crítica do juízo

é como descer a ladeira,
“descer a ladeira”, você diria;
e tem razão,
e todos os nossos dias já contados,
          grão a grão,
degraus na escadaria.

 e você, tão delicado, tão afeito ao certo
          ou necessário
requer algum dénouement,
velha honra em velho código
― guerreiro ou cavalheiro ―
mesura no gesto de lenço
ou o toque na aba do chapéu
           (capricho no desuso): 

jardins com etiqueta de botânica;
doses breves,
           mas intensas,
de café após o almoço
e ao fim da tarde.
           “ o acaso agora é regra,
não surpresa ou exceção;
           tudo é cor demais, a toda parte,
e a esquecida arte da grisaille?”

 ordem do requinte, o seu cinzento,
ou o prever de dobras num panejamento;
           havia planos para o cosmos e a cidade.
tentaram tudo e fracassaram
docemente: a rédea morre antes do cavalo,
e o resto, você diz, é natureza.

Entrevista a um génio incompreendido

Latagão. É o que se me ocorre mal vejo este artista multi-facetado. Um génio dotado de um fantástico corpanzil, preso a uma camisa preta de tamanho S e sugando cigarrinhos slim. Tudo em torno deste homem parece pequeno. Os seus próprios livros diminuem duas estrelas em todas as secções de escrita cultural da nação perante o génio do autor. O longo cabelo corrido só acrescenta um charme a uma voz fina mas não feminina, fina porque poética, fina mas ao mesmo tempo arrebatadora, de um timbre pronto a inspirar multidões. O génio não tem muito tempo para entrevistas. Não por acaso, esta é a primeira que concede na vida. Avisada que estava pela sua prestimosa companheira de que não gostava de ser interrompido durante o processo criativo, foi com receio que apliquei três pancadinhas na porta da sala. “Entre”, ouvi, e logo fiquei rendida. Estava apaixonada. 

Por que motivo está a montar uma estante e não a escrever?

A criatividade não se restringe à escrita. Sou dramaturgo, poeta, editor, romancista, palrador, jogral e ainda empresário (não gosto da palavra manager) de bandas de música close to the heart, em Portugal injustamente apelidadas de pimba. Passo dias a fio encerrado nesta sala. Esperava que ficasse oito, doze horas a escrever? A fazer teses de doutoramento? Não. Um artista deve contribuir para a sociedade. O meu contributo é vasto. O meu curriculum é conhecido e fala por mim. O verdadeiro artista deve afirmar-se como um homem da renascença. Firmar créditos em diferentes áreas da produção artística (neste ponto o génio segura o martelo com firmeza e pronuncia grave e lentamente:) e nada é alheio à minha produção artística.

Mas não imaginava apanhá-lo de martelo na mão. 

Por isso não é artista, falta-lhe imaginação. Adoro surpreender. Às vezes, a minha mulher chega a casa e espanta-se. Diz: “Quiduxo, mudaste a casa toda.” Viro a casa do avesso. Entretenho-me a montar armários, estantes. Lixo, passo tapa-poros e envernizo portas. Um mestre. Não querendo ser imodesto, julgo que se nota um certo tom eclético na minha obra. Passo de uma estrutura formal clássica a uma mais experimental num piscar de olhos. E não só ao nível da forma. Veja os temas sobre os quais me debruço. Tanto aparece um professor preocupado com as grandes questões do ensino, como um viajante europeu enclausurado num tempo de alienação, feito de linhas eléctricas, de comunicações incomunicáveis elaboradas a partir de fios já sem fios, de cores e trovões imperceptíveis à vista desarmada. 

O que pode um homem sozinho?

Mudar o mundo. Ou vá, pelo menos criar o meu, perdão, o seu próprio raio de acção. O raio de acção sanciona, ou devia sancionar, o direito do artista de viver da escrita. O artista é heroico, menina, expõe-se aos trovões, aos raios e mesmo até às borrascas para iluminar o povo. (Neste ponto a cinza do cigarro do génio cai sobre a mesa, ele prontamente pede-me que segure no cigarro e delicadamente segurando no copo de whisky varre a cinza para dentro do copo quase vazio, erguendo a cabeça e brindando-me com um esgar determinado.) É por isso que me sacrifico pela humanidade todos os dias, com a minha escrita, a minha actividade de editor, dramaturgo, aqui fechado nesta sala. O artista sacrifica-se, menina. Mesmo quando foi a feira de bric-à-brac de Cantanhede, eu gostava de ter ido. Mas um artista tem de se sacrificar (o génio levanta a voz), não é quiduxa? (A mulher do génio não responde.) Ainda hei-de ser uma espécie de best-seller dos escritores subterrâneos. Um Herberto Helder da prosa. Quero ser uma testa enrugada que fale mais do que um livro. Não sei se me entende. Tenho este problema de estar à frente do meu tempo. E o meu espírito de sacrifício incompreendido, que brota do meu amor à arte e à humanidade. (Sacando de outro martelo de debaixo da mesa, ergue-se  de repente e martela dois pregos que estavam salientes na estante ao lado dele.)

