Comizi d'Amore de Pier Paolo Pasolini

1965 foi o ano da estreia do documentário Comizi d’Amore de Pier Paolo Pasolini. A ideia de Pasolini era bastante simples: ir com um microfone, pela Itália fora, a perguntar às pessoas, de todos os quadrantes sociais, com mais ou menos educação, jovens e velhas, como viam elas a sexualidade, o casamento, a homossexualidade, as diferenças entre gerações no que à sexualidade se refere. Porquê ver esta documentário de Pasolini em 2018? Porque nos faz pensar no que mudou e no que se mantém actual e porque é uma espécie de fresco da humanidade. Há uma primeira cena em que Pasolini pergunta a um grupo de crianças de onde chegam os bebés que contém das sequências mais hilariantes que alguma vez vi num documentário. Há um pai de família e um jovem que se pegam sobre o significado social do casamento e as prioridades que este involve. Moravia e Musatti fazem o papel de comentadores (espécie de consciências socráticas, de resto) para as conclusões a que Pasolini tenta chegar. Há um longo monólogo de Moravia, acerca do debate, então vigente em Itália, de a homossexualidade ser ou não uma aberração, a que Moravia responde com qualquer coisa como: o medo do desconhecido, a ignorância, a nossa própria infelicidade levam-nos a julgar que podemos tentar oprimir os outros, reduzindo-os aos nossos julgamentos mais limitados e essa é a aberração. Filmado em 1965, disponível por completo no YouTube (ver abaixo), Comizi d’Amore continua a ser um documentário um pouco desconhecido na filmografia de Pasolini, mas uma das alegrias do género. Há espaço para rir, chorar, e muita candura pelo meio. Fica a nota. Boa semana.



Charles Bukowski, "ar e luz e tempo e espaço"

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Tradução: João Coles


“ - sabes, das duas uma, ou tinha uma família, ou um emprego, alguma coisa
esteve sempre no meu caminho
mas agora
vendi a casa, encontrei um lugar, um estúdio enorme, devias ver o espaço e
a luz.
pela primeira vez na minha vida vou ter um lugar e tempo para
criar.”

não, fofo, se vais criar
vais criar trabalhando
16h por dia numa mina de carvão
ou
vais criar num quarto minúsculo com 3 crianças
enquanto sobrevives da
segurança social,
vais criar com parte da tua mente e do teu
corpo estourados,
vais criar cego
deficiente
demente
vais criar com um gato a subir-te pelas
costas enquanto
toda a cidade treme de um terremoto, de um bombardeamento,
de uma inundação e de um incêndio.

fofo, ar e luz e tempo e espaço
não têm nada que ver com isso
e não cries nada
excepto, talvez, uma vida duradoura para encontrares
ainda mais
desculpas.

in The Last Night of the Earth Poems

 


air and light and time and space 

“ - you know, I've either had a family, a job, something
has always been in the way
but now
I've sold my house, I've found this place, a large studio, you should see the space and
the light.
for the first time in my life I'm going to have a place and the time to
create.'

no baby, if you're going to create
you're going to create whether you work
16 hours a day in a coal mine
or
you're going to create in a small room with 3 children
while you're on
welfare,
you're going to create with part of your mind and your
body blown
away,
you're going to create blind
crippled
demented,
you're going to create with a cat crawling up your
back while
the whole city trembles in earthquakes, bombardment,
flood and fire.

baby, air and light and time and space
have nothing to do with it
and don't create anything
except, maybe, a longer life to find
new excuses
for.

in The Last Night of the Earth Poems

Não-lugares?

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Em 1992, Marc Augé publicou na editora Seuil um livro importante de início de século (apesar da data): Non-lieux. Introduction à une anthropologie de la surmodernité (editado em Portugal pela 90 Graus e, depois, pela Letra Livre, com tradução de Serras Pereira; no Brasil a edição é da Papirus, e, pelo que sei, vai na 9.ª). Nele refere que vivemos num triplo excesso: tempo sobrecarregado de acontecimentos, um espaço volátil devido a fortes circulações e deslocalizações e, em relativa contradição, uma concentração sobre o eu-sujeito, uma espécie de egomania. Isto designa a sobremodernidade, assente no tríptico tempo, espaço e sujeito.

