Sensible Soccer

em memória de Armando Moreira

1

o jogo não corria de feição ao Milan
que tinha
até aqui
limpado todas as equipas da competição
Papin
a debater-se com um surto de infecção existencial
teve de ser substituído a meio
da segunda parte
foi este o jogo
em que Van Basten bateu
o recorde mundial
de bolas ao poste
quarenta e duas
e no final levou para casa
um dos postes como prémio
e Grobbelaar
Bruce Grobbelaar
louvado seja o seu nome
fez milagres que chegassem
para duas santificações
uma apoteose
e um Ballon d’Or

mas as coisas iam piorar

já perto do final
Whelan
até então condenado a tarefas defensivas
rouba a bola no lado esquerdo do meio campo
indromina Donadoni com uma finta de corpo
sprinta pela ala acima como um homem
perseguido por uma tribo de canibais
e tenta um cruzamento desesperado
perante a aproximação de Tassotti

a bola desenha no ar uma banana tão perfeita
que deixou a defesa a salivar
e encontra a cabeça de Ian Rush
que não quis que Whelan fosse o único
a desafiar as leis da física
lançou-se do limiar da área
sobrevoou Baresi
e só parou no fundo da baliza de Rossi
juntamente com a bola

Milan 0     –     Liverpool 1
                        I. Rush 83’

 

2

temos o mesmo nome
não era porreiro se eu fizesse a música
do vosso próximo jogo?
terá dito Captain Sensible
vocês sabem
dos The Damned
a Jon Hare da Sensible Software
então não era?
e em quanto é que isso nos ficaria?

uma pint e não se fala mais nisso

bebeu-se a pint
apertos de mão
votos de solidariedade artística
e na mesma tarde apareceu a música
que acompanhava o ecrã de abertura
da primeira versão de Sensible Soccer
1992
uma obra prima
maculada apenas
pela inutilidade dos guarda-redes

como bom punk
Captain Sensible
vocês sabem
dos Punk Floyd
não acreditava em assinar contratos
por isso
nenhum contrato foi assinado

passados meses
toca o telefone
vocês estão a usar uma música
do Captain Sensible

vocês sabem
dos Dead Men Walking
no vosso jogo?
nós temos os direitos
para toda a música que ele fez
fará
ou pensar em fazer
e agradecíamos que nos pagassem
uma pipa de massa


a brincadeira custou £10 000

uma dura lição
comentou Hare mais tarde
recordando o episódio
depois disso tivemos de remover a música
deixou de ter significado para nós

 

3

ele guardava caixas de disquetes
cheias de repetições
passava horas
a analisar lances
frame por frame
nessa tarde mostrou-nos como era possível
marcar golos
do pontapé de saída[i]
as formas mais eficientes
de marcar de canto
e como as defender
o que vocês querem
é encher o meio campo
[ii]
não deixar espaço para construir
e usar os jogadores mais rápidos nas alas

mandamentos
que ainda hoje
faço por seguir

 

4

ao anoitecer
chegou uma mulher
jovem loira
inadequadamente elegante
no seu vestido azul
Armando
não íamos sair?


a família vivia longe
raramente estava reunida
e ele era encantador

foi assim que aquela mulher tão bela
acabou com um avental
sobre o vestido azul
e nós
jogámos
Sensible Soccer
até ao ano seguinte

 

5

os guarda-redes da versão original
eram os mais incompetentes
da história do futebol digital
um jogo que acaba 8-5
não é verdadeiramente um jogo de futebol

mas quão fiel precisa de ser uma caricatura?

tudo começou como uma piada

a ideia era transpor a leveza
da alegre carnificina de Cannon Fodder
para o belo jogo

os bonecos corriam a 50Km/h
saltavam 20m para cabecear a bola
e dando uma guinada depois do remate
era possível alterar consideravelmente
a trajectória da bola
perdemos a conta
aos joysticks
que isto nos custou

mas o número de equipas era soberbo
os planteis exactos
o detalhe táctico
nunca visto num jogo
e a imaginação da infância
complementava
a indeterminação dos pixels

comecei a ver futebol
à procura de vestígios
que legitimassem a caricatura
o amor pela imitação
antecedendo
o amor
pela coisa real
ainda hoje não estou certo
de que seja possível
amar
coisas reais
mas o meu amor por futebol
permanece inabalável

mais tarde em 92 saiu uma versão
com uma série de melhoramentos
passou a haver cartões
o árbitro aparecia no campo
mas de longe o mais importante
era os guarda-redes agora
conseguirem fazer uma defesa

foi esta a versão que jogámos naquela noite

 

