'Só existe cultura plural. E no plural.' Sergio Maciel entrevista Guilherme Gontijo Flores

Guilherme Gontijo Flores, 2014 (Fonte: Gazeta do Povo)

Guilherme Gontijo Flores, 2014 (Fonte: Gazeta do Povo)

 

recentemente eu, sergio maciel, comecei uma série de entrevistas com poetas contemporâneos brasileiros. de algum modo, entrevistas sempre foram, para mim, algo um tanto interessante; como se aquela figura famosa cercada de uma aura intocável mostrasse a falibilidade humana a cada resposta. esta entrevista é a segunda parte dessa série, que começou com uma entrevista com a poeta adelaide ivánova, publicada no escamandro e se deu menos por motivos de curiosidade e vontade de descobrir as ideias do entrevistado do que para registrar boa parte das coisas que temos conversando informalmente nesses últimos anos. gosto de acreditar que isso se dará assim, como um registro onde se possa verificar, daqui certo tempo, as próprias crenças e contrastar, revisar, eventualmente. guilherme gontijo flores é professor de literatura & língua latina na universidade federal do paraná (UFPR), tradutor (traduziu, entre outras coisas, as elegias de sexto propércio; a anatomia da melancolia, de robert burton; as odes de horácio & os fragmentos de safo) & poeta (publicou em 2013 seu primeiro livro de poesia, brasa enganosa, que foi finalista do prêmio portugal telecom; em 2015 publicou suas tróiades – remix para o próximo milênio; em 2016, l’azur blasé ou ensaio de fracasso sobre o humor). sem mais, passemos às palavras do entrevistado.

Talvez esse seja o maior clichê de todas as entrevistas com poetas, mas eu ainda creio que todas as repostas dadas, ainda que também clichês, sejam sempre blocos de uma construção que gostaríamos de ver pronta de uma vez por todas. Quase repito aqui uma pergunta feita a Anne Carson, você tem uma definição pessoal sobre o que é poesia? Se sim, como a partir dela você concebe seus poemas, seu ato de escrita e o próprio papel de sua poesia?

Não tenho definição pessoal, mas vivo dela, e esse não-saber me fascina. Desde que comecei a estudar poesia, fui atrás de tradições diversas (poesia grega, romana, ameríndia, árabe, egípcia, persa, chinesa, japonesa, moderna, vanguardista, etc.) e vi que as definições, práticas e possíveis funções variam muito. Ela pode curar, matar, provocar transes, devires, seduzir, deslocar, enfim, é o meio mais radical de performar no humano por meio da linguagem (será que fiz uma definição?). Talvez seja por isso que tento, nos últimos anos, escrever para além do que me foi dado na minha tradição como dever da poesia; claro, isso não é nenhum sonho de novidade pura, mas de testar mesmo o que pode ser poesia pra mim. E talvez esse fazer que é uma busca seja o fazer poesia.

Se pensarmos em termos de um paideuma, qual relação você estabelece entre seus textos, suas traduções, suas performances e, até mesmo, sua profissão? A questão é: considerando seu interesse por um corpo-político, pela voz, pelos limites da questão do autor, para você, é possível traçar algum limite entre esses campos? É tudo obra de um mesmo corpo? Se sim, qual influência objetiva esses gestos exercem sobre os outros?

Gosto de sonhar um corpo que se desmonta e se desdobra, como nos sonhos as coisas e pessoas mudam porém permanecem as mesmas, ou estamos em locais que conhecemos por nome, mas nunca vimos na vida. Se for assim, há um contínuo disruptivo entre escrever um poema que assino como meu e escrever um poema que assino como tradução, e também em performar vocalmente essas produções, bem como os poemas em outras línguas ou poemas de outros autores. Sei que o sonho é já uma política, naquele sentido amplo que vem se perdendo em nosso país, e busco que essa pluralidade de vozes alheias (em tradução, intradução) que atravessam novos corpos pode ser um verdadeiro exercício de alteridade: sem o fetichismo teórico de termos que por vezes se esvaziam (alteridade é dessas palavras que, de tanto a repetirem na academia, talvez já diga muito pouco), mas que por ser mesmo experimental nos dá alterações.  Mas você me perguntou de influência objetiva, e eu realmente não sei responder. É claro que tenho poemas próprios que são feitos via tradução, portanto usurpações, diálogos intensos de vozes, alheamento da minha própria quem sabe. Por outro lado, também traduzo como quem precisa dessas traduções, como quem anseia ter escrito aqueles poemas já escritos e usa a chance da língua alheia como desculpa para criar na língua própria. Seria isso objetivo? A tradução como anseio criativo, e a criação como demanda tradutória?

Há um maniqueísmo meio besta no mundo que quer dividir as coisas entre livro impresso e digital, revista literária e blog, poesia e canção &c. Partindo dessa dicotomia que o povo faz, quero saber se você acha que há alguma diferença estética ou formal, não política, se é que é possível separar essas coisas num discurso, entre poéticas masculinas e femininas. E, se há, como lidar, então, com as poéticas de um corpo-poético trans, como o de Georgette Dee, por exemplo?

Cada vez mais acho que nossa obsessão categórica diante do mundo é um perigo, no pior dos sentidos. Até hoje, por exemplo, não conseguimos dar a devida atenção às literaturas que não se restringem ao livro como meio (penso nas poéticas online em várias línguas, nos pixos, nas poéticas orais de povos minoritários, e até mesmo na canção - veja o bafafá do Nobel dado a Dylan). Sobre o canto de Georgette Dee, ou como faz-se poesia a partir desse corpo trans, certamente eu não sei responder um modelo do “como lidar”.  Talvez possa apenas propor uma abertura para ouvir, de fato ouvir o que se fala naquele corpo, porque ele ressignifica tudo, como todo corpo ressignifica (outro dia andei pensando no termo “assignificar”, como “a-significar”, tirar do sentido e “ad-significar”, dar uma assinatura: assinar como dar o sentido do corpo, que extrapola o sentido de uma linguagem pura, para pensarmos a linguagem como corpo). Num livro que terminei de escrever com Rodrigo Tadeu Gonçalves, nós comentamos uma canção cantada por Dee: nela, ouvimos o desejo “Zehn Frauen muss ich sein” (“Dez damas quero ser”, na minha tradução). Bom, o poema é um experimento ficcional de Erich Kästner; mas no corpo de Dee é impossível não pensar que sua sexualidade está em jogo no poema, ele, quando é cantado por Dee, torna-se um discurso do corpo que se apresenta politicamente. E nós precisamos ouvir esse poema de quem deseja ser uma mulher. Freud se perguntava “O que quer uma mulher?”, e nós precisamos nos perguntar também “O que é querer ser mulher?”. Certamente não haverá resposta fácil, mas há como ouvir.

