"O escudo de Aquiles" de W. H. Auden

Tradução de Tatiana Faia

Ela procurou por cima do ombro dele
     Pelas vinhas e oliveiras,
Pelas bem-governadas cidades de mármore,
     E naus em mares bravios,
Mas ali no metal reluzente
     As mãos dele puseram em vez disso
Um ermo artificial
     E um céu de chumbo. 

Uma planície sem feições, despojada e castanha,
     Nem uma folha de relva, nem um sinal de vizinhança,
Nada que comer e lugar nenhum onde sentar,
     Porém, congregada no vazio, permaneceu
Uma incompreensível multidão,
     Um milhão de olhos, um milhão de botas alinhadas,
Inexpressiva, à espera de um sinal. 

Do ar uma voz sem rosto
     Comprovou por estatísticas que alguma causa era a justa
Em tons tão secos e planos como o lugar:
     Ninguém foi aplaudido e nada se discutiu;
Coluna a coluna numa nuvem de pó
     Marcharam para longe sustentando uma certeza
Cuja lógica os trouxe, mais tarde noutro lugar, à tristeza. 

Ela procurou por cima do ombro dele
     Piedades rituais,
Vitelas coroadas de brancas grinaldas,
     Libação e sacrifício,
Mas ali no metal reluzente
     Onde devia ter ficado o altar,
Ela viu à luz trémula da forja dele
     Uma cena bem diferente.  

Arame farpado cercava um ponto arbitrário
     Onde oficiais entediados se recostavam (um fez uma piada)
E as sentinelas suavam, porque o dia era quente:
     Uma multidão de gente normal e decente
     Vigiava de fora e não se moveu nem falou
Enquanto três pálidas figuras foram trazidas adiante e amarradas
A três estacas enterradas ao alto no chão. 

A matéria e a majestade deste mundo, tudo
     Cujo peso conta e sempre pesa o mesmo,
Estava entregue às mãos de outros; eram pequenos eles
     E não esperavam ajuda nem ela veio:
     O que os seus inimigos gostavam de fazer foi feito, a sua vergonha
Era tudo o que os piores queriam; perderam o seu orgulho
E morreram como homens antes da morte dos seus corpos.

Ela procurou por cima do ombro dele
     Os atletas nos seus jogos
Homens e mulheres numa dança
     Movendo os doces membros
Rápido, mais rápido, à música,
     Mas ali no escudo reluzente
As suas mãos não puseram pista de dança nenhuma
     Mas um campo estrangulado de ervas-daninhas.

Um garoto esfarrapado, sem destino e só,
     Vagava naquele vácuo; um pássaro
Voou para o alto e escapou à sua pedrada certeira:
     Que violassem as raparigas, que dois rapazes apunhalassem um terceiro,
     Eram axiomas para ele, que nunca tinha ouvido falar
De mundo nenhum onde uma promessa se cumprisse
Ou em que alguém chorasse porque outro chorasse.   

O armeiro de finos lábios,
     Hefesto, coxeou para longe;
Tétis dos seios reluzentes
     Gritou de desespero
Ao ver o que o deus forjara
     Para agradar ao seu filho, o forte
o de coração de ferro o assassino de homens Aquiles
     Que não ia viver muito.

 

1952 (primeira reedição em 1955 em The Shield of Achilles)

Haikus Trasmontanos

Bebe dum balde

o gato —

toca o sino.

 

Doce o cheiro

sob o medronho —

começou o inverno.

 

Alguém corta lenha

ao longe

a lareira apagada.

 

Toca o sino

e os peixes

desaparecem.

 

Na terra onde o cão

foi enterrado

crescem batatas.

 

Velho gato

atravessando à chuva

o campo lavrado.

 

À chuva

entre o rosmaninho

amarelos crisântemos.

 

Gato à chuva

lambendo

o banco de madeira.

 

Como os segundos

pelo nosso sangue

a água pela fraga.

 

Entro no carrascal

e a chuva

para.

 

Rachar lenha

como escrever um haiku

rachar lenha.

 

Do monte

ouço o sino tocar

enquanto cago.

 

Manhã de inverno

toca o sino

enquanto cago no monte.

 

A romã madura

ainda na árvore

abre-se à geada.

 

Ainda quentes

as penas da galinha

enterradas num buraco.

 

Na terra fria

abre-se um buraco

para as penas da galinha.

 

No ar húmido

o fumo das lareiras —

manhã de Natal.

 

Manhã de Natal

no ar o fumo

do papel de embrulho.

 

Com as netinhas atrás

vai o antigo coveiro

ver o cavalo.

 

Aos poucos

a nevoa branca

engoliu a montanha.

 

Abrindo-se em crepitações

cede finalmente

o carrasco ao machado.

 

Penetrada pelo machado

a madeira do carrasco

crepita.

 

Brilha ao sol

na terra lavrada

um pedaço de vidro.

 

Lendo Shiki

ao sol de dezembro —

dióspiros apodrecem.

 

Maduros na árvore

dióspiros

ao sol de dezembro.

 

Enquanto leio Shiki

dióspiros maduros

ao sol de dezembro.

 

Peixes laranja

no poço verde

sob o sol de inverno.

 

Atravessando o campo

vem sentar-se

debaixo do meu banco.

 

Na companhia do gato

e dos peixes

ao sol de dezembro.

 

Junto aos peixes

que comem no poço

bebe o gato velho.

 

Gota de orvalho

na couve —

o Sol inteiro.

 

Que diria ao ver

esta árvore vergada

o comedor de dióspiros?

 

Bem lavado o esperma

derramado sobre a rocha quente

à beira do rio.

