Quatro pinturas de Yiannis Kontinopoulos, seguidas de um breve texto

3.μικτή τεχνική 42x60cm.jpg
8.μικτή τεχνική 56x77cm.jpg
10.μικτή τεχνική 70x100cm.jpg
yannnis4.JPG

Με λένε Γιάννη και μου αρέσει πολύ να ζωγραφίζω. Όταν δεν ζωγραφίζω, μου αρέσει να κοιμάμαι. Αν και για να πω την αλήθεια, δύσκολα καταφέρνω να κοιμηθώ. Ένα κουνούπι γυρίζει πάνω από το κεφάλι μου και χαλάει τα όνειρά μου. Υπάρχουν φορές που καταφέρνω να το πετύχω πάνω σε μια λευκή επιφάνεια. Τότε το κουνούπι με τη στραπατσαρισμένη του μορφή εισβάλλει πιο δυναμικά στα όνειρα μου. Αποφασίζω να ξυπνήσω και να ζωγραφίσω. Σκέφτομαι να ζωγραφίσω έναν χώρο στον οποίο το κουνούπι θα ζει ευτυχισμένο έτσι ώστε εγώ να κοιμηθώ ήρεμα στα όνειρα μου. Όποτε καταφέρνω να κάνω μια ζωγραφιά που αρέσει στο κουνούπι, καταφέρνω να κοιμηθώ. Καταλαβαίνω πως το κουνούπι με ενοχλεί γιατί του αρέσουν τα όνειρά μου. Ευχαριστώ το κουνούπι που με ξυπνάει για να ζωγραφίσω. 

Chamo-me Yiannis e gosto de pintar. Quando não pinto, gosto de dormir. Mas, honestamente, é-me difícil dormir. Um mosquito ciranda em torno da minha cabeça e arruina-me os sonhos. Às vezes consigo esmagá-lo numa superfície branca. Então o mosquito na sua forma esmagada invade-me mais fortemente os sonhos. Decido acordar e pintar. Penso em pintar um espaço onde o mosquito possa viver alegramente para eu poder dormir pacificamente em sonhos. Quando consigo pintar algo que agrada ao mosquito, consigo dormir. Percebo que o mosquito me incomoda porque lhe agradam os meus sonhos. Agradeço ao mosquito que acorda para que pinte.

Utopia invertida

300px-Utopia.jpg

O título é pouco exato, sujeita-se ao significado de contexto que depois da Revolução Industrial parece ter contaminado a realidade com um optimismo furioso (mesmo com interregnos, bolsas de tempo e de realidade que curte-circuitaram o desejo frenético de felicidade, Guerras mundiais, por exemplo). Assim, durante séculos, nas sociedades quentes (Lévi-Strauss), o futuro ganhava sempre ao passado e ao presente, ansiava-se por ele, era bem mais Pai Natal do que os outros dois tempos. Isto foi, simultaneamente, uma emancipação em relação às antigas teologias e teogonias (Cristianismo, Grécia e Roma antigas) e uma alienação à ideia de progresso. O progressismo insinuou-se em quase todos os cantos do pensar e do sentir humanos, os céticos do futuro eram agora seres possuídos por uma deformação intelectual e moral. Fosse na política (materialismo dialético), na economia, nos costumes ou na arte, havia a tremenda convicção de que os erros do passado e do presente seriam conjurados no futuro. Sem que nenhum contra-ataque em grande escala, como em Édipo Rei, fosse sequer imaginável, nessa imaginação dominante feita da soma e de mais do que soma das parcelas individuais.

Muitos autores, com tanto mais ambivalência quanto maior era o talento e empenhamento intelectuais, quiseram pensar a ideia de outro lugar, da Grécia à atualidade. Alguns que conheço:

Platão;
Aristóteles;
Thomas More;
Rabelais;
Campanella;
Francis Bacon;
Daniel Defoe;
Jonathan Swift;
Voltaire;
Sade;
Jules Verne;
Mark Twain;
Eugène Zamiatine;
Frizt Lang;
George Orwell;
Hermann Hesse;
Aldous Huxley;
Italo Calvino;
Michel Houellebecq;

Sem a mediação da arte e do pensamento científico, os esboços maiores de utopias recentes centram-se no Terceiro Reich alemão e no marxismo-leninismo soviético. A pessoalização paranoica de uma vontade de futuro assente em projetos de vida pessoais (Lenine, Estaline e Hitler), em visões do mundo alucinadas, redundou nas maiores distopias. Se a utopia busca sempre uma perfeição, parece por isso potenciar, reverso que sempre esteve presente no verso, grandes imperfeições, como, mutatis mutandis, o voo de Ícaro.