O que mais te atrai em termos de poética hoje? Quais poéticas contemporâneas, tanto nacional quanto estrangeira, têm tomado mais o seu tempo? Quais poetas? E por quê?

Quando penso em contemporaneidade, sigo os passos de Eliot, Pound e dos concretos. Há um sincronismo panhistórico em jogo. Nesse sentido, a poesia contemporânea que mais me fascinou nos últimos tempos sãos escritos em língua náhuatl (dos astecas) feitos pelos espanhóis ainda no século XVI. É uma poesia viva e poderosa que me diz muito sobre o massacre indígena em curso no Brasil ainda agora, que me lança a pensar sobre problemas de antropologia, poética, tradução, performance, etc. Mas tenho lido muitos contemporâneos no sentido estrito, dentro e fora do Brasil. Em vez de citar nomes, eu diria apenas a um certo filão lamentatório que insiste em afirmar que não há poesia interessante no presente: deixem o mimimi e vão ler as obras, vão procurar as obras; essa reclamação deixa claro que eles não viram um décimo do que está por aí, não vasculharam as pequenas editoras, os sites, os blogs, as revistas, etc. Pelo contrário, arrisco dizer que vivemos um momento impressionante, sobretudo na poesia brasileira, com uma potência de poéticas muito diversas e, ao mesmo tempo, capazes de conviverem como há muito tempo não víamos.

Aproveitando o gancho da pergunta anterior, se você tivesse que indicar vinte livros de poesia contemporânea, publicados nos últimos dez anos, quais seriam?

Bom, você insistiu né? Vamos lá, vinte livros dos últimos dez anos, só no Brasil, sem pensar muito no assunto. Quando terminei já tinha em mente mais pelo menos uns 10 autores que ficaram de fora.

2016Seiva veneno ou fruto, de Júlia de Carvalho Hansen

         Furiosa, Ana Rüsche

         Siga os sinais da brasa longa do haxixe, de cavalodadá (Reuben da Rocha)

2015           Os ilhados, de Ismar Tirelli Neto

2014           Transformador, de Dirceu Villa

         A duração do deserto, de Nina Rizzi

2013           Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas

         Quando a Terra deixou de falar (cantos da mitologia marubo, por Pedro Cesarino)

                   Lira de lixo, de Adriano Scandolara

2012           Ciclo do amante substituível, de Ricardo Domeneck

2011           Roça barroca, de Josely Vianna Baptista

         Os dias ímpares, de Sergio Blank

2010           Modelos vivos, de Ricardo Aleixo

2009           Monodrama, de Carlito Azevedo

         Yãmixop xunim yõg kutex xi ãgtux xi hemex yõg kutex: cantos e histórias do morcego-espírito e do hemex (autores da Terra Indígena do Pradinho, org. final de Rosângela Pereira de Tugny)

2008           Tratado dos anjos afogados, de Marcelo Ariel

         Cinco lugares da fúria, de Pádua Fernandes

2007           Baque, de Fábio Weintraub

2006           Margem de manobra, de Claudia Roquette-Pinto

         Estamira, filme de Marcos Prado sobre essa mulher. Há também um livro.

O peso dos concretos na nossa vida é algo inegável. Houve, inclusive, quem tenha conseguido ver no seu primeiro livro de poesia algo haroldiano. Na condição de tradutor e poeta, como você lida com essa influência? Pra você há uma espécie de “angústia”? Que caminhos a crítica poética e tradutória deve tomar daqui pra frente?

Não sinto angústia. Haroldo de campos é uma figura fundamental, mas tenho pouca afinidade com sua poesia autoral; retorno sempre à sua escrita teórica e crítica, e sempre mesmo às suas traduções.

Mas que caminhos a crítica poética e tradutória deve tomar? Eu não sou prescritor de regras. Se for pra sugerir algo, diria que devem deixar de ser caretas, procurar correr risco.

Você tem algum poeta que permaneceu com você desde a primeira a leitura, que vem atravessando os anos ao seu lado e que, de alguma forma, te influencia?

Rimbaud foi minha primeira experiência poética de quase-maturidade. Eu devia ter uns 17 anos. Já tinha lido Bandeira, Drummond, Andrades, etc., que também continuam comigo, mas de modo muito diverso. Rimbaud, curiosamente, só cresce, embora eu o releia muito pouco. Outro que parece só ficar maior é Whitman. E Drummond. E cummings. E Ungaretti. E Horácio. E Safo. E Homero. Pronto, já exagerei, acho que carrego muita gente comigo.

Considerando que nosso tempo não mais cultiva, ao menos deliberadamente, a ideia de um gênio contemporâneo (porque ainda há por aí essa ideia do gênio em Shakespeare, Dante, Goethe e tantos outros clássicos, por exemplo) e que o rótulo de erudito é uma coisa bem ultrapassada, alguns diriam até impossível atualmente, como você lida e compreende as ideias de “cultura”, “clássico”, “tradição” e “conhecimento”, que sempre estiveram relacionadas a uma elite intelectual e econômica? Qual é a serventia dessas coisas no nosso mundo? Como você trabalha com enxerga e trabalha com a transmissão disso tudo na sua profissão de professor?

