CONDECONDERAÇÕES POST MORTEM

Quando eu morrer voltarei para ir buscar

as jóias e toda a tralha com a marca Sophia:

o saquinho de pano, o marcador de livro,

o cartaz, o panfleto, o livro de bolso, o

livro de tijolo, o colar, o chapéu de palha

e o lenço bordado com musa musa musa.

 

Esta é a madrugada que eu esperava,

o pó e a azia está, finalmente, na rua e a

multidão, sonâmbula, passa e só pia, só pia.

 

Quero-me longe dessa quimera, pois

tudo é, agora, impuro, profano e sujo.


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Giovanni Bellini - “O êxtase de S. Francisco”, c. 1480 (pormenor)



Naturezas mortas

tradução de Tatiana Faia

Na sala das naturezas mortas lembrei-me;
quando cortas o cacho da vinha
a morte chega à uva
natureza morta e silenciosa
de frutos colhidos de flores desenraízadas
em vasos de cristal
escamas de peixes que perderam o brilho

No Outono as páginas
do calendário caem
uma romã rasga a tela
abre-se em fenda - os arilos inundam o chão
o vermelho é varrido pelos sapatos
dos visitantes
Esquecemo-nos de que as manchas de romã
não desaparecem
como beterrabas e outras coisas indeléveis
das naturezas mortas


Versões grega e inglesa:

Νεκρές φύσεις

 

Στην αίθουσα με τις νεκρές φύσεις θυμήθηκα

όταν κόβεις από το αμπέλι το τσαμπί

έρχεται ο θάνατος του σταφυλιού

Ζωή ασάλευτη και σιωπηρή

Κομμένων καρπών ξεριζωμένων ανθέων

σε κρυστάλλινα δοχεία

Λέπια ψαριών που έχασαν τη γυαλάδα τους

 

Το φθινόπωρο κάνει τα φύλλα

του ημερολογίου και πέφτουν

Ένα ρόδι ξεκολλά από τον καμβά

Σπάζει σπυριά ξεχειλίζουν

στο πάτωμα το κόκκινο παρασύρεται

από τα παπούτσια των επισκεπτών

Ξεχάσαμε πως το ρόδι άμα βάψει

δεν ξεβάφει

όπως τα παντζάρια και άλλα

ανεξίτηλα των νεκρών φύσεων

 

Still lives

 

In the room of still lifes I remembered;

when you cut the cluster from the vineyard

the death of the grape comes

still life and silent 

of cut fruits of flowers uprooted 

in crystal vases 

fish scales that lost their sheen

 

In autumn the pages of

the calendar fall down 

A pomegranate tears off the canvas

It cracks open- its arils overflow 

the floor the red is swept along 

by the shoes of visitors 

We forgot that the pomegranate

stains do not fade 

like beetroots and other 

indelibles of still lifes 

ANDRÓMEDA e outros poemas

ANDRÓMEDA

 

Ajude-nos a salvar

Melania Trump!

Cosido o seu braço

em arame branco

à pele rugosa do Kraken

pouco pode dizer.

O seu sonho é a liberdade.

Assine o abaixo-assinado

e salvemos juntos

Melania Trump.

 

Enquanto isto Perseu ranhoso

uma espécie de Clooney num

filme dos Coen discute com Ares

a importância dos guarda-sóis

deitado numa espreguiçadeira

“São a indiferença dos homens”.

 

 Para Ares Alexandrino tanto se

lhe dá haver guarda-sol ou não.

Uma vez em Myconos tudo o que

quer são umas grossas mãos

umas que saibam esfregar o

protetor solar nas costas.

 

Por favor assinem o abaixo-

-assinado aqui em baixo

____________________________

Para que tudo fique na mesma.

 

Enquanto o Kraken não estiver à

nossa porta o Mal não existe.



ESPARGUETE




and Nat “King” Cole is telling me I’m unforgettable,

Which i aprecciate, although i know full well that

I will be forgotten”

- Ron Padgett

 

Levantou-se da cadeira e escrevendo

no quadro o trabalho de casa

“da página 10 até à página 1943”

disse muito suavemente

no seu tom de sempre

de morto-vivo

“Porque é que há palavras que

aparecem assim do nada?

Ao mesmo tempo o colega do lado

franzindo a sobrancelha perguntava-me

“é 1943 ou 1948?”

 

Entre as duas perguntas

imaginava-me a descalçar as minhas

novas All Star no tampo superior da

Ponte D. Luís e inevitavelmente a saltar!

 

Esparguete, sim! Se lá existe é porque

é um dos alicerces de toda a Ponte.

 

Já viram que coisa feia plantaram agora na

nossa nobre cidade? Dois pisos para quê?



ÁGOAS ETERNAS

 

a Fernando Pessoa

 

agora a

ágoa reporta-se à

doçura de outrora a

ágoa da ternura que

levou na hora certa toda

a amargura.

lavada mágoa a mágoa

a fria agrura

regressou

uma e outra vez

sem que se fechasse a porta.

 

agora

regresso à ágoa

da ágora para lavar-me

a memória

e o corpo futuro que

me agoira.

 

lava-me ágoa de

agora!

leva-me a dor de

outrora e com ela

a fiança do meu fim.



*ágoa - grafia de Pessoa

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Tamara De Lempicka - “Andrómeda”, 1927/28. (Pormenor)















“The Bell Tolls For No One”

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A esta hora os dedos cheiram a alho, os bifes estão a marinar,
Enquanto isso pego em mais um conto de Bukowski, porque é Novembro,
O segundo amor tinha-o deixado e passa um fim de tarde com
A sua amiga Vicki, vão até ao The Hollywood Cemetery
E às tantas ela diz “we should fuck back here”, estranhamente ele recusa,
Contudo beija-a longamente entre o silêncio dos mortos,
Também eu tinha deixado um dos meus amores longe naquele
Início de primavera, quando te beijei no cemitério da terra,
E entrei pela primeira vez no teu corpo violento,
Havia poucos dias tinhas fodido um amigo meu no seu carro,
Depois de regressarmos os três de uma noite nos copos
E me teres dito numa mensagem que me querias a mim,
Ele disse-me que gostavas de levar no cu, eu gostava de calças brancas,
E lembro-me de te ver pela primeira vez através das janelas partidas
Da minha casa de infância, com a tua prima, sempre tiveste uma beleza silenciosa,
Não demoro em amanhar os bifes, acabo o conto, acabo o poema,
E é por isto que gosto de Bukowski, não deixa de com a sua perdição
Me trazer o doce gosto derrotado do que estas mãos com cheiro a alho
Uma vez tocaram, para nunca mais.

Turku

26.10.2019