Isto para dizer que a era COVID-19 (talvez fique conhecida assim) introduziu a controvérsia: perdemos o encanto pelo futuro, com ou sem vacinas, embora, talvez porque mantemos resquícios do velho optimismo progressista baseado na evolução tecnológica, continuemos a manifestar uma certa esperança de que nos trará coisas boas. Mas estas “coisas boas” são baseadas na antiga normalidade, na era pré-COVID-19. Regressamos ao modelo utópico das antigas mitologias da Idade de Ouro, que o Cristianismo recuperou e desenvolveu a partir do mito da Queda, embora a desgraça de Adão e Eva fosse a própria razão de ser do novo religioso, garantindo que, com mais ou menos percalços, alcançaremos a Realidade, depois da festa final do apocalipse. O que surpreende é a rapidez com que passamos de aspirar aos milagres seculares do futuro ao desejo consistente de que o passado próximo regresse. Quando vou à baixa lisboeta desejo o retorno das enchentes, estrangeiros e nativos. Não me passa pelo pensamento qualquer vislumbre de um futuro mágico.

É a nova utopia invertida. Que pode não passar de um epifenómeno, mas por enquanto parece mais presente e disseminada do que as utopias futuristas. Terá isso um grande impacto na forma como habitamos a Terra? Seremos mais frugais e gentis, mais racionais e comedidos? Haverá uma prevalência do altruísmo sobre o egoísmo, da tolerância sobre o fanatismo? Não sabemos, mas se isso não acontecer, então a nova utopia invertida será tão desinteressante como as utopias futuristas. Porque, em boa verdade, não é através do sonho que o “mundo pula e avança” (mesmo que sejam sonhos bonzinhos, porque há outros), mas de uma lucidez extra, extravagante, conservadora porque conhece as leis empíricas que determinam o mundo, e vanguardista porque desenha com rigor novas formas de estar no mundo, num altruísmo que deixe de ser especista e racista.

Leituras 2020: Victor Gonçalves

A morte de um livro está frequentemente ligada ao mais miserável dos acasos: súbito obscurecimento dos espíritos, crises de superstição, antipatias patológicas, mesmo à preguiça do escriba, aos insectos ou à meteorologia. A vida de um livro resulta da vontade que temos, que ainda temos, de tocar o céu.

Acima disso, como dizia, crê-se, Diógenes: o sábio também lia livros e comia bolos, mas podia viver sem eles. Não é uma missa de miséria, mas poder passar-se de fardos que nos limitam a liberdade.

Abaixo disso, receio muito que o ser humano deixe de ler, rastejando depois pela vida num autocontentamento puramente orgânico; e, não sendo sábio, quero alienar-me um pouco, em elevação, pelo que outros escrevem.

L'être et le néant.jpg

Ler/traduzir: Jean-Paul Sartre, L’être et le néant (O Ser e o Nada), Gallimard, 1943; múltiplas edições (um dos livros mais importantes na cultura francesa do século XX), uso a da coleção tel, corrigida pela filha adotiva, Arlette Alkaïm-Sartre, 2009. Traduzido em português (Editora Vozes, no Brasil, com mais de 10 edições; Círculo de Leitores (esgotada), em Portugal, 1993). Compete-me, neste momento, concluir uma nova tradução para as Edições 70, com saída prevista para 2021.

É um livro mundo, onde se confrontam o eu e o outro para resistirem à alienação, ou manterem a liberdade, à qual, quase paradoxalmente, estão condenados, apesar do olhar do outro. Exemplo do tom e do conteúdo: «No entanto, não se deve acreditar que uma moral da “permissividade [laisser-faire]” e da tolerância respeitaria mais a liberdade de outrem: uma vez que existo, estabeleço um limite de facto à liberdade de outrem, eu sou esse limite e cada um dos meus projetos traça esse limite à volta do outro: a caridade, a permissividade, a tolerância – ou qualquer atitude abstencionista – é um projeto de mim mesmo que me compromete e que compromete outrem sem o seu consentimento