Só existe cultura plural. E no plural. O que a gente chama de educação, na nossa sociedade, deveria servir pra gerar um engajamento crítico na formação dos cinco sentidos, e esse engajamento é feito de dissenso, não de harmonia pedagógica. Mas, sabemos, não é bem o que acontece. Então, não acho que alguém tenha qualquer dever de conhecer “os clássicos”; mas dificilmente alguém vai perder tempo se parar pra olhar o que tem ali com calma. A tradição é assim, como diz a etimologia, um entregar através, um dizer para além, que a gente pode ou não repetir. Ou pode, como eu mesmo tento no mundo de letras clássicas, dizer de um jeito todo outro, que parece mesmo nem repetir quando bem repete. É outro sonho.

Pequena entrevista a Luís Ene (e selecção de textos)

Entrevista a propósito do lançamento do livro Escrever é dobrar e desdobrar palavras à procura de um sentido (Lua de Marfim, 2016)

Contactei pela primeira vez com Luís Ene a partir da revista online “Minguante”, que agregava um vasto conjunto de jovens e menos jovens autores, essencialmente portugueses e brasileiros, unidos pela vontade de publicar contos muito breves. Em 2007,  por ocasião da apresentação de uma antologia luso-brasileira (Contos de algibeira) daquilo que então parecia ser a grande moda literária do momento, a microficção, apertei pela primeira e única vez a mão ao autor. A sensação com que fiquei foi de estar a lidar com um homem afável e bom, embora, por nunca mais  com ele ter privado, nunca tenha confirmado essa sensação, que ainda se mantém. No ano seguinte, tanto eu como o Luís tivemos textos incluídos na Primeira Antologia de Micro-ficção Portuguesa. Muitas vezes acontece-me esquecer quem sou, livro de 2006, em edição bilíngue (português/ espanhol), e Saudade de Água - Memórias de Faro (2011) são duas obras de Luís Ene ilustrativas da sua atracção por textos que, não obstante sejam muito, muito curtos, contêm algo mais essencial para a literatura do que o relatar de uma história, a intensidade. No referido livro bilíngue encontrei um texto que ainda lembro como algo que ensina a estar neste mundo (e talvez seja disso que se fala quando se fala de literatura): “Um homem foi ao fundo uma vez, outra, e outra ainda, mas não morreu. A questão que lhes quero colocar, caros leitores, não é quantas vezes mais pode ele ir ao fundo e ficar vivo, mas sim quanto tempo poderá ele ainda estar vivo sem ir de novo ao fundo.”

Olá, Luís. A revista “Minguante”, da qual foste um dos editores, publicou dezenas de autores. Como eu, muitos deles publicaram na revista os seus primeiros rabiscos ditos literários. Talvez não erre se afirmar que as duas antologias de microficção em que participei existiram por causa da “Minguante”. Tudo isso passou mas ainda me lembro daqueles tempos e de ti.

Olá, Paulo. Fico contente por estar de novo em contacto contigo, o qual na verdade, sinto que não perdi desde o tempo da "Minguante", ainda que sempre à distância. Penso que foi da única vez que nos encontrámos que me disseste da importância que teve para ti publicar na "Minguante", o que, confesso, muito me agradou. Segui-te sempre com atenção e admiro o que arriscarei chamar a tua coragem e persistência.

Tendo em conta que estamos em países diferentes, deixa-me perguntar-te como estás a escrever. 

Comecei por escrever este texto à mão, num caderno de argolas, pautado. Escrevo habitualmente à mão, porque sinto esta forma como mais natural, mais perto do corpo e de mim, mas a verdade é que teclo devagar, com dois dedos apenas... Escrever à mão é diferente, não se pode cortar, copiar, editar, como não deixaria de fazer se estivesse a escrever diretamente ao computador.

Vou tentar responder a todas as tuas perguntas, porém não vou seguir a ordem em que as apresentaste. A primeira coisa que pensei, quando acabei de ler as tuas perguntas pela primeira vez, foi que o livro que agora publiquei responde, em larga medida, a todas elas; na verdade este livro apresenta-se para mim como um balanço da minha atividade literária, o traçar de um verdadeiro ponto da situação, onde me interroguei sobre de onde vinha e para onde quero ir como escritor que sou.

Trocámos há uns anos opiniões sobre o que seria a microficção. Lembro-me de te dizer que a microficção e os microficcionistas não existiam. Queria dizer que o que existe são textos e escritores, que catalogar ou rotular pode afastar o autor e os seus livros dos leitores. Agora não tenho a mesma convicção. Que é para ti a microficção?

Por estes dias tenho defendido a existência de escritores algarvios e tenho-me apresentado como um deles. Não vejo que esta posição me limite como escritor que sou, porque escritor é o que eu sou primeiro, é essa a minha substância, e só depois sou um escritor algarvio e mesmo um escritor farense. Da mesma forma me digo português, europeu, mas sinto-me, sempre e primeiro, apenas humano. Vêm esta considerações também a propósito da microficção. Na altura, microficção pareceu-me uma classificação suficientemente abrangente para agrupar toda uma série de manifestações literárias breves. Hoje como então, qualificações como esta são vistas em Portugal por muitos e desde logo pelos próprios autores como limitativas e castradoras. Ainda há pouco tempo, um escritor a que eu chamaria algarvio, porque aqui reside e aqui se manifesta, interpelado sobre essa condição, reagiu de forma vigorosa, considerando-a ofensiva e negando-a. E de algum modo o mesmo se passa em Portugal quanto aos poetas e contistas, ainda que de outra forma.

Conheço quem defenda que textos de quatro linhas ou de uma ou duas frases não são literatura. Vejamos um pequeno conto: “Uma mulher apaixonou-se por um homem que estava morto havia anos. Não lhe bastava escovar-lhe os casacos, limpar-lhe o tinteiro, tocar o seu pente de marfim: teve de construir a sua casa sobre a sepultura dele e sentar-se com ele, noite após noite, na cave húmida.” O autor deste conto é Lydia Davis. Autores menores ou menos conhecidos são acusados de não fazer literatura com textos do género. Que dirias em defesa dos teus próprios livros?