6

a equipa italiana fez de tudo
para conseguir pelo menos o empate
nos minutos finais
bolas longas para um ataque reforçado
o coração como um comboio
quando o boneco
que acreditávamos possuir
o talento e força de Ruud Gullit
remata à entrada da área
mas Grobbelaar
          louvado seja
          ele e os programadores
          que consertaram os guarda-redes
garantiu a vitória
para a equipa de Liverpool

todos os presentes me aplaudiam
e era bem para lá
da minha hora de deitar

não sabia então
que tinha acabado de alcançar
demasiado cedo
o apogeu da minha carreira desportista

nem que essa noite
em que lhe ganhei um jogo
de Sensible Soccer
seria a última vez
que o víamos


[i] o truque era mandar um balão
de um sítio exacto do meio campo
usando o círculo central como referência
só com um pouco de efeito
de maneira a que a bola
acertasse no poste da baliza
e ficasse no interior da área
se o timing fosse o correcto
o avançado que deu o pontapé de partida
chegava a tempo de ganhar o ressalto
e marcar

[ii] a superioridade do 3-5-2
é ainda hoje consensual
entre os estudiosos


Charles Bukowski, «Pássaro azul»

tenho um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas sou demasiado forte para ele,
digo-lhe, fica aí dentro, não vou
deixar que ninguém
te veja.
tenho um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas despejo-lhe whiskey em cima e inalo
o fumo dos cigarros
e as prostitutas e os baristas
e os caixeiros das mercearias
não suspeitam sequer que
ele está
ali dentro.

tenho um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas sou demasiado forte para ele,
digo-lhe,
fica no teu lugar, queres dar cabo
de mim?
queres mandar pelos ares todo o meu
trabalho?
queres estourar com a venda do meu livro na
Europa?
tenho um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas sou muito mais esperto, só o deixo sair
à noite de vez em vez
enquanto toda a gente dorme.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso, não fiques
triste.
depois meto-o de volta,
mas põe-se a cantarolar um bocadinho
lá dentro, não o deixei propriamente
morrer
e nós dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e ele é tão gracioso ao ponto de
pôr um homem
a chorar, mas eu não
choro, tu
sim?


Bluebird

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?

Notas de segunda-feira: o fim-de-semana

Captura de ecrã 2017-09-16, às 12.28.38.png

Sou um cidadão atípico, às vezes parece que me construí a partir dos meus próprios actos, uma auto-construção cheia de erros e definindo vias de desenvolvimento inverosímeis. Apesar disso, sou um burocrata competente e abafei quase totalmente o lado temperamental que ninguém, na devida altura, domesticou. Assim, nunca soube bem o que significava o fim-de-semana, ou melhor, ignorei sempre as euforias dos dois dias que cortam, num armistício social e emocional, a série do labor, desse estar no mundo para trabalhar. Isto ou me ilustra como um workaholic inveterado ou um hedonista sem juízo. Em boa verdade, não sou nem uma coisa nem outra. Estou no limbo, sou um ser do “entre”, não tenho qualquer território determinado, nem geográfico, nem discursivo, nem vital. As minhas tautologias são dinâmicas, o meu solipsismo, embora íntegro, está cheio de exteriores, tenho um fogo interior que tanto me ilumina como me devora. O que faço mistura prazer e dever, trabalho e festa (mesmo quando festejo sozinho, a maior parte das vezes). Se escrevo fisiologicamente ao fim-de-semana é porque passei a semana a catalogar palavras e frases. O meu calendário é impecavelmente disforme, revelando-se sistematicamente como a-sociológico, talvez a-psicológico.

Hoje é segunda-feira, milhões de indivíduos foram freneticamente atirados para a rua, logo ao despontar da aurora – e não há nenhuma poesia nisto. Eu não fiz qualquer intervalo, vivo no eterno retorno. Mas sou abanado de todas as formas, sem piedade. Seres sonolentos prontos a explodir conduzem ao meu lado, julgam-nos adormecidos e inofensivos, mas eu sei que ao mínimo contratempo vão dilacerar alguém.

Antígona encontra Os Maias? As Pessoas do Drama de H. G. Cancela

As Pessoas do Drama.png

Há duas afirmações particularmente pertinentes para pensar sobre As Pessoas do Drama de H. G. Cancela. A primeira envolve dizer que o autor é sem dúvida um dos romancistas mais desafiantes a escrever literatura em português hoje, a segunda é que este romance é, em proporções diferentes, um estudo sobre a arte, o trauma e a ambivalência, e que o resultado destas características conjugadas não é tanto do âmbito da expiação quanto da violência que é exercida sobre as personagens e que passa para o leitor, em parte porque não há exactamente uma perspectiva ética que venha a emergir como produto da leitura e resolva as personagens de um ponto de vista moral (embora algumas sejam mais fáceis de ler do que outras). Nesse sentido, este romance é um pouco como as tragédias gregas a que o título parece aludir: uma exploração dos limites do humano.

