
a mesma água a jorrar da mandíbula do leão:
lembro-me de usar uma camisa prateada de manga curta
adornada de dragões, e pela primeira vez, 

na pista do aeroporto, ouvir a noite viva
com as minúsculas bigornas das cigarras. Desta vez, a placa de metal
aparafusada ao meu fémur vibra ao seu chamamento, o meu coração
ao murmúrio do mármore, o tamborilar da água. 

 

 

Tardiamoto

 

Por qualquer equívoco cósmico o telefone desligado
disparou um guincho escarlate. – Dei um salto.
Antes das desculpas expirarem pedi e recebi
o número errado que a voz marcara, 

e assim durante um ano inteiro sem uma única conta
fui dono desses dígitos mágicos para dispensar
-- só para chamadas recebidas não feitas
uma ténue linha de salvação apenas para o antigo apartamento 

que na via Torquato Tasso partilhei com a algazarra
de Cerbero a ladrar no pátio – esquece lá a ratazana –
e uma fissura que o terramoto deixou na abóboda do tecto. 

Trinta anos contados, nas mais tardias horas da noite,
tacteio em busca do auscultador de baquelite negra
para ouvir a música de Vénus recuar.

 

A chamada

 

Ainda os vejo a todos, como se apenas
se tivessem juntado em vermelho e cinzento para a chamada da manhã
e cinquenta e cinco longos anos não tivessem passado. 

Walwyn que fala pouco e passa o tempo livre
a enrolar arame à volta de penas berrantes para enganchar
peixe imaginário. Barnes de Tripoli atormentado 

pela asma, que tem uma voz seráfica para cantar.
Rana, o atleta do Nepal, agora encorpado mas
de alguma forma ainda o mesmo, exportador de cigarros 

e pneus para a China. Timmi, o gentil ioruba,
o rapaz mais alto de longe, que morreu de SIDA
há sete anos, um fotógrafo famoso. 

Griffin, difícil de olhar para ele de tão
insuportavelmente belo que era, que uma vez me parou nas escadas
e decidiu “Não gostas de mim tu, pois não?” 

não tive coragem de lhe dizer que não era isso.
Ainda lhes vejo os nomes gravados no livro de ponto:
Lashkari, Maw, Sajadhi, Sewell, Singh –  

o capitão de hóquei que foi poupado ao barbeiro.
Todos começámos em alegria independentemente da
sombria prisão em que nos confinaram.

 

Jamie McKendrick, poeta inglês oriundo de Liverpool, vive em Oxford. É autor de sete livros de poesia, entre os quais The Sirocco Room, Marble Fly (vencedor do Forward Prize), Crocodiles & Oblisks e Out There. De italiano para inglês, Jamie McKendrick traduziu, entre outros, Valerio Magrelli (The Embrace: Selected Poems), Antonella Anedda (Archipelago) e uma tradução completa do Romance de Ferrara de Giorgio Bassani. McKendrick é ainda o editor do The Faber Book of 20-Century Italian Poems.

[O sol crepita no zinco do barracão]

O sol crepita no zinco do barracão.
Os cães espumam encarniçados.
Um vespeiro zumbe na sombra.
Uma foice pende de um prego –

o cabo está rachado,
e a lâmina, romba,
funde-se sob o verdete.
Ulcerado também o prego.

Os ratos urinam pelos cantos.
As batatas apodrecem nas sacas.
O bafio emana das arcas.
Os morcegos oscilam nas vigas.

Decénios de pó acumulado
no chão de terra batida.
Aranhas que disputam as moscas
às osgas e aos morcegos.

Uma brisa salobra desliza
pela frincha do portão,
riçando bolores que foram frutos:
nêsperas, ameixas, pêras, limões.

Ao fundo, no alguidar reluzente,
boia afogada uma ninhada de gatos.
A mãe, ainda jovem, enrodilhada
nos pés da dona, mia, esfaimada.

Seltzer

 

1.

Aqui está o meu quarto, sorrindo como uma floresta

de umbigos                       contudo, em segredo

                                                               tão triste e imundo.

 

2.

respira fundo o suficiente e estamos possessos.

respira novamente e estaremos perdidos.

 

3.

a melhor coisa de hoje

é a ideia do amanhã.

                               faremos um piquenique.

 

4. quem pode argumentar com 6000 andorinhas

voando de uma nuvem única,

                                                               como alegria.

 

5. quando morrermos poderemos ver a Virgem Maria

sentada diante do pai, do filho, e do Espírito Santo

 

agora mesmo contento-me contigo

com o teu soutien desapertado     (sob uma árvore)

no ferryboat da Staten Island.

 

Jim Carroll

Cumprir Eduardo Lourenço

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I

Sucederam-se as orações fúnebres para atenuar a tristeza que a notícia da morte de Eduardo Lourenço nos trouxe. Ao mesmo tempo, teceram-se os maiores elogios à sua postura e ao seu modo de pensar, provocando uma certa exaltação. Destacou-se que nunca deixou de pensar bem, de ser afável e, à sua maneira, modesto. Que ensaiou permanentemente desvelar as camadas de sentido para lá fanfarronice epidérmica, do messianismo arcaico, muitas vezes invertido (“nunca chegaremos a lado nenhum”) ou do esquecimento que enfia os malogros num saco escuro com medo de instabilizar as nossas frágeis e coletivas maneiras de mitificarmos, mitos superiores e inferiores, nobres e vis, gerais e singulares (da ideia do “quinto império” até ao individualíssimo “pelos menos sou verdadeiro”, o que, veja-se, conduz ao paradigma bíblico pré-ficcional). “Determinações de quase autodefesa” perante o abismo do “zero à esquerda”. Mas talvez a “figura capital da raça humana seja Narciso”.