Escrever um texto breve e intenso não é fácil nem acontece com facilidade, todavia o que acontece quando confrontamos um excelente texto breve com um excelente texto longo é que o segundo parece sempre pesar mais, mas a verdade é que valorizamos mais o peso do que a leveza quando avaliamos um texto literário. 

Dizer o que se sabe é sempre dizer pouco, por isso prefiro dizer o que não sei, o que é sempre mais complicado. 

Tenho convicções hoje que não são muito diferentes das que tinha anos atrás quando me esforçava por defender a microficção, a diferença é que hoje nem me dou ao trabalho de responder a certas afirmações que são ditadas sobretudo pela ignorância e nalguns casos pelo medo, que andam em regra juntos. Referes Lydia Davis, acrescento Charles Simic (de o Mundo não se acaba, nem mesmo traduzido em português) e até Charles Baudelaire dos pequenos poemas em prosa (O spleen de Paris). O pequeno poema verso “Ama como a estrada começa”, de Cesariny,  não levanta infinitos seguimentos, infinitos ecos? Como colocá-lo no entanto num dos pratos da balança quando no outro está, por exemplo, Moby Dick de Melville? E no entanto…

Uma pergunta que é ao mesmo tempo um lugar-comum: que autores lês, ou melhor, que autores te fizeram querer escrever livros como o que agora lançaste? 

Mário-Henrique Leiria e Ana Hatherly (sobretudo de as Tisanas) são autores que me fizeram sem dúvida querer escrever como escrevo. No primeiro revejo-me sobretudo na ironia breve, no segundo revejo-me sobretudo no experimentalismo feroz.

Que livro gostarias de escrever mas nunca ganhaste coragem para isso?

Um livro que gostaria de escrever, mas que tenho evitado, ou não tenho tido mesmo coragem para isso, seria uma incursão na chamada literatura de não ficção. Elaborei em tempos um projeto, com o titulo provisório de Crimes Exemplares e em que me propunha viajar pelo país e tentar reconstruir certos acontecimentos marcantes, alguns já com vinte anos ou mais, usando todos os meios habitualmente atribuídos aos jornalistas e aos historiadores, mas depois tudo contado na primeira pessoa e recorrendo a processos literários.

No último texto do teu livro, precisamente intitulado “Escrever é dobrar e desdobrar palavras à procura de um sentido”, temos uma lista: escrever até não conseguir escrever mais, escrever por necessidade, não saber por que motivo se escreve, escrever pouco e curto por preguiça, porque é fácil, escrever textos curtos por causa da intensidade, etc. E depois: “Mas não ficou muito tempo a pensar no que descobrira e meteu logo mãos à obra, que era a sua forma mais comum de pensar num assunto”. O mundo é complexo e as histórias, e as tuas histórias, passíveis de ser multiplicadas até ao infinito. Poderias pensar até ao infinito. Tendo estas coisas em mente, consegues resumir em algumas linhas ou frases aquilo que tens sido e aquilo que queres ser enquanto escritor? 

Deixa-me dizer-te que este último livro, na sua unidade, é para mim como um ensaio sobre o que é a escrita, ao estilo de Montaigne, que estou a reler com atenção. E no entanto, cada texto, em si mesmo, é completamente autónomo. Terminei posteriormente uma novela, chamar-lhe-ei assim, e é talvez por aí que quero ir, sendo que escrevo por necessidade e escreverei aquilo de que sentir necessidade. Sou eclético, como me disseram uma vez pretendendo insultar-me, e gosto sobretudo de experimentar.

A partir daqui, o autor prefere explicar-se com textos retirados do blog Diário mais que improvável (http://diariomaisqueimprovavel.blogspot.pt)

Tudo começa na página em branco. Tudo começa quando a escrita invade a página em branco, quando a escrita povoa a página com hesitantes porém determinados começos. E as perguntas começam a surgir. Quem escreve? O que se escreve? A primeira personagem de uma obra literária é sempre o seu autor, ou será que existe escrita sem autor? Pode o ato de escrever ser automático quando existe alguém que escreve? É claro que também existe algo que se escreve. O texto literário é o encontro entre alguém que escreve e um algo que se escreve. O processo, sim, o processo é uma outra história.

 Uma palavra à frente da outra, é assim que se escreve, é assim que se contam todas as histórias. É assim que escreve quem escreve, é assim que se escreve esse algo que se escreve. Parece fácil e é fácil; parece difícil e é difícil. Com as palavras nada é fácil e no entanto nada é verdadeiramente difícil, porque basta colocar uma palavra à frente da outra e esperar que algo aconteça, esperar que algo se escreva. Mesmo quando se responde a um apelo, a uma urgência, escrever é sempre partir à aventura, é sempre estar aberto a todas as possibilidades. Como se escreve? Escreve-se, escrevendo! Escreve-se colocando uma palavra à frente da outra. É pouco? Talvez, todavia é um pouco que é muito. Se queres escrever, escreve! Se precisas de escrever, escreve! Só escrevendo despertarás esse algo que espera ser escrito, esse algo que espera escrever-se.

 Escrevo, palavra a palavra, com cuidado. Observo, observo-me, escrevo. Como se seguisse um caminho que eu próprio imagino mas que me leva quase contra a minha vontade. Estou a caminho, como se conduzisse um carro por uma estrada qualquer

Espero, suspendo a escrita, respiro fundo. Observo, observo-me. Respiro fundo, respiro mesmo fundo, uma e outra vez. Sinto-o e escrevo-o mais uma vez. Tento encontrar a verdade desta mentira que é escrever. 

A estrada está à minha frente, é de noite, estou sozinho; para chegar seja onde for tenho de continuar. Posso perder-me, posso não chegar aonde quero, supondo que sei onde quero ir; mas chegarei a um qualquer lugar, esta é a certeza de escrever.

Estou preocupado, combato medos, luto contra a crescente ansiedade, porém tenho a certeza de que a estrada existe e que chegarei a um qualquer lugar, se a seguir; e isto é escrever.