 

Encurtam os dias

alarga o rio

que se apressa.

 

No inverno

trocam a sombra

pela chama breve.

 

Coberta de orvalho

a teia da aranha —

tempo de azeitona.

 

Desce o céu

e a terra

um mar branco.

 

Nada se move

neste ar frio

de mercúrio.

 

Fresca era a sombra

do castanheiro que crepita

agora na lareira.

 

À beira do poço

como a última romã

do ano.

 

Onde param as rãs

que tanto cantavam

na primavera?

 

Sobre a erva

teias orvalhadas —

redes a secar.

 

Em silêncio

a bela oliveira

amadurece as azeitonas.

 

Para ter um pouco de sol

dou de comer

aos peixes.

 

Por cima de mim

voa um pardal

que pousa no carrasco.

 

No monte da toupeira

a minha mãe

vê um boneco.

 

Alguém assa frango

cantam as rolas

é inverno.

 

Despede-se o sol

deste ano

interminável.

 

Torre de Dona Chama-Cidões, Dezembro 2021

 

 

Tatiana Faia, Leituras de 2021 (e algumas (re)leituras por vir)

Há nesta lista várias omissões injustas e inexplicáveis até mim, mas tentei falar sobre alguns livros que me marcaram ao longo de 2021. Se tivesse elaborado este balanço noutro dia e olhado para o ano que passou de outro ângulo, outros livros podiam ter sido mencionados. Estas coisas valem o que valem. Quero apenas falar de alguns livros que me interessaram e me inquietaram ou que, por um motivo ou outro, me encheram de alegria.

 

O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir (tradução de Constance Borde e Sheila Malovany-Chevallier, Vintage, 1997). No princípio do ano tive uma daquelas discussões parvas com uma amiga que me dizia insistentemente que não valia a pena ler O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir porque estava datado. Esta conversa acabou da maneira que se está mesmo a ver. Quando lhe perguntei se ela tinha lido o livro ela respondeu que não. Eu fui ler O Segundo Sexo e prometi contar-lhe como corria. Há em O Segundo Sexo momentos de uma agudeza de pensamento, de denúncia da exploração e da opressão a que uma considerável parte da população mundial foi e é submetida (a que nasceu no sexo feminino), que nunca vai ficar datada e não é só pela enumeração sistemática da infelicidade gerada pelo patriarcado a que Beauvoir se dedica com uma lógica difícil de refutar, como por exemplo quando ela descreve as tarefas inúteis em que as raparigas são instruídas numa idade jovem, como varrer o chão diariamente, que só servem para perpetuar a sua opressão, para as estupidificar. Não é possível concordar com tudo o que lemos – como a afirmação de que uma mulher com um casamento infeliz nunca será uma boa mãe (Beauvoir simplesmente não tinha suficiente elementos estatísticos para dizer isto, é uma afirmação puramente anedótica e misógina; alguma desta misoginia fez, claro, escola entre outras feministas: pense-se num livro como Slip-Shod Sybils da igualmente eloquente Germaine Greer). Ainda assim, O Segundo Sexo permanece um livro essencial. Mesmo o que é datado pode ter bastante valor e interesse. Há uma energia na prosa de Beauvoir que é a energia dos visionários e dos vanguardistas.

 

La Corsara. Rittrato di Natalia Ginzburg de Sandra Petrignani (Neri Pozza Editora, 2018). Quando estou na fossa mesmo ponho no Audible Le Piccole Virtù de Natalia Ginzburg lido por Giovanna Mezzogiorno e embora este exercício não me deixe necessariamente de melhor humor, deixa-me sempre de coração ao alto. Acho que há poucos escritores tão bons a descrever pessoas como Natalia Ginzburg. Isto é, tão exímios a encontrar a exacta medida de alegria e melancolia que trazemos connosco e que trama o enredo das nossas vidas, que o explica e o condiciona. Este livro de Sandra Petrignani não é uma biografia exaustiva, é exactamente aquilo que o título diz que é, um retrato. E é um belo retrato. Encontramos Natalia Ginzburg no contexto da sua vida, das amizades que cultivou, das relações familiares e amorosas que a definiram. É ainda, a partir de Ginzburg, um fresco de algumas décadas extraordinárias na história de Itália. É uma vida singular e difícil a de Ginzburg, marcada pela guerra, pela morte trágica e precoce de dois maridos muito amados, por encontros e desencontros com amigos extraordinários. Este retrato não colige só o trágico, mas também momentos inesperados (o breve envolvimento amoroso de Ginzburg com Quasimodo no pós-guerra) e extremamente divertidos, como por exemplo quando Ginzburg resolve começar a escrever teatro e de Elsa Morante só recebe comentários negativos. Sandra Petrignani tem uma tendência a divagar. Esquecemo-nos, por exemplo, ao longo de dezenas de páginas, de Ginzburg para ouvir falar de Calvino, Olivetti, Einaudi ou Pavese. É uma prosa jornalística ágil, atenta, inteligente e que, quando divaga, mesmo longamente, divaga em direcção aos centros de gravidade que definiram a vida intelectual e emocional de Natalia Ginzburg. Um livro para todos os ginzburguianos como nós.  

