Juni Ba, Monkey Meat

Uma colecção de cinco contos que têm lugar num mundo onde uma companhia de macacos (i.e., cujos administradores e trabalhadores são macacos) produz todo o tipo de derivados de carne de macaco. O género oscila de conto para conto entre a aventura, a paródia às histórias de superheróis ou à manga à la Naruto, e a narrativa sentimental.  

Crítica a um hipercapitalismo autofágico, capaz até de corromper deus? Sim, claro. Mas ativismo social e arquitectura narrativa são secundários – boas intenções são úteis, mas a obra pode bem viver sem elas. O que define esta novela gráfica é um sentido de jogo: uma energia pueril, caótica, fecunda, provocadora que diz sim a tudo, que não sabe quando parar, que se compraz em chocar, combinada com virtuosismo técnico. Está em tudo: no traço, no uso de cor, nos vastos painéis a transbordar de um pormenor desnecessário para avançar a narrativa, mas a história que realmente conta é a da alegria da criação. Está no humor infantil, grotesco, visceral, irrealisticamente violento. Como exemplo deixo algumas páginas de Monkey Meat, são mais ilucidativas e interessantes do que a minha prosa. Digo apenas que esta é uma novela gráfica que me impressionou como já não sucedia há algum tempo e que recomendo vivamente. 

Juni Ba, Monkey Meat, Image Comics, 2022

Declínio do possível, café filosófico

Gilles Deleuze, antes de 1956, por michel tournier

No dia 18 de novembro houve mais um café filosófico na livraria Snob, em Lisboa. Deixo aqui o texto de apresentação e o áudio.

«No próximo Café Filosófico, mistura sustentável de conceitos e de postulados do quotidiano, falaremos sobre o possível, ou melhor, as categorias, filosóficas e não filosóficas, do possível. Se quisermos traduzir este último sintagma numa linguagem mais militante, talvez possamos escrever a seguinte pergunta: terá o mundo, agora totalmente fabricado por nós (Antropoceno), esgotado os possíveis, como quem esgota um qualquer recurso natural?

Evocaremos, e invocaremos, Gilles Deleuze, um filósofo do possível, porque trabalhou este conceito perspetivicamente, analisando-o, e usando-o, a partir de vários ângulos, acompanhado por Kierkegaard, Bergson, Nietzsche e, entre outros, Tournier. Inscrevendo-o na arte e na filosofia, mas também, sem gritar, na política. Daremos conta do filósofo do futuro nietzschiano, cuja obrigação é construir possíveis que intensifiquem a vida, o viver; bem como da intuição do autor, originada em parte na filologia, sobre como a vingança anula os possíveis que propõem um futuro sem ressentimento. Michel Foucault, num livro editado há pouco tempo em França, Le discours philosphique, também defende, ele que se interessou mais pelos sistemas das ideias e dos pensamentos, que a filosofia serve essencialmente para inaugurar o futuro.

Discutiremos igualmente as modalidades éticas que exigem uma responsabilidade pelo futuro, e com isso uma prudência na inauguração de possibilidades que, como na hybris grega (essa embriaguez desmedida, que autoriza, ou força, as maiores transgressões, como a de Édipo), seriam desafios demasiado pesados, ou simplesmente sopros estéreis, para as futuras gerações. Tanto mais difícil quanto a inflação narcísica atual (vivemos também no egoceno) forjou o quase conceito de síndroma de hybris, uma patologia que infeta cada vez mais pessoas, com muito ou pouco poder, bastando-lhes acreditar que, num determinado momento, são todo-poderosos.

Terminaremos com o estado da arte da utopia, desses não lugares onde cabem todos os possíveis.»

Notas sobre Cult of the Lamb, Stardew Valley e algumas generalidades inócuas sobre videojogos

Cult of the Lamb, 2022

Para o João Coles,
que ando a tentar convencer a jogar
Stardew Valley

Um adorável cordeiro atravessa labirintos e combate monstros para libertar criaturas igualmente adoráveis. Trá-los para o seu acampamento, constrói tendas, cozinha para eles. E rezam juntos. E de vez em quando o cordeirinho sacrifica um dos amigos em rituais de sangue. Já tinha dito que o cordeiro é o líder de um culto satânico?

