Sistema judiciário no patriarcado

Sempre da mulher a culpa e o crime,
como se diz que por Helena 
se queimou e saqueou Troy City,
e não por Menelau e os testículos 
de Agamémnon, que os criam 
mais valiosos que os filhos
de Hécuba, as filhas de Príamo.
Eis os egos machos dos gregos,
que cantamos até hoje 
como heroicos, sem hesitar, 
perante Polixena,
em vará-la o esterno ao meio,
pois seu sangue quente 
em veias e artérias
valia, é certo, muito menos
que o espectro frio de Aquiles,
sua destreza com objetos fálicos,
e quando enfim as contas do ábaco
pendem à hora e à vez de Hécuba
e cabe-lhe o momento da vingança,
mesmo ela transforma-se em cadela
(tenha ou não agido como rabid bitch)
por palavra de um alcoólatra, Dionísio,
não se esqueçam, também macho
-alfa, tanto quanto aquele Apolo
que atraíra os gregos e os troianos
para o mesmo espetáculo de sandice
do qual escaparam tão poucos,
um deles velejando por dez anos
dependente de outra que entra 
na história com fama de bitch, Circe.
Sempre da mulher a culpa e o crime.

 

Onde é que tinhas começado?

A., há uns dias, disse-me, "I can drink bad tea, but I would never go for bad coffee". Reparo, pela primeira vez, muito devagar, em A. A. é uma alemã seca, pequenina, que passa longas horas imóvel no canto de uma biblioteca. A. tem um trabalho muito difícil e (desconfio que) muito mal pago, que será apreciado talvez por uma vintena de pessoas no planeta e que será verdadeiramente reconhecido talvez por três ou quatro (em revistas muito da especialidade). A., em teoria, mais uma criatura banal, como eu e tu, talvez alvo de um desses génios predatórios e oportunistas que nos tentam atirar merda pela goela abaixo a cada dia, todos os dias. Às vezes,nela um sentido de humor muito cruel, mas quase como o de uma criança, que não controla bem a própria força e, assim, encena a única resposta que pode a forças que ela sabe que não pode dominar e que, sobretudo, e esta é talvez a sua maior fonte de angústia, ela não entende completamente.

E neste ponto cego, ela rejeita o que não pode perceber inteiramente e ri-se como quem se vinga. Uma vontade desgraçada é uma maneira de traduzir isto, esta coisa que se pode pressintir em A., em mais um punhado de gente. É este o seu trabalho no escuro, mãos de aranha e tudo. Com uma cabeça de filóloga, esta é talvez a sua arte mais óbvia. Há qualquer coisa nela de vagamente embrutecido, de insondável, e, as duas de cabelo muito curto, estrangeiras num país estrangeiro, agrada-me pensar que nos parecemos.

À medida que ficamos mais velhos, somos cada vez mais indisponíveis, mais impacientes. Um corpo, de repente, percebe-se como vai acabar por guardar a indiferença impaciente e desligada dos velhos. Mas existe a hipótese de nos recusarmos a tomar parte disto antes desse tempo. De recusarmos essa resignação. Li não sei onde que não há como amar uma abstracção. Não se pode. O nosso amor procura sempre coisas mais concretas, pessoas, coisas, as coisas que construímos com as nossas mãos. Nada de "corpo" ou 'metáfora" ou "estrutura".

A citação inspiradora de A. para hoje era de Flaubert, ele dizia que não era pelo prazer, que não era para aprender (ou para ser educado, expressão que um editor preferiria), mas para viver. Flaubert, que não se expressava de acordo com a imagem pretendida, mas que falava de ler. 

Símbolo de Mudança

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© sonja valentina

- Uau. Adoro esses sapatos.
 - Sim? Também gosto muito.
 - Deves ficar estupenda com eles. Mas nunca te vi usá-los.
 - Pois não. Nunca os usei.
 - A sério? Nem acredito. Porquê?
 - Não sei explicar bem. Tem a ver com o facto de serem especiais, acho eu. 
 - Como assim?
 - Sabes como é, os dias são tão iguais que já nem conseguimos distingui-los; não achas? É como se a vida fosse a repetição de uma repetição, como se vivêssemos repetições infindáveis e inconsequentes; como se vivêssemos numa rotunda, sempre às voltas. E as memórias que se vão acumulando desses dias acabam por também ser repetições indistinguíveis e, portanto, quase irrelevantes. É um bocado triste, não é? Vivemos um presente tão repetitivo que o passado que vamos deixando para trás acaba por ser uma nulidade, uma ilusão, um equívoco. E, afinal, é o passado que nos dá um sentido de continuidade e evolução, sem consciência do passado a vida transforma-se numa mera colecção de momentos.
 - Pois. Mas e os sapatos? Que tem tudo isso a ver com os sapatos?
 - Não te rias mas acho que estou à espera que aconteça algo especial. E então, nesse dia, que não será uma simples cópia dos outros dias mas uma espécie de intervalo na repetição, usarei os sapatos. Nesse dia, conseguirei sair da rotunda e experimentar um caminho novo. E sentir-me-ei especial, não só por ser um dia especial mas também por usar uns sapatos que são especiais; as duas coisas tornar-se-ão indissociáveis. Percebes? Depois, quando o dia passar, terei para sempre uma memória inequívoca desse dia especial: bastará olhar os sapatos. Serão um símbolo de mudança ou algo assim.
 - Que estranheza de teoria. E não bastava tirares muitas fotografias, durante esse tal dia especial? É para isso que existem as máquinas, posso emprestar-te a minha. Tem treze megapixéis. 
 - É, se calhar tens razão. Deixa lá, esquece. Já sabes que gosto de devanear.
 - Olha, sabes o que estava a pensar? Na sexta-feira vou sair com aquele tipo de que te falei, o que conheci no facebook. O das motas, lembras-te? Vai levar-me àquele sítio novo, perto do rio; aquele onde vão as actrizes de telenovela, ando mortinha para ir lá. E estava aqui a pensar que os teus sapatos ficavam mesmo bem com o vestido que quero levar. Não queres emprestar-mos? Prometo que os devolvo impecáveis, nem dás por nada.