 

The Foreign Connection: Writings on Poetry, Art and Translation de Jamie McKendrick (Legenda, 2020). É um livro de ensaios curtos, este, cada um deles de uma imensa erudição, cheios de ligações inesperadas e ruminações aguçadas, divertidas, irreverentes (uma passagem típica: “It’s odd to say so of the man who covered the Sistine Chapel ceiling with the history of the world, but the sensibility at work in Michelangelo’s poems is a narrow one.”). Coligem-se aqui então os ensaios (muitos deles em formato revisto) que Jamie McKendrick, poeta e tradutor inglês, foi publicando ao longo dos anos em periódicos. A foreign connection do título é sobretudo à literatura italiana, de Dante a Montale e daí a Bassani, Pavese, Pasolini, chegando a Valerio Magrelli e Antonella Anedda. Encontramos aqui, quase sempre, uma clareza necessária e de repente inesperadamente óbvia, como quando se defende que a tradução é uma forma de activismo literário. Outros textos só podiam ter sido escritos por um poeta, como aquele em que McKendrick especula que música exactamente é aquela que se escuta no famoso poema de Kaváfis, “O Deus Abandona António” e daí se tece uma ligação que vai de Shakespeare à música que em criança, em Liverpool, Kaváfis deve muitas vezes ter escutado nas ruas. Alguns ensaios são uma introdução à poesia inglesa escrita pela geração a que McKendrick pertence (Hofmann e O’Donoghue), outros levam o leitor através do mapa da poesia irlandesa (Heaney, Paulin, Muldoon) ou americana (Dickinson, Crane, Bishop). Muitas vezes a pintura e a literatura cruzam-se, quando se discute, por exemplo, o Dante de Botticelli ou os elos que ligam Catulo a Dante e Ticiano. Outras vezes resgatam-se ligações inesperadas entre pintores canónicos e obscuros, ou entre quadros emblemáticos e menores. Discute-se o que as obras de grandes pintores italianos, ingleses e indianos fazem a quem passa muito tempo a olhar para elas. Predilecções pessoais cruzam-se com autores e artistas marcantes nestes ensaios que nos lembram da necessidade de nos rodearmos de certos poemas, de certas imagens, de certas ideias, para que o nosso mundo se mantenha fértil e belo.

 

 

Like de A.E. Stallings (Farrar, Straus and Giroux, 2018). Penso que A.E. Stallings é uma das poetas mais interessantes a escrever hoje. Stallings é uma americana casada com um jornalista grego, há muitos anos radicada em Atenas. As suas crónicas no Times Literary Supplement sobre seja o que for são sempre uma grande alegria de ler. A sua poesia coloca-a na mesma família poética de Louise Gluck, Anne Carson e Alice Oswald. Os seus poemas são caracterizados por um grande virtuosismo formal que lembra Auden e aponta para a sua educação de classicista. Mas a matéria dos poemas, para lá da sua cuidada roupagem formal, são as injustiças que vamos deixando de estranhar, coisas domésticas, menores, quotidianas, vistas muitas vezes com grande sentido de humor e ironia (o like que dá título ao livro é o do Facebook, o primeiro verso do poema “Like, the Sestina:” “Now we’re all “friends,” there is no love but Like” – n.b. desde que o livro saiu, o Facebook acrescentou o botão do amo, o que evidentemente resolve tudo). O seu virtuosismo formal atribui uma dignidade acutilante àquilo que seria banal e insignificante (como o brinquedo de um filho que se perde, ou os objectos de que as pessoas se servem em situações temporárias e que fazem o leitor pensar nos objectos que os refugiados carregam consigo, com grande sacrifício, até às costas da Grécia). O cuidado formal que A.E. Stallings investe nos poemas, a métrica, a rima, o retomar de formas fixas, podem ajudar a revestir o que é quotidiano do poético, mas não é retórica isso. Antes aquela coisa difícil que só os poetas a sério conseguem fazer, de revelar o lado de epifania e transcendência das coisas mais banais quando vistas à luz de uma certa linguagem. Veja-se isso num poema sobre uma coruja vista na ilha de Spetses: “It’s not what we see, but what sees us/ Makes us who we are./ Do you remember years ago on Spetses,/ Under the evening star…/ We strolled along the sea road/ And spied a little owl/ Less a bird/ Than a small clay jar/ Balanced implausibly on an olive branch…/ Then she swivelled the orbit of her gaze upon us/ Like the Cyclops eye-beam of a lighthouse.”

Um outro poema de A. E. Stallings pode ser lido em tradução aqui.

 

Dora Bruder de Patrick Modiano (Folio Gallimard, 1999). No final da década de 80, lemos numa pequena nota introdutória, o narrador de Dora Bruder encontrou num velho jornal, Paris-Soir, datado de 31 de Dezembro de 1941, um pequeno anúncio sobre o desaparecimento de uma rapariga de 15 anos, Dora Bruder. Em Dezembro de 1941 Paris está sob ocupação nazi e Dora Bruder é judia. Dora Bruder tem coisas em comum com o narrador, de ascendência judaica, e com o pai do narrador, que pode ou não ter-se cruzado com Dora Bruder na altura do seu desaparecimento. Há depois o elo perturbador entre a Paris do passado e do presente: Dora Bruder e o narrador têm em comum o mesmo quarteirão de Paris, o Boulevard Ornano, onde ambos cresceram. Podia dizer-se que esta novela é uma espécie de conto policial, sobre a obsessão do narrador com Dora Bruder. Ou podemos especular que esta novela é ao mesmo tempo um comentário sobre a permanência fantasmagórica das grandes abstracções históricas sobre a história dos indivíduos, vista aqui como algo que os continua a obliterar ainda no presente, muito depois do seu desaparecimento. O desaparecimento inexplicado e inexplicável de Dora Bruder, por um lado, é uma forma de resistir a uma ideia que domina muita da literatura recente sobre o holocausto: a de que é possível extrair algum sentido deste evento para algum efeito de consolação, numa imposição perversa de um vago mecanismo de compensação emocional e moral que diz mais da forma como o lado mediocremente transacional do capitalismo invadiu certas estruturas do nosso pensamento ético do que de facto compensa ou explica alguma coisa. Como podemos nós querer dizer, há um sentido para isto, para a obliteração sistemática de pessoas como nós? Por outro lado, o inexplicável e o pouco sentido que podemos fazer dele são na maturidade da escrita de Patrick Modiano o que a ironia e a sátira foram nos seus primeiros romances (nomeadamente em La Place de L’ Etoile, uma obra que, no seu tom de sátira cultural e histórica, tem muitas coisas em comum com os primeiros romances de um escritor da mesma geração que ele, António Lobo Antunes). Ao excesso desse romancista jovem e polémico, brilhante e com um desejo extremo de se tornar visível, que satirizou irrepreensivelmente a hipocrisia da sociedade e dos intelectuais franceses em relação ao holocausto, opõe-se esta narrativa concisa, quase com a intensidade despojada de um film noir centrado em certos bairros de Paris, que é sobre o modo como a realidade às vezes se mistura perigosa e tristemente com a ficção. Lembra-nos que não podemos ficar demasiado acomodados com o lado sórdido e intolerável da história.