*

Os verbos ficam claramente definidos desde o início: combater para recolher recursos (as demais criaturas são também recursos), gerir esses recursos, e com eles adquirir mais e melhores ferramentas de combate, que permitem enfrentar um maior número de inimigos, e mais fortes. Quem jogou roguelikes como The Binding of Isaac reconhecerá os elementos do combate. Quem jogou jogos como Animal Crossing reconhecerá a fase de gestão. A dinâmica é construída em torno de estes dois sistemas interdependentes, criando ciclos que se alimentam e introduzem variedade. A referência arquitectural óbvia é Stardew Valley.

*

Stardew Valley, 2016-2023. Imagem da minha Vila Tatiana.

Stardew Valley é um jogo de profundidade. A simplicidade, quase rudeza, da superfície esconde uma complexidade de sistemas que nos ancoram ao espaço e à narrativa do jogo. Um mundo que se expande constantemente, desdobra, aprofunda, oferece novas formas de interagir com o espaço, ao mesmo tempo que os pixeis toscos que dão forma aos habitantes do vale adquirem identidade, investimos neles sentido e sentimentos. Criamos raízes. Stardew é um jogo a que inevitavelmente regressamos como quem regressa a um lugar onde foi feliz.

Cult of the Lamb, por outro lado, é um jogo de superfícies. Gráficos estilizados como cartoons, tem algo do humor físico, visceral e anárquico, de Ren & Stimpy. Ciclos acelerados, saltamos de um modo para o outro sem necessidade de aprofundar a nossa perícia ou estabelecermos relações significativas. Este não é um espaço que habitamos. Apenas um lugar por onde passamos, fazemos o que temos a fazer, seguimos com a nossa vida.

*

A pergunta natural é "vale a pena jogar Cult of the Lamb?" Não tenho uma resposta. Assim como não tenho uma resposta à pergunta "vale a pena jogar jogos?". Tive experiências profundas e significativas a jogar alguns jogos – Stardew Valley está nessa categoria. Mas admito que há algo derivativo e até pernicioso em muitas dos jogos que joguei. Junk food para a alma. Belo, bem executados, mas, ao fim do dia, superficiais, esquecíveis.

Mas talvez a este pensamento subjaza uma falácia, ao considerarmos criticamente jogos como objectos culturais. Por vezes esquecemo-nos que jogos são, bem, jogos. Que são objectos lúdicos, que cumprem funções extra-culturais.

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A série de jogos Diablo é notável por ter os seus níveis de estupidez no máximo. E com isto não tenciono insultar esta vetusta e respeitada série: são jogos excepcionalmente bem executados, desenvolvidos durante anos por um dos melhores estúdios, e que consistem em alegremente aviar largas turbas de monstros, uns atrás dos outros. São repetitivos, violentos, viciantes. Contém linhas narrativas, mas são menos do que secundárias. Apenas pretextos para o combate.

A Lisa vive em Nova Iorque. Trabalhámos juntos alguns anos. As nossas reuniões de trabalho eram pontuadas por referências a jogos. Convenci-a a jogar Stardew Valley e ela concorda que é um dos melhores jogos alguma vez criados (a Lisa é uma mulher inteligente). Em Julho deste ano mudei de emprego. Tenho saudades das minhas conversas com a Lisa. Nas férias de Natal tencionamos ambos comprar Diablo IV e passar longas horas a esquartejar juntos horda atrás de horda de monstros.

Isto para dizer que jogos criam espaços de interacção humana. Que operam também como espaço mediador. Qualquer crítica tem de ter em atenção os aspectos funcionais com que potencializa as interacções humanas. Isto é, como o jogo funciona como jogo.

*

Seres humanos são viciados em esquecimento. Aquele estado em que perdemos noção de nós próprios, nos tornamos leves, e o tempo flui. Os jogos traficam em esquecimento. Quando exausto, depois de um dia de trabalho, tornam a viagem de comboio de regresso mais breve. Os jogos são uma das formas menos destrutivas que conheço de adquirir este dom. E esse é um dos maiores louvores de que sou capaz.

