A solução para os fracos

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Peçonhento, manhoso e tantos outros piropos de cariz luminoso regurgitou Camilo aquando da apoteótica entrada pela microscópica porta da tasca de seu proscrito amigo Zacarias, o mais conceituado e consistente distribuidor de prazer sexual por entre o mulherio casado do município. Matilde, madame de respeito e virtude, caíra no engodo de requerer os préstimos de Zacarias, sem prestar atenção ao detalhe, para todos irrelevante menos para o marido, de ser casada com Camilo, dono de napoleónica figura, pelo menos em termos de calvície, volume da barriga e estatura. 

Não obstante os três pares de estalos, o divórcio e o processo em tribunal exigindo exílio em África para a traidora e decapitação para o patifório amigo, a desonra viera para ocupar, quase por inteiro, o espaço mental de Camilo, o pobre de espírito, que da traição em diante daria em bêbedo de aguardente e fumador daqueles de acender o cigarro no cigarro acabado de chupar. Idas ao médico, recomendações de exercício, visitas a prostíbulos, miminhos sexuais da dona Rute, prostituta reformada para quem a tristeza dos outros se curava a partir de coito não remunerado. Nada removia o encornado do limbo. Camilo não esquecia, não perdoava o amigo Zacarias — já Matilde lhe sobressaltava menos a mente. Zacarias pedia perdão, quinhentas vezes de joelhos, de rojo, murmurando por favor, meu amigo, olvida meu pecado. Não, exclamava Camilo, às vezes encolerizado, outras vezes, muito por causa da bagaceira, mais pacificado. 

Camilo pedia punição terrena para o ex-amigo, mas o dia do julgamento final, da sentença máxima, do desterro, dos trabalhos forçados, da chacota pública, tardava como os milhões de dólares a entrarem na conta bancária do pobre. A justiça atingiria Zacarias no preciso dia em que traidor e traído se avistaram na tasca. Camilo sugava seu cigarro, ao mesmo tempo que com a língua raspava os restos de cera depositados no dedo mindinho, soprava adjetivação contra o inimigo, como se a palavra o fosse tombar ou enfraquecer, quando, quase do nada, um homem enegrecido, gigantesco, poderoso e medonho acariciou a nuca de Zacarias com um murro que lhe furou o osso e o matou logo ali. Eunuco, eis o nome desse bisonte de dois metros de altura que, também ele ferido na sua honra de marido, viera em busca do malandro para lhe entregar o poder da lei. Zacarias morto. Camilo vingado. A nossa história termina aqui, mas o suplício de Camilo estender-se-ia até ao túmulo: não há solução para os fracos. 

 

vamos provar o sol

com que então acaba

com que então acaba aqui

mas recomeça em breve

assim que acordarmos
vamos provar a canela
vamos provar o sol
e depois vão-nos perguntar
por onde é que andámos
e nós vamos desatar a correr pelas ruelas
como aqueles dois miúdos da aldeia de pescadores
que chegam vindos da praia
ao pôr-do-sol das nove
vamos desatar a correr pelas ruelas
e vamos-lhes dizer
que perguntem ao vento
que perguntem às nuvens já rubras
que a nós
não nos apanham
que é tão fácil intuir pelo impalpável
como pelas nossas caras
e não vão perceber nada
como poderiam perceber
se nunca estiveram de veias enlaçadas
uns aos outros
pouco importa
vamos pelas ruelas
ninguém nos descobrirá
vai pela esquerda
eu vou pela direita
encontramo-nos pela calada da noite
se não hoje
amanhã
ou noutro dia qualquer
entre o vento e as nuvens


agosto 2018


 Fotografia: joão coles

Fotografia: joão coles

Alguns sacos de água com seres que vieram da praia

(desenhos de Ana Abreu)

1.

 Está ali o mar, ninguém nos ensina
aprendemos  muito de repente
e muito devagar

Seguimos esquecidas instruções
recolher o que dá à praia
(assim se diz), o que fica
a morrer, entre a primeira
e a derradeira água

Vibrasse ainda num saco
de improvável transparência
e seria milagre (é o termo)
essa mesma e
remota ondulação

Um tudo nada mais tarde
o distraído fervor das etiquetas

 

 2.

