O escuro

ou que escrever um poema que não podes ler a ninguém

é a mesma coisa que dançar no escuro.

 

Ovídio, Cartas do Ponto, 4.2.33-4[1]

 

Sexta-feira à tarde. Agosto. O silêncio suado e sonolento da biblioteca é violentamente interrompido pelo barulho de alguém a ressonar. Depois de horas a ler, Roberto levantou-se disparado do seu lugar, arrumou o computador à pressa, atirou também o estojo e um caderno para dentro da mochila, deixou para trás outro caderno, a caneta e dois livros. Daniel passou umas quantas vezes pela mesa do colega. As últimas notas escritas no caderno que ficou para trás, aberto numa página com uma letra gatafunhada, quase ilegível, contêm indicações de bibliografia, mas nenhuma nota faz alusão à fase do trabalho em que Roberto se encontraria antes de desaparecer.

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Caixa de Velocidades

O carro arde, é 
verão, falha-me 
a embraiagem 
(confesso que 
 tenho medo). 
 
É por Monsanto que 
sigo para recuperar 
no opifício do comercial 
centro a celeridade e 
beijar as montras do 
auto-conhecimento. 
 
Faço aquisições, toco 
na pele do pêssego. 
 
Posso porque conheço 
tão bem o curso que 
me transporta para o
nível menos um
como a família
de feudatários
da qual descendo.
respiro o condicionado
ar e a consolação de
um austero
estacionamento.  

Está escuro 
está fresco 
reina o silêncio. 
 
Regresso ao vermelho 
lugar e espera-me 
aí – ar gasoso e suspenso 
 
o garagista com olhos de Cristo 
e é com mãos nos bolsos 
que me aponta 
o dedo. 
 
De mão dada com 
o meu saco plástico, 
não me mexo. 
 
De olhos fechados 
conto até três 
(como Ele pede) 
mas é ponto 
assente:
Pulverizados podem 
seguir outros corpos 
em nuvens isentas 
financeiros túneis ou 
vias rápidas mas 
face ao ultimato 
não concedo 
 
Penso em nós – 
súbditos amantes 
no fundo do 
saco de polietileno – 
e simplesmente 
 
não desapareço. 

 

Crônicas mineiras

1.      A VIAGEM 

Como é praxe em todos os feriados prolongados, passei os dias de folga na pequena cidade de São Tiago, encravada no interior de Minas Gerais, onde Ana nasceu. Saio de casa na quinta-feira do lava-pés logo após o almoço. A profunda alma de Minas Gerais começa a me ser anunciada já algumas horas antes da minha chegada, mais precisamente a partir da parada para um lanche rápido e abastecimento num posto de estrada localizado já no fim da represa de Furnas, a poucos quilômetros da entrada de Capitólio. Do posto, tem-se uma visão ampla de um açude que se estende, silencioso, como uma pequena faixa de oceano. A intervalos, passam os carros em alta velocidade. Pedimos duas empadas e café preto, que é servido diretamente de uma garrafa térmica. Na hora de pagar, a balconista me cobra apenas as empadas. Digo que ela se esqueceu do café, ao que ela me diz que o café preto, por aqueles sítios, é uma cortesia. Agradeço e sigo viagem. O anoitecer vem quando estou em Itapecirica. A entrada e a saída da cidade são marcadas por igrejas, a da entrada mais solene, barroca, a lembrar as construções de São João Del Rey, enquanto que o templo da saída da cidade é uma casa oculta por um largo muro caiado onde estão inscritos os dez mandamentos. Sei que é a chamada hora do rush, mas o movimento de gente é mínimo. Numa esquina, um sujeito coloca, na carroceria da camionete, três cachorros. Algumas donas de casa andam à esmo. Um grupo de velhos espera, de cócoras, a culminância do crepúsculo. Um vento frio corre rente ao chão e o céu tem aquela frialdade violácea que convida ao sono e ao tédio. Com a noite alta, serpenteio por estradas sinuosas, entre massas de sombras e veículos que, no sentido oposto, cegam-me com os seus faróis de neblina. Quase chegando, é preciso desviar de um boi que, pastando, ocupa metade da pista. Finalmente em São Tiago, o frio é úmido como se houvesse acabado de chover, criando uma expectativa de orvalho. Pouco há para se fazer na semana santa, sobretudo nos últimos dias da quaresma, quando as pessoas cumprem as penitências que se impuseram como prova de fé. A maioria  das penitências consiste em ficar longe de bebidas alcóolicas. As mais singelas privam o penitente do açúcar. As mais violentas, ou tradicionais, dizem respeito à abstenção de comer carne vermelha. Sei que, na sexta-feira da paixão, é proibido o desempenho de qualquer atividade mercantil, de modo que se criou a seguinte tradição: as pequenas propriedades rurais da região doam aos pobres a produção de leite do dia. Todas essas pequenas propriedades, que doravante chamarei de roças, distam quilômetros da cidade e a elas apenas se chega por estradas de terra. A tradição ainda exige que os pobres a quem é destinado o leite caminhem até as roças antes do alvorecer da sexta-feira. Uma dessas roças pertence a uma tia de Ana e, mal chegamos após a extenuante viagem, somos convidados a irmos para lá ainda durante a noite para ajudarmos, durante a madrugada, na doação do leite. Argumentamos que o nosso cansaço é grande. Em Minas Gerais todas as relações sociais parecem orbitar em torno de negociações que, não fosse a alma barroca dos debatedores, sequer seriam necessárias, e o resultado dessa minha negociação por migalhas de sono é a promessa de que iremos para a roça na manhã do dia seguinte. Tudo parece calmo e resolvido. Estou dormindo no quarto  quando sou acordado, em plena madrugada, pelo meu cunhado, que, remexendo as gavetas, procura qualquer coisa que não pode esperar o amanhecer, e mais tarde pela mãe de Ana que, com uma alegria devota, entra gritando no quarto, confundindo sair na manhã de sexta-feira com sair às quatro da madrugada. É com um fiapo de consciência que relembro que, em Minas, os quartos de dormir gozam de uma ausência de privacidade apenas comparável a encontrada em qualquer hospedaria da ficção kafkiana. Finalmente, deixam-me dormir, ou melhor, a mim é concedido que eu durma como se eu fosse uma criança de cinco anos ignorante dos compromissos do mundo adulto.