Não sejas estúpido!

Cnossos, a beleza do perigo necessário

Cnossos, a beleza do perigo necessário

Não sejas estúpido, está bem?!

Claro que está! Está mais que bem, mas isso depende de mim?

A sentença não era imperativa, já a tinha visto usar as mesmas palavras com imensa ternura, ou para fazer conversa enquanto pensava num algoritmo ético que revolucionasse a economia digital. Mas agora era a mulher mais bela, exacta e alta do mundo. Tinha conseguido isso através de um favor (algumas biografias referem “vários”), e, para repor a ordem cósmica, muitos deviam ser esmagados ou cortados em pequenos fragmentos e disseminados pelas ruas mais sujas de Lisboa.

Os argumentos que usei sobre a falta de essencialidade da estupidez (“só há processos de estupidificação”, lancei em aprumada pose), justificando-me com Tatiana Faia, que escreve, depois de Goethe, ([…] do princípio é / uma mentira dizer / que aí era o logos no / princípio éramos nós / e nós apenas e nenhuma razão […]. Teatro de rua), esgrimindo com as mais rebuscadas teorias cognitivas, zurzindo nos testes de QI, desconstruindo os brilhantíssimos intelectuais que sustentam Portugal a golpes de crónicas... Tudo isso foi uma perda de tempo (que é sempre um perda de dignidade).

Os seus braços de cutelaria luxuosa, longos, brancos, afiados, foram anulando todas as possibilidades de a atingir com a lava da compaixão, cura homeopática, arrebatamento do consenso contra o do dissenso. À medida que percebeu melhor, com aquele seu olhar de águia em treino, de como eram inofensivos os meus ataques semânticos, enchia-se de desprezo e procurava encerrar a ridícula disputa que ganhara sem esforço. Foi a sua vez de citar Tatiana: “[…] a forma mais perigosa de atenção / é que percebas e te calhe / essa ternura em queda / em diminuendo / o conhecimento de um homem em estilhaços […]. (Idem).

Como sou, por enquanto, o dono do texto, poderia imaginar uma vingança horrenda (toda a história ocidental é pontuada pelo combustível da vingança), mas soaria a falso, sabemos que uma mulher assim é capaz de renascer num novo brilho cruel apagando “as coordenadas anteriores”, ela não precisa de puxar dos galões, subir para cima dos seus próprios ombros para ver mais longe ou dobrar a verticalidade de uns quantos audazes que se atrevam a olhá-la de cima para baixo. Basta-lhe existir e mostrar os braços.

Eis o problema: o “autor” só subsiste enquanto não aparece uma rebelião hermenêutica que o põe no lugar do morto, lhe diz, com a voz da vida verdadeira, para não ser estúpido, não inventar esses planetas de brincar. Resta-lhe, no campeonato da consolação, e com uma jogada de antecipação – que se for também ela antecipada, necessita maior recuo... e assim até ao infinito, até que a consciência lógica grite de dor – reinventar em cada instante aquilo que Tatiana Faia plasmou em papel analógico, que já foi vida, majestosamente quase estática: “[…] já que há tudo a perder mais vale / querer cada vez mais […]. (Idem).

Convergências

De Onde Fingimos Dormir como nos Campismos, Inédito

Se quando o oceano aqui chega
faz contigo riscos novos nas pedras
e torta uma linha de sal
que corrige de longe a vista 

Faz do lugar um lugar lavado
que nem no ano seguinte já dura 

E à tarde o sol a forma do pé os cabelos
tanta coisa doutro tempo aí de repente
a tristeza vai próxima e separa
na cor de pavilhões  

Passa a tua mão abrigada
falo de cheiros luzes espalhadas
digo que arranjas com ferros o mar