Dois poemas de guerra (de Isaac Rosenberg e Keith Douglas)

ISAAC ROSENBERG
(1890, Bristol, Inglaterra – 1918, Somme, França)

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ROMPER DO DIA NAS TRINCHEIRAS

A escuridão desfaz-se.
É o mesmo Tempo druida de sempre.
Só uma coisa viva me salta à mão,
Uma ratazana excêntrica e sardónica,
Enquanto eu puxo a papoila do parapeito
Para a pôr atrás da minha orelha.
Divertida ratazana, fuzilavam-te se soubessem
Destas tuas cosmopolitas simpatias.
Agora tocaste esta mão inglesa
O mesmo farás a uma alemã
Sem tardar, bem entendido, se for do teu agrado
Atravessar o anestesiado verde que nos separa.
Parece que sorris por dentro ao passar
Por olhos fortes, impecáveis membros, arrogantes atletas,
Menos preparados do que tu para a vida,
Amarrados aos caprichos do homicídio,
Estendidos nos intestinos da terra,
Nos campos devastados de França.
Que vês nos nossos olhos
Quando guincham ferro e fogo
Arremessados pelos céus tranquilos?
Que tremor – que horrorizado coração?
Papoilas cujas raízes se enterram nas veias dos homens
tombam, e tombam constantemente,
mas está segura a minha na minha orelha –
apenas um pouco branca do pó.  

(1916)

 

KEITH DOUGLAS
(1920, Tunbridge Wells, Inglaterra – 1944, Normândia, França)

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FLORES DO DESERTO

Vivas numa ampla paisagem estão as flores –
Rosenberg estou só a repetir o que dizias –
a granada e o falcão a cada hora
matam homens e gerbos, matam 

a mente, mas o corpo pode saciar
as flores famintas e os cães latindo palavras
nas noites, de todas as coisas as mais hostis.
Mas isto não são novas. Sempre que a noite afasta 

os reposteiros dos olhos e deixa a mente desperta
olho para um lado e para outro da porta do sono
em busca da pequena moeda necessária
para comprar o segredo que não guardarei. 

Vejo homens que sofrem como árvores
ou que confundem detalhe e horizonte.
Deposita a moeda na minha língua e cantarei
coisas em que outros nunca pousaram os olhos.  

(1943)