TSEliot Ensaios.jpg

Lido: T.S. Eliot, Ensaios Escolhidos (da saudosa Livros Cotovia, 3.ª ed. 2014). Ensaiam-se explicações sobre autores (Shakespeare, Baudelaire, Wordsworth, Coleridge, Yeats, Poe, Valéry, Dante, Goethe, Irving Babbitt, Pascal); obras (sobretudo Hamlet); correntes e domínios (o que é um clássico, o sentido da cultura, poesia e drama, literatura da política, crítica, estoicismo…). São textos, ensaios, que vão de 1917 a 1962, portanto não de um T.S. Eliot, mas de vários, e isso nota-se (que privilégio). Surpreende e encanta o que diz, por exemplo, de Hamlet, peça inquietante e perturbadora como nenhuma das outras; mas «É de todas as peças a mais longa, e é possivelmente aquela em que Shakespeare despendeu mais esforços; e, contudo, deixou cenas inconsistentes e supérfluas, de que mesmo uma revisão apressada teria dado conta.»

A Luz em Agosto.jpg

Relido: William Faulkner, Luz em Agosto (várias edições em português, usei a da Dom Quixote, 1996). Muitos consideram O Som e a Fúria a sua Magnum opus; talvez, escrever um livro desses é estar além do humano. Mas eu prefiro Luz em Agosto, é um mundo onde entro melhor, sem nunca deixar, porém, de ser maior do que eu. Li-o, novamente, como um tratado das pulsões, destrutivas e criativas, Eros e Thanatos, testemunha de uma crise da vida humana que rastreia a endémica violência racista do americano médio, e indica, no nevoeiro, as forças do mal que começavam novamente a erguer-se na Europa (o livro é do início da década de 30 do século XX).

O labirinto da Saudade.jpg

Relido: Eduardo Lourenço, O Labirinto da Saudade (Dom Quixote, 1992/1978). Regressei a este livro porque Eduardo Lourenço Morreu. Na verdade, nunca tinha saído dele. Foi a principal lanterna que usei para iluminar o para lá das cortinas de fumo da consolidação democrática em Portugal. Não se trata, de modo algum, de uma hagiografia, mas de uma radiografia de um esqueleto cheio de manchas negras, aguentando-se, apesar de tudo. E aqui vamos nós rumo ao futuro, cheios de esperança e temor, de grandiosidade e pequenez, de universalidade e de particularismos enfadonhos. Aqui vamos nós, já sem Eduardo Lourenço, que nos sabia pôr num lugar aproximadamente verdadeiro.

Gente acenando para alguém que foge.jpg

Lido: Paulo Faria, Gente Acenando para Alguém que Foge (Minotauro, 2020). Uma revelação. Escreve sobre Portugal, olhando, contudo, pouco para o futuro; interessa-lhe religar presente e passado próximo, vasculhando nos despojos do Império. Se uma das especialidades portuguesas é atulhar o inconsciente com as falhas do passado, Paulo faria inverte o passo e escava a história viva e a mente para relembrar, no consciente, a porcaria que fizemos em África, e que agora eles, de uma certa maneira, perpetuam. Parece-me um autor capaz de acrescentar linhas importantes à literatura portuguesa., sinto uma grande admiração por ele.

1540-1.jpg

Lido: Richard J. Evans, O Terceiro Reich no Poder (Edições 70, 2020); Parte II, de III, da história do Terceiro Reich. Obra decisiva para quem deseja compreender o que se passou no país mais avançado (científica, cultural e politicamente) da Europa, permitindo que uns arruaceiros tomassem o poder e fossem seguidos, a pouco e pouco, por uma significativa maioria da população. É a história de uma inverosímil distopia, baseada mais em factos e provas do que é usual neste contexto.

tumblr_px1xy8XoyC1v8w7pqo1_r1_1280.png

Lido: José Pedro Moreira, Porque Canta um Pequeno Coração (não(edições) 2019). Apetece-me recordar uma frase de Paul Celan (cito de memória): «Não vejo qualquer diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema.» O livro de poesia de José Pedro é um aperto de mão, um abraço e sobretudo uma janela que ele nos abre, enquanto aponta com o dedo e sorri sorrateiramente, para os seus caprichos de vida, como no «Notas sobre o Prosciutto di Parma», de que a poesia deve dar conta, agora que acabou a era da metafísica; os sítios que frequenta para se abastecer de prosaico e enobrecer poeticamente a vida comum; momentos originários da civilização europeia; mas, sobretudo, no lado B do livro, para aquilo que foi há bastante tempo, festejando, celebrando em vez de conjurar o passado, incarnado na magnífica Alzira. Tudo isto sem deixar de falar com a história da poesia, ser poeta é, por princípio, ser um metapoeta.