 

Três Cliques à Esquerda de Katerina Gógou seguido de Cancro de Sean Bonney (Barco Bêbado, Novembro de 2020, tradução de José Luís Costa e Miguel Cardoso). Escrevi sobre este livro aqui.

 

The Murder of Regilla: A Case of Domestic Violence in Antiquity de Sarah B. Pomeroy (Harvard University Press, 2007). No ano de 160 d.C., ou pouco depois, um romano chamado Bradua levou a tribunal um grego chamado Herodes Ático. Esse Herodes Ático foi no seu tempo um famoso milionário, professor de dois imperadores romanos do período antonino, Marco Aurélio e Lúcio Vero. Foi ele quem construiu em Atenas o teatro que tem o seu nome e onde ainda hoje é possível assistir a concertos e outros espetáculos na encosta situada a sudeste da Acrópole, um espaço que amo profundamente, de um amor que ficou um pouco estragado com a leitura deste livro. A acusação que Bradua faz contra Herodes Ático é a de que Herodes Ático tinha assassinado a própria esposa, Regila, que era irmã de Bradua e que se encontrava à data no oitavo mês de gravidez, à espera de um filho de Herodes. The Murder of Regilla é um livro que tenta reconstituir vários aspectos do mundo clássico que se encontram pouco documentados ou que são por norma menos estudados e por isso tendem a ser menos objecto de escrita de divulgação por parte de classicistas (Sarah B. Pomeroy, de resto, é autora de um outro estudo importante, e bastante acessível a não especialistas, sobre a vida das mulheres na antiguidade, Goddesses, Whores, Wives and Slaves: Women in Classical Antiquity, originalmente publicado em 1975): a vida de gregos poderosos na corte de imperadores romanos, a vida quotidiana de mulheres romanas na Grécia, que é um aspecto absolutamente singular da vida de Regila e as consequências (ou falta delas) do feminicídio na antiguidade. Tudo isto nos faz pensar sobre questões de poder, colonialismo e violência de género no presente. A Antiguidade é sempre um mapa para isso.

 

The Europeans: Three Lives and the Making of Cosmopolitan Europe de Orlando Figes (Allen Lane, 2019). Não parece, mas este é um livro sobre comboios, ou melhor, é um livro sobre o triângulo amoroso entre Turgueniev, a cantora de ópera Pauline Viardot e o marido dela, Louis Viardot. Mas é sobretudo um livro sobre a relação entre comboios, ópera e as paixões de um século, o XIX. Orlando Figes escreve aqui sobre as origens do mundo contemporâneo e das formas como nos fomos tornando consumidores de cultura, no melhor sentido desta expressão que é vagamente infeliz. Pelo meio, há um retrato inesquecível do jovem Turgueniev enquanto empregado de escritório, cuja ingrata função era registar e garantir que eram cumpridas as sentenças de prisioneiros condenados à pena capital (Turgueniev alterava-as frequentemente para penas bem mais leves). É também um livro sobre a vida imensamente criativa, e imensamente esquecida, de Pauline Viardot e dos pintores, escritores e compositores que orbitaram em redor deste triângulo. Enfim, o retrato de um século num momento de viragem, bem escrito e bem documentado, imensamente bom de ler.

 

Duas antologias de poesia portuguesa: Uma Antologia Dialogante da Poesia Portuguesa, editada por Rosa Maria Martelo (Assírio & Alvim, 2020) e Já Não Dá Para Ser Moderno: VI Poetas Portugueses de Agora editada por Ricardo Marques (Flan de Tal, Janeiro de 2021). Nuno Brito escreveu sobre a antologia de Rosa Maria Martelo aqui. De alguma forma são duas antologias sobre diálogos que poetas estabelecem entre si. Os diálogos entre poemas que Rosa Maria Martelo antologia são deliberados e convergem, parece-me, para uma breve história fascinante da poesia portuguesa, sobretudo contemporânea. Uma introdução lúdica, bem pensada e extremamente bela a alguns dos nossos poetas, por assim dizer, mais canónicos, visto de uma perspectiva comparada. Já Não Dá Para Ser Moderno: VI Poetas Portugueses de Agora sendo sobre o diálogo que se estabelece a partir de um traço que une os seis poetas aqui agrupados, o facto de que a sua poesia não ser uma de reacção a poetas anteriores, o que segundo o editor os singulariza, acaba por discutir o que se pode pensar como originalidade entre poetas a escrever na segunda década do presente século. É uma antologia que pensa, a meu ver, a marginalidade de um cânone em formação e a originalidade vanguardista dos poetas que agrupa. Concorde-se ou discorde-se com a tese do editor, é um objecto que faz um balanço útil e relevante da última década e que traz à baila uma característica da poesia contemporânea portuguesa de que pouco se tem falado e de que devíamos falar mais – o sentido de humor de certos poetas.