Há, a meu ver, dois clássicos com que as As Pessoas do Drama dialoga sem que se apresente como releitura de nenhum. De alguma forma, é difícil ler o romance de H. G. Cancela sem pensar no outro romance sobre incesto da literatura portuguesa, Os Maias de Eça de Queirós. Por outro lado, há uma encenação da Antígona que se repete durante um longo período de tempo numa das partes centrais do romance e o elo com a tragédia de Sófocles é relevante (mas talvez não exactamente vital) para ler o romance. Se falamos de ecos da tradição, há ainda o facto de uma parte da acção se passar em Roma, e isto abre espaço para uma das reflexões mais interessantes que o romance propõe, acerca da natureza da ideia de herança cultural. A noção de herança cultural corre em paralelo com outra, mais oblíqua, a da hereditariedade dos traços e comportamentos que os filhos podem herdar dos pais.

A primeira parte do romance abre com uma longa sequência sobre um homem, o narrador (nunca nomeado), que evita abertamente quase todo o tipo de contacto social e constrói uma vedação em torno da sua propriedade. Pode haver aqui – ou não – um jogo com o mito do beau sauvage. Através das preocupações filosóficas que o estruturam, podíamos dizer que H. G. Cancela é um romancista que pertence à tradição de Vergílio Ferreira. Mas As Pessoas do Drama estilhaça toda e qualquer expectativa de uma re-encenação pacífica de referências culturais que pudessem estruturar as expectativas do leitor. H. G. Cancela, de resto, notava numa entrevista recente ao Público:

A subversão tem de agir no interior da regra. Qualquer subversão tem de se produzir a partir do interior. A subversão da gramática tem de se produzir no interior da gramática da mesma maneira que a subversão da moral se produz no interior da moral. Não há um espaço agramatical; não há um espaço amoral.[1]

Paradoxalmente, pode ver-se uma observação quase clássica de um aspecto da tragédia grega como descrito por Aristóteles: o violento segredo no centro do enredo não acontece em palco, ou seja, não é narrado em parte nenhuma do romance, não é sequer explicitado e cabe ao leitor, chegando à última página e deparando-se com a didascália que encerra o romance e que inclui uma breve descrição de cada personagem (um pouco como uma lista de dramatis personae), tentar reconstruir os eventos que definem o comportamento e o percurso de cada uma das personagens, bem como as relações que se estabelecem entre elas. Em parte, esta omissão acontece porque a escala daquilo que o romancista procura representar não pode exactamente ser articulado através da linguagem. De facto, algumas personagens perdem e recuperam a capacidade de falar ao longo do romance, e uma delas permanece muda durante toda a acção.

Do narrador, que nunca é nomeado, sabemos que esteve preso, embora nunca se explicite ao certo porquê, que não possui qualquer ocupação específica, embora seja descrito na didascália como médico e ele próprio a certo ponto se descreva como historiador.

No entanto, se no centro da Antígona de Sófocles estão em conflicto as leis de um estado e o dever ancestral de sepultar um irmão, para as personagens de As pessoas do drama a preocupação com algo que as ultrapasse parece estar para lá dos seus contextos. As personagens do drama estão no limite mas esse limite não tende para um fim. O desenlace chega por exaustão. O que é a identidade, a moral, os laços de família, o valor da arte, da linguagem, da civilização, são tudo perguntas com que o romance de H. G. Cancela se debate.

