O TOURO ALEGRE NA ARENA DE CÉSAR

“em pago de sofrer tantas durezas

provai, senhora, em mim vossas cruezas”

                                         Camões

 

Todos em surdina avistavam o Touro, o esquecido,

O destemido Touro, exibindo o velho dorso na pele

Usada da escrita. Alegremente espera o espeto!

Rasgo a pele até ao fio mínimo, onde a vã e seca -

A mioleira - se esgota lentamente. A liberdade

Do outro, daquele que não tem voz, pede, não

A gaivota parva que esvoaça, mas a raiva dos que

Sabem amar todo e qualquer corpo Vivo.

Manet - “O Toureiro morto”, C. 1864-65.

16.11.18

Memórias de um congresso


I

Bisbilhoteiros académicos,
sanguessugas de mártires,
eruditos exibicionistas,
cardume de piranhas.

II

Os vermes ocupam o palco.
O que veio de Princeton
fala, desconexo.
Na sua fábula esquizofrénica,
nada disse,
apenas o ditirambo ao vetusto império.
O lunático coroou os reis do pó,
enquanto o fresco odor a sangue americano
invadia os corredores e as aulas.

III

Simultaneamente,
fartos de fobia,
os vermes comiam fobia,
almoçavam fobia,
jantavam fobia.
Depois regurgitavam nos palanques
com idónea máscara:
cândidos, inocentes pombos,
falaram sobre o incompreendido,
sobre os raros, sobre aqueles enfermos que a destempo morreram,
sobre o fazedor a quem ninguém cuidou das tristes, doces mãos.
Os painelistas, com garras húmidas de sangue,
afundaram suas lanças bakhtinianas,
seus bisturis estruturalistas.
Repetiram como papagaios, entre aspas, a linguagem de outros,
que por sua vez era a de outros.
Note-se que no congresso sobre os criadores,
os criadores não são convidados,
nem bem-vindos.
São pretexto para o negócio
que alimenta os sapatos dos sábios. 

IV

Sempre,
no entanto,
se encontram
ilustres excepções.
Os que por entre o ruído amam o verso e o parágrafo
e reanimam o morto redivivo com roupas de domingo,
e o beijam,
e com ele bebem,
e seu candor escutam,
e com uma piada o fazem rir,
e lhe afagam o cabelo a dar pelos ombros,
e lhe secam uma lágrima.
Logo o abraçam
e guardam no livro,
para que prossiga a vida quotidiana,
entre palavras.


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Luis Marcelino Gómez é escritor nascido em Cuba, com várias obras de contos e de poesia publicados. É há vários anos professor na Universidade da Carolina do Norte – Chapel Hill. Edita a revista Aguas del Pozo.

O poema é retirado do livro Bajo los arces.

 

Tradução do espanhol de Paulo Rodrigues Ferreira

Comizi d'Amore de Pier Paolo Pasolini

1965 foi o ano da estreia do documentário Comizi d’Amore de Pier Paolo Pasolini. A ideia de Pasolini era bastante simples: ir com um microfone, pela Itália fora, a perguntar às pessoas, de todos os quadrantes sociais, com mais ou menos educação, jovens e velhas, como viam elas a sexualidade, o casamento, a homossexualidade, as diferenças entre gerações no que à sexualidade se refere. Porquê ver esta documentário de Pasolini em 2018? Porque nos faz pensar no que mudou e no que se mantém actual e porque é uma espécie de fresco da humanidade. Há uma primeira cena em que Pasolini pergunta a um grupo de crianças de onde chegam os bebés que contém das sequências mais hilariantes que alguma vez vi num documentário. Há um pai de família e um jovem que se pegam sobre o significado social do casamento e as prioridades que este involve. Moravia e Musatti fazem o papel de comentadores (espécie de consciências socráticas, de resto) para as conclusões a que Pasolini tenta chegar. Há um longo monólogo de Moravia, acerca do debate, então vigente em Itália, de a homossexualidade ser ou não uma aberração, a que Moravia responde com qualquer coisa como: o medo do desconhecido, a ignorância, a nossa própria infelicidade levam-nos a julgar que podemos tentar oprimir os outros, reduzindo-os aos nossos julgamentos mais limitados e essa é a aberração. Filmado em 1965, disponível por completo no YouTube (ver abaixo), Comizi d’Amore continua a ser um documentário um pouco desconhecido na filmografia de Pasolini, mas uma das alegrias do género. Há espaço para rir, chorar, e muita candura pelo meio. Fica a nota. Boa semana.



HABITAR NA PARTITURA

[Einziger, ewiger, allgegenwärtiger,

unsichtbarer und unvorstellbarer Gott]

 

                                                         “sobre a pele o tropel”

                                                                   Luiza Neto Jorge

 

                                                 Poesenho para um filho de

                                               Calíope: Pedro Braga Falcão

        

         A

 

Entre ilhas há o som de pequenos e amoráveis

pássaros. Não falo de Messiaen!

Seres num ninho oceânico, o ovo primitivo

do dó e do ré, algures entre vagas. Não falo de Debussy!

No imenso da divisão, diferença, há aquilo

que não se pode registar.

E se for registado, não será lido.

Na linha clara do dia veremos

o ponto B e o ponto A na linha constantemente

inter

rompida. Não

falo de Schoenberg!

 

Dita a leitura indecifrável da partitura,

a dissolução da sint

axe,

da palavra, para que

o som escrito

seja redito noutra forma

ainda por ouvir.

 

A página (de palavras, pontos, pequenas vírgulas,

areias, flechas e setas, chuva e poças de

lama infinita)

é

todo um universo a que este pequeno

poema [não] pode aspirar. Fragmento inflexível de

chumbo.

 

Partida a batuta, esmagada pelo peso do martelo,

entre palavras antipoéticas,

eu faço,

eu digo:

no espaço em mim há essas folhas

onde o tempo não tem

nem começo nem fim. Cobracisne.

 

Que sejam os olhos a habitar a

indecifrável partitura

escrita inteiramente

por este coração impuro.

 

                                    

                                   B

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Vítor Teves - folha 4, de 6, de “Das Goldne Kalb”, lado B do Poesenho “Habitar na Partitura” (Agosto-Novembro, 2018).