 

Três livros de poesia portuguesa que me acompanharam em 2021: As Orelhas de Karenin poemas de Rita Taborda Duarte, desenhos de Pedro Proença (Abysmo, 2019), Tojo: Poemas Escolhidos de Miguel-Manso (Relógio d’Água, 2013) e Atirar para o Torto de Margarida Vale de Gato (Tinta da China, 2021). Podia-se falar destes livros em conjunto a partir de um aspecto que Pedro Mexia define, no seu breve texto introdutório ao livro de Margarida Vale de Gato, como a prática de um “formalismo informal” (de um modo geral mais visível ao nível do cuidado com a linguagem do que do retomar de certas formas poéticas fixas). A outra coisa que os une é um sentido de humor inusitado, irreverente, de uma imensa inteligência verbal que expande em muito a nossa percepção daquilo que a linguagem pode fazer. Esta expansão é por vezes lúdica e concentrada. No caso de Rita Taborda Duarte, veja-se a este propósito “os resumos” de poemas em As Orelhas de Karenin, que por vezes brincam com a história da poesia contemporânea portuguesa e releem, às vezes parodicamente, às vezes pragmaticamente, os poemas mais extensos do livro. Ou assoma, em Miguel-Manso, na escolha de palavras inusitadas ou em desuso, que evidenciam por vezes um interesse quase académico na história do português enquanto língua, mas que se tornam centrais aos interiores cuidadosamente construídos pelo poeta, onde por vezes se entrevê a sua educação de pintor. Em Margarida Vale de Gato há uma atenção à polissemia de certos conceitos (e.g. elegia, história, prazer) que serve de instrumento a um comentário histórico e social lúcido e necessário, irónico e bastantes vezes (auto-)paródico (estou a pensar, por exemplo, no jogo entre título e poema em “A história foi enormemente exagerada,” numa composição em que a narradora erra de florista em florista num 25 de Abril em busca dessa flor que não se encontra em lado nenhum).

 

Passion Simple de Annie Ernaux (Gallimard, 1991). É um livro autobiográfico sobre uma paixão que se podia descrever como tóxica (obsessiva, desigual, quase meramente física) entre um homem casado e uma mulher divorciada que podia ser Annie Ernaux, mas, como sucede com a escrita biográfica desta autora, que se caracteriza por uma mistura de escrutínio pessoal e do tipo de impessoalidade que converte a sua expressão narrativa na voz de uma memória colectiva (na qual o individual se dissolve no histórico e vice-versa, o que é a característica marcante de um dos seus principais livros, Os Anos), esta mulher podia ser qualquer mulher, podia ser qualquer pessoa num estado de paixão e atracção sexual cegos e é justamente isso de que este livro é crónica, numa suspensão de juízos que é um ensaio atento sobre um estado mental a que, com sorte e azar, de vez em quando ninguém escapa. De um modo muito menos óbvio, um pouco mais oblíquo, é um livro sobre a relação entre a escrita e esse estado de paixão absoluta. A esse propósito, vale a pena deixar aqui um excerto da primeira página.

 

Cet été, j'ai regardé pour la première fois un film classé X à la télévision, sur Canal +. Mon poste n’a pas de décodeur, les images sur l’écran étaient floues, les paroles remplacées par un bruitage étrange, grésillements, clapotis, une sorte d'autre langage, doux et ininterrompu. On distinguait une silhouette de femme en guêpière, avec des bas, un homme. L’histoire était incompréhensible et on ne pouvait prévoir quoi que ce soit, des gestes ou des actions. L’homme s’est approché de la femme. Il y a eu un gros plan, le sexe de la femme est apparu, bien visible dans les scintillements de l‘écran, puis le sexe de l’homme, en érection, qui s’est glissé dans celui de la femme. Pendant un temps très long, le va-et-vient des deux sexes a été montré sous plusieurs angles. La queue est réapparue, entre la main de l’homme, et le sperme s'est répandu sur le ventre de la femme. On s’habitue certainement à cette vision, la première fois est bouleversante. Des siècles et des siècles, des centaines de générations et c’est maintenant, seulement, qu’on peut voir cela, un sexe de femme et un sexe d’homme s’unissant, le sperme – ce qu'on ne pouvait regarder sans presque mourir devenu aussi facile à voir qu’un serrement de mains.

 

Il m’a semblé que l’écriture devrait tendre à cela, cette impression que provoque la scène de l’acte sexuel, cette angoisse et cette stupeur, une suspension du jugement moral.

 


Queria terminar com uma nota sobre livros que não mencionei no texto principal, porque ainda não os li ou não os reli ou porque conto escrever sobre eles mais demoradamente ao longo de 2022, mas que me parecem de assinalar por um motivo ou outro.

A Lição do Sonâmbulo de Frederico Pedreira (Companhia das Ilhas, 2020), que foi distinguido com o Prémio União Europeia de Literatura de 2021 e cuja recepção crítica foi, a meu ver, inexplicavelmente omissa: não há assim tantos romancistas distinguidos com um prémio internacional na geração de romancistas portugueses a que Frederico Pedreira pertence (e são escassos até ver os romancistas portugueses nascidos na década de 80). Por outro lado, Frederico Pedreira tem um percurso enquanto tradutor, ensaísta, poeta e romancista que, de um modo mais geral, merece destaque e atenção e parece-me coisa de uma vileza incompetente e triste este tipo de menosprezo crítico por omissão preguiçosa ou facciosa.  