A primeira das metáforas que equipara o ciclo da vida dos homens à vida do mundo vegetal é pelo menos tão antiga como a literatura da Europa e aparece num poema de guerra, no Livro VI da Ilíada, no diálogo entre Glauco e Diomedes, onde se lê que a geração dos homens é como a das folhas, o que pode ou não sugerir que os soldados do mundo arcaico tinham preocupações estéticas, inclinações poéticas. Paul Fussell, cujo livro The Great War and Modern Memory aparece muitas vezes classificado como uma obra de crítica literária, embora seja mais algo como uma história da cultura inglesa durante a Primeira Guerra Mundial (tempos de loucura colectiva), notava o alto grau de literacia entre as tropas inglesas, profundamente enraizadas na ampla cultura literária dos séculos imediatamente precedentes, resultado de escolaridade e hábitos de leitura bastante disseminados. Explica Fussell que os soldados liam na frente e carregavam com eles nas mochilas os clássicos da literatura inglesa, que uma porção considerável de cartas de soldados que se preservaram atestam elevados níveis de literacia e provam, para lá de toda a dúvida, que muitos deles liam todos os dias e incessantemente. Há toda uma geração de autores ingleses que surgiram ou se fizeram poetas durante a guerra (Wilfred Owen, Siegfried Sassoon, Robert Graves, Edward Thomas (um poeta absolutamente extraordinário), David Jones...), sendo que boa parte deles não sobreviveu. Quer isto dizer que há toda uma geração de autores ingleses que pereceu durante o conflicto. Uma das conclusões do livro de Fussell é a de que o choque que a guerra causou é também um choque de linguagem que torna obsoleta a expressão literária do século XIX, capaz de sonhar com heroísmo, mas não com a aniquilação sistematizada, brutal e em números nunca antes vistos imposta por meios de guerra mecanizada. A Primeira Guerra, inicialmente acolhida numa série de círculos intelectuais com genuíno entusiasmo, entre sociedades certas de que tudo duraria apenas alguns meses, viu o conflicto arrastar-se para lá de todas as estimativas, com níveis de mortalidade sem precedentes. Isto em parte explica porque é que de repente a linguagem até então utilizada para descrever guerras anteriores se tornou rapidamente desadequada para descrever a realidade. Os elos entre a literatura da Primeira Guerra e da Segunda estão amplamente estudados, mas talvez uma breve disputa entre dois poetas ingleses da geração de autores da Segunda Guerra, um deles um pacifista convicto e o outro um soldado, sirva para ilustrar esta ideia muito brevemente. Numa carta escrita a J. C. Hall (o pacifista), seu colega em Oxford, Keith Douglas (o soldado), um dos poetas que aqui traduzo, responde a uma crítica que este fizera aos seus poemas. A crítica de J.C. Hall, que de resto mais tarde se tornou o editor e o responsável pelo espólio de Keith Douglas, é mais ou menos aquela de que jovens poetas pedantes de todos os tempos se socorrem para se criticar uns aos outros. Hall escrevera a Douglas, então no Egipto, prestes a ver accção em El-Alamein, que o que ele estava a escrever não era poesia. Douglas envia-lhe uma resposta furiosa, dizendo que o que Hall queria dizer com aquilo é que os seus poemas não eram poemas líricos, que não era o mesmo que não serem poesia. Numa leitura do poema “Flores do Deserto” para o The Guardian, Carol Rumens notava que o lirismo de Douglas era de outra ordem, e mais próximo do tipo de lirismo do poeta da Primeira Guerra que aqui traduzo, Isaac Rosenberg, o que o próprio Douglas definia como um compromisso entre lirismo e cinismo cuja função era chegar a uma verdade sem concessões. É muito difícil de imaginar hoje, mas a poesia que foi escrita durante a Primeira Guerra teve um papel fundamental em elucidar a população civil sobre o horror perpetuado nas trincheiras, o que a propaganda da época tentou suprimir.

Isaac Rosenberg pertence a um mundo bastante diferente do de Keith Douglas. Douglas foi educado em Merton College, Oxford, aluno de Edmund Blunden, outro poeta da Primeira Guerra, e de muitas maneiras o percurso da sua juventude está marcado por um interesse em actividades que são próprias de soldados. Douglas não é um soldado relutante, alista-se cedo e escapa-se, no Norte de África, da segunda linha de batalha, onde tinha sido colocado, para a primeira. Rosenberg é um inglês de origem judaica, de uma família muito pobre, que treina como pintor na Slade School of Art em Londres, que hesita durante muito tempo entre a poesia e a pintura, e é um pacifista convicto, que entendia que a guerra era o palco ideal para os piores actos que um homem pode cometer. Rosenberg alista-se pelo que parece ser uma falta de escolha: o papel de soldado dava-lhe acesso a um salário. No poema de Rosenberg que aqui traduzo “Romper do dia nas trincheiras,” assim o notam todos os críticos que se debruçaram sobre o poema, quase todos os símbolos da poesia bucólica surgem e quase todos eles estão pervertidos: o romper da aurora, os campos, as flores, a quietude contemplativa. A ratazana, que é na leitura de Fussell um símbolo demónico (de daimon), encontra outro eco, menos óbvio do que a alusão directa que Douglas faz ao poema de Rosenberg no segundo verso do seu poema, na moeda cujo o referente é o óbolo colocado debaixo da língua dos mortos na Antiguidade Clássica para pagar a passagem a Caronte e nesse outro elo, menos evidente e mais terrível, entre os dois poemas e que é o do modo como a ideia de efemeridade é formulada em ambos. À distância de 27 anos, Keith Douglas repete com esta imagem da moeda debaixo da língua a ideia de efemeridade que no poema de Rosenberg é expressa pela papoila, segura na orelha mas, na verdade, já a fenecer porque colhida, no próprio corpo vivo daquele que, vivendo, pode já cantar como cabe aos mortos, com o óbolo na língua. O efeito da metáfora, o campo de forças que ela traça, é o mesmo, afinal, desse símile homérico muito antigo, a geração dos homens é efémera, como a das folhas. Homero é demasiado optimista, ele escreve que as folhas morrem e voltam florescer, e assim as gerações dos homens, Homero que não tinha ouvido falar da estupidez homicida de mechanical warfare.