Em relação ao espaço, pensado do ponto de vista antropológico, isto é, como factor importante na constituição do ser humano, disse naquele livro que “se um lugar pode definir-se como identitário, relacional e histórico, um espaço que não se pode definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico, então será um não-lugar.” Ora, que não-lugares são estes? Meios de transporte, cadeias hoteleiras, hipermercados, estações de serviço das auto-estradas, aeroportos, ou, ainda, campos de refugiados. Estes espaços constituem não-lugares porque não são apropriados pelos humanos, não são habitados, mantendo-se cada indivíduo anónimo e solitário, abandonado. Há apenas frequentadores ou passageiros, desalojados ou refugiados, consumidores ou utentes, são espaços, nas palavras do autor, somente de “circulação, de consumo e de comunicação”.

À partida, parece lógico que a arte mais interventiva (engagé) tome os não-lugares como irrelevantes, se são anódinos para o desenho do humano, então os artistas devem antes procurar exprimir e reflectir os lugares (relacionais, habitáveis, significativos, referenciais...), neste mundo “saturado de imagens e mensagens”. Mas não é isto que Marc Augé diz num texto de 2010, Retour sur les “non-lieux?”. Les transformations du paysage Urbain.

A arte, escreve, sempre teve dificuldade em distanciar-se da sociedade que deve, no entanto, exprimir e reflectir, ainda por cima em termos que sejam razoavelmente compreensíveis para os espectadores (veja-se a catástrofe do experimentalismo ou esoterismo artístico contemporâneo, causa, embora não única, de um neo-elitismo e do folclore consumista). Ora, os não-lugares são cada vez mais... lugares, ou seja, aquilo que parecia a Augé – de um ponto de vista antropológico bastante tradicional, diga-se – irrelevante para o desenho do humano, foi ficando cada vez mais relevante. Os não-lugares que dominam o “nosso novo mundo”, aeroportos, estações, viadutos, hipermercados, centros comerciais... são cada vez mais pensados por arquitectos como “espaços comuns susceptíveis de fazer pressentir aos utilizadores, enquanto utentes, transeuntes ou clientes, que nem o tempo nem a beleza estão ausentes da sua história.” São, como refere, “fragmentos de utopia”, capazes de superar, mais mal do que bem, creio, a angústia global que nos assalta pela degradação social e ambiental que parece ter-se alojado na realidade empírica e, sobretudo, no lado pessimista da mente, que vê o progresso, nas palavras de Steinbeck, como uma “progressão para o estrangulamento”.

Ora, quer porque a intervenção da arquitectura redesenhou os não-lugares, pelo menos os mais recentes, quer porque eles fazem já consolidadamente parte da vida quotidiana (facilmente se está durante anos 2 horas numa auto-estrada por dia, ou se passa várias horas por mês num aeroporto, ou se passeia assiduamente nos centros comerciais...), as artes devem começar a olhar com mais cuidado para eles. Exprimi-los e reflecti-los será uma forma de, no final, compreender melhor o ser mutante que é o humano. Acrescento a isto o peso que a cibercultura (esse novo grande “regime de trocas simbólicas”, como refere Manuel Frias Martins) tem na sobremodernidade. Nos últimos 20 anos, tornamo-nos outra espécie, e a arte, completando a ciência, tem de a compreender e reflectir, isto é, de mostrar, à sua maneira (que é sempre múltipla e surpreendente), no que se transformou o ser humano.

TODA A VERDADE!!!

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Science is really an excuse for people to be stupid.

Mike Hughes[1]

 

 Cassidy: Curiosity won’t just kill the cat, it will bite its head off and stump-fuck the remains ‘til the sun comes up!

Garth Ennis & Steve Dillon, Preacher, vol. 1

 

 1. Celebração da iniciativa privada

 Mike Hughes
62 anos
condutor de limusines
de Apple Valley
California

em 2002
estabeleceu um novo recorde mundial
de salto em limusine
pouco mais de 30 metros

em 2014
voou 400 metros
propulsionado por um foguete
que construiu na garagem
quase perdeu a vida
na aterragem

em 2016
planeava voar mais longe
dos 150 000 dólares necessários
conseguiu angariar
310 no Kickstarter
doados
por uma multidão de dois

este é o homem que cantamos
e o motor irrefreável de sua mente
noite adentro carburando
vastas reservas de combustível
para libertar a humanidade
das densas névoas do engano

 

 2. A Revelação

quando em 2017
Hughes se converteu
ao verdadeiro credo
financiamento
deixou de ser um problema
e no anno domini  2018
depois de uma série de ensaios
seguidos de estadias no hospital
ele revelou
a Verdade ao mundo
cavalgando um foguete-balão
Hughes subiu
100 Km nos céus
de onde lhe foi possível observar
e documentar
o que há muito sabia ser verdade
com cada fibra do seu ser

a Terra é plana

 

