Os centauros

Viol e Forey são dois reformados que passam a tarde a conversar com uma réplica de um cérebro humano nas mãos. Vão-no dissecando, à medida que conversam sobre cavalos. Têm ambos uma inusitada paixão por estes animais. Nunca montaram, nem pretendem montar (agora já é tarde para todos os triunfos e coragens), nunca tiveram qualquer relação de óbvia proximidade com este ou até com outros animais, mas há algo neles que os leva a pensar insistentemente na figura equina e a discutir, através de uma imensa rede de coincidências declaradas, a razão daquela consanguinidade mental.

O processo repete-se diariamente (ora na casa de Viol, ora na casa de Forey) e a conversa, ainda que parta sempre de ângulos tão digressivos como experimentais, não ilude o destino, nem alivia a incessante constatação do resultado: por volta das cinco da tarde, sempre com a réplica do cérebro na mão, os dois amigos atingem o hipocampo. O hipocampo é o quartel-general da memória, essa delicada zona cerebral que lembra, pelos seus contornos curvos e vagamente sensuais, um cavalo-marinho, um hippocampus. A partir daqui a coisa complica-se. Os dois amigos sofrem subitamente um surto de estranheza galopante, a conversa seca e instala-se um tédio confuso semelhante à bruma da Irlanda. Despedem-se então cordialmente e regressam à sua vida normal.

de «Cenas de uma vida conjugal»

Ceder ao peso do amor, lembrar ocasiões,
a conversa num feixe e o caso ainda
indestrutível de certas cores.
A crença: tão miserável se
agora puxar pela cabeça.

Regressa-se à casa de partida:
raro conseguir sair deste lugar sem
a transfiguração, a ida ao caixote
que pobre se impinge.

O amor ultrapassado:
por respiração entendo jogo viciado
e quando saio não reconheço
o ponto assente,
o até agora perdido.

Sexta Conjugação, 2

Foste e nessa vertigem de seres
vestiste as palavras com a incerteza
de quem nunca sorriu de vento.
Sim, bem sabias que cedo ou tarde
os monstros te encontrariam o rasto,
deixadas as pedras, tomado o fio,
para que te encontrassem à espera.
A vítima cabal de quase tudo,
e igualmente inocente de toda a glória:
labirinto sem imagem ou espelho.
Eras e nessa tortura de seres
a ti própria te devias respeito -
em comunhão com os que te amaram.
Agora já não inspiras. Renasces.
Tens mesmo carne e mesmo sangue.
És e nessa existência de seres
já não feres nem fazes sinuosas
linhas com que te não teces.
E a palavra salvação, assim dita,
despreocupada em toda a essência,
faz sentido agora na tua boca,
pronunciada ao acaso das sílabas.

Sequestro

Um pouco por toda a sala o desejo é o mesmo. Fala-se porque é preciso iludir. Criam-se narrativas atrás de narrativas. Há sempre alguém que recorre às suas habilidades para entreter. E nós precisamos de paliativos sinceros, de gente que suba ao palco e nos conte histórias, porque as histórias são as benzodiazepinas de deus.

Os malditos sequestradores também se divertem. Usam e abusam do seu violento protagonismo. Sobem ao palco e fomentam a indisciplina. Há noites de sexo ao vivo e circo errático e inconsequente com as mais perfeitas esposas do reino. Somos todos obrigados a aplaudir.

Houve quem congeminasse, nos tempos mortos, em segredo, e até preparasse um plano de revolução mais ou menos exequível. Houve quem doasse um braço, um olho, uma vértebra, um pedaço importante do seu pudor e do seu perfil, só para evitar ver o seu filho sofrer.

A verdade é que o tempo passa e os resultados não são visíveis. Fala-se que o próximo passo é tentarmos a amizade com eles. Mas as baixas diárias não deixam sequer o melhor dos nossos actores intervir. Estamos todos intoxicados pela descrença