A leitura é a-histórica

 André Kertész, Paris, 1926

André Kertész, Paris, 1926

Há um conjunto de fotografias, espaçadas no tempo, de André Kertész que, como esta que pus em epígrafe, parecem parar o tempo. Creio que os fotógrafos vivem com o síndroma da amputação temporal, daí vermos inúmeras tentativas de inserir, das mais diversas maneiras, o movimento nas obras fotográficas. Mas neste caso, e na série de clichés do autor húngaro dedicados à leitura, sente-se uma libertação dessa quase obsessão, sem pruridos deixa-se, ou faz-se, parar o tempo para que o leitor sobressaia no seu rito de atenção solitária. 

Claro que o que vemos aqui resulta da magnífica composição de Kertész, mas isto só acontece porque a leitura (que exige a presença de elementos orgânicos normalmente frenéticos – seres humanos) pode desligar-se da história, do tempo e do espaço. A leitura é porventura o único comportamento terreno que pode indiciar o que seria um reino de deuses contemplativos, auto-contemplativos. 

O karma branco

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Ambrósio curava-se, havia mais de um milénio, de desgosto da alma, de cratera aberta pelo amor, pela aniquilação do amor às mãos de louca senhora, quando consigo essa mesma louca senhora se cruzou. À custa de intermináveis sonhos e rememorações mantidos vivos, os sentimentos que por ela nutria acudiram-lhe em simultâneo à boca, e por essa razão regurgitou e tombou, desmaiadíssimo, para o lado. Acudido por transeuntes versados na aplicação de palmadas em rosto desfalecido, Ambrósio safou-se de segunda morte causada por furo no peito, reergueu-se das trevas e, vexado, zonzo, cumprimentou a mulher que lhe partira o coração, soprou algo tolo como parabéns por te teres livrado de mim, ou parabéns por teres encontrado nesse gordo feio o amor que comigo não tinhas, ou parabéns por ainda me afogares em lágrimas como no dia em que fugiste. Nisto, o gordo feio, que comunicava com o mundo por via de zurros, zurrou, quiçá manifestando indignação – não se encontrava presente no evento qualquer intérprete de zurros -, e logo a senhora lhe espetou cenoura entre a dentadura, acto que, para surpresa geral, inclusive do zurrador, contribuiu para harmonizar-lhe as ideias. Ambrósio virou-lhes as costas. Por muito que desejasse ou amasse aquela mulher, nada voltaria a ser como fora, ou como imaginara que poderia ter sido, o passado existia porque ele próprio o mantinha aceso, a arder como uma fogueira, mas o passado era essa coisa invisível, uma energia de fogo que lhe consumia o pensamento, que lhe bloqueava o acesso a amigos, a outras mulheres, o passado era Ambrósio escavacado, anti-social, sonâmbulo, patético. “Amo-te sem saber como deixar de te amar”, despediu-se Ambrósio, sem olhar para trás, e caminhou, primeiro lentamente, à espera de ouvir alguma resposta desse irrecuperável passado, depois a ritmo mais acelerado, acatando o silêncio e o desprezo como formas de retribuição,  de não ser amado. Sem se aperceber de que a mulher o perseguia à distância, Ambrósio andava de cabeça pesada, prometia olvidar, virar a página, não perder mais noites de sono a alimentar fantasias, rasgar a imagem da louca, arrancá-la das profundezas do seu ser. Uma mão, a mão dela, pousou-lhe no ombro ao enfiar a chave na porta do prédio, e ele, esgotado, não encontrou palavras que acompanhassem os seus confusos sentimentos, que incluíam raiva, dor, repulsa, saudade, melancolia e desejo. “O que mudaria se te dissesse que continuas a ser o homem da minha vida?”, perguntou-lhe ela, despida de camuflagens, com aqueles lábios vermelhos prontos a engolir as estrelas, com aqueles olhos pretos como a noite mais escura. “O que se alteraria entre nós se te revelasse que nenhuma destas inutilidades com quem durmo e convivo contribuiu para te esquecer?”, voltou ela a perguntar, como se estivesse pronta para não obter resposta de indivíduo habituado mais a sentir do que a agir. Pela primeira vez em muito tempo, Ambrósio tocou na face da mulher, sentiu-lhe o cheiro com as narinas encostadas ao cabelo, deu-lhe a mão e afirmou que mudaria tudo, e ela beijou-o, e nesse momento o gordo feio explodiu num fogo de artifício que maravilhou a população.

 

 

 

Exijo que me tratem pelo nome!