Mas também posso ficar pelo caminho, pode faltar-me o combustível necessário para chegar, ou pelo menos para me reabastecer e continuar. Avanço, corro o risco, confio na minha sorte, confio nas minhas capacidades, deixo-me levar pelas palavras, aproveito as descidas, faço-me leve, persisto, ignoro os sinais de alarme, digo a mim medo que vou chegar e quando dou por mim, contra todas as possibilidades, cheguei ao ponto que me permite parar, que me permite continuar. 

Observo-me, sinto-me, digo a mim mesmo que vou ficar por aqui, que depois continuarei a percorrer a estrada. Digo-o, escrevo-o, e fico por aqui. Antes de terminar volto ainda atrás, e revejo o que me aconteceu. A escrita é sempre memória de si mesma.

 De entre tudo o que escrevi e não publiquei (em muitos casos nem mesmo em blogues, meio de edição que uso com frequência) percorro alguns livros (ou projetos de livros) a que voltei várias vezes e que arrumei finalmente numa única pasta, no que foi uma forma de organizar o que escrevi para poder seguir em frente e continuar a escrever.

Constato que a minha produção literária avançou nos últimos anos entre a prosa e a poesia, apresentando-se ao mesmo tempo cada vez mais fragmentária e eclética. E isso é muito mais visível no conjunto de livros não publicados, desde logo porque tenho publicado muito pouco. 

É difícil datar estes livros porque a eles voltei muitas vezes, alterando-os, juntando-os, dando-lhes novos nomes e estruturas. Mas não será difícil viajar neles de forma cronológica ou quase. Como a reflexão sobre a escrita é um dos meus temas recorrentes, sobretudo aqui, esse será o fio condutor.

Começo por uma versão alargada de um livro publicado, com dois novos livros, o que faz do conjunto um novo livro. Procuro então um texto (decidi mesmo agora que de cada livro apenas escolherei um texto) e começo a viagem. 

*

Um belo dia, decidiu escrever a história da sua vida. Sentou-se em frente ao monitor, olhou por um momento o dia lá fora, e começou a escrever tudo o que recordava, por ordem cronológica, desde o nascimento, primeiro acontecimento inscrito no rol, sem prejuízo de um breve mas necessário recuo genealógico. Nos cinco anos seguintes, reconstituiu exaustiva e minuciosamente a sua existência até ao dia em que começara a descrevê-la. Quando terminou, leu, duas vezes, as seiscentas e trinta e quatro páginas impressas a dois espaços, e achou o texto incompleto, os cinco anos que levara a escrevê-lo não estavam lá e, o que era pior, não terminava verdadeiramente, não tinha fim. Saiu de casa e deu um longo passeio pensativo ao longo da via rápida, até que foi assaltado pela ideia de que os últimos cinco anos eram o próprio livro, o livro incluía esse tempo de escrita em si mesmo, a descrição da sua vida estava completa, até aquele momento. Sorriu e precipitou-se para o fim, servido ali mesmo na faixa de rodagem por um veículo longo como a morte.

*

Escolhi este texto, hesito, mantenho-o. Textos como este, que eu considerava pequenas histórias, podem facilmente ser classificados, e foram-no, como poemas em prosa, pela sua concisão e ritmo. Avanço e abro outro livro.

*

De um livro com o subtítulo “ a ficção ao microscópio”, que contém três livros retirei este texto que fala da morte e não da escrita, continuando o primeiro texto apresentado mas afastando-me do meu propósito inicial de escolher textos que falassem do ato de escrever. Microficção, classifico, com o que de ambíguo tem a expressão. Continuo.

*

Perguntavas-me o que faz de alguém um escritor. Bastará ser publicado? É preciso ser reconhecido pela crítica? Vender muitos livros?

Eu dizia-te que não era nada disso, que era algo pessoal, íntimo, mas a verdade é que eu ainda não tinha respondido a essa pergunta.

*

Texto breve, fragmentário, abre uma novela em que se mistura prosa e poesia e que usa e abusa do fragmento. Procuro agora num livro de poesia, ou de prosa/poesia.

*

POEMA UM DIA

a minha história é uma história

defrac assos

ostentoos- todos um a

um

alinhad

os no meu peito

aberto

eles são a prova provada

da minha persistência

da minha coragem

da minha teimosia

ser herói não é ser vencedor

ter sempre os olhos postos

na vitória

ser herói é não aceitar

a derrota

sabendo que nunca

se vencerá

termos os olhos postos

em nós

e vermos os outros

termos os olhos postos

nos  outros

e vermo-nos a nós

ser herói é apenas

sermos homens e mulheres

simples

deuses caídos em desgraça

e aceitarmos

o nosso trágico destino

com um sorriso pleno

de revolta

 

[um poema escrito em poucos minutos e em poucos minutos reescrito foi vivido muitos anos, e um dia arrancado de repente ao todo indistinto a que chamamos memória. por isso os poemas dizem tanto mais quanto mais calam]

*

Não me detenho e visito outro livro, sem me interrogar se contém prosa ou poesia. 

*

Está tudo no olhar

 

Está tudo no olhar. Até os cegos olham. Está tudo no ver. Até nas trevas nos conseguimos ver. No princípio é sempre o olhar, nada mais do que o olhar, o ver vem depois, vem sempre depois, depois do olhar e antes do fazer, ou não fazer. O poema pode ser cego mas tem sempre os teus olhos. O poema pode ser obscuro mas nunca é invisível. Está tudo no olhar, não estás a ver? Estás? Então olha!

*

Fico a pensar se me detenho aqui. Já mostrei o que queria mostrar-te e julgo que poderás concordar com as minhas declarações iniciais. Não quero maçar-te, sei que tens mais que fazer, mas vou terminar com mais um fragmento, de uma outra novela, a mais nova.

