2 grados de más

a César Rina
 

Estar enfermo es mantenerse en alerta. Es estar doblemente vivo

para afrontar lo que vendrá.
La poesía es estar enfermo. Imagino que esto lo dijo antes algún escritor.

Yo lo escribo con fiebre, en la cama, 2 grados por encima de la realidad común, literalmente enfermo. 
Lo ven, todo queda reducido a palabras. Un cosmos mínimo que te besa en la frente 
cuando nos dejan solos.
Ahora que lo recuerdo, Bolaño escribió sobre la relación enfermedad-literatura.

Pero él estaba verdaderamente enfermo y, de la misma manera, doblemente en alerta. Por eso su lucidez discutía a menudo con la realidad que está por debajo

de los 37 grados.

La poesía que concibo aparece en los mapas rodeada de países y, aún así,

con salida al mar. Sus tesoros corretean por debajo de su extensión

como cangrejos bajo la basura que flota  en los océanos.

La fertilidad de su pueblo es la fertilidad de su selva. 
En cada palabra, todo lo relacionado con el más allá está unido con el más acá. 
Los delirios de su imaginación son el desayuno para los campeones. Pero no les miento,
de ese plato nutritivo come todo el mundo.

Dicen que nada está escrito hasta que lo está. La poesía que contemplo
vive en el primer estado. Lo demás es lo que se vende en las lonjas,

en los escaparates, lo que traen a los puertos industriales los buques

de más de cincuenta metros. Por qué contar otra cosa.
Aquí los animales expulsados del reino animal y todas las demás especies
pisotean los mismos pastos y se manchan por igual de barro los bajos del pantalón. Repito, nadie queda excluido de esta casa si trae en la boca

un puñado de buenas intenciones.
Aunque para estar enfermo no sea suficiente con decir, este es mi cuerpo.

INTERMITÊNCIA, Linguagem, Perspectiva, Oxímoro e Arte

254. INTERMITÊNCIA

Todos lhe diziam que falava demais, que devia ouvir-se, mas ele não ouvia ninguém e continuava a falar, a falar, a falar. Um dia, nunca soube bem porquê, calou-se e ouviu-se finalmente a si próprio. Percebeu então que eles tinham razão, e disse-o a todos, um a um, para que soubessem que assim era, uma, outra e ainda outra vez, sem parar.


277. LINGUAGEM

Queria ser o melhor, mas cedo percebeu que não era suficientemente bom para ser o melhor entre os melhores; e o mesmo quanto a ser o pior, porque também não era suficientemente bom para ser o melhor entre os piores, que o mesmo é dizer o pior entre os piores. Decidiu então que seria o melhor dos medíocres, o que penso que conseguiu ser, senão o melhor, pelo menos um dos melhores, porque a maioria esmagadora dos medíocres não é mais do que isso, e ele poderia, sem dúvida, ter sido melhor, muito melhor, o que julgo que afinal lhe aconteceu.


301. PERSPECTIVA

Irritava-se por tudo e por nada e, por mais que tentasse, não conseguia mudar, no entanto, um dia sentiu-se sereno, extraordinariamente sereno. As pessoas começaram a fugir dele, dizendo que estava morto, mas ele sentia-se bem, extraordinariamente bem.


325. OXÍMORO

O poema é uma prática de silêncio. O poema, como cada uma das suas palavras, tem sempre um lado de fora e um lado de dentro. O poema nunca é parte de coisa alguma, o poema é sempre um todo. 
Ele sabia que assim é. 
Ele sabia
que só o grito do poema 
permite
verdadeiramente
ouvir o silêncio
que sempre o compõe.


351. ARTE

Subiu ao palco e imobilizou-se à boca de cena, olhando o público, um sorriso tímido a aflorar-lhe o rosto pálido. Quinze minutos depois nada mudara, com excepção da agitação crescente do público que, pouco a pouco, ia abandonando a sala, soltando impropérios e risos de escárnio. Quando ficou sozinho o homem fez uma pequena vénia e saiu sem pressas pela direita.

Amarilla

Naciste tierra en tu isla,
tierra de almendro humedecida.
Cuando llueve sudas lágrimas,
de río, aparición y pecas;
cuando no te riegan,
cicatrices de color en la quimera.

Yo te quiero, tierra, amarilla
y siempre tierra,
infinita, luz y calma,
que respiras y me besas.

Yo te sueño, amarilla,
liviana y habanera,
con el fuego de volcán antiguo
que agoniza en tu ladera.