O mundo dentro

Ilustração de Yiannis Kotinopoulos

Tradução de Tatiana Faia

Ontem foi o dia
Em que me esqueci de regar as flores e deixei
Que a roupa suja imaginasse
Uma nova cor na minha fonte. 

Não posso dizer ao certo se foi
No princípio ou no fim da semana
Embora me tenham ensinado a diferença
Entre os dias e a importância
De te ligares cuidadosamente ao presente
Com fios impalpáveis. Mas deixei
O pão no forno e ainda não havia
Ninguém que eu conhecesse nas urgências
Não me bateram de súbito à porta, só ramos
Da árvore no quintal intrometendo-se pela janela
E um cheiro a queimado comestível para ninguém. 

Havia um mundo dentro da minha casa como um espinho
Cravado na pata da raposa
Ganindo, coçando-se, chorando, arranhando, e por
Causa do mundo esqueci-me de mim
E lambi o mundo na minha carne
Duramente com uma língua dura tentando
Não deixar o seu fluxo de xarope exalar-se.


The world within

Yesterday was the day
I forgot to water the pots and I let
The laundry clothes imagine
A new color in my fountain.

I can’t say for sure if it was
The beginning or the ending of the week
Though I have been taught the difference
Between days and how important it is
To attach yourself carefully to the present
With impalpable threads. But I left
The bread in the oven and still there was
No one I knew in the emergency room
No sudden knocks on my door, only branches
From the backyard tree intruding through the window
And a burnt smell nobody could eat.

There was a world inside my house like a thorn
That is stuck in the paw of the fox
Whining, itching, crying, scratching, and for
The world’s sake I forgot myself
And I licked the world in my flesh
Hard with a hard tongue trying
Never to let its syrupy flow exude.

Amar os intelectuais

Jürgen Habermas, 2002

Cruzamos várias ideias ao longo do dia, por vezes numa tensão agónica, outras com um grande potencial de fusão, a fusão amorosa dos conceitos.

A meio da semana, li no último livro de João Barrento, Aparas dos Dias. A escrita na ponta do lápis (espero fazer uma recensão em breve), um texto de 2007 sobre «As Palavras Aladas». Duas ideias: nunca tivemos, nem teremos, um Robert Musil, nem «uma sociedade moribunda, estagnada e viciada, com um fabuloso potencial de criação cultural, não radical, mas capaz de assimilar tradições e com elas dar grandes saltos em frente.» Como era o caso de Viena e dos seus judeus assimilados. Em Portugal, a cultura («todo o universo do simbólico e dos modos de “produzir sentido”») trivializou-se, «assiste-se a uma hostilização generalizada do pensar, a arte é vista como puro negócio, pelo menos para aqueles que a compram sem saber bem porquê». (Este «sem saber bem porquê» é delicioso). A segunda ideia, causa e consequência da primeira: estamos a perder a capacidade de escrita, e com isso esvai-se a «possibilidade de estruturar o pensamento e dar forma à imaginação.»

Entretanto, o El País traz hoje um artigo sobre Jürgen Habermas («Jürgen Habermas: el gran pensador y su assalto a la cumbre de la filosofia». É laudatório (como escrever de outra forma sobre Habermas? Creio que nem Sloterdijk consegue, agora, fazê-lo, quando se é demasiado grande as críticas só surgem post-mortem) e informativo (Habermas está a escrever Auch eine Geschichte der Philosophie, Também uma História da Filosofia, e sai agora o primeiro tomo em tradução castelhana)[1]. Para o articulista, Habermas é um filósofo alimentado pelo intelectual, pela sua veia polemista e por estar pronto a debater qualquer assunto. Como Michel Foucault, é um pensador do «agora», capaz não apenas de discutir o que é visível (a guerra na Ucrânia, por exemplo) como o que abana o mundo mas é relativamente invisível, o passado nazi da Alemanha, o seu próprio inclusive. Tudo saído da crença de que uma boa ética do discurso (da discussão, que almeje uma intersubjetividade assente na procura da verdade) permite um entendimento mútuo. Crença entretanto dinamitada pela proliferação de fake news e a reativação, nostálgica e utópica, dos regimes políticos autoritários.

