Dois poemas de João Miguel Aragão

lamento estival

há pó e bafio nas paredes do  
desabitado café onde  
ao balcão
um homem rumina sobre o whisky
o modo de estar só 

só audíveis o entrechocar do gelo
o televisor junto ao tecto

é noite andada nesta terra recuada
do interior
viajo com os pais e sou parte  
para harmonia familiar numa insofrível partida  

de snooker
lá fora através do janelão
o limoeiro ao vento a lua cheia derramando
(uma tacada distraída, fatal) quintal
onde cabe Agosto inteiro

o instante vem semelhar contentamento
ou um sentimento complexo

mas dizem-me que perdi que sobre o curso dos dias  
nem mesmo aquele quintal em Serpa
permanece

 

rua dos castanheiros

quando apenas entrados no resto dos dias
se apagarem as cores mais vivas
que ao menos permaneçam as muitas manhãs

do verão contendo a vida inteira

como num levedado La Fontaine procedemos
à fontanal recolha de indícios e vestígios
a crista do monte, a chuva na onda

arrumamos
versos compomos poemas na aguarda do verão

porquanto sob o sol anémico de Dezembro
os olhos lembram ainda a bola de fogo na ramagem
recortada

recorremos ao princípio azul
que sobre tanto frio todavia
ascende


Nota de leitura (1) 

Catorze

A alma dum rapaz é naturalmente
fascista. Não se deixa levar
pelo brado da justiça. Conhece bem
as pedras e a força que as anima. 
Sabe a que distância um insulto fere bem. 
Não precisa de estudar o ADN, a lei
do mais feroz. Esmurra quem lhe foge, 
conjuga sempre os verbos no presente, 
acende numa sarça o cigarro inicial. 

José Miguel Silva
Vista para um Pátio seguido de Desordem
Relógio D’Água, 2003, p. 26. 

 

A minha relação com a poesia de José Miguel Silva não é d'agora. Alguns amigos sabem que Vista para um pátio seguido de Desordem foi para mim um livro decisivo na mudança da minha própria poética. Os mais próximos sabem que o considero o melhor poeta da sua geração (apesar de "geração" ser um termo perigoso). Não é segredo nenhum que admiro este género de manifestação poética, em detrimento de outra demasiado umbiguista mas com pretensão de universal, e que vai sobrevivendo à custa de melícias organizadas que atacam tudo o que lhes cheira a heterodoxia, ou "regresso ao real", como se a Poesia alguma vez tivesse sido ortodoxa, ou expulsa do "real", para assim ter de existir um regresso. Penso que este poema é universal. Todos nós tivemos catorze anos. Mas também é certo: há quem já nasce muito velho.

three man walk into a dream

p/ ricardo domeneck

caro poeta, 

three men walk into a dream1 (não, isso não é uma piada!) e nós os assistimos: de nomes os três: capitão coronel e suj. desc. e caminham até o pé duma árvore (enquanto nós os assistimos) o capitão senta numa pedra o suj. desc. em pé dá as costas ao coronel e olha o nada (o suj. desc. aliás é uma espécie de contorno ele não tem voz não tem corpo não tem rosto é mais uma presença que deixamos sentir) o coronel também de pé saca uma arma !tudo isso vemos e não ouvimos! até que começam as seguintes falas: cor – “[inaudível]” cap – “[inaudível]” cor – “[inaudível]” cap – “ah, coronel, todos sabemos pra quem você trabalha” e pronto acabou acendem-se as luzes você olha pra mim e diz que a poesia é isso: “a fala do coronel representa precisamente aquilo que entendo por poesia, ou seja, não há nenhuma dificuldade, para nenhuma pessoa, em compreender o sentido da frase ‘ah, coronel, todos sabemos pra quem você trabalha’. todavia, pelo modo como é composta a estrutura do sonho não nos é dado saber a que se refere esse encadeamento de signos, em qual parte de qual discurso está inserida esta simples sentença. com isso, quero dizer que à poesia se assemelha precisamente pelo fato de optar por discurso e conferir a ele uma potencialidade de sentidos tal que nos permite inferir, porém nunca precisar, quem é o empregador do coronel. i.e., com isso, o sentido pleno da frase não possui outro pertencimento que não aquele do sonho. é preciso ser absolutamente contemporâneo, todavia, e perceber que essa forma do sonho não uma poética possível mais (você é pós-utópico? se o é, você é também trans-histórico? que dia é hoje no seu poema?). digo tão somente sonho em condição de símile, matéria da qual me aproveito para mostrar que linguagem, seja qual ela, nunca é compreendida em sua totalidade e todo discurso, seja qual ele, mantém um estreito laço com a insuficiência – tanto política quanto poética – da expressão. graças a deus tudo é mistério (cf. rosa 1937 apud 2014 apud 2016). portanto, para encerrar a questão, quero apenas ressaltar que o que houve aqui, com essa frase, foi a instauração de um mundo – um mundo lançado no mundo –, uma brecha lançada, e a nós fica cabendo apenas duas coisas: 1) interpretar hermeneuticamente essa promessa do capitão/poeta através de uma contrapromessa sem fim que funda um sentido no vago e 2) incorporar esse empregador-obra (ainda desconhecido, pois fragmentário) ao nosso próprio corpo, assumindo o lugar do próprio capitão (à beira da morte?), entregando nosso corpo ao risco desse desconhecido. a busca por um sentido pleno é precisamente referida na presença do suj. desc., ou seja, como algo que nos vira as costas, que possui apenas uma forma metafísica, uma presença alheia ao acontecimento e, sobretudo, inalcançável” assim me disse embora voz alguma atestasse que alguém sobre meu sonho a outro alguém noturno e miserável em colóquio se estava dirigindo