Vencerás,
(si esperas)
amarilla tierra.

É Janeiro muito tempo na noite

(história desse homem antigo) 
 
Um homem muito antigo, caminhando, 
ocupando demoradamente a rua. 
É de noite. Uma plúmbea noite de Janeiro, 
ou o Janeiro denso e severo prostrado numa só noite. 
Caminha de forma velha, o homem. 
É muito antigo o seu caminhar. 
É um homem louco, uma loucura muito atenta. 
Caminha durante uma hora inteira 
em redor desta mesa. Procura. 
Traz ao pescoço as chaves. Todas as chaves. 
Uma hora, desta noite dura de Janeiro, 
caminhando à volta desta mesa 
com as pesadas chaves vergando-lhe as costas. 
É muito antigo o caminhar do homem louco e atento, procurando. 
É Janeiro nesta aguda noite e ele caminha louco, 
muito atento, 
com os ferros minguando-lhe a face de muitas estações. 
É demasiado tempo para se ter dentro. 
Os olhos atentos do homem, procurando no chão 
em redor desta mesa. 
Encontra. A sua louca atenção 
encontra uma fenda no chão, perto desta mesa, 
nesta noite muito antiga de Janeiro. 
Retira da sua loucura muito atenta 
uma chave muito grande 
e lança-se longamente ao chão da rua 
demoradamente ocupada. 
Introduz a chave velha e grande na fenda encontrada, 
roda algumas vezes: 
primeiro para a direita e depois 
para a esquerda da sua atenta loucura, muito antiga. 
Chove um pouco 
sobre o peito aberto da noite velha de Janeiro… 
e o homem muito antigo está deitado 
sobre a chave muito grande 
cravada na fenda da sua loucura. hoca-a durante semanas. Talvez mesmo anos. 
Mas é sempre aquela noite. É sempre Janeiro naquela rua. 
Dorme muito tempo, muito antigo, o homem na sua loucura. 
Dir-se-ia que descansa ou que aos poucos deixa de ser louco: que morre… 
Mas apenas sonha. 
Tem em si muito tempo, muito ferro na face. 
A atenção da sua loucura vira-se para dentro. 
É de noite e ele chegara muito antigo, 
caminhando, demoradamente, pelo Janeiro desta rua. 
Uma hora inteira em redor desta mesa 
muito atento, procurando. 
Agora está deitado, há muito tempo, 
com a loucura por dentro, sonhando, germinando. 
Janeiro é um mês que nunca acaba nesta noite. 
Olho para o homem muito antigo 
e não sei se voltará à noite dura de Janeiro. 
Não sei se o fragor de cavalos batendo, loucos, 
com as ferraduras nos olhos 
é som de coisa que quer entrar ou sair. 
Não sei. 
Chove cada vez mais sobre as coisas da rua e nada parece acabar. 
O tumulto do metal batendo nos olhos… 
o som entrando e saindo, 
germinando a loucura por dentro. 
Penso em levantar-me. 
O homem - muito antigo, atento, 
demoradamente deitado sobre a chave muito grande, 
cravada na fenda do chão molhado da noite louca de Janeiro - está frio. 
É cada vez mais noite. Cada vez mais Janeiro. É demasiado, o tempo. 
Os cavalos batem, soterrados, a loucura que sabem nos olhos. 
Os cavalos aterrados batendo, loucos, o Janeiro eterno da noite. 
Um homem muito antigo, deitado 
chocando na loucura atenta os sonhos por dentro. Incubando. 
Levanto-me. 
Caminho demoradamente. Caminho o Janeiro desta rua: 
a sua noite interminável. 
O peso verga-me as costas. As chaves são muito pesadas ao pescoço. 
É muito longa, a louca noite de Janeiro. 
Procuro, muito atento, o som dos cavalos loucos, 
batendo nos olhos os ferros muito antigos. hove cada vez mais. Caminho. 
Já não vejo o homem muito antigo 
sonhando, por dentro, a sua loucura. 
A rua é muito longa quando se anda à roda. 
É sempre Janeiro naquela noite louca. 
Procuro pelo chão os cavalos batendo nos olhos 
a sua loucura demoradamente nova. 
As chaves são muito grandes. 
É de noite na rua interminável de Janeiro. 
Caminho muito atento, com a loucura procurando, 
germinando por dentro… 
…muito antigo, demoradamente. 
 
 (Tavira, Janeiro)