O que me leva à relevância de escolher ler ou reler estes poetas soldados da Primeira e da Segunda Guerra. Matteo Salvini, Vice-Primeiro Ministro de Itália e Ministro do Interior, estava nas notícias na BBC esta semana, por um motivo ou outro que agora me escapa. Mas no final da peça sobre o dito Vice-Primeiro Ministro, a BBC entrevistava um politólogo italiano que comentava algumas afirmações de Salvini, ou do seu partido, sobre a posição pró-Europeia de Macron, ultrapassada na visão de Salvini, e simbólica de um velho mundo, sem lugar no futuro. O professor concluía que não era mais original a posição de Salvini ou de políticos como ele. Numa voz cansada, irritada e desencantada, o senhor dizia que toda a gente sabe qual é o resultado quando se erguem fronteiras entre países: o resultado é a guerra. Assim, deste modo simplíssimo, numa qualquer manhã da Europa no século XXI, durante o noticiário que a BBC emite de madrugada, quando o dia está a romper, e todos os pássaros de Inglaterra, país de melodramática memória, cantam ao nosso redor.  

 

Charles Bukowski, "um poema é uma cidade"

@ René Burri

@ René Burri

 Tradução: João Coles

um poema é uma cidade repleta de ruas e esgotos
repleta de santos, heróis, pedintes, loucos,
repleta de banalidade e bebida,
repleta de chuva e trovoada e períodos de
seca, um poema é uma cidade em guerra,
um poema é uma cidade a perguntar porquê a um relógio,
um poema é uma cidade sob chamas,
um poema é uma cidade armada
são barbearias repletas de bêbedos cínicos,
um poema é uma cidade onde Deus cavalga nu
pelas ruas abaixo qual Lady Godiva,
onde cães ladram à noite e afugentam
a bandeira; um poema é uma cidade de poetas,
muito parecidos uns com os outros
invejosos e rancorosos…
um poema é esta cidade agora,
a 50 milhas de nenhures.
9:09 da manhã,
o gosto a licor e a cigarros,
nem polícia, nem amantes pelas ruas,
este poema, esta cidade, fechando as suas portas,
barricada, quase vazia,
de luto e sem lágrimas, envelhecendo sem dó,
as duras montanhas rochosas,
o oceano como uma chama de lavanda,
uma lua destituída da sua grandiosidade,
a musiquinha de janelas partidas…

um poema é uma cidade, um poema é uma nação,
um poema é o mundo…

e agora meto isto debaixo de vidro
para escrutínio do louco editor,
a noite é alhures
e senhoras acinzentadas fazem fila,
um cão segue outro até ao estuário,
as trompetes anunciam as forcas
enquanto homens pequenos tresvariam sobre coisas
que não conseguem fazer.


a poem is a city

a poem is a city filled with streets and sewers
filled with saints, heroes, beggars, madmen,
filled with banality and booze,
filled with rain and thunder and periods of
drought, a poem is a city at war,
a poem is a city asking a clock why,
a poem is a city burning,
a poem is a city under guns
its barbershops filled with cynical drunks,
a poem is a city where God rides naked
through the streets like Lady Godiva,
where dogs bark at night, and chase away
the flag; a poem is a city of poets,
most of them quite similar
and envious and bitter …
a poem is this city now,
50 miles from nowhere,
9:09 in the morning,
the taste of liquor and cigarettes,
no police, no lovers, walking the streets,
this poem, this city, closing its doors,
barricaded, almost empty,
mournful without tears, aging without pity,
the hardrock mountains,
the ocean like a lavender flame,
a moon destitute of greatness,
a small music from broken windows …

a poem is a city, a poem is a nation,
a poem is the world …

and now I stick this under glass
for the mad editor’s scrutiny,
and night is elsewhere
and faint gray ladies stand in line,
dog follows dog to estuary,
the trumpets bring on gallows
as small men rant at things
they cannot do.