“Ainda hei-de ser uma espécie de best-seller dos escritores subterrâneos. Um Herberto Helder da prosa. Quero ser uma testa enrugada que fale mais do que um livro. Não sei se me entende. Tenho este problema de estar à frente do meu tempo.”

Quando percebeu que estava à frente do seu tempo?

Em Budapeste, quando vi um táxi capotar à minha frente. Pensei que se Deus não me matava era porque me queria para uma missão. Nessa noite, enfiei-me no hotel a escrever. Escrevi, escrevi, bebi, fumei, escrevi, escrevi. Quer saber? Aquela obra-prima chamada Cabos de Tensão foi escrita numa única noite. Nessa noite em Budapeste (sorrindo de orgulho, penteia-se com aqueles dedos grossos e irresistíveis que transformam qualquer cigarrinho num palito). Foi aí que percebi que a humanidade é sacrifício. 

Acusam-no, por vezes, de ser hermético. O que tem a dizer sobre isso?

Acusam o Cristiano Ronaldo de ser individualista. O que tem ele a dizer sobre isso? Ganha duas Bolas de Ouro. O que tenho eu a dizer sobre o hermetismo? Que um dia, quando morrer, darão valor aos meus escritos. Podem não apreciar agora, mas surgirão gerações que me venerarão, que compreenderão a minha essência, a essência do meu sacrifício. Para além da existência há uma essência que vagueia por aí, como essa incomunicabilidade que nos sufoca até ao tutano. Não sabia desta, pois não? (bate com o martelo na estante e sorri desbragadamente). Agora ainda não me dão o devido valor. Felizmente, a minha mulher sabe que sou um génio. Quando eu desmoralizo, é ela quem me repete que sou avant la lettre. Não é, quiduxa? (A mulher não responde, lá de dentro ouve-se o bater de tachos.) Hermético? O meu génio não é hermético, mas não pode ser inteiramente compreendido por este tempo doente e apocalíptico a que o meu génio é sensível. E do qual precisa para escrever. Assim, numa sociedade que não me entende (a Penha de França não é Brooklyn) não tenho outro remédio senão expressar-me em todos os meios que tenho ao meu dispor. E depois o hermético sou eu?

“Acusam o Cristiano Ronaldo de ser individualista. O que tem ele a dizer sobre isso? Ganha duas Bolas de Ouro. O que tenho eu a dizer sobre o hermetismo? Que um dia, quando morrer, darão valor aos meus escritos. Podem não apreciar agora, mas surgirão gerações que me venerarão, que compreenderão a minha essência, a essência do meu sacrifício. Para além da existência há uma essência que vagueia por aí, como essa incomunicabilidade que nos sufoca até ao tutano.”

Fale-nos do seu novo projecto.

 O meu novo projecto irá combinar o meu amor à arte, o meu espírito de sacrifício, as capacidades do meu intelecto renascentista e a minha paixão pela bricolage e pelo bric-à-brac. Influenciado por uma estética brechtiana e beckettiana, mas também pela minha experiência de professor do ensino secundário em Massamá, estou a dedicar-me a escrever o guião para um filme, que será realizado por mim, e em que a personagem principal, Vasco António, um professor de liceu que vive num subúrbio desolado pós-era industrial, em meados de 2055, sozinho na sua sala, medita na possibilidade do amor num tempo alienado em que os media dominam todas as relações entre os seres humanos. Um estranho toca à porta. Há um longo diálogo. Ambos desmontam uma estante, atiram os livros pela janela e começam a construir uma mesa. Qual é a opinião da menina?

Confesso que me soa, não sei como dizer-lhe, vagamente chato. Sobretudo a parte do longo diálogo. 

Desculpe interromper, mas como é que a menina se atreve? A minha meditação metafórica sobre o valor do sacrifício e da humanidade? É um tema importante e sério. Se não houvesse intelectuais como eu, dispostos a sacrificarem-se pela humanidade para a iluminar, o que seria da humanidade? Você diria isso ao Miguel Ângelo quando ele estava lá pendurado de pincel na mão na capela Sistina, que lhe soa chato? Olhe que aquelas acrobacias não lhe hão-de ter feito nada bem às cruzes. Para cima e para baixo, de um lado para o outro, tudo na vertical. Isto é o que eu penso sempre que me ocorre o Miguel Ângelo entretido com a Sistina. Quem se preocupa com as cruzes do Miguel Ângelo? É então este o valor que dá ao meu sacrifício?