*

Escrever é viver entre parênteses

Terminada a primeira versão, esforça-se agora em limar as arestas, ou afiá-las, consoante os casos e a perspetiva. Esforça-se sobretudo para ouvir a história, para deixar que a história se conte, como a ideia de que a pedra contém em si a escultura que o artista revela. Faz pequenos acertos, pequenos cortes, esforça-se por encontrar um equilíbrio, esforça-se por revelar a verdade. A maior parte do tempo fica imóvel, em silêncio, escutando, escrevendo. Nunca afirmaria que escrever é viver entre parênteses. Escrever é viver, apenas isso, nada mais.

Entrevista a uma vedeta das redes sociais

Uma frase da série televisiva  Girls  citada pela vedeta durante a entrevista

Uma frase da série televisiva Girls citada pela vedeta durante a entrevista

Ser vedeta maior dos facebuques não apascenta a alma deste escravo de trabalho que, à custa do par de anos a acartar cadernos de bolso a transbordar de frases enigmáticas, entusiasticamente acolhidas pelo crescente número de amigos e seguidores presentes nas redes sociais, virou manco, incapacitado para qualquer actividade laboral que exija ligar despertador, saltar da cama antes das onze da manhã. O seu destino é a grandeza. Os séculos XV e XVI agora na internet e no Bairro Alto. Facebuques, instagrames e tuíteres eram o trampolim necessário para a sua fama literária mas, emaranhado em frases misteriosas, poemas curtos e intensos e fotografias com filtro, a vedeta ficou presa às redes sociais, e a literatura já não é o seu ponto de chegada. Ainda pensa na escrita, não como algo urgente, a ser conquistado todos os dias, antes como um sonho, uma fantasia de verão, daquelas que se têm ao crepúsculo a trocar ideias com compagnons de route, vulgo amigos de facebuque. Não troca o certo pelo incerto. Dá a vida pelo tuíte perfeito, pelo tom de céu mais azulado que o seu android conseguir apanhar. Esta biografia é simples e brilhante: trinta e tal anos a partilhar tecto com os papás, possuidor de um curso de estudos portugueses genialmente por concluir, autor de várias trocas de contactos com o Instituto Camões que não deram em nada, notabilizado por estrofes e contos publicados em antologias e zines da moda e por uma actividade social intensa, consubstanciada em leituras de poesia e bebedeiras nos bares da capital.

 O talento nasceu consigo ou é fruto do trabalho?

Essa é fácil (abre o caderno com as notas facebuqueiras e respiga uma frase). "Talento é 1% de inspiração e 99% de transpiração.” Thomas Edison. Este cadernito é a minha vida (beija o caderno preto de capa mole, marca moleskine). Demorei anos a construir o muro da minha sabedoria. Anos a coligir e melhorar frases de famosos. A maceira que é juntar uma fotografia de um dia na praia a uma citação de William Shakespeare. As pessoas não fazem ideia, a fama exige muito.

Qual o sentimento de ser famoso nas redes sociais?

 Gratificação. Ver o nosso trabalho reconhecido é... Como diria o meu amigo Séneca, o esforço chama sempre pelos melhores. Nos facebuques não há melhor, cheguei a tão elevado nível de excelência que, postando frases como “Jantei verduras”, amealho nunca menos de duzentos likes. Ora, para quem começou do nada, a comer o pó levantado pelo sucesso dos outros, para quem se iniciou nestas lides com cinquenta amigos e postagens na ordem dos dois likes, não é coisa pouca ser considerado o Cristiano Ronaldo das postagens irónico-sarcásticas pelos melhores críticos.

Que críticos?

O Guerreiro.

O António ?

Outro. 

 De que trabalho mais se orgulha?

Sigo o lema de Confúcio. Escolhe um trabalho de que gostes e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida. Trabalhos não tive, só prazeres. O prazer de que mais me orgulho foi uma fotografia captada na Praça do Comércio. Se bem me lembro (sorriso malandro), a loira que aparece de costas era uma sueca que conheci numa festa Erasmus. Tirar a foto foi fácil, menos fácil foi trabalhá-la, passar das cores naturais ao filtro. Naquele tempo (recuamos a 2012), a tecnologia não era a mesma. Atingir os quinhentos likes, ser considerado genial pela minha amiga Cristininha, receber não sei quantos pedidos de amizade. É para todos? Não. É para mim, que cito Adorno sem ter lido uma linha da sua obra.

Que posição ocupa a literatura na sua vida?

 A literatura portuguesa incomoda-me. Não a leio. Nunca li. Quis ser um escritor americano e ainda não perdi esse sonho, falta-me aprender o inglês ou encontrar um bom tradutor ou até um bom ghost-writer, porque ainda não tive paciência para redigir os grandes romances que tenho idealizados (e não são poucos). “Não desesperes, nem sequer pelo facto de não desesperares. Quando já tudo parece ter acabado, novas forças surgem em marcha, e isso significa precisamente que estás vivo.” Quem o disse? Kafka. Enquanto não sou o tal escritor americano, contento-me com a glória nas redes sociais. Tenho um pombo na mão. É melhor do que dois a voar. Antes genial para o Américo do que um anónimo a flutuar num mar desconhecido.

Lê?

Se leio. Como responderia aos comentários dos meus seguidores se não os lesse? (intrigado). Ler livros? (coça a nuca). Ler é sobrevalorizado. Está tudo no facebuque e quem tem google, como dizer, googla, e quem googla, ora bem, é como olhar para a Terra a partir da Lua, vê-se tudo. Poemas, disso leio muito, não que goste. Mas para ser é preciso parecer.

Muitos escritores se debruçam sobre a dor causada pela reescrita. Que tem a dizer sobre isso?

Reescrever. Doloroso. Seria bom que cada postagem minha saísse bem à primeira. Infelizmente, os likes não vêm com primeiras versões. É preciso melhorar e melhorar e melhorar. Em termos literários, não reescrevo pelo simples motivo de não ter escrito. O que de meu saiu em papel foi vomitado, cuspido, esculpido pela sola do sapato. O mundo é complexo. Já ouviu falar da teoria da complexidade de Edgar Morin? (Digo que não). É melhor nem falar disso, ficaríamos aqui a noite inteira e, como sabe, as noites fizeram-se para amar.