Mas o que mais me interessa, é a ideia de que a Alemanha ama os seus intelectuais (percebo o risco e a inexatidão de dizer que um país, ou melhor, uma cultura ama os seus filhos), Habermas talvez em primeiro lugar, mas também Peter Sloterdijk, Rüdiger Safranski, Wolfram Eilemberger ou Byung-Chul Han. Como os franceses amaram Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Michel Foucault ou Albert Camus. E este amor, forma extrema de emulação, estrutura pensamentos e dá forma à iamginação. Não vejo, aliás, outra maneira de educar um povo, educá-lo para o profundo e para o subtil, sem ser através das ideias produzidas nas alturas onde vivem os maiores (bem sei que reverbero o pensamento da genialidade de Friedrich Nietzsche e de algum Romantismo, mas ou é isso ou é uma educação de massas assente nas pequenas narrativas, repetitivas e imprecisas, muito mais preocupadas em manipular do que em informar, que os meios de comunicação dominantes atiram para cima de todos quantos se baixam, ou, a terceira via que mais me entristece, uma escola que simplificou tanto os conteúdos, que se viciou tanto no banal, que se tornou intelectualmente tão pobre que ninguém que tenha lido um livro quer ser professor, votada ao imperativo acrítico de certificar em massa, usando todos os truques possíveis para alcançar o «sucesso educativo»).

A Alemanha ama os intelectuais e nós não amamos. Temos, aliás, logo à partida, preconceitos bem afiados contra eles. O pior de todos, porque é injusto e entrava tudo, é julgar que não conhecerem a realidade. São seres da metafísica, são seres na metafísica, são seres pela metafísica, diz-se à boca cheia. É verdade que o seu discurso difere do do quotidiano, assim deve ser. Mas eles pensam e falam, escrevem, sobre a realidade, ou melhor, as realidades. Usando mais recursos linguísticos do que é habitual, um encadeamento contínuo de proposições (contra a fragmentação vigente), por vezes socorrendo-se de criações conceptuais, citando muitos dos que antes deles pensaram da mesma forma, usando mais adversativas do que a moda do «discurso assertivo» recomenda… Mas eles pensam as realidades, o agora, multiforme, que resulta e condiciona as nossas ações, o agora que conduz grande parte do que pensamos e da forma como pensamos. Eles são, em boa verdade, muito mais realistas do que os não intelectuais.

Amemo-los, pois, por eles e por nós. Por um país e uma cultura que quer retomar um processo de emancipação individual sem cair no individualismo. Pela alegria insubstituível de descobrirmos um conceito que irá esclarecer uma parcela do quarto escuro que nos impede de dizer, «caramba, isto é mesmo belo!». Amemos João Barrento, José Gil, Maria Filomena Molder, Eduardo Lourenço (que continua vivo), Eduardo Prado Coelho (idem), amemos António Guerreiro (eu, com reservas), Viriato Soromenho Marques, Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia… Amemos todos aqueles que ensaiam pensar e lançam faíscas que iluminam o mundo. Aqueles que sabem sair de órbita sem se perderem e trazem as revoluções (no duplo sentido, cosmológico e político) que permitem «dar saltos em frente».

 

[1] Deixo-vos a nota de Nicolas Weill para o Le Monde, aquando da saída do segundo tomo em tradução francesa: «Nos últimos vinte anos, Jürgen Habermas tem dedicado os seus escritos a explorar os “conteúdos de verdade” que, na sua opinião, são veiculados pelas relações de fusão ou tensão entre fé e razão. Daí a exploração empreendida em Uma História da Filosofia, cujo primeiro tomo foi publicado em 2021, e eis agora o segundo. Depois de ter centrado o seu estudo na Idade Axial (cerca de 800-200 a. C.) — período em que o sagrado confluiu simultaneamente com a moral em várias partes do mundo (de que os Dez Mandamentos são a ilustração mais marcante) — e de se ter interessado pelo pensamento medieval, o filósofo analisa, neste novo volume, a rutura que, de Martin Luther aos “jovens hegelianos”, Ludwig Feuerbach, Karl Marx e o dinamarquês Soren Kierkegaard, levou à constituição de um “direito da razão” moderna.»