A Beleza do Marido de Anne Carson: Tango IX

Anne Carson,  A Beleza do Marido , não edições, capa sobre colagem de Ricardo Marques

Anne Carson, A Beleza do Marido, não edições, capa sobre colagem de Ricardo Marques

IX. MAS QUE PALAVRA ERA

Palavra que durante a noite
apareceu em todas as paredes da minha vida inscrita simpliciter sem explicação.
Qual é o poder do inexplicado.
Lá estava ele um dia (cidade nova) num campo de feno à porta da escola
debaixo de um chapéu de chuva preto
num vento agreste e picado.
Nunca lhe perguntei
como é que ele estava ali se era uma distância de talvez 300 milhas.
Perguntar

seria violar alguma regra.
Alguma vez ouviste falar do Hino Homérico a Deméter?
Lembras-te de como Hades cavalga para fora da luz do dia
nos seus cavalos imortais no meio de um pandemónio.
Leva a rapariga para um aposento frio lá em baixo
enquanto a mãe dela vagueia pela terra causando dano a tudo o que vive.
Homero narra-o
como a história de um  crime contra a mãe.
Porque o crime de uma filha é aceitar as regras de Hades

coisa que ela sabe que nunca vai ser capaz de explicar
e assim despreocupadamente diz
a Deméter
“Mãe, esta é a história toda.
Com malícia ele depositou
nas minhas mãos a semente de uma romã doce como o mel.
Depois pela força e contra minha vontade obrigou-me a comer.
Conto-te a verdade com pesar.”
Fê-la comer como? Conheço um homem
que tinhas regras
contra demonstrar dor,
contra perguntar porquê, contra querer saber quando é que eu voltaria a vê-lo de novo.
Da minha mãe
emanava uma fragrância , medo
E de mim
(sabia-o pela cara dela à mesa)
o cheiro de uma doce semente.
Rosas no teu quarto enviou-tas ele?

Sim.
Qual é a ocasião?
Ocasião nenhuma.
E a cor.
Cor.
Dez brancas uma vermelha o que quer isso dizer.
Devem ter ficado sem brancas.

Abolir a sedução é o objectivo de uma mãe.
Ela há-de substituí-la pelo que é real: produtos.
A vitória de Deméter
sobre Hades
não consiste em que a filha regresse do inferno,
é o mundo em flor –
couves iscos  cordeiros vassoura sexo leite dinheiro!
Estas coisas matam a morte.

Ainda guardo aquela rosa seca quase desfeita em   pó.
Não significava hímen como ela julgava.

Anne Carson, A Beleza do Marido, Tradução de Tatiana Faia, não edições, Lisboa, 2019.

"A primavera" e "A primavera" de Friedrich Hölderlin (assinando como Scardanelli durante o seu período de demência)

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Tradução: J. Carlos Teixeira

A primavera

Lá, desce o novo dia nas distantes alturas,
a manhã despertando da alvorada,
ela sorri à humanidade, enfeitada e viva,
e a humanidade com suave alegria é preenchida.  

Quer uma nova vida ao futuro revelar-se
com florescências que anunciam melhores dias,
o grande vale, a Terra cobrindo-se;
Lá longe do tempo primaveril estão os lamentos.

Humildemente,
Scardanelli

3 de março de 1648

In Gedichte 1806-1843


Der Frühling

Es kommt der neue Tag aus fernen Höhn herunter,
Der Morgen der erwacht ist aus den Dämmerungen
Er lacht die Menschheit an, geschmükt und munter,
Von Freuden ist die Menschheit sanft durchdrungen.