O distraído fervor das etiquetas
destino sumário das coisas
suspensas e atadas

Nem sabemos se as hastes vivas
agitam o desespero
(flores da água) ou sequer
suspeitam de quanto jaz  
na rotação do mundo

Calaremos as ondas que batem
(assunto arrumado), são agora
trabalhos de inspiração e asfixia
deixar cegos os nós, as cataratas
como seixos que encham os olhos

Fosse esta memória
do mar a transparência

 

3.

 Do mar a transparência
que a água em si retém
recomeçada e turva

O que partiu revela
outras densidades
(memórias e antenas)
apura íntimas correntes
como se em tudo regressasse

Ou fica por colecções
de etiquetas e figuras
esperando matérias carcomidas
(da maresia os ossos pequeninos)
e haverá quem diga que

ninguém nos ensina
e está ali o mar

Fernando Machado Silva, Para um outro dia Lázaro

poesia


Enfermaria 6, Lisboa,
outubro de 2018, 88 pp.


Capa de Gustavo DominguesStudioPilha  


Posfácio de Carlos Alberto Machado

8€


 

“Na poesia que até hoje publicou, o Fernando Machado Silva tem aberto os seus caminhos, uns mais a bordejar, com a necessária distância, as suas próprias vivências: as relações familiares, os percursos sinuosos do amor, outros em busca do justo dizer poético, ou de modos de pensar, aproximando-se, hesitantemente, mas com intensidade, de uma poesia que conjuga todo o seu dizer lírico com os jogos de linguagem que fazem mundos. É esta, parece-me, uma das singularidades da poesia do FMS – mas este livro, em particular, pertence a um terreno ontológico do amor e da morte, onde tudo se joga (se diz).”

Carlos Alberto Machado (do Posfácio)

 

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Fernando Machado Silva

Lisboa, 1979. Andou por engenharia dos recursos geológicos, mas completou a licenciatura em estudos teatrais, variante profissional, concluiu um mestrado em literatura e poéticas comparadas e é doutorado em filosofia, variante filosofia contemporânea. Trabalhou como actor/performer, assistente de encenação, barista, escavador de ossos para uma antropóloga biológica, cronista/crítico, ghostwriter, professor numa escola de multimédia, lavador de pratos, ajudante de cozinha e cozinheiro. Vive actualmente na Alemanha, num ashram em Bad Meinberg, onde estuda e pratica yoga segundo o sistema integral de Sri Swami Shivananda. Publicou até hoje: Primeira viagem (2012, Orfeu – Livraria portuguesa e galega, Bruxelas), Passageiros clandestinos (2012, Companhia das Ilhas, Ilha do Pico), O coração estendido pela cidade (2017, Gato bravo, Lisboa), Um espelho para reproduzir as mutações da vida (antologia) (2018, Companhia das Ilhas, Ilha do Pico). Tem poemas e artigos publicados em revistas da especialidade em Portugal e no estrangeiro. Participou com um ensaio/capítulo na primeira edição de um volume dedicado à performance portuguesa (Intensified bodies from the performing arts in Portugal, 2017, Peter Lang, Berna, organização de Gustavo Vicente.


Epitáfio

quem te ama
(esquecer-te-á quem te amou)
vive noutro tempo

Otro día... (poemas sintéticos)

En 1919 José Juan Tablada publicó Un día… (poemas sintéticos)1 , una alabanza a la naturaleza compuesta de haikus y estampas circulares diseñadas por él mismo. Decidí reescribir sus poemas para imaginar un día distinto, casi un siglo después, en el que más que una oda, lo urgente es reflexionar sobre la inminencia de una catástrofe ecológica. También sustituí sus dibujos por las fotografías que se mandaron al espacio en el Disco de oro en 1977 (una de las pocas pruebas de la vida en la Tierra que sobrevivirá cuando hayamos desaparecido). Estas imágenes están intervenidas con acetona para emular los trazos originales Tablada y, al mismo tiempo, emborronar la memoria que contienen.

Impresión mecanográfica, fotografía y acetona
16 x 22.5 cm c/u (38)
2017