Ménage

 

Naldinho tava só a estrela-do-mar no chão, todo arreganhado.

Afrouxaram o cinto dele num repente: tome abrir bermuda, folgar percatas, a zorba azul à mostra. A camisa pólo foi no bruto, rasgaram do cós à gola. Daí pra frente uma das mulheres, acima, posicionou as mãos nos peitos dele e danou-lhe conhecimento:

VUCO! VUCO!

VUCO! VUCO!

No movimento de sobe e desce, Naldinho era só um saco de estopa, dava nem um pio. O bucho branco, mole que nem geléia de mocotó, não se aguentava na pressão. A boyzinha logo que cansou as articulações cedeu espaço pra outra. Mesmo embalo:

VUCO! VUCO!

VUCO! VUCO!

Foi no último movimento que Naldinho abriu os olhos, tossiu na pressa de saber onde tava: o coração voltara a tilintar lá por dentro. O povo que acompanhava a ocorrência aplaudiu as socorristas.

Severino Figueiredo edita a revista literária Gorfo e escreve no blog tristemascurto.blogspot.com / Contato: osevfig@gmail.com

Uma espécie de editorial

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por Cassandra Jordão e Victor Gonçalves

Teóricos marxistas decretaram o fim da arte do romance em meados da segunda década do século passado e passaram o resto do seu tempo livre a tentar recolher os cacos. Antes de todos os romancistas que vieram depois e provaram a conclusão errada, antes disso,  há àquela corrida até ao eléctrico algures na Baixa de Lisboa, dividida entre Carlos Eduardo da Maia e João da Ega em Os Maias, na qual, em jeito de epílogo cinematográfico, se declara que ambos tinham falhado a vida. Incesto e ambições literárias frustradas à parte, as implicações desta declaração para a história da literatura em português, para a obra do próprio Eça, são aprendidas de cor por estudantes de ensino secundário em Portugal e podem ser sumariamente citadas. Nesse momento, Eça mede, numa cena que ele sabe que faria para sempre parte de um museu afectivo de cenas maiores da literatura portuguesa, o hiato da desadequação entre a imensa promessa da sua geração, os seus sonhos de autor e a realidade. Ega e Carlos Eduardo então como arquétipos não só da sua geração, mas da literatura da sua geração. Sem grandes melancolias, depois disso Eça prossegue para se dedicar ao mesmo tipo de prazer culpado que entretiveram os seus heróis em França: o romance histórico, novelas em que personagens principais se dividem esquizofrenicamente entre um amor barroco ao enciclopedismo e à tecnologia e ao bucolismo, e a criar uma das personagens mais interessantes e inquietantes da história da literatura em português, esse Fradique Mendes que de algum modo olha para a frente, para a inquietude e para a mente colorida que encontraríamos mais tarde nos heterónimos de Pessoa.

            Tudo isto para dizer que o Caderno 5 da Enfermaria 6 é uma antologia dos textos que mais agradaram ao quinteto editorial da Enfermaria publicados no site em 2017. Que o objectivo deste caderno talvez seja agarrar e perder, e não lamentar perder, essa coisa fugidia implícita na longa corrida de personagens arquetípicas do romance português do século XIX: mais do que deixar uma imagem da literatura a acontecer, ou um cânone lusófono em formação (nunca teríamos a isso pretensão), ou gabarmo-nos de publicar o melhor poeta do nosso bairro, simplesmente queríamos deixar aqui um quadro vivo das coisas que aconteceram na Enfermaria 6 durante um ano, aberto para um impulso de olhar para a frente. Esta é uma recolha de ensaios, poemas, contos, notas, breves apontamentos. A sua função pode bem ser vista como a nossa tentativa de mapear os gestos de alguns autores que, generosamente, connosco, tentaram a sua corrida e tentaram registar o significado de determinados momentos, no seu peso histórico, filosófico, político, poético. No seu peso jogando contra eles ou a favor deles. A favor da beleza do quotidiano, contra o lado reles da burocrática rotina cívica. Enquanto blog, a Enfermaria 6 é actualizada quase diariamente, com textos sobre coisas que ferem e sobre coisas que nos fazem pulsar, de autores maioritariamente oriundos de Portugal e do Brasil. Acreditamos que muitos destes textos merecem um registo menos efémero do que o tempo entre uma actualização e outra do nosso blog. Deixamos aqui então esta nossa proposta de anuário. E comprometemo-nos a tentar voltar para o próximo ano.