Neste ponto, o génio, no seu tamanho de latagão,  aproxima-se ameaçadoramente da câmara, segura firmemente o martelo, e fita com gravidade melancólica a câmara apagada.

Espere, vou ler-lhe um excerto do guião.

O génio sai da sala. Há um estrondo de livros a cair no chão. Uma porta bate. Alguém dá uma joelhada na parede. Vejo-me obrigada a pôr fim à entrevista saindo com alguma pressa pela janela. 

de «Cenas de uma vida conjugal»

Rosto negro de tão curvado, como
se já não escutasses a desatenção:
nem te pergunto pela urgência
da sílaba, a fraga, o vestuário da dor;
tenta só equiparar minha cabeça doente.

Longe da idade da família, intumesce a certeza
cintilante de ser uma só voz entre pulsos reflectores.
Remexemos o baralho de horas e papéis; às vezes, é
só a indecência de outra coisa morta debaixo da mesa.

Nunca mais comeremos da mesma pobreza fumegante:
agora é a vez do cigano à porta, arrancando peles,
mostra-te as melhores partes, experimenta,
esfrega-me o nariz no risco entontecido da tarde.

Os pedaços de Simon

Simon (Brady Corbet) é um americano acabado de sair da universidade que, tendo sido abandonado pela namorada, viaja para Paris de modo a superar o desgosto amoroso. Precisa de esquecer a mulher. Sucede que em Nova Iorque, Londres ou Paris, a nossa cabeça é a mesma. Os fantasmas e fantasias acompanham-nos para todo o lado. Simon vê mulheres novas e bonitas mas não esquece a mulher que o deixou. Além disso, não sabe interagir com outras mulheres, faz má figura. Olha para duas parisienses e, qual marciano, persegue-as, faz-lhes perguntas descabidas, entra com elas no metro e, como não sabe dialogar como um terráqueo, segue viagem sozinho. 

O realizador americano Antonio Campos consegue em Simon Killer (2012) contar brilhantemente a história de um rapaz perturbado, auto-centrado, incapaz de gerar empatia. Simon conhece uma prostituta chamada Marianne (Constance Rousseau). Ela diz-lhe que ter sexo com ele será um real prazer, uma vez que todos os seus clientes são mais feios e velhos. Simon acredita e envolve-se, não se apaixona, que Simon nunca se apaixona. Ele sofre pela ex-namorada, liga-lhe incessantes vezes sem que seja atendido, mas não revela qualquer sentimento, antes obsessão, a mesma obsessão que o liga à prostituta. Estamos na presença de um narcisista que (só) chora por si mesmo. Campos apresenta os eventos a partir de fragmentos. O que temos é o olhar claustrofóbico de Simon. Não vemos as cabeças das pessoas mas um ombro, um pedaço da nuca, uma perna. Recortes. Um recorte da prostituta no chão. Uma perna coberta por uma liga preta e uns ténis converse a seu lado pertencentes a um homem aparentemente apático, submerso nos seus pensamentos sobre si mesmo.

Simon começa a viver com a prostituta. Não há amor. Repita-se. Amor não é obsessão. Em dado momento, Simon convence a prostituta a chantagear alguns dos seus mais ricos clientes, filmando-os enquanto fornicam. Não sabemos quais as motivações do par. Talvez uma forma de ganhar dinheiro. Uma forma de ir abandonando a prostituição. Simon só convence a prostituta a fazer algo do género por não sentir nada por ela e por ela já não saber amar como uma rapariga da sua idade deveria amar. O plano corre mal. Marianne é espancada. Simon vira-se para uma bonita francesa ao mesmo tempo que deixa a prostituta em casa, curando-se sozinha do espancamento. Também Simon acaba por espancar a prostituta quando se farta dela, quando ela já não lhe serve. Bate-lhe tão violentamente que se fica com a sensação (mas sem a certeza) de que a moça morreu. Simon acha que a matou e liga desesperadamente para a mãe e chora, chora, chora, parece uma criança arrependida, uma criança não verdadeiramente arrependida, desejosa de se livrar de qualquer condenação. Mãe, livra-me disto. 

Simon é um assassino, um canalha e um cobarde e nada de bom sentimos por ele. Não é daqueles anti-heróis que suscitam a admiração do espectador. O seu mundo é amoral e retalhado. Não o vemos procurar a salvação ou a cura para os seus desgostos amorosos. Simon é alguém que só consegue ser doente, obcecado, não existe bem nem mal no seu mundo, só patologia, pedaços de espelho espalhados por Paris, umas nádegas, duas mulheres perdidas na noite, um bordel qualquer, uma ex-namorada sem cara e sem voz. Uma espécie de incomunicabilidade. Simon é incomunicável. Fala para dentro, pensa para dentro. Nem o espectador sabe o que pensa. O realizador está de parabéns, criou um psicopata e fez-nos sentir repugnância ou desprezo pela personagem.