Elizabeth Garrett, «Canção»

tradução de Hugo Pinto Santos

Já outros assim jazeram antes de nós —
lado a lado dormidos, brandura a brandura,
osso com osso — e sonharam que, nem pasto,
nem pedra, cresciam onde carne e figura assim se fundem.

Sob a ampulheta do céu, estendem-se os amantes,
Detritos contínuos, vogando fora do alcance do mundo,
juntos jazem, indiferentes ao contacto do sol,
aos grãos do tempo cuja lenta filtragem sob eles se dá.

Já outros assim jazeram antes de nós — 
lado a lado dormidos, cinzas a cinzas,
pó contra pó — e ainda sonham enquanto, infatigável,
a chuva enxuga as suas pedras; entre eles, apenas pasto.

Elizabeth Garrett, A Two Part Invention, Bloodaxe Books, 1999

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Maria Eduarda

 You just get out what they put in
and they never put in enough
Love is like a bottle of gin
but a bottle of gin is not like love 
 

The Magnetic Fields, “Love is like a bottle of gin”

 

Maria Eduarda vê a sala encher-se de gente. Mendelssohn numa recôndita sala de espectáculos de uma cidade de província faz o povo chorar pontualmente às quartas-feiras à noite, independentemente da classe social. Traz ópio num dos bolsos, tem calçadas sapatilhas de pano e quando os músicos começarem a tocar, vai finalmente poder cair do Olimpo, ter o prazer de conspirar consigo mesma. O que Maria Eduarda já sabe: o seu amor é desonesto. O que Maria Eduarda ainda não aprendeu: imaginação e pensamento não são a mesma coisa, não vêm do mesmo lugar. Maria Eduarda imagina muitas coisas, mas pensa muito pouco. Maria Eduarda tem uma tendência para pensar que amor mais imaginação é igual a trabalho (o único possível). As evidências do presente sistema capitalista negam as hipóteses desta suposição, algo que Maria Eduarda tem e terá dificuldades em aceitar, independentemente da conjuntura económica. Bittersweetness não explica tudo mas é para muitos um modo de vida. Maria Eduarda só pode oferecer-se para dar alguma coisa se ninguém lhe pedir nada, de outro modo, sentir-se-ia comprometida (nos dois sentidos do termo). Maria Eduarda sai assim que o concerto acaba. Assim, do escuro da sala para o escuro da rua. Noite escura. 

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Caderno 2

Amadeu Baptista | Andreia C. Faria | Catarina Santiago Costa | César Rina | Daniel Francoy | Dirceu Villa | Duarte D. Braga | Emanuel Amorim | Fernando Guerreiro | Isabel Milhanas Machado | João Miguel Henriques | João Moita | José Manuel Teixeira da Silva | Luís Ene | Manuel A. Domingos | Miguel Cardoso | Nuno Brito | Patrícia Lino | Paulo Kellerman | Paulo Rodrigues Ferreira | Raquel Nobre Guerra | Rui Almeida | Samuel Filipe | Tatiana Faia | Victor Gonçalves | Victor Heringer | György Petri / João Miguel Henriques et al (trad.) | Nick Laird / Hugo Pinto Santos (trad.) | Salvatore Quasimodo / João Barcelos Coles (trad.) | Cassandra Jordão

Capa: João Alves Ferreira

Enfermaria 6, Lisboa, Junho de 2014, 124 pp.

6€

Uma versão impressa deste livro pode ser comprada na Fyodor Books ou enviando-nos a sua encomenda para enfermariaseis@gmail.com.

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Texto para o menino que por vezes me visita, quando se cansa de meninas, e que doravante chamarei de Maximin, como se este fosse o último bilhete de Elagabalus a Hierocles

Como o sol que incha e cresce, 
Maximin, são teus
a pujança, o tônus e a tesura. 
Quem-me-dera pudesse dar-te 
todos os dias 
o que é digno de tua condição 
cesariana, ou fosse eu a carruagem 
conduzida por tua potência 
equina, oxalá 
eu o cavalo que montas 
com maestria, charioteer, 
eu, tua cheerleader, que vivo 
da caridade do teu epidídimo, 
ora deixa-me 
descansar o pescoço 
extenuado sobre teu corpo 
esponjoso, meu cabelo 
confundindo-se com teus parcos 
pelos púbicos, já quase públicos, 
Maximin, tanta é a segurança 
com que te exibes no mercado 
e na ágora, maximiza-me 
em tua perene intermitência, 
diariza tuas doações 
tão fluidas sobre meu rosto, 
je vien, tu viens, 
então vem e quebra 
com teus sucos 
meu jejum, Maximin, 
minimiza minha idade, 
mexe-me contigo em mim, 
tantas são, miríade, 
as posições possíveis 
entre cavalgadura 
e montaria, Maximin, 
machuca-me 
à prostrada, naquele pontículo 
entre delícia e cicatriz, 
pois os cães pretorianos 
já se aproximam 
para arrastar-me aos gritos 
desse trono que usurpo 
quando te cansas do vúlveo 
e escalamos a torre de marfim, 
mas ainda assim trono 
onde se crê que alguma menina 
melhor sentaria, 
Maximin, e já sabemos 
qual será nosso fim. 

 
§ 
 
Ricardo Domeneck. Extraído das “Odes a Maximin”, inéditas.