 

A Varanda de Ricardo Marques (Companhia das Ilhas, 2021), por motivos semelhantes ao do romance de Frederico Pedreira menos o prémio. É uma breve novela ensaística sobre a relação entre espaço (mental, físico), cultura (sobretudo literária mas também cinematográfica) e confinamento, um livro em tom conversacional que encerra uma reflexão mais profunda sobre o modo como estamos a viver agora e, regressados ao normal, o que pede mudança, revisão, rejeição de velhos padrões. É um livro que entra em diálogo com outro que discutimos aqui, A Torção dos Sentidos de João Pedro Cachopo, recenseado para a Enfermaria por Victor Gonçalves.

 

Dois livros editados no Brasil, mas acessíveis em Portugal, via encomenda pela internet ou Livraria da Travessa: São Miguel da Desorientação de Miguel Martins (Macondo, Dezembro de 2020), porque Miguel Martins é um dos grandes poetas de língua portuguesa, ponto final parágrafo, dogmaticamente e com imensa gratidão sempre que é possível lê-lo, e o mesmo vale para Mesmo o silêncio gera mal-entendidos: antologia 2000-2020 de Ricardo Domeneck (Garupa, 2021), exactamente pelos mesmos motivos. Alguns poemas desta antologia de RD podem ser lidos aqui.

 

Ventos Borrascosos de Fernando Guerreiro (100 Cabeças, 2019) é outro livro de poemas que segue sendo em geral ignorado pela crítica que escreve em jornais, coisa que para mim é motivo de perplexidade, preocupação e, de um modo geral, sinal do marasmo que vai caracterizando boa parte do que se escreve sobre livros em jornais portugueses e que mantemos o mau hábito de dignificar com o epíteto, convencional e em certos casos puramente ficcional, de crítica literária.

 

Pessoa: An Experimental Life de Richard Zenith (Allen Lane, 2021). Indispensável, incontornável, etc., sem ponta de ironia na enumeração dos ins-todos. Um livro a ser celebrado. Edição portuguesa para breve, diz-se.

 

Fernando Pessoa e Outros Fingidores de Maria Irene Ramalho (Tinta da China, 2021). Se por mais nada (e há, no entanto, bastante mais) porque coloca de novo em circulação e de modo facilmente acessível um dos mais belos ensaios que alguém alguma vez escreveu sobre um dos principais heterónimos pessoanos, “A doença do poeta,” a propósito de alguns dos poemas de “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro. 

 

Poemas de António Franco Alexandre é a reedição do ano, o que é quase desnecessário mencionar. No entanto, durante uns quantos meses, irei garantidamente continuar a alimentar esperanças pouco razoáveis em relação ao futuro do mercado editorial português, que me pareceu de um potencial digno de celebrações líricas infinitas assim que aquela gloriosa capa azul começou a aparecer nas minhas timelines das redes sociais.

Memories of Asia Minor in Contemporary Greek Culture: An Itinerary de Kristina Gedgaudaitė (Palgrave MacMillan, 2021). Um livro que quero muito ler. Em 1922 a Grécia procedeu a uma troca terrível de populações com a Turquia e tornou-se, pela primeira vez na sua história contemporânea, um país de refugiados. Os gregos que viveram durante séculos na Ásia Menor tiveram de recomeçar a sua vida noutro país, supostamente o seu, exceptuando que não viviam lá há seculos. Que memória fica deste evento histórico, deste lugar, deste corte, nas gerações que vêm a seguir? Este livro é um itinerário para essas memórias. Desconfio que este é também um livro muito necessário não só para entender a Grécia de hoje, mas sobre a relação entre trauma, violência histórica, identidade e persistência da memória.

WhatsApp p/Bitches de Ana C. Joaquim (Douda Correria e Poesia Incompleta, 2021) porque é um livro belo, vivaz e irrequieto, que, com riso mas sem catequismos ou agendas, questiona convenções e limites – sociais, emocionais e daquilo que achamos que é linguagem poética (escrito em português-brasileiro do WhatsApp). A edição é também belíssima.

the way we were - as piores canções sobre lembranças

um pequeno entulho na fotografia
daquele dia nós três e o pequeno
entulho atrás 
amontoar entulhos atrás das ocasiões de foto:

é isso que salva uma lembrança
não a foto

=//=//=

outro poema de natal 

minha mãe tem lembranças desde o 
berço se lembra da cor da madeira
da forma do lustre no teto da irmã
mais velha lhe dizendo coisas maldosas
da mamadeira de vidro
me lembro tão pouco da minha infância
e do pouco que lembro sou um vulto 
clandestino em sua própria fumaça de natal

=//=


não permita uma lembrança ser cruciante
o cérebro é feito de tão suave tecido
o fígado é mais grosseiro que a pele
beijos estalados das tias na infância
bolhas de coca-cola estourando 
no seu nariz o caminho de formigas no 
jardim a descoberta dos ovos
de lagartixa qualquer embrulho de natal
ou uma siririca
pois
meta a siririca bem nos ovos dessa lembrança

=//=

envelhecer uma lembrança no
carvalho curar a 
memória em suas próprias 
bactérias e fungos

=//=

um osso de
galinha na calçada
cheio de formigas um
gato no muro rente
ao osso uma criança atrás do muro
puxando o rabo do gato

rente ao osso
rente ao osso uma lembrança foi
desenhada e já formiga

Victor Gonçalves, Leituras 2021

Não é um best of, mas aproxima-se. Dou nota aqui dos livros que mais me marcaram neste ano, os que me fizeram desviar do caminho traçado, previsível, trazendo iluminações ou obscuridades (inocular os nossos frágeis desejos de ceticismo é de uma relevância inquestionável), compondo pequenos fragmentos de sentido e sem-sentido. São livros, essas coisas cada vez mais raras, apesar de nunca se ter publicado tanto. Faltam leitores, faltarão sempre, como faltam boas pessoas. É a vida.

