Acabado de chegar da gráfica


João Moita
Fome
poesia
 

edição revista e aumentada
prefácio de Tolentino Mendonça

[Ver página do livro]


Poucas vezes mais farei esta viagem. A erva cresce com o trigo, as flores despontam, as árvores segregam resina e dão sombra à terra ressequida. Os campos estão lavrados, o gado pasta ordeiramente, o rio segue amordaçado. Há pássaros invisíveis no horizonte e outros escondidos em ramos longínquos. Feras ocultas em recantos sombrios, a lentidão da seiva sob a descarnação do sol. O pó repousa nas covas abandonadas pelo vento ou soergue-se desamparado no topo das colinas, onde o tojo se inclina para os precipícios. Na povoação, desmoronam-se as pedras sob a cal, o sustento dos homens. Há frutos que se arredondam segundo geometrias bárbaras, apurando o gosto. E os insectos com a sua azáfama insone, divididos entre beleza e deslumbramento. E a areia dos caminhos, mais batida que o dorso de um cavalo, é a crina desta paisagem. Em breve deixarei de passar por aqui. Olho a íntima maturação dos campos e a solenidade dos estábulos. Vejo que tudo esteve sempre preparado.

Templo, Córregos, Banquete, Você me enche de areia, Futuro em fúria, Playground, Estadia

TEMPLO 


nunca intacto
repouso nesta superfície de cascalhos
sonhos aprendidos ao hálito da terra

lágrima primata incrustada na labareda
planície viva do princípio
tarde marmórea por onde encontro
suas coxas quentes
secretamente solares



CÓRREGOS


bota imersa na
flora do destino
brilho transatlântico
fincado em alma

auroras e cachos
moto infinita na neblina

dilúvio de nuances
improvisando verões

o jazz campestre na barraca da noite
desfigurava também o interior de nossos pulsos


BANQUETE


estirados sobre uvas e fogueiras
oferendados aos olhos do dragão
adormecidos em tambores e maços
devorados na miragem nupcial da ordem

as fábricas nas unhas crescem



VOCÊ ME ENCHE DE AREIA


gargalhada nua e seca
me atrevo na pulsação réptil
e a imobilidade da árvore fascina a fome inexata 

dois meses desfizeram meu herói amador agora vivo em conchas
pirâmides se entulham em meus pulmões
    sou um golpe cinza numa guerra sem mira entre vespas                                                                          
as lunetas estão sangrando juros
um atlas só de rostos me envolve feito âncora
sabor cru e indomável de vida afunda vida afunda vida afoga
     olho já sem filme
     osso já sem firme
retorcidas possibilidades evaporadas num aquário
    blues suspenso da extinção
     estiagem a dois resgatada em sua sede
     cessem os monstros assassinos páginas de números    
     hospícios hospitaleiros balas anestésicos         
                                                                                                                                                                                                    quero a euforia turva dos contrastes deslumbrantes
as ostensivas horas da tempestade feito whisky
numa sacada de primavera tingida em chagas


FUTURO EM FÚRIA


todos os eletrônicos sagrados ruíram com cócegas
têmporas lapidadas se derreteram em química miragem

viveram pólvoras por detalhes
retalho pelo retalho em amarga voz

semblante animal lívido próximo à porta
sonegávamos entreabertos as sirenes do teatro lógico

o dia mastigado no bolso anterior
cada entulho vespertino em sua espécie ávida
vapores e capacetes abandonados no esgoto

éramos dois esqueletos momentâneos do destino
numa carne viva e suntuosa
esperando esperança


PLAYGROUND


o que mais me relevava naquele
playground vazio
era o silêncio
igual ao meu

infância fantasia atravessada
merthiolates colos contrastes
amigos imaginários
todos eles filhos únicos

ensimesmado
pressentia sons de macondo

outras partes longas
indefinidas
longe do baile de minotauros


ESTADIA


sempre na sua casa
os vitrais se entrelaçam
as teias desnudam o tempo

as peles se dissolvem
meu alicerce mais valente
assiste o horário


fleumático 

e quando o amargo desce e não resta nada além da náusea? 
é a solidão que come as entranhas e dá enjoo. 
toda noite de terça tem esse sabor cáustico de furo
"você é muito pessimista", eles dizem
"você já leu Augusto Cury?", eles perguntam. 
"você precisa escrever coisas bonitas, dar conselhos, 
falar dos astros", eles dizem
ninguém precisa de um homem triste, sei disso, 
mas não consigo deixar a dor de lado
e caminhar com um sorriso idiota
como quem compra uma televisão a prazo  
nas Casas Bahia. 
pago o preço por existir na tangente
por lamber o submundo & a sujeira
como quem lambe um bife cru antes de fritar. 
o descaso, o esquecimento, o fracasso, 
as doenças, os excessos, as dívidas, 
sei disso, ninguém precisa de um homem triste, 
não sou funcional na sociedade do sucesso, 
não sou sequer prestativo, 
não sou absolutamente nada, 
escrevo poemas e aceito a tragédia dos nossos dias. 
ninguém precisa de um homem triste, 
eu preciso da minha tristeza, 
é com a minha miséria que faço esse verso.   


O poema "Fleumático" está incluído no livro "O Abismo é um Instante" (Editora Penalux), que será lançado no próximo sábado, dia 22 em São Paulo.
Mais informações na página do evento no facebook: https://www.facebook.com/events/721438141364470/


Revisão

O 1984 de George Orwell em processo de revisão

O 1984 de George Orwell em processo de revisão

Rever, reescrever um texto ad infinitum. Encontrar sempre mais um defeito, sendo às vezes, em boa verdade, só um jeito muito próprio de ser texto. Mas o revisor, autor-revisor, quer a perfeição, a exacta perfeição. Em vão, trata-se de um projecto assímptota, a aproximação preserva uma distância incomensurável (ia dizer “sagrada”) entre o que está escrito (que pode ser muito bom, até excelente, merecer louvores e tudo) e a perfeição. Trata-se, então, de buscá-la incessantemente e de nunca a encontrar (jogo infinito). Porque não existe? Não! Porque não se deixa capturar, está para lá do que perece e do que gera interpretações. Vive num plano que desconhecemos mas desejamos. Por capricho, às vezes, pretensiosismo outras, mas também por ímpeto sacrificial, de quem quer morrer o mais tarde possível para chegar à linha sintáctica exacta, encontrar as palavras certas para uma página inteira, compor a melodia fonética de um parágrafo digna dos primeiros aedos, em resumo: crescer em leveza. Philip Roth diz que deixou de escrever porque o processo de revisão é muito exigente, no seu caso demorava o dobro do tempo da escrita. Mas talvez possamos escrever só para podermos rever, custe o que custar. O esboço é a matéria a que nos atiramos para alimentarmos o nosso desejo de perfeição, partimos sempre de detritos verbais. Escrever não para comunicar (haverá coisa mais vulgar?), escrever para abrir o caminho da revisão, longo, angustiante e entusiasmante (como uma amante que parece não nos amar), em direcção à perfeição. Tudo isto porque, como diz Italo Calvino, “A mentira não está no discurso, está nas coisas.”