Ein neues Leben will der Zukunft sich enthüllen,
Mit Blüthen scheint, dem Zeichen froher Tage,
Das grosse Thal, die Erde sich zu füllen,
Entfernt dagegen ist zur Frühlingszeit die Klage.

Mit Unterthänigkeit
Scardanelli


3. März 1648.

In Gedichte 1806-1843


A primavera

Quando das profundidades entra a primavera na vida,
O homem maravilha-se e novas palavras se erguem
De espiritualidade; a alegria volta uma vez mais
E solenemente hinos e cânticos se cumprem.

A vida faz-se da harmonia das estações,
Natureza e espírito acompanham sempre o sentido,
E a perfeição é una no espírito;
Então muito se descobre, sobretudo na natureza.

Humildemente,
Scardanelli


24 de maio de 1758

In Gedichte 1806-1843


Der Frühling

Wenn aus der Tiefe kommt der Frühling in das Leben,
Es wundert sich der Mensch, und neue Worte streben
Aus Geistigkeit, die Freude kehret wieder
Und festlich machen sich Gesang und Lieder.

Das Leben findet sich aus Harmonie der Zeiten,
Daß immerdar den Sinn Natur und Geist geleiten,
Und die Vollkommenheit ist Eines in dem Geiste,
So findet vieles sich, und aus Natur das meiste.

Mit Unterthänigkeit
Scardanelli


24. Mai 1758

In Gedichte 1806-1843

Pier Paolo Pasolini, "O ódio racial"

Pier Paolo Pasolini, capa do livro “Il caos” (Garzanti); fotografia: Archivio Angelo Palma

Pier Paolo Pasolini, capa do livro “Il caos” (Garzanti); fotografia: Archivio Angelo Palma

Tradução: João Coles

Em “Os cães do Sinai” (De Donato editores) Fortini faz, no corpo do seu discurso, pessoal e pouco límpido, sobre a guerra entre Israel e os árabes, uma observação: no futuro o racismo aumentará de intensidade e de frequência em vez de diminuir: e isto por causa da pressão de um poder, que sendo menos visível e pessoal, não será menos esmagador: pelo contrário, será de tal maneira esmagador a despedaçar e pulverizar a colectividade que constitui o tecido conectivo do processo de produção e consumo; tal pulverização da sociedade em tantas formas diferentes, igualmente oprimidas, fará precisamente aumentar o racismo, pois todas as pequenas partes separadas, nas quais será despedaçado o mundo esmagado, odiar-se-ão racialmente entre elas.

É um ódio racial difícil de imaginar.

É, em geral, difícil, mesmo agora, que vigora com tanto furor, e nós acabámos de sobreviver a isso, imaginar o que é o ódio racial. Este é, na verdade, constituído por muitos ódios raciais, diferentes e por vezes também contraditórios.

Há um primeiro nível histórico – onde permanece o popular – no qual o ódio racial é mágico: e, como tal, sobrevive em cada um de nós (que, nos nossos estratos profundos, permanecemos pré-históricos e populares). Este tipo de ódio racial é o único suficientemente verosímil de imaginar, e é também, de certa maneira, justificável, dado que precede a fase da razão.

As nossas “antipatias” por certos tipos de pessoas, o desconforto violento que nos dão certos “corpos”, são arquétipos de um determinado ódio racial, que experimentamos, seja mesmo de maneira defeituosa ou embrionária, e que portanto recai sob o domínio da nossa experiência.

Todo o restante quadro do ódio racial faz parte de um fundo social, que uma pessoa dotada do uso da razão tem dificuldade em acreditar que verdadeiramente exista. Neste momento histórico, parece-me que o ódio racial seja o ódio que experimenta um burguês perante um camponês: ou seja, o ódio que experimenta um homem integrado num tipo de civilização moderna e citadina contra um homem que representa um tipo precedente de civilização, que ainda ameaça a presença da actual: demonstrando fisicamente que o retrocesso é sempre possível (socialmente). Eis porque se odeia racialmente os negros, enquanto pobres, e os pobres, enquanto, inevitavelmente, diferentes de pele, sendo adidos aos velhos trabalhos que comportam necessariamente o ar livre e o sol (o efeito do sol na pele parece ter um valor decisivo no ódio racial de quem vive em casas civis, e, se trabalhar no campo, fá-lo enquanto patrão, ou industrialmente).