*


Este texto faz parte do livro de estreia do autor, Ratzara.

Quatro poemas das horas vagas

1.

Agora
a esta hora
sinto

a orfandade
duma guerra
perdida

Nada resta do dia
que resgate
desta anacrónica

melancolia —
tal a canga
sentida

E nem
o ronronar
do gato salva

esta "porra triste":
em tudo
ver absurdos

sem nunca
ter dado
para existencialista

 

2.

Durante
algum tempo

procuraste
uma espécie

de sossego
que trouxesse

paz
Procuraste

e desististe
Concluíste

que a paz
é um fim

e não um
caminho

E tu preferes
caminhar

 

3.

O sino da igreja
lembra que o tempo
não espera por
ninguém

O gato
à janela sabe
as vidas
que na verdade
tem

E este poema
acaba aqui
e não acaba
bem 

 

4.

Foi est
país que nos
calhou

à beira
mal plantado:
terra de uvas

onde
só sobra

bagaço

Pausa para sexo ou mais um teste falhado à maturidade racional

Fotografia do jornal Libération

Fotografia do jornal Libération

Há uns dias, um político Sueco propôs uma pausa de uma hora no trabalho para sexo (os objectivos são aumentar a natalidade e contribuir para o bem-estar da população, o jornal Libération explica, mas também o Le Monde, recepção jornalística francesa de “referência”). No início, pareceu-me mais um delírio progressista (este termo precisa de atenção crítica), desses que quase ninguém leva a sério mas que fazem a fortuna dos sítios de notícias exóticas, emerge mais um fait-divers na realidade, como uma pequena irrupção de sem-sentido visando, sem convicção, mudar alguma coisa para que tudo fique exactamente na mesma.

Contudo, deixem-me envolver esta proposta com linhas de racionalidade, querendo resgatá-la da irrelevância em que caiu pouco depois dos risos iniciais na taberna e sorrisos na pausa para café de trabalhadores sensatos e empenhados. Houve também quem mantivesse o siso intacto e achasse novamente, comprovando uma suspeição herdada, que o mundo não tem remissão. Aconselho estes guardiões da inteligência lógica e dos valores morais abraâmicos a abandonarem prontamente a leitura do texto, a Webesfera está cheia de coisas graves, não percam o vosso precioso tempo com ligeirezas.

Vou então, para os que ficaram, cruzar a notícia sueca com um artigo (íntegro, apesar de tudo), já com alguns meses, do El País: “Assí cambia su cuerpo cuando deja de practicar sexo”. Nele, Kristin Suleng convoca vários estudos científicos para mostrar como o abandono da prática sexual nos fragiliza. Vamos então aos factos (ou ao que se aproxima disso), de seguida, quase automaticamente, veremos que o político sueco não é, afinal, um louco ou um carente de projecção mediática. Concluirei que quase 80 anos depois da morte de Freud, a sexualidade continua a ser mais mitificada do que analisada (abrindo as portas ao obsceno, ao pornográfico ou ao paródico, percepções toldadas pelos preconceitos sobre o corpo sexuado, capazes de uma autoridade implacável, exercida numa espécie de novilíngua dedicada à sexualidade, dificultando toda a respiração inconformista).