Muito se disse sobre o seu lugar de psicanalista nacional (Labirinto da Saudade), nós que somos tão avessos a apalpar entranhas; de intérprete supremo da literatura nacional, iluminando, entre outros, Fernando Pessoa (Pessoa Revisitado) com as linhas de sentido mais inteligentes que por enquanto se podem imaginar; de corajoso e lúcido heterodoxo (Heterodoxia I). Muito se disse, mas falta dizer muito mais, mesmo não se sabendo bem o quê (o tempo reescreve as obras maiores).

Mas tenho a firme crença de que falta posicioná-lo como a pedra angular a partir da qual, num processo de emulação crítica, devemos pensar. Reconheço o radicalismo da ideia, mas, reparem, se outros o fizeram, com grande proveito coletivo e individual, a partir de Descartes, Kant, Dostoievski, Ortega y Gasset, David Hume, Shakespeare, Dante, Platão, Aristóteles…, por que razão continuamos a saltar de ponto de partida em ponto de partida, achando quase sempre que seremos sobretudo nós a traçar a linha de chegada? Tudo isto sem demasiado talento ou vigor.

Eduardo Lourenço pode dar-nos a solidez de uma visão do mundo na e a partir da qual podemos pensar, e é disso que precisamos para rasurar definitivamente o “A pensar morreu um burro”. Não num qualquer projeto de dogmatização (que assombraria sem remédio o seu legado), mas para o projeto crítico que nunca tivemos e que nos levaria finalmente até ao esplendor das origens gregas e romanas, no fundo até à origem do projeto de uma cultura europeia, a sermos “bons europeus”.

II

Conheço muito bem a vulgaridade da autorreferencialidade. Por isso, na história que vou contar dou-me na minha universalidade, naquilo que está para lá de mim, da minha facticidade e contingência. Era uma vez um pós-adolescente cheio de preconceitos, sendo o maior de todos contra a consistência, por vezes inexpugnabilidade, da opacidade: embriagado por meia dúzia de raciocínios lógicos e por uma escolarização baseada no empinanço, assimilação e regurgitação das “verdades” dos manuais, achava, o eu universal achava que nada podia resistir aos ataques da razão. Era hegeliano sem o saber.

Caiu-me então nas mãos O Labirinto da Saudade, quando os antagonismos da Revolução já tinham serenado e tudo apontava para o mealheiro da Europa, da CEE. E, por uma razão suficientemente obscura para me permitir estar ao lado dos intelectuais que leram Nietzsche na adolescência sem perceberem patavina, pus-me, finalmente, a pensar. Não, bem entendido, com o jogo de linguagem de hoje (continuando, porém, no incipiente), a pensar que afinal tudo podia ser outra coisa. Ter-me-á vindo isso da incredulidade superior de Eduardo Lourenço, com a qual apanha os reais ziguezagues do povo, especializado em dar sentido ao sim e ao seu contrário? Do vínculo que mantinha com a complexidade do real, apesar das célebres máximas com que parece capturá-lo? Da ironia que sentimos correr paralela à descrição mais séria? Da instabilidade que provoca nas grelhas interpretativas e nas próprias categorias que utiliza?

Mantenho as dúvidas, gosto, aliás, delas. Conferem uma certa segurança ao meu campo anti-dogmático. E mantenho o deslumbre sem condições sempre que releio O Labirinto da Saudade, livro para a vida. Quem poderia ter dito 2 ou 3 anos depois do 25 de Abril: «o povo português passou da boa consciência de um sistema semitotalitário, ou mesmo totalitário, para a boa consciência revolucionária, sem mesmo se interrogar sobre tão complexa e súbita conversão das Forças Armadas fiéis ao antigo regime em força democrática e vanguardista.»

Espero que, sem cairmos numa paixão transbordante e mecânica, peguemos nas suas Obras Completas (em fase de edição pela Fundação Calouste Gulbenkian) e façamos delas um mapa conceptual para navegarmos de forma mais lúcida e ousada. Tenhamos, finalmente, o nosso Livro.

 

Encomenda

Hoje fui aos correios buscar uma encomenda vinda de Portugal,

Uma caixa de papelão, castanha, enviada há quase um mês,

Em pandemias tudo parece mover-se a passo de caracol,

Falta a baba com tanto açaime no focinho, mal se respira com medo,

Na caixa um frasco revestido com o carinho rendado de minha mãe,

Dentro orégãos, daí talvez o atraso, além do medo a desconfiança,

Três ou quatro postas de bacalhau que regressam à Escandinávia,

Para me ajudarem a passar um Natal solitário e um saco de plástico

Com castanhas, contudo, no nó do saco, dois cabelos longos,

Um castanho e outro prateado, de minha mãe, sorrio finalmente

Com tal inesperada visita, pego nos cabelos e guardo-os no livro querido

De um conterrâneo, há tesouros mais importantes no acaso,

Pode parecer pouco, mas hoje, depois de muito tempo, toquei a minha mãe.

 

04.12.2020

 

Turku