Qual a sua opinião sobre Lobo Antunes?

Nunca li. Mas chato.

Diga-me, há pessoa que admire?

Havia. O César. Grande poeta, enorme leitor de poesia. Beberrão. Perdi-lhe o amor quando o apanhei a despejar cerveja no urinol durante a apresentação do livro do Carlos. Sacrilégio. Deitar cerveja fora. Por tudo o que é mais sagrado. Faço minhas as palavras de uma filósofa recente, de seu nome Lykke Li: never gonna love again.

Quais os seus planos para o futuro?

É longo o caminho que vai do projecto à coisa. Molière. Pretendo consolidar a minha glória cibernética, conhecer umas ninfas, morar em Lisboa, arranjar um tacho num jornal a cozinhar recensões, fundar mais umas zines, organizar uma exposição em que se misture versos da minha autoria com obras de artistas plásticos emergentes, ganhar um desses prémios literários atribuídos a tipos que nem assinar o nome sabem, entrar no Lux sem pagar. 

Entrevista a um jovem autor de panfletos dissentores

O autor usa óculos de massa e uma camisa vermelha ao xadrez, calças de ganga e All Stars pretos rasgados. Combinámos o nosso encontro à entrada de uma livraria independente. O autor tem na mão a carteira, uma caneta e um bloco de notas. Informa-nos de que o seu romance acaba de ser recusado por mais uma portentosa micro-editora, após ter sido aceite. Diz-nos ainda que não pretende ser identificado, de modo a estar preparado para a remota eventualidade de o seu manuscrito ser aceite outra vez por qualquer outra badalada editora. Confessamos que esperávamos que este estranho caso de um manuscrito aceite primeiro e recusado depois nos permitisse uma digressão até ao mundo dos livros proibidos, muito censurados antes de publicação e recebidos com escândalo. A postura curvada do nosso Flaubert, o trejeito nervoso com que ele puxava os óculos para cima com o indicador quando estes lhe escorregavam pelo nariz, não prometiam nada de menos sensacional. 

Pode contar-nos qual o conteúdo do seu manuscrito que acaba de ser recusado?

Tratava-se de uma odisseia soft porn, ao género de Fifty Shades of Grey. Alguns dos capítulos tinham sido anteriormente publicados em fascículos nas revistas para jovens autores deste país, o que me pareceu um início promissor. A minha ambição era que as pessoas entendessem que esta não era apenas uma obra de soft porn mas uma metáfora para a falta de espaço e massa crítica que abunda no meio literário português e para a estagnação cultural que os anos da crise instauraram entre nós. Uma pedrada no charco. Uma espécie de Christian Grey encontra Anna Karenina, algo de verdadeiramente eclético e radical. Eu não tenho críticos, menina, tenho detratores. Numa das primeiras recensões aos meus contos, um vate popular no subterrâneo que ganha a vida a fazer recensões negativas a autores da craveira de um José Luís Peixoto e a manuais de informática (com um tal sentimento poético que por vezes estes dois tipos de obras se confundem na minha imaginação), acusou-me de ter juntado assuntos muito díspares, tendo criado um Frankenstein de um romance, uma coisa de verdadeira alta voltagem. A que mais pode um jovem romancista aspirar? Paguei-lhe duas cervejas no Bairro Alto e ele prometeu que me voltava a ligar. Mas agora que o romance não vai ser publicado, como é que voltaremos a ter assunto de conversa? Acha que lhe posso ligar e pedir uma recensão sobre a não publicação da minha fábula febril, da minha poética de uma cultura pop para a Lisboa destes tempos?   

Sinceramente, acho melhor não. Tentou propor o seu livro a outras editoras?

A menina está a brincar comigo? (O autor gesticula, faz um gesto em que une os dedos das duas mãos em redor do polegar, como se isto fosse uma pizzaria em Roma ou se estivéssemos numa coffee shop em Nova Jérsia.) Eu lambi selos e paguei portes para versões impressas do meu manuscrito que viajaram até à Relógio d’Água, Assírio, Cotovia, Quetzal, tudo o que foi morada de editora que apanhei nas listas telefónicas, tal como as fui encontrando por ordem alfabética, pimba, sacava logo do manuscrito, selo, portes de envio, cartas de recomendação a acompanhar o romance. Eu não sou tímido. Toda a gente já sabia que o meu romance estava por aí. Esperei editores quinquagenários em estações de comboio desertas com o manuscrito metido na gabardina, mandei mensagens sugestivas (às duas da manhã) a críticos piolhosos que pudessem assinar seis linhas sobre as minhas colaborações em revistas, sentei-me em longas conferências onde dormitei em salas sobreaquecidas só para apertar as mãos a críticos e perguntar-lhes quando é que uma recensão a qualquer dos meus textos ia sair. Um desespero muito trabalhoso. Até que um dia recebo um email a dizer que o meu manuscrito tinha sido aceite. Só era preciso aceitar as alterações do editor. Concordei com tudo. Beijei-lhe as mãos. O cachucho no dedo mindinho. Aturei os comentários ignorantes daquele energúmeno incapaz de alinhar três adjectivos de modo coerente e que nunca poderia entender a pujança da minha prosa. Agora resta deslocar-me com uma catana dentro da mochila. Ainda haveremos de tornar a falar. Só pararei de me fazer acompanhar da catana quando o manuscrito for aceite para publicação. Andará para aí um visionário com quem ainda não me cruzei. Ele só precisará de ler três páginas da minha obra.  

O seu editor evocou alguma razão em particular para optar pela não publicação do livro após ter aceite o manuscrito?