1- O artigo do El País citado acima é um modelo de bom jornalismo, quase todas as afirmações contêm uma hiperligação que conduz o leitor até à entrada do estudo que as sustenta, é verdade que há pouco contraditório, mas tendo em conta a actual tabloidização da informação, devemos felicitar estas bolsas de qualidade. O texto revela que há três domínios onde a actividade sexual influi positivamente: a cardiovascular, a neurológica e a do sistema imunitário. Daqui não resulta imediatamente, tem o cuidado de realçar o autor, que a abstinência (nunca havendo uma anulação plena da sexualidade, entende-se esta como a falta de práticas sexuais orientadas para o orgasmo, apesar do desejo de as ter, trata-se sempre aqui de abstinência involuntária) tenha consequências negativas para o organismo, dos benefícios da prática (porventura sobrevalorizados) não se segue que haja prejuízos na ausência dela. Bom, mas parece consensual que o sexo é benigno para a tensão arterial, espoleta ou acelera a produção de dopamina e serotonina e, devido ao contacto físico, fortalece o sistema imunitário. Além disso, também afecta positivamente a autoestima. A isto junta-se a diminuição da agressividade, segundo um estudo longo e vasto, “as sociedades mais agressivas são as mais abstinentes ou reprimidas.” Como remédio caseiro, podemos recuperar um dos soporíferos mais antigos ao decidir enrolarmo-nos na cama em vez de vermos televisão ou respondermos a e-mails. Há ainda um trabalho académico que relaciona a pobreza sexual com a diminuição da inteligência, visto que o sexo incentiva a neurogénese, sobretudo o desenvolvimento celular no hipocampo. Finalmente, uma vagina pouco utilizada (para o sexo) cai em hipotonia e se o homem deixar de ejacular aumenta o risco de cancro da próstata, além de promover a disfunção eréctil.

2- Depois deste vasto leque de benefícios comprovados da actividade sexual, e do seu contrário, quem se atreve ainda a criticar o político Sueco? Se é um caso de saúde pública (creio que podemos colocar a questão nestes termos), então justifica-se, até por razões económicas, que a famigerada pausa seja considerada um imperativo legal que todos deveriam cumprir. Talvez surgissem alguns problemas de fiscalização (como verificar que a pausa era exactamente usada para esse fim?), de crítica social (apontando-se o dedo a quem não contribuísse para um bem-estar individual que, por acumulação, se alarga sempre ao geral), de discriminação das minorias assexuadas ou presas ao colete de forças religioso... Mas parece-me que tudo acabaria por entrar na rotina da população, sobretudo nos jovens ousados e robustos (talvez se pudesse isentar parcialmente os mais idosos da sistematicidade calendarizada). O resultado, virados os preconceitos ao avesso, seria mais bem-estar, individual e social, e aumento da natalidade (aqui compreendem-se as reservas dos ambientalistas).

3- Certo, parece tudo bastante interessante, mas, ao mesmo tempo, numa auto-contradição de voltagem média, incapaz de sair de um registo jocoso, mais apropriado às utopias alucinadas do que a uma via iluminada que se leve ao Parlamento para ser legislada. E isto quase somente porque continuamos a rodear de preconceitos ancestrais os órgãos e a embriaguez sexuais. Claro que os primeiros são discriminados devido à potência dionisíaca que parecem concentrar, mas ninguém se lembra de banir o cérebro ou o sistema endócrino das conversas honradas só porque eles também participam no jogo sexual. Isto quer dizer que também na sexualidade há uma economia do bode expiatório (pénis e vagina carregam com as culpas). Mas mais sério do que isto é a constatação de que continuamos cheios de tabus – sendo que neste caso, em antinomia, uma franja da população coloca aí o seu totem. Apesar da intensa sublimação (não no sentido freudiano) desses órgãos, e da tese de Michel Foucault sobre a Modernidade não cessar de falar, científica e vulgarmente, de sexualidade (revelação iconoclasta presente no primeiro volume da História da Sexualidade). A tese da potência libidinosa do Id, a quase constatação da importância decisiva da passagem fecunda dos estádios sexuais, os complexos de Édipo e de Electra... em resumo, toda a analítica sexual freudiana continua, um século depois, a ser esmagada por preconceitos, sobretudo religiosos. Em geral, um sexismo primário fia narrativas de posse e domínio enaltecendo um machismo básico. Por seu turno, o espectro religioso vislumbrou na sexualidade (esse extraordinário dispositivo filogenético mas também esse superior traço de civilidade emergente no amor-paixão) uma embriaguez extasiante que pode concorrer perigosamente com grande parte da cultura ascética, seria uma saída vital, a do sexo, contra uma saída mortífera, a evangélica. Venceu, pois, a noite das trevas, sem estrelas dançantes. Talvez por isso se gritasse ao megafone por todo o Maio 68 sexualmente activo que “fazer amor era uma forma, mais uma, de fazer a revolução”.