Sáurio
/O que aqui podia comunicar pôs-se antes à conversa.
Foi tudo o que Antónia disse antes de fechar a janela. O snapp rápido dos caixilhos quando ela trancou o ferrolho e eu estava para me pôr a andar outra vez que nem havia volta a dar-lhe. Estávamos à conversa e ela foi-me cortando todas as linhas. Atirou-me umas palavrinhas afinadas, humilhantemente simpáticas e educadas e desligou-se de mim como se nunca estivéssemos estado enleados. O pequeno dinossauro de plástico repousava sobre a mesa de vidro, os dois olhos pintados de verde brilhavam opacos, demasiado para fora de todo o resto do corpo, verde também, verde t-rex. Eu articulei a palavra sáurio e engoli em seco. Sáurio. Mulher estás a ouvir, queria gritar. Aos vinte sete anos eu sou um homem dramático. A minha comunicação, mole a valer, com o mundo, está interrompida. Eis uma expressão de que me socorro frequentemente, interromper a comunicação com o mundo. Saio e levo a tartaruga a passear presa pelo pescoço com um fio de lã vermelho, como na escola, quando aprendia a escrever e me prendiam a mão esquerda para que não escrevesse com ela. Como me explicaram, com a esquerda Caim matou Abel. Aos seis anos de idade eu não tinha uso para um Abel morto, mas Caim parecia-me homem de actos, palavra ligada à mão. O que quer que matar fosse, parecia promissor.
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