Paulo Rodrigues Ferreira, Sonhos de Lobo

Paulo Rodrigues Ferreira
Sonhos de Lobo
Contos

Enfermaria 6, Lisboa, setembro de 2014, 96 pp.
Capa de João Alves Ferreira

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“Já acreditei em Deus, no álcool, nas mulheres, nas crianças e nos animais. Acreditei até no poder do nada. Nesta fase em que me encontro, acredito em bares de alterne. Não me orgulho de ser quem sou. Quando o senhor prior me pousava a santa hóstia na língua, julgava que me salvaria, que teria um bom emprego, uma boa mulher. Agora acredito que não definharei se abocanhar ao mesmo tempo as duas mamonas da Shirley.”

Harmónica #1

Ontem dormi muito pouco. Às vezes acordo durante a noite com a sensação de que isto, o mundo ou sei lá, me foge, quase não o consigo agarrar. E depois lembro-me dos viajantes que usam calções azuis, as terras colocadas sobre uma bandeira às cores, o apito vermelho junto ao vaso na casa do avô. Por vezes vem também o cheiro a morcela e a barba ruça. Esses momentos sabem-me bem, sabem-me muito bem. Nunca poderia imaginar que um dia voltasse a comer morcela ou chouriço preto, desde aquela vez que comi tanto que acabei a madrugada a vomitar. Durante anos parecia que mantinha o sabor do vomitado de morcela na boca. Como uma má recordação, uma passagem triste na vida, a que nem por nada queremos reviver. Mas recentemente comi chouriço preto novamente, acredito que um dia esteja a comer morcela também. É como se tivesse crescido e apagado as más imagens do vómito, que podiam muito bem ser outra coisa qualquer. Talvez perdoar seja isto. É ser capaz de comer morcela outra vez. 

Três poemas de Paladas de Alexandria

Paladas de Alexandria
Tradução: 
Hugo Pinto Santos
A partir das traduções de Peter Jay & Tony Harrison

 

A filha do gramático,
tendo-se flexionado com um homem,
deu à luz os seus filhos — masculino,
feminino e neutro. 

Paladas de Alexandria (a partir da tradução de Peter Jay)

*

Os nomes têm declinação, os gramáticos declinam.
Vou vender estes meus malfadados livros,
o meu Píndaro, o meu Calímaco, tudo.
Sou um ‘caso’ perdido. Foi a pobreza que me aconteceu.
Doroteu despediu-me
e diz mal de mim pelas costas.

Ajuda-me, Téon, ou a única coisa entre mim e
A pobreza será um &.

Paladas de Alexandria (a partir da tradução de Tony Harrison)

*

A morte é uma dívida que todos detêm,
e se durarás para lá desta noite, quem sabe.

Aprende, então, a lição, e dá-te por grato
pelo vinho e a companhia e bares abertos toda a noite.

A vida encarreira-se para a cova a largo passo,

por isso bebe e ama, e deixa aos Fados o resto.

 

Paladas de Alexandria (a partir da tradução de Tony Harrison)

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