François Noudelmann, Un tout autre Sartre, compõe para a Gallimard uma biografia de Jean-Paul Sartre, que contou com a cumplicidade da «filha adotiva» do escritor de L’Être et le néant, Arlette Elkaïm, falecida há pouco. Um «outro Sartre» compõe parcelas encobertas do «intelectual total» que se quis campeão da transparência, que «incessantemente comentou o seu percurso intelectual e o incarnou num modo de existência». Em articulação com o Sartre visível, Noudelmann mostra-nos o prazer de Sartre pela música (tocava piano), por férias hedonistas, pelo dolce far niente; um Sarte que desdenha o Sartre comprometido (engagé), preferindo a leveza das conversas banais, das viagens de lazer, das pantomimas ao piano. No final, prova-o a vastidão e profundidade da sua obra, venceu o Sartre engagé, mas aquele com quem gostaríamos de ir tomar um café não foi um epifenómeno, teve suficiente importância para, a par das anfetaminas e do álcool, equilibrar os campos de luz-sombra de uma vida incrivelmente exigente.

Os Factos, Autobiografia de um Romancista, de Philip Roth, é um livro para quem o costuma ler, não porque encontre nele revelações que decifrem melhor a sua ficção, mas porque a prologam, embora noutros termos. Chamar-lhe «Factos» é um exercício de ironia à la Roth. Devemos, pois, lê-lo como mais uma história, que no final é até criticada pelo seu famoso alter ego Zuckerman.

Livro no qual Vergílio julga encontrar muitos traços da sua subjetividade. O lugar central é uma aldeia que, depois da pujança vital temporária trazida pelas minas e pela «tecnificação», vai desaparecendo, morrendo, em paroxismo há até personagens que nem sequer chegam a entrar em cena, pré-mortas (como um filho que se espera em vão). Um livro feminista que ensina o ser-para-a-morte. Um elogio ao indizível, também, posto que é fundamental para a vida e a ficção. Uma aldeia, vento, neve, montanhas, pinheiros queimados na lareira, pobreza (de todo o tipo) e a energia elétrica que não substitui a falha geral que conduz ao cansaço e à morte, espiritual antes da física.

Uma história de vida e morte, de sentido e sem-sentido, de amor e ódio. Uma história na qual um professor de Liceu, em Évora, percebe que o feminino é maior do que ele. Em que percebe, também, que as suas ideias são estéreis, ou criam ervas daninhas. Uma cidade na qual «é um milagre criares relações», um Alentejo comido pelo sol, um professor dominado pela situação julgando, ingenuamente, que a palavra justa, o gesto justo, a ideia justa podem salvar o mundo. Há neste livro um pouco de Manhã Submersa e a antecipação de Alegria Breve.

Um ensaio que serve de introdução (longa, 200 pp) ao pequeno texto de Jean-Paul Sartre O Existencialismo é um Humanismo (1945, que Vergílio traduz). Uma forma de entrarmos no pensamento sartriano, começando pela fenomenologia e passando pelo «existencialismo» heideggeriano. Mas é também uma obra que expõe o Vergílio filósofo, ou melhor, aprendiz de filósofo.

Um livro diferente e surpreendente de Han. Acompanha os principais momentos de uma viagem por três primaveras, verões, outonos e invernos, nos quais trabalhou num jardim. Misturando teologia e estética, refere que «O belo tem de ser tratado cuidadosamente. É uma tarefa urgente, uma obrigação da humanidade, tratar com cuidado a terra, porque a terra é bela e, mais ainda, esplendorosa.» E isto é tanto mais premente quanto «Perdemos por completo a veneração da terra.» Esse trabalho, do corpo e do coração, deu-lhe o acesso ao amor: «Não tenho filhos, mas com o jardim vou aprendendo lentamente o que significa oferecer assistência, ter preocupação com os outros. O jardim tornou-se um lugar de amor.»

Cerca de 30 críticos escrevem sobre cerca de 40 autores e uma dúzia de temas. O mais recorrente versa sobre o sentido do «cânone», são quatro artigos (António M. Feijó, Anna M. Kloblucka, João R. Figueiredo e Miguel Tamen) que nos dão a pensar acerca da construção de um espaço dos eleitos. O cuidado gráfico, a revisão esmerada e, sobretudo, a qualidade dos textos tornam este livro obrigatório. À sua escrita presidiu o seguinte horizonte (de vontade e sentido): «Não é boa ideia lê-lo como um guia neutro para a história da literatura portuguesa, ou como uma comemoração política das suas maravilhas. Este não é um livro sobre o esplendor de Portugal, é um livro de crítica literária.»

Publicado em 1964, o ano em que Sartre recusa receber o prémio Nobel da Literatura. O livro que o resgata do relativo fracasso de Les Chemins de la liberté, conta-se, de modo relativamente autobiográfico (este olhar para o passado é paradoxal com a importância do prospetivo), até aos 12 anos, explicando-se mais do que descrevendo-se. Trata-se de tentar perceber como surgiu, foi surgindo, a vocação de escritor. Mas também de lançar um olhar implacável sobre as distorções morais com que percorreu a sua infância. Quando apareceu, o livro teve talvez as melhores críticas de tudo o que escreveu Sartre. Gabaram-lhe o estilo (breve, incisivo, musculado, ácido, perscrutador), a concretização da sua psicanálise existencial, a inventividade lírica, a recuperação da ideia de genealogia da moral.