É por tudo isto que canta um pequeno coração.   

normal people.jpg

A Ler: Sally Rooney, Normal People, 2019 (traduções portuguesa e brasileira). Há cerca de duas semanas acabei de ver a mini-série, baseada nesse romance, disponível na Netflix (Portugal), do realizador Lenny Abrahamson, e foi a série que mais me sacudiu desde Chernobyl. Tenho a máxima espectativa em ler o livro, mesmo se for um pouco menos intenso do que o produto televisivo, como alguns críticos dizem, será ainda assim excelente.

Livros de 2020: José Pedro Moreira

“Outra lista dos melhores do ano?” dirá o senhor leitor. Bem, mais ou menos, mas nem por isso. As demais listas dos melhores livros do ano são destiladas por críticos sábios, que lêem todos os livros publicados nesse ano, e têm o discernimento para eleger o que merece ser salvo para a posteridade. As nossas listas são antes exercícios de contabilidade pessoal, que partilhamos entre nós e convosco. Este ano coube-me a mim o salvo de abertura. Cá fica a lista dos livros que mais gostei de ler em 2020.

Tom Bissell, Extra Lives: Why videogames matter (2010)

 Tom Bissell (1974) é um autor premiado, com livros sobre política, religião, cinema, um livro de viagens, um livro de contos, e uma série de artigos em revistas reputadas. Tom Bissell é também alguém que adora videojogos, que escreveu argumentos para videojogos, e que passou dois anos a fazer pouco mais do que jogar Grand Theft Auto IV e snifar cocaína, como conta neste ensaio no The Observer, que é também o texto que encerra Extra Lives. Uma defesa da relevância cultural e artística de videojogos; mas também uma série de crónicas sobre alguns dos seus jogos preferidos e sobre as experiências únicas que só videojogos proporcionam.

 

 Orlando Figes, The Europeans: Three Lives and the Making of a Cosmopolitan Culture (2020)

 Ivan Turgueniev, Pauline Viardot, uma das maiores cantoras de ópera do seu tempo, e amante de Turgueniev, e Louis Viardot, marido de Pauline, agente cultural e político, tradutor, memorialista, numa viagem espiritual que atravessa a Europa. Outras personagens nesta viagem: George Sand, Berlioz, Dickens, Wagner, Saint-Saëns, Gounod, Chopin, Flaubert, Massenet, Meyerbeer, Rossini, Liszt, Delacroix, Tolstoi, Dostoievski, e muitos mais. Um livro que prova que o único meio de locomoção civilizado é o comboio.

 A descoberta dos livros de Figes trouxe-me imensa alegria este ano. O seu conhecimento histórico é acompanhada por uma mestria narrativa capaz de evocar pessoas e lugares com enorme detalhe e precisão. Dele li também este ano Natasha’s Dance, uma história cultural da Rússia, e Whispers, que acompanha uma série de famílias ao longo da União Soviética, ambos livros excelentes.

 

 Fernando Guerreiro, Ventos Borrascosos (2020)

 Uma narrativa em verso em torno de Emily Brontë, um ensaio sobre o ofício poético que retoma Lucrécio, uma dramatização do devir da existência. Um dos livros de poesia mais estranhos escritos em português na última década.

 Nunca tive muita paciência para quem se queixa dos críticos em Portugal, sobretudo porque este nem sempre é um lamento desinteressado. Temos a crítica que merecemos. Ainda assim, é difícil não ficarmos escandalizados com o silêncio, quando somos confrontados com um livro verdadeiramente único e importante.

 

Sid Lowe, Fear and Loathing in La Liga: Barcelona vs Real Madrid (2013)

 Eu adoro futebol. A intensidade do meu amor pelo jogo tornou-se dolorosamente clara quando as ligas europeias foram interrompidas, e eu dei por mim, como o amante abandonado examina velhas cartas de amor, a ler livro atrás de livro sobre futebol. Livros que tinha na minha lista de leituras há anos mas para os quais nunca tinha achado tempo, como a autobiografia de Johan Cruyff, Inverting the Pyramid de Jonathan Wilson, uma história das evoluções tácticas, ou The Ball is Round de David Goldblatt, foram lidos este ano. Todos são bons livros (se bem que o de Jonathan Wilson custou um pouco a ler), mas o que mais prazer me deu foi Fear and Loathing in La Liga, de Sid Lowe, uma história da rivalidade entre Barcelona e Real Madrid, e, implicitamente, uma história dos dois clubes.

