Decisão, fado e contraste

36. DECISÃO

Toda a sua vida se sentira ora feliz ora triste e isso perturbava-o bastante, a tal ponto que chegou a desejar sentir-se sempre triste a sentir-se assim, ora feliz ora triste; no entanto, nunca soube escapar a essa indesejada alternância. Decidiu então, de uma vez por todas, deixar de sentir-se. E foi o que aconteceu.

45. FADO

Porque estava cansado de não trabalhar, deixou de procurar emprego. Porque estava cansado de passar fome, deixou de comer. Porque estava cansado de procurar um sentido para a vida, deixou de viver. Não foi feliz para sempre, mas morreu.

55. CONTRASTE

O preto e o branco estavam um à frente do outro e olhavam-se com desconfiança. “Queres mudar de cor?” - perguntou um deles, não sei qual, e o outro assentiu. 
Mudaram então de cor e continuaram um à frente do outro a olharem-se com desconfiança.

Volta à ligadura

Atrapalha-me o passo quando penso regressar. Digo baixinho palavras supostas, convenço-me de que dois gloriosos dias bastam para me atrever a olhar em frente. Sinto cansaço e digo adeus às casas baixas, àquelas varandas onde se afirmam ingénuos e percorro em desequilíbrio estas ruas uma última vez. Para trás fica gente bonita, sabes. Gente cuidada e lágrimas tantas. A aldeia vai ficando para trás e o meu coração soluça ao tentar acompanhar o ritmo apressado da locomotiva. Isto não devia ser assim: todas as viagens de despedida deviam ser acrescidas de um tempo extra. Duas horas mais dez minutos em ritmo lento, à força de querer olhar uma vez mais para trás. Aconchego-me no banco desconfortável e observo a manhã seca. Ali está a minha mãe. Alcanço-a com a minha mão, “estás tão perto”. Imagino a minha cara encostada ao vidro, construo frases de dezasseis palavras, entretenho-me. Havia um tempo em que a minha operação linguística bastava para me render aos novos hábitos citadinos. Mas hoje não. Hoje sou analfabeta, levo rebanhos numerosos, divago em montes alicerçados. Voltei. Mas é sempre por tão pouco tempo. Chego à cidade e ainda sou pastora. Talvez por isso as pessoas me olhem com sermão. Nada digo, avanço os pés apertados habituados à rotina do campo. Há ligaduras invisíveis sobre o meu corpo. Receio as mentiras que se adivinham, os dias passados no silêncio do centro, o dialecto correcto que afugenta sorrisos alheios. Ah, cheguei. Sem saber onde. 

 

Vienna

 

Estábamos volando hacia allí empotrados en los incómodos asientos del avión,
y sin darnos cuenta, 
los adoquines de las aceras se apoderaron de nuestros pies.
Me agarraste de la mano y dejamos que el frio se colara bajo nuestros abrigos, mientras comíamos con los ojos todo lo que se alzaba a nuestro alrededor,
en esa bella ciudad.
Entramos a por un café humeante y unas galletas para saciar el estómago en el primer letrero luminoso que vimos tras un parque,
y hablamos hasta que se hizo de noche,
mientras a través de la ventana nos observaban los viandantes.

¿Dormimos? 
Supongo que si, 
pero recuerdo despertares interrumpidos y dulces somnolencias. 
Tu boca en mi espalda, mi mano en tu pecho.

Los museos pasaron de largo, y sólo veo pisadas en la hierba, huellas en los bancos, giros y piruetas marcadas en el aire de las plazas... Un íntimo restaurante donde me llevaste a cenar, donde apenas probé bocado perdiéndome entre la infinidad de tus ojos. 

¿Volvimos a dormir? 
Creo que sí, 
pero sólo recuerdo el olor de tu cuerpo y el tacto de tu piel.

Coloqué la bufanda alrededor mi cuello y sentí el leve roce de la ciudad diciéndonos adiós. 
El lento deslizar de las gotas que se aferraban a mis botas predecía naufragios, 
pero mis manos siguieron aferradas a las tuyas, 
y tu mirada me pertenecía indudablemente. 
Apoyé mi cabeza en tu hombro mientras las nubes atrapaban las alas del aparato, 
y desperté con chocolate en el sofá de mi casa, 
apoyando mis pies en tu regazo.

Hace un tiempo de eso, 
creo que el frío no ha vuelto a anidar en mi cuerpo. 
Me pregunto si hemos estado ahí de verdad, y dónde estás ahora.