Criança frágil e feia, mas intelectualmente precoce, órfão de pai, posto de parte pelos seus colegas de escola, mimado por uma mãe e um avô que o veneram como um dom celeste, conforma-se ao gosto dos grandes, porque gosta de elogios e aplausos. Foi nesse meio que, falsificando amiúde a virtude (retrata-se muitas vezes como um impostor), nasceu o escritor incansável que foi Sartre. É por isso que no final de Les mots escreve: «faço, farei livros; são necessários; isso serve para alguma coisa. A cultura não salva nada nem ninguém, ela nada justifica. Mas é um produto do homem: projeta-se e reconhece-se nela; somente este espelho crítico lhe oferece a sua imagem.»

Cumpre-me ler pelo menos um comentário grande a Nietzsche todos os anos. Desta feita, escolhi Pierre-André Taguieff, seduzido pelo subtítulo: «Por, com e contra Nietzsche». É que sob o nome de «Nietzsche» encontramos de tudo, desde o início do séc. XX foi sucessivamente escrutado, glosado, reinventado, treslido, adulado, detestado, celebrado, vilipendiado… E tantas vezes usado para causas que nunca foram as suas. Esta obra apresenta-se, assim, como um panorama criterioso das interpretações políticas e ideológicas de Nietzsche. Ao mesmo tempo que reflete sobre as múltiplas contradições internas à obra, bem como as suas ambiguidades e a extrema singularidade do autor. Pierre-André percorre o grande bazar dos nietzschianos e anti-nietzschianos, de Paul Valéry a Peter Sloterdijk, de Thomas Mann a Albert Camus, de Stefan Zweig a Michel Foucault, de Gorki a Althusser, Deleuze, Rosset… Pega também nos bolcheviques e na nova direita, nos fascistas italianos e no Maio 68, evocando intelectuais, políticos e universitários.

Vaca Preta (Bestiário/Snob, 2021) é um livro marcante de um cérebro metido num corpo há cerca de 27 anos (a idade é outra coisa). Claro que se foi rodeando de mundo, aposto que um mundo todo ele traduzível, ainda que imperfeitamente, em palavras, mas há uma irrecusável, irreprimível singularidade nas sinapses de Marcos Foz, uma fábrica de pensamentos que roça a loucura do adivinho sóbrio, esse que destapa as pulsões linguísticas que se escondem por trás dos discursos compostos pelos costumes e pela lógica. Mais tarde, ver-se-á que nenhuma verdade adâmica virá ao de cima, mas perceber-se-á o desconforto com que habitamos o mundo, traídos por uma pureza que estava ao nosso alcance e que nos abandonou porque nos fez conversar sobre banalidades vitais.

Entre a poesia e a prosa, o ensaio e a ficção, o referencial e o autorreferencial, Vaca Preta é um palimpsesto enorme e anormalmente complexo (a normalidade prefere quase sempre o liso). Mistura sons, imagens e palavras, estica os sentidos até ao limite do absurdo (que ainda é sentido, mas paralelo). Gosta de representar o nada, ou melhor, a nadificação, despojos de uma desarticulação precisa do racional. Percorre o corpo e a mente humanas, o corpo e a mente sociais com a liberdade da criança de Assim Falava Zaratustra. Esculpe tabus até fazer deles setas suicidas, um patchwork sobre a forma como nos fazemos à vida, inexperientes criaturas sobrealienadas. O narrador, F e Z compõem um fragmento de mundo observando a humanidade enquanto questionam, subtilmente, a exatidão do olhar que lançam sobre os outros e sobre si. Há sempre ângulos mortos, mas poucos os amam.

Tudo isto perfaz uma espécie de surrealismo pós-moderno (parece um pleonasmo, mas não é), tudo, ou quase, são linhas de fuga, versões do real, ou melhor, dos vários reais, uma imensa liberdade de composição, para lá do sentido tradicional que se outorga aos textos, à posição do autor e dos leitores. E se alguma crítica política (no sentido largo) há, está na obsessão com que continuamos a sonhar (que não faz pular nem avançar, é mais do campo dos narcóticos), por que raio embrulhamos o sem-sentido com peripécias que nos fazem crer na nossa boa consciência? Por que raio nos socorremos da imaginação (menos livre do que se julga) para saltar por cima da porcaria das ações humanas (que na grande maioria desembocam em lixo e comida barata)?

Escreve Marcos Foz (?) sobre o cardápio dos que não aguentam, não se aguentam, e pulam e julgam avançar: «Há quem reaja a esta promessa de mundo sem tecto escrevendo um romance de oitocentas páginas enquanto pontapeia a mãe subsidiária, há os que vão viajar pelo oriente, entre fotografias e haikus, há os que fazem voluntariado na Guiné, há os que organizam manifestações ecológicas, há os que arquitectam tratados para a nova religião que despontará com o despertar transmecânico, há os que colocam todas as esperanças nos filhos, há os que matam os filhos por piedade, há os que se refugiam no ginásio, há os que levam questionários de inclusão aos bairros problemáticos da periferia, há os que gostavam que isto andasse dois passos para trás, há os que investigam até onde podem ir no sadomasoquismo e os seus quinhentos utensílios.» (pp. 40-41)

Além disso, a edição é magnífica.