Quanto a mim, Victor Gonçalves, acredito que outras teorias além da marxista, ou marxiana (espreito os puristas em cada esquina), quiserem enterrar o romance, ou pelo menos um romance que se estivesse borrifando para a reparação da sociedade, porque não será isso que em primeiro lugar lhe compete, apesar de todas as vagas realistas e neo-realistas. Houve uma onda quase mortífera de utilitarismo que varreu todos os modos de ser supérfluos, justamente esses que fizeram do ser humano algo mais do que um caracol (sem especismos). Mas enfim, somos animais de linguagem e, por isso,  insistimos em ligar palavras a palavras, frases a frases, parágrafos a parágrafos... continuamos, apesar dos pesados decretos legalistas e das diatribes das brigadas da seriedade, a escrever ficção. Poesia ou Prosa (e as entremeadas estilísticas), mais romanceada ou mais conceptualizada, experimentando vias de sentido que julgamos inéditas ou revisitando outras já constituídas. É o amor à palavra que alimenta quase diariamente o nosso Blog, e muitos são os que vivem nesta paixão (não se perca a ambivalência do termo), alimentando-a. Sem cerca de uma centena de escritores que nos doam os seus textos nada disto seria possível, a eles o nosso profundo agradecimento. É verdade que não estão todos presentes literalmente nesta antologia, mas fazem parte da constelação que mantém vivo o projecto.

Autômato 

em memória de alguém que não conheci

 

Oi liguei pra avisar que ninguém está prestando atenção Cuidado, a pátria é a da gentileza desatenta
oi você sumiu, Victor Heringer

 

A dor do peso do luto. A dor da mão refreada. A dor & o conforto da cegueira de se navegar em mares afins. Desencontrados. A árvore frutífera e o açude. A mãe tem nome - mãe. O nome tem peso. As metáforas da vida. A objetificação do toque. As possibilidades selecionadas. Tudo a pronta entrega. Teu amor. Tua flor. Teu deserto. 

Como é possível que o infinito caiba numa imagem? Mesmo que essa imagem seja do meu avô no auge dos seus 70 anos. Mesmo que seja um símbolo antigo. Um desenho rascunhado. Uma imersão fantástica. 

Nossa imagem geracional perdida numa grandiosidade intragável. Não como a fumaça do Fusca. Mas como a impossibilidade de sentir o segundo sol na ponta da língua. Espelho a limitar nossos movimentos. A poda, a seleção, a deriva. O teu beijo na tarde de sol em que o poeta morreu. Ou na noite em que o país afundou. E vem esse prazer à boca: fruta & textura, pele & sublimação. 

Euforia & desolação. É tanta luz no hemisfério. Tantas cabeças incandescentes. & usinas que sobram. É tanto braço sendo mecânico. A vida automática. O império analógico. 

Nosso gosto pela captura dos pássaros que nos impede de voar. Quero desgastar algum nome. É necessário autonomia para criar o hábito de outra existência & o exercício de outra estética. 

Uma vida que transpassa. A poesia entendida como força vital que eleva plantas. De repente, o horizonte existe e está próximo. 

De repente, um dia em que corro, e teus braços vêm. 