Não. Fui apenas informado de que se tratava de uma decisão superior do editor. Não querendo caluniar ninguém, devo dizer que tenho boas razões para suspeitar que a isto não terá sido alheio uma recensão menos positiva a que vários dos meus panfletos foram alvo por um crítico que mantém boas relações com o meu editor. Perdão, ex-editor. Os meus panfletos visavam o abuso de citações de autores neo-realistas italianos por parte de um crítico que está, como qualquer génio num país com cada vez menos espaço, condenado a exercer o seu espírito de dissidência num dos jornais mais burgueses de Portugal. Sobre a obra deste crítico, tenho apenas a acrescentar que ele gosta de raparigas mais novas. Acho que isto diz tudo sobre o livro que ele escreveu sobre a relação entre o cinema de Bergman e a filosofia de Kiekergaard. No fundo não se devem juntar assuntos tão díspares. E é preciso ter opiniões de tal modo que nunca venhamos a desagradar aos nossos amigos, e sobretudo não aos amigos dos nossos amigos. Reconheço agora que o meu livro, que se lixe, que toda a minha postura intelectual é demasiado ambiciosa para este país.  

O jovem autor afasta-se de cabeça baixa. Pára a meio, retira da mochila um exemplar de um dos volumes da poesia de Jorge de Sena. Tenta ler enquanto anda. Uma chuva miudinha começa a cair. Ele tropeça na calçada e bate com o queixo no chão. O livro rodopia e aterra numa poça. Mais um génio sufocado. Podíamos ajudá-lo a levantar-se, dar-lhe um beijo na testa, ajudá-lo a apanhar os fragmentos dos óculos, mas ele podia pensar em enviar-nos o manuscrito e não convém incomodar os editores que sempre gostaram de nós.

Breves questões a um crítico

Encontrei-me com Alberto (o pudor e a humildade inibem-no de revelar o seu nome real), um dos mais prestigiados críticos literários da sua geração, numa reputada e careira confeitaria situada no Rossio. Enquanto aguardava pela minha chegada, este enfermo de uma horrível mania da pontualidade degustou dois “sublimes” pastéis de nata pintalgados de canela, um café “sem princípio” e telefonou à mãe, viúva que reside sozinha num apartamento parisiense a transbordar de gatos. Quando aportei, ainda dentro dos trinta minutos académicos, repousava em cima da mesa do pensador um montinho de obras poéticas dadas à estampa por talentos lusitanos para mim desconhecidos. “São bons?”, perguntei-lhe, ao que me respondeu que não sabia, pois não tinha por hábito ler livros sobre os quais escrevia. Os livros estavam ali à espera de um garçon escrevinhador de versos, que trocava bolos por poemas.

 

Num lendário bate-boca travado com o chamado “Poeta Desconhecido”, Alberto afirmou-se recentemente como o supra-Gaspar Simões. O que quis dizer com isso?

 

Em 1912, Fernando Pessoa anunciou a vinda do supra-Camões. Presumo que o novo Camões fosse o próprio Pessoa. Dada a minha natureza chalaceira, não demorei a apossar-me deste supra que, a juntar a Gaspar Simões, símbolo da crítica literária, me conferiria o transcendente título de crítico-mor da pátria. Quem, para além de mim, o melhor dos melhores, o crème de la crème, poderia assumir esse papel? Além disso, é notória a influência que o meu método de trabalho tem exercido sobre outros críticos.

 

Como descreveria o seu método de trabalho?

Há uns anos, ainda jovem de barba rala, lia qualquer coisa, devorava literalmente tudo. Era confuso, não distinguia os bons dos maus livros, até que uma depressão nervosa me fez entender que não havia homem mais importante no meu mundo do que eu. Reduzi as leituras até chegar a um número redondo, o zero. A leitura perturba o discernimento, a capacidade analítica. Passamos pelos dias sem dar pelo sol ou pela chuva, zonzos de tanto papel varado. Pagam-me para escrever uma vez por semana, abandonar a leitura foi um grito de sobrevivência. Chegara ao precipício da existência, ou eu ou os livros, ou a saúde ou o vício do entretenimento. Optei pela sanidade mental, livrei-me dos livros, de todos. Acredita que não tenho um único livro em casa? Nem um livro de receitas, nem uma lista telefónica. O meu método de trabalho é, pois, intuitivo, baseia-se na crença no poder da adjectivação e das frases floreadas.

 

Como avalia livros que não leu?

Confio no que ouço e no que sinto, conheço críticos e escritores, frequentamos as mesmas festas. E medito sobre o que vejo. O aspecto do livro é fundamental: a cor da capa, a fonte escolhida, a fotografia do autor. Em suma, o bom crítico depende do bom gosto. 

 

Poderia aprofundar sobre o “poder da adjectivação”?

Com o adjectivo, meu companheiro de longa data, evito horas de reflexão. O que demoraria um dia a escrever sai em dez minutos. Um “brilhante” resume um livro. A um poeta estreante ofereço o clássico “fulgurante” ou o mais composto “pedrada no charco”. Descubro expressões invulgares. Veja bem que fui eu quem esgalhou a seguinte frase: “Manuel, poeta lúcido cujo maior talento é deslindar, de modo vibrátil e voluptuosamente feérico, as angústias do mapa rememorativo.” Como se traduz uma frase destas? De modo nenhum. Nem eu sei o que pretendi dizer. Inspiro-me, despejo estes lirismos. Se me confrontarem, se me acusarem de não fazer sentido, retruco que para um asno só a palha é literária. Há uma outra questão, já abordada por seguidores meus, relacionada com a limitação de caracteres de um artigo de jornal. Como poderei reflectir sobre um livro se não me dão espaço para o fazer? Sou apologista do ensaio longo. Como não me dão espaço para esse ensaio, protesto com uma retórica absolutamente acrítica.

 

Que conselhos daria a críticos emergentes?

À semelhança de qualquer artista, o crítico depende das suas capacidades criativas, do tão desvalorizado talento, que é uma energia inata. Nascemos ou não dotados deste dom – porque é um dom avaliar convenientemente um livro sem o conhecer. Seguir o coração parece boa recomendação.

 

O crítico, exausto, recusou-se a responder a mais perguntas. Despediu-se com um intenso beijo na face e esfumou-se na tarde chuvosa.