 3. O triunfo da Verdade

a batalha
entre empiricismo e dogma
durou semanas
a princípio parecia
que a evidência da Verdade
não seria capaz de romper
a rede de engano tecida
pela vasta conspiração maçónica
que controla
as grandes cadeias de informação
mas o vídeo
da ascensão revelatória
incendiou o Youtube
passado três dias
tinha sido visto
por um quarto
da população do planeta
passado uma semana
começaram os protestos
esses já não eram
tão fáceis de silenciar
depois vieram as confissões
cientistas de todas as espécies
membros de forças de segurança
políticos
a sua consciência cedeu
como uma casca de ovo
a décadas de pressão
foi assim que descobrimos
entre outras coisas que
o homem nunca esteve na lua
aquilo foi tudo gravado num estúdio
com o apoio
das elites de Hollywood
nunca houve dinossauros
esta fraude
foi particularmente difícil
de manter
afinal
quem é que acredita
que a Terra
esteve cheia
de lagartos gigantescos?
a teoria da evolução é um logro
é tudo parte de um plano
do Movimento Secular Zionista
para ocultar a verdade
do verdadeiro criador
da criação
a teoria da gravidade
foi inventada
por físicos americanos
para impedir o homem branco
de ser bom ao basquetebol
o aquecimento global
como é sabido
é uma invenção chinesa
e John F. Kennedy
cometeu suicídio

 

4. O triunfo do povo

o mundo é vasto
            (very very big)
e cheio de maravilhas
            (very very biutiful)
mas nada há de mais maravilhoso
do que deus
que o criou plano
como eu de resto
sempre afirmei
proclamou o presidente
dos Estados Unidos
na sua conta de Twitter
mas nós
o povo
andamos a ser enganados
e explorados
há décadas
e isso acaba hoje
eu declaro guerra
aos inimigos do povo
e por isso
muitos foram presos
ou despedidos
engenheiros aeroespaciais
astrofísicos
astrónomos
físicos de todos os credos
e bioquímicos
e biólogos
e paleontólogos
e comediantes
e técnicos de controle de qualidade do ar
e técnicos de controle de qualidade das águas
e astronautas
e outros membros da NASA
e jornalistas
e agentes do FBI
e professores universitários
e defensores dos direitos humanos
e professores de liceu
e muitos muitos mais
(very very many)
foram presos
ou despedidos
porque conscientemente ou não
eram culpados de atentar
contra a liberdade do povo

e para salvar a democracia
das maquinações
das elites liberais
foi preciso suspender
as eleições

  

5. Novo mapa do mundo

 no centro
o Pólo Norte e a Antárctica
e à volta
uma parede de gelo

no extremo Norte
acharam uma enorme muralha
maior que todas
as muralhas conhecidas
guardada
por agentes da NASA
para lá da muralha
centenas de quilómetros
de terra nova
uma nova América
isso talvez seja um exagero
mais como um novo Alasca
rico em minerais
abundante em feras desconhecidas
bravios gigantes
antropoides azuis
de uma violência insidiosa
mas presas fáceis
para um exército bem oleado
e para lá das terras de gelo
no limite Norte do mundo
um curioso
complexo turístico

no extremo Sul
uma ilha vulcânica
com temperatura média
a rondar
os 40ºC
em constante
melancolia festiva

a este lugar
os peregrinos chamaram
de Inferno
ao outro
no extremo Norte
de Paraíso

ambos os nomes
eram exactos

 

 6. Hotel Inferno

tudo tacanho
em desiludido desarranjo
filas e filas de enormes
bungallows a cair aos pedaços
habitados
sobretudo pela ruína
o lugar fora fundado
em tempos imemoriais
uma estância balnear low cost
de apelo democrático
acessível
às carteiras
mais desesperadas
a homens
dispostos a arriscar
toda a decência
por um pouco de excitação
agora
o ubíquo sistema de som
bombava a batida pop
apenas para as almas
mais degeneradas
pervertidos impotentes
hippies nostálgicos
socialistas aburguesados
a ressacar na praia
a ler romances policiais junto à piscina
bebericando licores com chapéuzinhos de sol
mas a maioria dos residentes
só ao fim do dia
sai da toca
e ainda que Santa Valburga
celebre a cerimónia
todas as noites
fá-lo sem alegria
apenas
por dever profissional

diz ela
no seu sermão

senhor
abençoai aqueles
que ganharam ao bingo
pois sua será
uma garrafa de rum

diz ela
no seu sermão

senhor
castigai aqueles
que defendem taxação progressiva
pois inibem o consumo
e atormentam injustamente
os criadores de riqueza

diz ela
no seu sermão

senhor
perdoai àqueles
que dizem
que o inferno são os outros
pois não conhecem
as provações
do karaoke bar