 Sid Lowe é um dos contribuidores do The Guardian, cuja secção de futebol reúne alguma da melhor prosa escrita sobre o jogo hoje em dia. As crónicas semanais de Barney Ronay, Jonathan Wilson, Jonathan Liew e do próprio Sid Lowe tornaram-se leitura obrigatória para mim. E recomendo também Football Weekly, o podcast de futebol do The Guardian, em que estes autores regularmente participam.

 

Edwin Morgan, Última Mensagem - 100 poemas de Edwin Morgan (seleção por João Concha e Ricardo Marques, tradução de Ricardo Marques)

 A Fiona, uma amiga de Edimburgo, anda a tentar convencer-me a ler Morgan há anos. Ela gosta mesmo de Morgan, inclusive conheceu-o e escreveu uma tese sobre ele. O seu evangelismo morganiano levou-a a emprestar-me alguns dos seus exemplares da obra de Morgan (autografados). Há anos que acumulam pó na estante. A minha falta começou a ser reparada este ano. Livros feitos por amigos são priorizados na minha lista de leitura, e este é um livro editado (excelentemente) por um amigo e traduzido (excelentemente) por outro. Duas conclusões: Morgan é um grande poeta e eu sou um idiota por não o ter lido mais cedo. Perdão, Fiona. Obrigado, João Concha e Ricardo Marques.

 

Timothy Snyder, The Road to Unfreedom (2018)

 Um estudo sobre as ideias e realidade histórica que formaram a Rússia de Putin, o centro do movimento anti-liberal moderno, que nos deu prendas encantadoras como Trump e Brexit.

Quatro poemas de Ismael Ramos

Ismael-Ramos-0-0.png

Tradução de Daniel Ferreira


 

EM CADA UNIDADE FAMILIAR HÁ UM CARPINTEIRO, FABRICA CAIXÕES

 

O pai fabrica a sua própria morte. Esmera-se na figura. Cuida a forma dos dedos. Os signos do desfalecimento.
Estou a pensar no que me ensinou o meu pai. Lembro-me: não quis aprender nada.
O que não queria dizer é: terei sempre dezassete anos.
O pai constrói os órgãos do filho à sua semelhança. Confia na piedade.
O pai constrói-se dentro do filho. Em madeira. Depois arde.

 

de Lumes (2017)

 

EN CADA UNIDADE FAMILIAR HAI UN CARPINTEIRO, FABRICA ATAÚDES

 

O pai fabrica a súa propia morte. Afánase na figura. Coida a forma dos dedos. Os signos do desfalecemento.
Estou pensando no que me ensinou meu pai. Estou recordando: non quixen aprender nada.
O que non quería dicir é: terei sempre dezasete anos.
O pai constrúe os órganos do fillo á súa semellanza. Confíase á piedade.
O pai constrúese dentro do fillo. En madeira. Despois arde.

 

de Lumes (2017)  

 

 

EOS

 

Às nove da manhã entra a minha mãe num café ao pé da estrada, coxeando, atrás da minha irmã. Tomam o pequeno-almoço em silêncio. No balcão, eventualmente, alguém toma café e está atrasado para abrir o seu negócio. Provavelmente homens que dormiram umas quantas horas e nada mais. De vez em quando cruzam olhares e trocam dois dedos de conversa. A mãe lê o jornal e a minha irmã tira fotografias de tudo com o telemóvel.

Tomam o pequeno-almoço sentadas numa mesa ao fundo. Os donos do café conhecem-nas ainda que não saibam os seus nomes. A mulher por trás do balcão sorri e a minha mãe devolve-lhe o sorriso.

Depois, a minha irmã tem duas horas de inglês, ortografia e matemática. Isto quatro dias por semana. A minha mãe passeia pelas traseiras dos edifícios, duas horas, quatro dias por semana. Às vezes cansa-se e arrasta o pé direito.

À saída voltam ao café ou sentam-se contra alguma parede perto da estrada. O meu pai vai buscá-las na volta do trabalho.

É duro, mas tem de ser. 

