João Miguel Henriques, Panónia

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João Miguel Henriques

Panónia

poesia

Enfermaria 6, Lisboa
Março de 2021, 36 pp

Capa de Gustavo Domingues E StudioPilha

6€

 

escuta agora, pesar, não digas nada
deixa tão somente que eu o escreva
para que exista e ecoe e eu me lembre
mais tarde, diante daquele rio

 

João Miguel Henriques

João Miguel Henriques (Cascais, 1978) é poeta, tradutor e professor de língua e literatura portuguesa. Publicou os livros O Sopro da Tartaruga (2005), Também a Memória é Algum Conhecimento (2009), Entulho (2010), Isso Passa (2012), Fonte Breve (2015) e Incêndios (2016), além de outros textos dispersos por várias revistas e publicações online. Vive actualmente na Hungria, onde lecciona na Universidade ELTE de Budapeste, dirigindo igualmente o Instituto Camões local.

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3 poemas de Pentti Saarikoski

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Cresci, que tristeza,

                não aprendi a patinar, tinha medo das raparigas, de manhã,

quando penso,

que tristeza, ter deixado tanto

para trás.

 

 

 

Fiz o meu trabalho, agora estou aqui, sentindo-me mal,

                               que tristeza,

                nos meus olhos a conversa fiada da gente.          

Tenho vivido, longamente, deste momento à morte

                a viagem não é longa, quando estico as minhas costas,

                                                                               dos meus ombros

                                                               caem, esvoaçantes

folhas inúteis.

 

 

 

Tenho muitas vezes chorado, tenho-me enfurecido, bati no fundo da noite,

                seguindo o meu caminho, conseguindo,

                               fracassando,

                                               gritei até ser ouvido e vim

                                                               e fui,

                               agora estou aqui.

 

Pentti Saarikoski, Ääneen (1966)

 

Traduzido do Finlandês por João Bosco da Silva

Abaixo de Inferno - Haikus

 

Mesmo longe

tenho tudo

comigo.

 

 

Somos um eco grotesco

da criança

que fomos.

 

Trazido de sonhos

adolescentes

aquele vestido branco.

 

Mais um cabelo cai –

que recordação

se esqueceu?

 

Há quantos anos

dura

este outono?

 

Há meses este nevoeiro

este silêncio

lento que asfixia.

 

A luz fria das lanternas

na tarde escura –

Novembro.

 

A parede vazia espera

os passos

que não se deram.

 

Da árvore nua

nada cai

só o cinzento permanece.

 

Suspenso no céu

um silêncio

de chumbo.

 

O poema veio

do sonho

que veio do poema.

 

Dois planetas se alinham

no céu

a mesma bruma.

 

No céu encoberto

dois planetas

se alinham.

 

Sem grandes esperanças

engulo o chá verde

já morno.

 

Vindo de Quioto

o chá verde

aquece-me o inverno.

 

Há quanto tempo

não olho a Lua

sobre as árvores nuas.

 

Como uma mulher

que nos amou

o Sol encoberto.

 

Roupa estendida

à geada –

amanhece.

 

Esta aldeia é apenas

distancia incerta

e saudades.

 

Olha a árvore de plástico

como uma lareira

distante.

 

Como pode acabar o ano

se ninguém

acender a grande fogueira?

 

Aproximo-me do poço gelado

apenas o silêncio

salta.

 

Desenterrar o passado

para ir aguentando

o longo inverno.

 

Respirar fundo

o silêncio da rua –

noite de Dezembro.

 

Demora em cair a neve

cada pensamento

pesado e cinzento.

 

Numa mesa silenciosa

arrefecem

vários pratos de arroz doce.

 

Enterrada no musgo

uma bota de pele

calcinada.

 

Quando regressar

quem saberá ainda

o meu nome de infância?

 

Quanto terá subido

o rio da minha terra

este ano?

 

Esfrego a sertã

e já digiro

a carne que aqueceu.

 

Na sertã que esfrego

a gordura da carne

que já digeri.

 

Muda-se a água

ao bacalhau –

a mesma distância.

 

Em cima do tanque

abandonado

vasos floridos.

 

Começou o ano

o champanhe

já quente.

 

A neve que caiu

derreteu –

continua a nevar.

 

Chuva batendo na lona

numa noite quente –

a tua pele.

 

Primeira cerveja

numa tarde de verão –

a sede dos teus lábios.

 

O teu reflexo no espelho

distantes lábios

que me engoliam.

 

Engulo o chá

quente

acabo o poema.

 

Num canto do parque

vazio

a neve permanece.

 

Veste-se de branco

a nudez

crescem os dias.

 

Acabo o livro

e dou-me conta

do silêncio.

 

Sobre figos podres

voam

as vespas.

 

Primeiro assassinam-te

depois enterram-te

como um herói.

