Sáurio

O que aqui podia comunicar pôs-se antes à conversa.

Foi tudo o que Antónia disse antes de fechar a janela. O snapp rápido dos caixilhos quando ela trancou o ferrolho e eu estava para me pôr a andar outra vez que nem havia volta a dar-lhe. Estávamos à conversa e ela foi-me cortando todas as linhas. Atirou-me umas palavrinhas afinadas, humilhantemente simpáticas e educadas e desligou-se de mim como se nunca estivéssemos estado enleados. O pequeno dinossauro de plástico repousava sobre a mesa de vidro, os dois olhos pintados de verde brilhavam opacos, demasiado para fora de todo o resto do corpo, verde também, verde t-rex. Eu articulei a palavra sáurio e engoli em seco. Sáurio. Mulher estás a ouvir, queria gritar. Aos vinte sete anos eu sou um homem dramático. A minha comunicação, mole a valer, com o mundo, está interrompida. Eis uma expressão de que me socorro frequentemente, interromper a comunicação com o mundo. Saio e levo a tartaruga a passear presa pelo pescoço com um fio de lã vermelho, como na escola, quando aprendia a escrever e me prendiam a mão esquerda para que não escrevesse com ela. Como me explicaram, com a esquerda Caim matou Abel. Aos seis anos de idade eu não tinha uso para um Abel morto, mas Caim parecia-me homem de actos, palavra ligada à mão. O que quer que matar fosse, parecia promissor.

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À beira de uma graça furiosa

Alguém:

descobrir que não há Deus, que alegria! Põe a gente à vontade. Respira-se de outra maneira
e
deus. se tiverem equipamento. investiguem-no
e

Ainda não se respira como devia ser

I. Alguém dizia: a morte, na tua poesia, vive. Não é mortífera. Primeira impressão em negativo.

II. Num manual de anatomia espanhol de 1556, de um tal de Juan Valverde de Amusco, um écorché segura numa mão a faca, noutra a própria pele. Alguém diz: Apolo e Mársias. Proponho outra legenda: “A certa altura da sua juventude sumptuosa, Kafka pôs de lado a sua cópia bem manuseada de Herberto Helder e experimentou a arte da prestidigitação”. Tome-se a figura como parábola do ofício frio e exangue a que me proponho. A pele és tu. Venho do lado da faca, e não do fogo. É uma espécie de fidelidade.

III. Dizias: insondável entendimento das metamorfoses. Alguém dizia. Dizia: uma arte interna. E pegava em objectos vivos, terríveis. Líricos, vivos. Chegava ao centro. Dizia: placenta. Experimenta esses escafandros. Dizia. Desce aos poços, experimenta um a um ofícios debruçados, move o cuspo de um lado ao outro da boca, por exemplo, como alavanca para as mãos. Experimentei, e desci, e experimentei, e movi. E disse. Bombeei sangue até partes ocultas. Isto em frente a amigos. Que diziam: é bonito, esse jogo de tubos. Vi-os a não verem o prodígio. É também difícil o ofício de ver a ausência de prodígios.

Voltei a ser o mais inepto pirómano de ervas do meu tempo. Dizia: dai-me uma alavanca e eu emperrarei o mundo.

Venho pois falar-te dos meus escafandros avariados. De pedras de isqueiro gastas. Da felicidade da falha nos motores da fosforescência. Dos frutos frios, por fora, por dentro não aquecidos a electricidade. Alguém dizia. De botânica petrificada, de magia exausta. De coisas e palavras encerradas, e não cerradas, em torno do côncavo. Do ponto morto no meio de uma sofreguidão de ímans.

IV Dizias: a inteligência que aparelha o caos em relações sensíveis de elementos. Venho pois falar-te de uma certa estupidez.

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Constança de Castela funga contra o castelo de cartas de Inês de Castro

A ela reservam as lendas de um trono
de amoníaco, quando
meus quadris é que o aqueceram vivos
e sei bem que não hão
de chorar em dez cantos o meu destino:
rejeitadas, não-quistas
jamais cederam material épico ou lírico
aos que usam quizilas
alheias como seu ácido acetilsalicílico,
sem vestir nossa cútis;
e ainda que meu inimigo faça, no futuro,
rainha de uma puta,
a minha vingança eu carreguei no buxo,
de minhas entranhas,
eu, Constança de Castela, expeli o único
a subir ao trono da nada
ancha faixa de terra a que chamam reino,
e com ou sem herdeiro
rirei com a sarna que me cobre na tumba
ao vê-los, tão inferiores,
primeiro cair em domínio de minha terra,
a de outrora, e, ao fim,
se tornarem quintal do FMI e da Europa
enquanto à tal espera
de que retorne, intacto de Alcácer-Quibir,
o que os tire do cárcere
que toma os que fazem, de puta, rainha.

O "E ENTÃO?!" CONTRA A SIMPLIFICAÇÃO

Jackson pollock imitation by night hawk, RichardGeorgeDavis.

Jackson pollock imitation by night hawk, RichardGeorgeDavis.

Ontem a minha filha Maria achou bastante irrelevante uma conversa sobre a metafísica do universo estar por trás das nossas concepções morais. Disse-me algumas vezes, “e então?” “E então?!, respondi-lhe, Então essa é uma condição da humanidade, seríamos totalmente outros sem a espiritualidade polarizada entre o bem e o mal.” Sim, mas senti logo que a minha objecção era infinitamente mais fraca do que a sua. No “E então?” dela estavam contidos todos os princípios críticos do iluminismo, a inelutável investigação racional sobre as condições de possibilidade da verdade, por um lado, e a avaliação intransigente da utilidade, por outro.[1]

Esta aparente puerilidade, combate fingido entre gerações, mostrou-me como talvez o mundo adulto, por trás de uma certa sofisticação semântica, seja bem mais simples do que o dos adolescentes. O “E então?” esmaga toda a sobranceria, pedanteria discursiva com que nos escondemos e simplificamos a vida. Por vezes sem o sabermos, somos simplificadores sistemáticos, repartindo os horizontes de sentido entre amigos e inimigos, bem/mal, verdade/mentira, gosto/não gosto, metafísica/materialismo… Procuramos escapar à fatalidade das ligações múltiplas reduzindo confrangedoramente a complexidade da vida.

Surpreendentemente, escondemos muito disso na palavra “objectividade”, os negadores da complexidade são os primeiros representantes, às vezes com medalhas e tudo, da objectividade. Paradoxalmente, ela faz-se quase sempre acompanhar, na ciência como na filosofia, de demiurgos secretos que comandam o destino na penumbra. As leis que definem demonstrações, os postulados que sustentam teorias, a lógica que testa a coerência argumentativa…, são outras formas de apelarmos à Coisa que nos esconsos do Universo conduz o movimento da matéria e do espírito.

Ao pé disto, pelo menos nesta noite de insónias (é decisivo sabermos a que horas se escreveu), acho mais sensato pensar em Nietzsche como agente secreto da minha biografia (Baudelaire escolhia o poeta). Desenganem-se, saltar assim de um só golpe da teoria do conhecimento para  a da produção textual tem a sua razão, objectiva, de ser.   


[1] Atenda-se a que o “E então?” não é uma indiferença laxistas em relação ao que se discute, não é o je-m’en-foutisme francês (traduzido, sem contexto, por “estou-a-lixarme”, mais o “ismo”), niilismo popular dos preguiçosos ou irrevogáveis desiludidos. O “E então?” é afirmativo, questiona, obriga a esclarecer, explicar, justificar... É neste sentido que o uso aqui.