Negros, europeus do sul, bandidos sardos, árabes, andaluzes, etc.: têm todos em comum a culpa de ter os rostos queimados pelo sol do campo, pelo sol dos tempos antigos.

Porém, para voltarmos a Fortini, e à sua observação sobre a pulverização da sociedade graças ao poder e à multiplicação dos racismos, talvez, nos nossos dias – e precisamente nestes últimos dias – alguma coisa tenha caído antecipadamente no círculo da nossa experiência directa.

Verificou-se, efectivamente, em certos estratos que se consideravam muito bem estabilizados da sociedade, uma pulverização devida ao movimento subversivo dos estudantes: tratam-se de estratos muito peculiares: isto é, os estratos das elites intelectuais (como sabemos, extremamente sensíveis e vulneráveis).

A pressão exercida por um poder até àquele momento não só inexistente mas até mesmo inimaginável, o dos jovens, pulverizou estes estratos: e disto nasceu, de entre os vários fragmentos de tal pulverização, uma espécie de ódio racial recíproco.

Nasceu, enfim, uma divisão terrorista entre “justos” e “réprobos”: que não é apenas moral, e portanto perdeu todos os rituais e fair-play. Não, perante o “réprobo”, o justo sente uma antipatia física de tal maneira forte que, mesmo conhecendo-o há anos (e, até ao outro dia, pertenciam ao mesmo genérico círculo social com ideias políticas análogas), quase que sente uma espécie de repugnância; não lhe aperta a mão; evita-o; fica-lhe ao largo; começa a preparar-lhe uma espécie de clima de linchagem.

Viu-se isto, por exemplo, recentemente, no mundo literário (o pobre e decadente mundo literário italiano), pela ocasião dos Prémios: a pressão estudantil, derivada de um certo fascismo de esquerda, exerceu uma forte pressão (social e de consciência) sobre as elites culturais italianas, pulverizando-as e lançando-as no caos.

Cada pessoa encontrou-se (como que por acaso, ainda muito longe de um exaustivo exame de consciência) num fragmento à deriva deste caos: e experimentou um ódio inaudito, uma espécie de nojo físico, pelos seus adversários. Enfim, a pressão de um tipo de poder novo, sem importância decisiva, para já, para o “sistema”, mas assaz importante, pelo contrário, para as consciências, alargou o quadro do ódio racial para tipos de ódio racial novos.

A grande surpresa nisto tudo é que o poder “esmagador” não é o poder constituído. Creio, contudo, que o poder dos estudantes – tal como se instituiu mal-grado estes – se enquadre na problemática do poder tout court.

Os sociólogos até hoje haviam previsto para o futuro (nem podiam fazer outra coisa) somente dificuldades técnicas: vemos pelo contrário, através dos jovens, que as dificuldades do futuro não são de maneira alguma dificuldades técnicas, mas políticas.

Durante muitos anos fomos encantados pela sereia da técnica, seja como problema actual, seja como grande incógnita do futuro (problemas técnicos de dormir, de comer, de habitação, de ocupar os tempos livres, de usar os veículos, de fazer filhos, de envelhecer, etc. etc.), e acreditámos estupidamente que estes problemas técnicos se deviam resolver no âmbito da técnica.

A nova geração de jovens na casa dos vinte – que, nas nações “avançadas”, vive pela primeira vez, inteiramente, deste lado da bacia hidrográfica; vive, isto é, no nosso futuro – como primeiro acto quis demonstrar-nos que as soluções dos problemas técnicos são, também no futuro, políticas.