 

Há quem me saúde por “sôtor”.

Há quem me saúde por “sôtor” e incline ligeiramente a cabeça.

Há quem me saúde por “sôtor”, incline ligeiramente a cabeça e coloque a mão no chapéu fazendo menção de o retirar.

Há quem me saúde por “sôtor”, incline ligeiramente a cabeça, coloque a mão no chapéu (e mais do que fazer menção de o retirar) retira-o mesmo.

Há quem me saúde por “sôtor”, incline ligeiramente a cabeça, coloque a mão no chapéu retirando-o e executando todo este malabarismo de honrarias enquanto conduz uma bicicleta.

E ainda há quem ao ver-me aproximar pela mesma calçada prefere, (talvez com o receio de conspurcar a minha passagem), prefere - dizia eu - desviar-se para o meio da estrada. Regressará dezenas depois à segurança do passeio.

TOC, Déficit de atenção, Filhas do espelho

TOC

Se não encontra
De imediato
O lápis e o papel 

Se com seus dedos finos
Derrama café no tapete
Já está dado o tom

Do poema?


Déficit de atenção

Há marceneiros que
Abandonam seus projetos no meio da sala
Batem muito com o mindinho nos móveis

Ligam perguntando por eles
Que não sabem o que dizer
Também não entendem nada do que os outros falam

Costumam dominar muito bem
A arte de manusear copos 

Aceitam a vida tranquila:
Não entender o que os outros dizem
Tropeçar nas dívidas
Possuir os hematomas


Filhas do espelho

Quando as crianças descobrem
Que de uma concha sai o barulho do mar
Em frente ao mesmo
Surpreendem-se

Crescem e atravessam espelhos
Cogitam o azar
Algumas doam livros
Outras perdem anéis e brincos

Encontram sozinhas o caminho de casa 

Sobreviventes
Distanciam-se pelo modo com que riem
Do desastre causado pelo corte
Com alguns lutam
Com outros deitam

Todas as paredes que já deram de cara
Guardam o segredo
Algumas serão amadas
Muito amadas
Nas fotografias

Para as que se flagelam com frequência
Talvez o controle seja algo sutil
Como uma navalha

5 poemas de Lucas Trindade da Silva

DESTOA
 
Destoa
em beiramento de falésia
um sorriso estático
esquálido e ridículo
como um tronco assanhado
se fazendo mangueira
neste setembro cerrado
agreste e vazio

A sombra ausente da galhada seca
faz lembrar essa vida
sem copa
de folha e de fruto
sem cópula
mansa nos carinhos em brisa da flor

É um bravio sem vingança
um bravio só ele
esse marrom seco
essa grama que arranha a planta
do pé
e do juízo

Me esforço em
agreste ser
tanto quanto
mas sinto um eco de mar
Um eco de mar molha o barro
e faz nascer
ipê

Vejo esse amarelo de pétalas
esse querer de horizonte
no mar que volta
em mim


enveredar-se
na ausência
das veredas

retraçar trilhas
sem a margem
oscilante
dos teus ditos

bússola

para assim
desertar
dos desertos
e
destrinchar
as trincheiras
do impensado 

ver
sereno

sete
palmos
abaixo
das nuvens

sete
dias
traçados
no tronco

do tempo
sente

a eternidade
do orvalho
que o carrega
desperto
até o jardim


no princípio era o corpo
e já para o corpo algum tipo de lei
contra a qual lutar
e já para o corpo
a espessura dos vales
a escuridão das matas
e a viva morbidez do olho

e já para o corpo
um desejo que se faz na renúncia
e já para o corpo
                um fogo
                consciência das cinzas


a Bernardo Soares


Toda rede é um pedaço de útero
e nela joga-se a própria sorte

Todo poente um lampejo de morte
e um portal do dessabido
entretido na quimera de um negativo-menos-que-nada
onde reina a coroa de lata

Transpasso a chuva como a retina do mundo
e acesso o brilho das coisas invertidas
tidas como falsas opacidade e engano

Mas é o nariz que fornece
o intelecto inodoro do real
e a nos mostrar o desvivido de tudo


real é tudo aquilo que (des)percebe em si uma fissura
mais que a tangibilidade da criatura
menos que a perfurabilidade da lâmina
a idade do real é o tempo da chama
da lisura do ar rasurado em oceano

sei do devaneio como um meio para o não dizível
por isso te digo
da altura alcançada pelo meu silêncio
que a doçura do abraço dorme em tudo que é capaz de repulsa
e que a nostalgia da terra sonha num leito feito de pedra vidro e aço