Carta-convite 2

 Two Greek Dancers, John Craxton, 1951

Two Greek Dancers, John Craxton, 1951

A Clara Crepaldi

Desta perdi-me a tentar encontrar a exposição que vim ver e antes tinha passado um longo tempo sentada no chão do imponente átrio de entrada atando os atacadores dos ténis, olhando com um pasmo bovino (que não se confunde com o epíteto de Homero para Hera) os turistas cirandando em redor da loja, do café, os grupos de adolescentes sentados nas escadas, que não sendo pagodeiros não ensaiam o seu batuque, sentam-se antes cansados no chão como eu, com os nós das gravatas do uniforme da escola mal desfeitos. Quando penso em cosmopolitismo, penso no átrio deste museu. Talvez uma parte do nosso trabalho seja colecionar momentos das nossas vidas em países cheios de contradição. Embora seja bem pretensioso isto, espero mesmo que sim, porque dentro do meu bolso tem um bilhete para ir ver a exposição do Rodin, aquela que explica porque é que ainda não consegui mostrar ao Tadeu os mármores do Partenon, e penso que devia trocar este bilhete por um bilhete de amigo permanente do museu, com opção de adquirir um passe gratuito por mais vinte libras, para te trazer aqui e vermos todas as exposições quando me vieres visitar. Há-de haver aqui de certeza algum quadro sobre a batalha de Waterloo, onde algum soldado há-de aparecer também de camisa aberta até umbigo, e nós concluiremos que em face de pintar algo assim, escrever uma tese é canja.

Pergunto-me se a esta hora o nevoeiro já se terá levantado sobre Salvador e imagino que as flores na minha macieira em Oxford tenham desabrochado um pouco mais. Clara, se tu vieres até ao fim do verão podes comer maçã do pé e podemos montar uma destilaria clandestina no barracão do jardim, ao lado das bicicletas para tentar fazer uma mistura que saiba um pouco a esse vinho da Grécia, retsina, que aqui eu nunca encontrei mas que nós bebemos não longe da biblioteca de Adriano em Atenas.

Clara, a coisa que se percebe logo, assim que se entra no amplo átrio do British Museum é a disciplina imponente, ampla, ordeira, com uma cascata de imponentes escadarias, que chega com um eco de um certo tom imperial, mas não sei porquê, a mim primeiro isto sempre me fez pensar numa descontrução da Acrópole, no facto de este átrio ser coberto, uma alusão à eterna chuva de Inglaterra, ao facto de que não dá para cantar ao sol entre as colunas, e não há neste átrio Cariátides, claro, mas a estátua equestre de algum dignitário romano que eu nunca senti curiosidade de verificar ao certo qual, pela cara suspeito que talvez Galba ou Balbo. Em Oxford, que não é longe de Londres, a fachada do Ashmolean é uma imitação menos intimidante das fachadas dos templos da Grécia, e tem até uma réplica da máscara do Agamémnon, que naquela tarde no Museu Nacional de Arqueologia em Atenas os turistas asiáticos não nos deixaram ver em paz.

Mas se tu me visitares antes do verão terminar em Londres, há numa destas salas do British Museum, para além de tudo o que o Lord Elgin saqueou na Acrópole (um hábito questionável, assiduamente praticado por países ditos de primeiro mundo), os quadros que John Craxton pintou em Creta e em Hidra e em Poros, de marinheiros gregos e paisagens com sol a pique e cabras, ainda que nada indique que Craxton tenha alguma vez subido os degraus de Thoriko para ter uma conversa sobre política, e não muito longe daqui, em Holborn, tem a Ship Tavern, onde não tem aquela cerveja boa do anão, que nós bebemos em Amsterdão, mas onde tu e eu podemos beber Camden Ale, antes de caminharmos de volta até Trafalgar Square, onde tem a estátua do Lord Nelson e eu tagarelarei sem parar sobre Emma Hamilton, amante de Nelson, enquanto a tua atenção errará na amplitude deste verão cinzento que, no entanto, não é como o de Amsterdão, e os leões de Trafalgar parecerão de repente um pouco menos autoritários, os ingleses não tinham imaginado, no regresso de Nelson de Nápoles, que uma mulher ao mesmo tempo tão bem-parecida e tão aparentemente apagada podia afinal ser uma desculpa para tanto tumulto na casa do mais lendário dos almirantes ingleses, e eu notarei que não dá para nadar na fonte, embora as águas também sejam muito azuis. Ou depois de entrarmos na National Gallery e termos discutido aquela mulher de pescoço desnudo pintada por Del Piombo, se o tempo não estiver mau, talvez um mergulho na fonte esteja em ordem. Clara, se não contigo, com quem?