 

 7. Hotel Paraíso

nenhum indicador
reflectia tão claramente
a podridão moral
em que degenerou
a humanidade enganada
como a baixa taxa de ocupação
do complexo paradisíaco

outrora
as almas de reis
barões da indústria
jet set da velha Europa
vinham aqui
passar a sua quarta idade
a da
dissolução da alma
agora
um grupo de cavalheiros sinistros
e suas esposas acessórias
fatos elegantes
os homens com bigode
as mulheres sem
os dias passados
no casino a fumar

por lá
andava também Aquiles
que passava os seus dias
a jogar xadrez
com uma tartaruga

 

8. Deus fala aos homens

quando o criador viu
da janela do seu escritório
os helicópteros a chegar
ao Hotel Paraíso
não ficou contente
era inevitável
como de resto
tudo é inevitável
mas preferia
que não tivessem interrompido
uma sessão de Call of Duty
suspirou
e pôs a barba
e a toga branca
e ligou
os efeitos especiais
e disse
conduzam
os representantes dos homens
à sala de imprensa
estou pronto
e as hostes celestiais
tocaram as cornetas
e deus apareceu aos homens
farei apenas
uma breve declaração
sem direito a perguntas

conseguem ouvir-me
o microfone está a funcionar?
um dois
um dois
ok
vamos a isso

o que vos queria dizer
o que já há algum tempo
vos tenho tentado dizer
bem
ahm
ahm
deixem-me recomeçar
o que eu vos vinha aqui dizer hoje
é que
bem
foi um erro
desculpem
estas coisas acontecem
e depois quando se começa
não há maneira
de voltar atrás
mas foi
sem más intenções
a sério
juro
não volta a acontecer

e deixou a sala
e nunca mais foi visto

e os hayyoth
quando questionados pelos peregrinos
respondem que está de férias
mas que voltará em breve
mais milénio
menos milénio

 

9. Despertar

é deveras lamentável
que a ciência dos paraquedas
ande muito atrás
dos progressos técnicos alcançados
na área dos foguetes

depois da revelação
e subsequente queda
a alma de Mike Hughes
vacilou por seis meses
entre a vida e a morte
e quando se precipitou
para o lado da vida
ele despertou
numa cama de hospital
num mundo mais plano

este mundo
era mais
do seu agrado
podia-se dizer outra vez
feliz Natal
chamar —— a um ——
e a celebridade trouxe
admiradoras belas
e dedicadas
um mundo melhor
sem dúvida
era claro
que o sacrifício
tinha valido a pena
mas como o aborreciam
aquelas infindáveis discussões
se era uma panqueca a voar no espaço
ou um plano imbuído no infinito
em torno da qual
todos os astros giravam
ou a carapaça de uma tartaruga
sempre fora
um homem de acção
cada vez mais
dava por si
a olhar para a lua
a sonhar um foguetão
grande o suficiente
para lá chegar
fazia cálculos
sussurrava para si mesmo
se aterrar na parte de cima
não deve haver problemas


[1] Apud Alan Burdick, “Looking for life on a flat Earth”, The New Yorker, 30 de Maio de 2018, https://www.newyorker.com/science/elements/looking-for-life-on-a-flat-earth

vamos provar o sol

com que então acaba

com que então acaba aqui

mas recomeça em breve

assim que acordarmos
vamos provar a canela
vamos provar o sol
e depois vão-nos perguntar
por onde é que andámos
e nós vamos desatar a correr pelas ruelas
como aqueles dois miúdos da aldeia de pescadores
que chegam vindos da praia
ao pôr-do-sol das nove
vamos desatar a correr pelas ruelas
e vamos dizer-lhes
que perguntem ao vento
que perguntem às nuvens já rubras
que a nós
não nos apanham
que é tão fácil intuir pelo impalpável
como pelas nossas caras
e não vão perceber nada
como poderiam perceber
se nunca estiveram de veias enlaçadas
uns aos outros
pouco importa
vamos pelas ruelas
ninguém nos descobrirá
vai pela esquerda
eu vou pela direita
encontramo-nos pela calada da noite
se não hoje
amanhã
ou noutro dia qualquer
entre o vento e as nuvens


agosto 2018


 Fotografia: joão coles

Fotografia: joão coles