No centro da acção, há a obsessão do narrador com uma actriz italiana que ele vê uma vez num filme. Algo o move a ir até Roma para a encontrar. Desenvolve-se então um opressivo triângulo entre o narrador, Laura Spirelli (a actriz) e Filippo Arboreo (encenador da peça que Laura está a representar). Laura está grávida e o pai pode ou não ser Filippo, mas a relação entre ambos parece ter chegado ao fim. Todas as noites Laura sobe ao palco para representar uma Antígona cega e grávida, duas características que não pertencem à heroína da tragédia de Sófocles. Antígona é provavelmente, de todas as tragédias que nos chegaram da antiguidade, a mais popular e encenada de sempre, talvez em parte porque ao contrário de outros dramas clássicos, há uma resposta clara para o drama moral que a peça encerra. Antígona está certa em querer sepultar o irmão porque uma lei ancestral a compele a isso, em face disso, o drama de Creonte é acessório. Uma Antígona grávida e cega, no entanto, é uma metáfora que tanto serve para caracterizar a personagem de Laura, quanto para sublinhar o traço de uma ideia de eventual culpa hereditária por um caso de incesto do qual Laura pode ter sido o fruto. Esta reinterpretação de H. G. Cancela faz o leitor pensar mais em Édipo do que em Antígona. Podíamos então dizer que, indirectamente, por inferência, no centro do enredo de As Pessoas do Drama está este velho tema, se a culpa pode ser hereditária, se passa de pais para filhos. À superfície, esta pergunta parece estruturar o percurso de todas as personagens do enredo, mas sobretudo de Laura. Há na perspectiva da própria Laura e das outras personagens, uma certa misoginia que a objectiviza. Em parte isto explica-se pela profissão de Laura, ela é uma espécie de repositório para as personagens que representa, em parte isto é levado um passo mais à frente, pelo facto das expectativas dos três homens que estão no centro do enredo – expectativa não se confunde aqui com esperança – nunca contemplarem Laura para lá da posse, isto é talvez mais verdade acerca de Filippo do que acerca do narrador, mas o comportamento de Laura é definido a partir desta perspectiva.

Há um lado violentamente irracional que, no desenlace, parece levar a melhor sobre Laura e, como consequência, sobre as restantes personagens, trazendo a acção ao fim, marcando uma viragem. No entanto, a aporia é uma constante neste romance de H. G. Cancela, o lado destrutivo da vida que pode ser convidado apenas pelo facto de vivermos em conjunto com outros (daí o isolamento inicial do narrador), de dependermos deles, de deles esperarmos algo que pode bem não ser mais do que a pista da direcção do passo seguinte. A grande categoria ausente na caracterização de Laura é a vontade. A gravidez de Laura é vista por ela como uma espécie de obrigação que talvez simbolize a inevitabilidade da vida, as forças que estão para lá de qualquer poder de decisão. Não é certo que seja o lado violentamente irracional de Laura que leve a melhor no fim. É mais o caso de que se o seu último acto configura uma rejeição dessa inevitabilidade, pode também ler-se aí, polemicamente que seja, uma tentativa de romper o ciclo dessa inevitabilidade. Personagens desesperadas tomam decisões desesperadas. As últimas páginas parecem perguntar, o que é a sobrevivência? Como continuar? É também neste sentido que As Pessoas do Drama é um dos romances mais inquietantes de 2017.


A luta pelo dinheiro

Estação de Forest Hills, Queens, Nova Iorque

Estação de Forest Hills, Queens, Nova Iorque

Acordado desde as seis da manhã, enlatado no comboio, depois no metro, a navegar entre Newark, Bronx e Queens, a preparar aulas de português que serão leccionadas em inglês, a ler em espanhol, a palrar em inglês, a matutar em três línguas, de olhos cerrados varado por imagens de outra vida mais silenciosa e pacífica, passada em Santa Clara, mesmo ao lado do Panteão, com um cão enorme do qual toda a gente fugia - porque eu o soltava para as rotineiras flexões nocturnas - , pressinto ter descoberto o sentido do pós-modernismo, e logo corrijo pós-modernismo por realismo americano, o realismo do trabalho abismal, despersonalizado, este realismo guardador de vozes espanholas, portuguesas, americanas e indianas que se vão esbatendo à medida que o relógio se aproxima da hora de jantar. Os dias repetem-se, a mecanização ocupa o espaço interior, questões existenciais brotam cinco minutos antes de adormecer, repousamos os ossos, há sufoco, desespero e drama, um drama gigante como cenário, o drama da subsistência, olhamos para trás e surge a penúria, o não ter onde cair morto (pobre Lisboa), mas o tempo é escasso, não paramos, isto é como nos romances de Foster Wallace: tristeza, depressão em abundância, mas o trabalho primeiro, há que espargir notas de rodapé por todas as páginas, enviar um email, preparar um powerpoint, decorar o tal verbo, telefonar a fulano, comprar um tinteiro, falar a beltrano. Dramático, isto de lutar pelo dinheiro, quando o que pretendíamos era ler uma biblioteca inteira a apanhar sol à beira-rio. E a arenga vem a propósito de um excerto do prefácio de Eduardo Prado Coelho ao livro Poemas Quotidianos, de António Reis, em que se escreve: “Atravessamos nós uma rua e quantas vezes um poeta nos espera, ansioso e feliz.” Outros tempos, deste lado do planeta não se vislumbra um poeta, muito menos um poeta descrito como feliz, ao virar da esquina.