Os bons administradores que, atormentados no momento pelas oposições, se desafogavam felizes pensando no futuro como um campo puro de especialistas, ficaram a ver navios. E igualmente os intelectuais, que não esperavam que o seu pequeno poder fosse posto em causa tão cedo, e com tanta e inaudita má-educação e violência (eles, que imaginavam ser os novos jovens de vinte anos como tantos bons alunos, os melhores da turma, integrados, afáveis, eficientes, como deve ser). Mas não é por acaso que o primeiro aspecto com que os jovens se apresentam seja o aspecto do poder; que nasce de uma consciência agressiva dos próprios direitos.

E com isto pretendo dizer poder político, além de cultural, de consciência e de opinião: se não tivesse sido político, garantidamente a sua capacidade de “pressão” não teria sido tão violenta ao ponto de desencadear entre os seus pobres pais mais vulneráveis – os intelectuais – este furioso e feroz ódio recíproco de animais enjaulados.

“Tempo” n. 34 a. XXX, 20 de Agosto 1968

in Il caos, Garzanti


L'odio razziale

Nei "Cani del Sinai" (De Donato editore) Fortini fa, nel corpo del suo discorso, personale e non molto limpido, sulla guerra tra Israele e gli arabi, una osservazione: nel futuro il razzismo aumenterà di intensità e di frequenza, anziché diminuire: e ciò a causa della pressione di un potere, che essendo meno visibile e personale, non sarà però meno schiacciante: anzi, sarà così schiacciante, da frantumare e polverizzare la collettività che fa da tessuto connettivo al processo di produzione e consumo; tale polverizzazione della società in tante forme diverse, ugualmente oppresse, farà appunto moltiplicare il razzismo, perché tutte le piccole parti separate, in cui si frantumerà il mondo schiacciato, si odieranno razzialmente fra loro.

É un odio razziale difficile da immaginare.

É, in generale, difficile, anche adesso che vige con tanto furore, e noi ne siamo appena sopravvissuti, immaginare che cosa sia l'odio razziale. Esso è, in realtà, costituito da molti odi razziali, differenti e qualche volta anche contraddittori.

C'è un primo livello storico - che è rimasto quello popolare - in cui l'odio razziale è magico: e, come tale, sopravvive in ognuno di noi (che, nei nostri strati profondi, rimaniamo preistorici e popolari). Questo tipo di odio razziale è l'unico che sia abbastanza possibile immaginare, e che sia anche, in qualche modo, giustificabile, dato che precede la fase della ragione.

Le nostre "antipatie" per certi tipi di persone, il fastidio violento che ci danno certi "corpi", sono archetipi di un tale odio razziale, che proviamo, in modo sia pure monco o embrionale, e che cade quindi sotto il dominio della nostra esperienza.

Tutto il restante quadro dell'odio razziale fa parte di un fondo sociale, che una persona dotata dell'uso della ragione stenta a credere realmente esistente. In questo momento storico, mi sembra che l'odio razziale sia l'odio che prova un borghese verso un contadino: ossia l'odio che prova un uomo integrato in un tipo di civiltà moderna e cittadina, contro un uomo che rappresenta un tipo precedente di civiltà, che ancora minaccia la presenza dell'attuale: dimostrando fisicamente che un regresso è sempre possibile (socialmente). Ecco perché si odiano razzialmente i negri, in quanto poveri, e i poveri, in quanto, inevitabilmente, diversi di pelle, essendo addetti ad antichi lavori che comportano necessariamente l'aria aperta e il sole (l'effetto del sole sulla pelle sembra avere un valore decisivo nell'odio razziale di chi vive in case civili, e, se lavora la campagna, lo fa da padrone, o industrialmente).

Negri, sudeuropei, banditi sardi, arabi, andalusi, ecc...: hanno tutti in comune la colpa di avere i visi bruciati dal sole contadino, dal sole delle epoche antiche.

Ma, per tornare a Fortini, e alla sua osservazione sulla polverizzazione della società dovuta al potere e alla moltiplicazione dei razzismi, forse, nei nostri giorni - e proprio in questi ultimi giorni - qualcosa è anticipatamente caduto nel cerchio della nostra esperienza diretta.