 

de Lumes (2017)

EOS

 

Ás nove da mañá entra miña nai nun bar ao pé da estrada, coxean- do, detrás miña irmá. Almorzan en silencio. Poida que haxa na barra alguén que toma café e chega tarde a abrir o seu negocio. Probablemente homes que durmiron unhas poucas horas nada máis. De cando en vez míranse e fan algún comentario a unha da outra. Mamá le o xornal e miña irmá saca fotos de todo co móbil.

Almorzan sentadas nunha mesa do fondo. Os donos do bar coñécenas aínda que non saiban os seus nomes. A muller detrás da barra sorrí e miña nai devolve o sorriso.
Despois, miña irmá dúas horas de inglés, ortografía e matemáticas. Así catro días na semana. Miña nai pasea por detrás dos edificios, dúas horas, catro días na semana. Ás veces cansa e arrastra o pé dereito.

Á saída volven polo bar ou sentan contra algunha parede preto da estrada. Meu pai recólleas á volta do traballo.
É duro, pero ten que ser.

 

de Lumes (2017)

RETRATO DA MINHA MÃE COM UM PÊSSEGO

 

I

 

A minha mãe esfrega um pêssego pela coxa. Há um rasto de cor. Não porque a carne seja branca, mas porque a fruta apodrece.
A minha irmã escreve sobre como as mulheres romanas se maquilhavam usando fruta podre. Diz que é incrível. O que quer dizer é que lhe dá nojo.

 

II

 

A minha mãe arrasta um pêssego pela coxa. Sentada, não há direção.
O gesto não tem função alguma. Por isso é o gesto do poema. Só mancha, cheira, põe em relevo a nudez de tudo o resto.
Eu observo apoiado na porta.

 

III

 

Uma pele roça outra pele. Faz-se ferida, mancha. Desliza antes de chegar ao caroço. Desfaz-se.
E não há voo nem ferida.
Se eu olho, o gesto é quotidiano. Também o poema. O pêssego tem o tamanho do punho da minha mãe.

 

de Lumes (2017)

 

RETRATO DE MIÑA NAI CUN PEXEGO

 

I

 

Miña nai refrega un pexego pola coxa. Hai un rastro de cor. Non porque a carne sexa branca, mais porque podrece a froita.
Miña irmá escribe sobre como as mulleres romanas se maquillaban empregando froita podre. Di que é incrible. O que quere dicir é que lle dá asco.

 

II

 

Miña nai arrastra un pexego pola coxa. Sentada, non hai dirección. O xesto non ten función ningunha. Por iso é o xesto do poema. Só mancha, recende, pon de relevo a nudez de todo o demais.
Eu miro apoiado no marco da porta.

 

III

 

Unha pel roza outra pel. Rompe, mancha. Esvara antes de chegar á semente. Desfaise.
E non hai voo nin ferida.
Se eu miro, o xesto é cotián. Tamén o poema. O pexego ten o tamaño do puño de miña nai.

 

de Lumes (2017)

 

AGOSTO

 

Há barcos e pavilhões em chamas na cabeça da minha mãe. O sol nos recantos da videira.
Um punhado de farpas. Dedos.

 

*

 

Descrevi-o como a queda de uma nadadora. Os pés dobrados sobre a borda da piscina. Mas é mentira.É antes um corpo com varizes, nada parecido a um escorço ou algo redondo. Nada parecido a uma árvore. Tem a ver com a cabeça que bate contra uma pedra. Outra vez. Tem a ver com rezar, jamais com a natação.

 

*

 

Há pássaros a cantar na cabeça da minha mãe. E isso parecia-me belo. Mas os pássaros magoam com o bico, mordem, vomitam. Gotículas de sangue como olhos negros, diminutos.
O pássaro é circunstancial, como a ferida. Mas não cura.
O pássaro jamais se cura e cresce.

 

*

 

É sempre difícil descrever uma queda. Eu vestir-me-ia como o meu pai se tivesse que cair. E estaria calor, porque as coisas caem se estão maduras, se pesam.
Cair, bater, não sangrar.
Debaixo da árvore os homens aguardam a queda da maçã. Ela decidiu apodrecer pendurada.
Não teve escolha.

 

*

 

Eu trouxe toalhas, a minha irmã trouxe toalhas. Mas não havia sangue.
Vestir-me-ia como o meu pai, que apoiou a cabeça da minha mãe sobre o seu joelho e sustentou o que parecia impossível sustentar. Eu chamei-o de ninho de pressões, ainda que ali não nascesse nada.