Os livros são de natureza mineral

Os livros são de natureza mineral. 
Alguns bebem-se outros se proliferam 
como água. Outros pedra, não fruta, 
rocha da onde brota a tua pele. 
Passa por cima uma formiga. 
Há capins vibrando 
vento e sol com sombra 
o musgo cresce, um mosquito 
entra na tua boca e você cuspindo 
cai na água que alguém 
numa cidade adiante 
distante, talvez 
sem mágoa 
vira a página 
bebe.

 

«Há dez anos que escrevo o mesmo poema»

Há dez anos que escrevo o mesmo poema
no mesmo café.
Esta ideia arrumada nesta cadeira triste
todos os dias no mesmo sítio.
Até que me venham bater à porta
ando meio distraída nisto. 

Falam-me da barbárie e dos seus irmãos brutos
mas ninguém falou ainda da flor de Coleridge
nem das pernas melancólicas dos meus amigos. 

Exceptuando isto penso no imenso com os dentes.
Penso num serviço de chá e numa porta de serviço.
Penso num chão absoluto no petróleo e na lixívia.
Penso na tua cabeça enunciativa e és um Rolls
às nove e meia da noite para toda a parte comigo. 

Exceptuando isto talvez não se morra e ninguém
desça à guerra e ao medo senão pelos livros.
Penso no amor e exceptuando isso está frio
e a mudança de hora e a jukebox
e contar-te os meus medos porque penso nisto há dez anos
que penso nisto. 

Cruz na porta da tabacaria e o teu cabelo
cortado à escovinha.
Há dez anos que desconfio do mesmo poema 

 

forma inteira do homem para diante
e de diante para o abismo

  

E poder ser livre e fumar na cama
com a excitação de arder numa linha. 

É que Sócrates nunca escreveu.
Milton ao menos fingia.
No fim de contas caía bem.
Um Kropotkin e uma bica.

E convicção ser do teu signo.
Porque uma coisa nos atraía.
Fome não era adição.
Erecção não era cinismo.
Porque havia motivo para risos. 

Tu nunca te atrasaste.
Tu nunca te mataste.
Porque enfim não mentiste 

que há dez anos que escreves o mesmo poema 

 

tu que só queres o sol
para descê-lo para descê-lo
ilha dos amores  

 

no mesmo corpo no mesmo casaco
apoiado à esquerda do meu braço.