 

Duas lágrimas nos olhos

duas lágrimas baratas

um herói.

 

A gaivota pigarreira

o verão existe

ainda no gelo.

 

Que esperas

barco perdido

do abandono de deus.

 

Dado com pena

o whisky

sabe a piedade.

 

Os deuses percebem

tudo o que seja

do interesse do rei.

 

Os pêlos multiplicam-se

os anos encolhem

somos nós.

 

Sonhar um hospital

impossível –

acordas para ir trabalhar.

 

Chupa-me os pentelhos

do cu amor

dos dias frios.

 

Os filhos de um rei

morto –

acordar de mãos vazias.

 

Se calhar amanhã

o médico dirá –

palavras contadas.

 

Na incerteza

vives tanto

quanto nas palavras.

 

Whisky barato

dado com amizade –

noites brancas.

 

Deus o silêncio

e o vazio –

um barco à deriva.

 

Estas palavras

tão vazias

quanto o futuro.

 

No glorioso topo

de um monte –

que fiz realmente da vida?

 

Há sempre uma loira

e um cesto da fruta

no desespero.

 

Na parede

uma onda diferente –

a mesma água.

 

Engraçado o vazio

enquanto abraças

a noite.

 

Quem me chorará

quando os dentes

ainda arreganharem?

 

Na fogueira que se extingue

dois homens

falam de amor.

 

Sentes a chuva

nos dedos –

acordas.

 

Sinto nos ossos

o fim –

abracem o destino.

 

Deixa o estômago

morrer antes

do fim do desespero.

 

Inspira e expira

barcos

naufragam.

 

Cobre-se o coração

de terra –

dia mais escuro.

 

Será o próximo

passo

o último?

 

Será sempre

último

o próximo passo.

 

Só os vivos

se despedem –

neva.

 

A tinta acabou

tantas páginas

em branco.

 

Que cansaço

nos escreve

os destinos?

 

As lágrimas

a carne

tudo a terra engole.

 

Porque cai

a fruta

antes de amadurecer?

 

Essa companhia

e prisão eterna –

a madeira.

 

Regressar

ao mesmo vazio –

pôr do Sol de inverno.

 

Fecho os olhos –

terra húmida e fria

no olhar do meu irmão.

 

“Deixa os mortos

em paz” –

diz minha mãe.

 

Que palavras capazes

realmente

de salvar?

 

Enchem-se as ruas

de silêncio gelado –

enterraram o meu amigo.

 

Brancas as ruas

como o silêncio

que bate.

 

Apagas a luz

e sais –

fica o silêncio.

 

Oferecer apenas

a beleza inútil

do poema.

 

A neve iluminada

pelo Sol sorri –

vinte e dois graus negativos.

 

Impossível de calar

este silêncio –

tarde gelada.

 

No poste da bandeira

bate a corda

gelada.

 

Apesar do frio gelado

corre a água

no ribeiro.

 

Primavera no cemitério

cresce a erva

nas campas.

 

 

Dezembro 2020 – Janeiro 2021

 

Quatro poemas de "Ancestrale", de Goliarda Sapienza



Goliarda Sapienza

Goliarda Sapienza

Tradução: João Coles



Certo dia duvidei
e em plena luz
comecei
a ver a árvore
o pão
a faca e a tesoura
a madeira
o cobre.


As flores crescem
pelos mortos.
Rego-as à noite
com cuidado.
Espio-as na alvorada
da tua lembrança.


Escuta não há palavras para isto
não há palavras para sepultar uma voz
já fria no seu sudário
de cetim e de jasmim.


Separar juntar
espargir no ar
encerrar no punho
conter
nos lábios o sabor
dividir
os segundos dos minutos
discernir ao cair
da noite
esta noite de ontem
de amanhã

In Ancestrale

Bruno M. Silva, "Toda a noite, o fogo" (lido por José Pedro Moreira)

O poema "Toda a noite, o fogo", de Bruno M. Silva, lido por José Pedro Moreira. Poema do livro A Cabeça em Tróia. Para mais informação ver https://enfermaria6.squarespace.com/bruno-m-silva-a-cabea-em-tria

Daqui à morte será apenas um clamor
e homens à procura de um nome
entre clarões e cavalos doentes
a febre de um deus feroz

mil anos
e chove em Tróia

e daqui à morte serão as mulheres
a inchar como palmeiras
em frente aos espelhos
as crianças a engolir o nome
os barcos presos no sal

Fizemos tudo
trouxemos a palavra, o incêndio
para que nos vissem um rosto saturado de beleza

ainda assim um deus feriu-nos
                                   ainda assim a morte

Tróia, meu deus, toda a noite, o fogo
de manhã, a luz nos meus olhos doentes
e um rosto que das águas emerge puro

Bruno M. Silva, A Cabeça em Tróia (Enfermaria 6, Março 2021)