 

*

 

Talvez foi compreender a cascata. O seu jeito contínuo de quebrar.

 

*

 

Não há fotos porque não se celebra, ainda que se conte.
Se houvesse fotos apareceria uma mulher atrás de uma cadeira com uma máscara de papel castanho. Sem olhos nem boca. E continuaria a ser um rosto.
Se houvesse fotos estaríamos todos juntos na praia. Eu levaria toalhas, a minha irmã levaria toalhas. Duas crianças ao fundo. O meu pai estaria perto da água. Os três vestidos com roupa do dia a dia. Enquanto isso, a minha mãe apanharia sol encostada ao joelho do meu pai, em fato de banho. A luz acariciando-lhe a cara. As folhas da videira que se movem sem deixar cicatriz.

 

de Lumes (2017)

 

AGOSTO

 

Hai barcos e pavillóns en chamas na cabeza de miña nai. O sol nas físgoas da parra.
Unha presada de achas. Dedos.

 

*

 

Describino como a caída dunha nadadora. As dedas dobradas sobre o bordo da piscina. Pero é mentira.
É máis ben un corpo con varices, nada parecido a un escorzo ou algo redondo. Nada parecido a unha árbore. Ten que ver coa cabeza que bate contra unha pedra. Outra vez. Ten que ver con rezar, nunca coa natación.

 

*

 

Hai paxaros cantando na cabeza de miña nai. E iso parecíame fermoso. Pero os paxaros danan co bico, morden, vomitan. Pinguiñas de sangue coma ollos negros, diminutos.
O paxaro é circunstancial, como a ferida. Mais non cura.
O paxaro non cura nunca e medra.

 

*

 

Sempre é difícil describir unha caída. Eu vestiríame coma meu pai se tivese que caer. E faría calor, porque as cousas caen se maduran. Se pesan.
Caer, golpear, non sangrar.
Baixo a árbore os homes agardan a caída da mazá. Ela decidiu podrecer pendurada.
Non tivo elección.

 

*

 

Eu trouxen toallas, miña irmá trouxo toallas. Pero non había sangue.
Vestiríame coma meu pai, que apoiou a cabeza de miña nai sobre o xeonllo e sostivo o que parecía imposible soster. Eu chameino niño de presións, aínda que alí non nacese nada.

 

*

 

Se cadra foi comprender a fervenza. O seu xeito continuo de romper.

 

*

 

Non hai fotos porque non se celebra aínda que se conte.
Se houbese fotos aparecería unha muller detrás dunha cadeira cunha carauta de papel marrón. Sen ollos nin boca. E seguiría sendo un rostro.
Se houbese fotos estariamos todos xuntos na praia. Eu levaría toallas, miña irmá levaría toallas. Dous nenos ao fondo. Meu pai estaría preto da auga. Os tres vestidos de diario. Mentres, miña nai tomaría o sol recostada sobre o xeonllo de meu pai, en traxe de baño. A luz acariñándolle a cara. As follas da parra que abanean sen deixar cicatriz.

 

de Lumes (2017)



NOTA SOBRE O AUTOR

 

Ismael Ramos (Mazaricos, Galiza, 1994) publicou os livros Os fillos da fame (Prémio Johan Carballeira, Xerais, 2016) e Lumes (Apiario, 2017), mais tarde, traduzido para castelhano como Fuegos (La Bella Varsovia, 2019) pelo poeta. Este ano, 2020, Fuegos foi galardoado com o Prémio Javier Morote, concedido pelas livrarias independentes espanholas, na categoria de melhor livro publicado por um jovem autor em 2019. A sua obra integra volumes coletivos como No seu despregar (Apiario, 2016), 13: Antoloxía da poesía galega próxima (Chan da Pólvora e papeles mínimos, 2017), Poetízate: Antoloxía da poesia galega (Xerais, 2018) ou Piel fina: Joven poesia española (Ediciones Maremagnum, 2019). Foi ainda publicado em revistas como A Bacana, Clarín, Dorna, Grial, Luzes, Oculta Lit, PlayGround ou tr3sreinos. Teve poemas seus traduzidos para alemão, castelhano, finlandês, francês, húngaro, inglês e português. Na World Wide Web escreve no blogue O Triste Stephen (otristestephen.tumblr.com).