Si è verificata, infatti, in certi strati che si ritenevano molto ben stabilizzati della società, una polverizzazione dovuta al movimento sovversivo degli studenti: si tratta di strati molto particolari: gli strati cioè delle élites intellettuali (si sa, estremamente sensibili e vulnerabili).

La pressione esercitata da un potere fino a quel punto non solo inesistente ma addirittura inimmaginabile, quello dei giovani, ha polverizzato questi strati: e ne è nata, nei vari frammenti di tale polverizzazione, una sorta di odio razziale reciproco.

É nata insomma una divisione terroristica tra "giusti" e "reprobi": che non è soltanto moralistica, e ha quindi perduto ogni rito e fair- play. No, verso il "reprobo", il giusto sente un'antipatia fisica così forte, che, benché magari suo conoscente da anni (e, fino al giorno prima, appartenente a una stessa generica cerchia sociale con analoghe idee politiche), sente quasi una sorta di repugnanza; non gli stringe la mano; lo evita; gli gira al largo; gli prepara intorno una specie di clima da linciaggio.

Lo si è visto, per esempio, recentemente, nel mondo letterario (il povero, squallido mondo letterario italiano), in occasione dei Premi: la pressione studentesca, mutuata da un certo fascismo di sinistra, ha esercitato una forte pressione (sociale e di coscienza) sulle élites culturali italiane, polverizzandole e gettandole nel caos.

Ciascuno si è trovato (come per caso, ben lontano ancora da un esauriente esame di coscienza) in una parcella alla deriva di questo caos: e ha provato un odio inaudito, una specie di schifo fisico, per i suoi avversari. Insomma la pressione di un tipo di potere nuovo, senza decisiva importanza, ancora, per il "sistema", ma assai importante, invece, per le coscienze, ha allargato il quadro dell'odio razziale verso i tipi di odio razziale nuovo.

La grande sorpresa, in tutto questo, è che il potere "schiacciante" non sia il potere costituito. Tuttavia io credo che il potere degli studenti - così come si è istituito malgrado loro - rientri nella problematica del potere tout court.

I sociologi avevano fino a oggi previsto per il futuro (né potevano far altro) soltanto delle difficoltà tecniche: vediamo invece, attraverso i giovani, che le difficoltà del futuro non sono affatto difficoltà tecniche, ma politiche.

Per molti anni siamo stati incantati dalla sirena della tecnica, sia come problema attuale, sia come grande incognita del futuro (problemi tecnici del dormire, del mangiare, dell'abitare, dell'occupare il tempo libero, dell'usare i motori, del fare figli, del divenir vecchi ecc. ecc.), e abbiamo stupidamente creduto che tali problemi tecnici si dovessero risolvere sul piano della tecnica.

La nuova generazione di ventenni - che, nelle nazioni "avanzate", vive per la prima volta, interamente, al di qua dello spartiacque; vive, cioè, nel nostro futuro - come primo atto ha voluto dimostrarci che le soluzioni dei problemi tecnici, anche nel futuro, sono politiche.

I bravi amministratori, che, tormentati, per il momento, dalle opposizioni, si sfogavano felici a pensare al futuro come un puro campo di esperti, sono rimasti con un palmo di naso. E così gli intellettuali, che non si aspettavano che il lor piccolo potere sarebbe stato messo in discussione così presto, e con tanta inaudita maleducazione e violenza (essi, che si immaginavano i nuovi ventenni come tanti primi della classe, integrati, affabili, efficienti, perbene). Ma non è un caso che il primo aspetto con cui i giovani si presentano, sia l'aspetto del potere; nascente da una coscienza aggressiva dei propri diritti.

E intendo dire proprio potere politico, oltre che culturale, di coscienza e d'opinione: se non fosse stato politico certamente la sua capacità di "pressione" non sarebbe stata così violenta da scatenare tra i loro poveri padri più vulnerabili - gli intellettuali - questo furente, feroce odio reciproco di bestie in gabbia.

Tempo n. 34 a. XXX, 20 agosto 1968

in Il caos, Garzanti