«Por intermédio das palavras que flutuam à nossa volta, alcançamos o pensamento»
Friedrich Nietzsche
Uma fábula para o início das aulas
/- Os banqueiros são por natureza pecadores. É o que há muito se conta e sabe, meu pequeno. Uma dessas histórias que vem nos livros, sobre princípios, conta o seguinte:
«Nos inícios do país, o Rei disse aos banqueiros que estavam nus e porcos de tanto nadar em dinheiro (que como se sabe é coisa mui suja e pouco higiénica):
«- Aproveitai a hora-de-almoço e ide-vos lavar ao Lago da Decência!
«Ora, os banqueiros bons obedeceram, não almoçaram e depressa ficaram limpinhos, prontos para outra, mas os maus, esses, não fizeram caso, demorando-se em lautos almoços e outros expedientes dilatórios. O Rei, confiando na sua autoridade e esquecendo que certos homens, como o escorpião de outra história, são o que por natureza são, não enviara guardas nem fiscais.
«Foi assim preciso que o Rei repetisse a ordem três vezes – por voz, por carta e por decreto – para que os banqueiros maus se fossem lavar, mas entretanto fizera-se tarde e o sol secara quase o lago inteiro, deixando-lhes apenas água o suficiente para limpar as mãos que tudo assinam e os pés que sabem sempre acelerar para um qualquer exílio.
«É por isso que, mesmo castigados e votados ao geral opróbrio, os banqueiros maus se misturaram com os bons, continuando até hoje livres para assinar qualquer papel, promessa ou contrato, e os seus pés lestos para os levar a qualquer estância de férias ou paraíso fiscal. De mãos e pés brancos, alvos, eternamente puros e sem mácula. Quanto ao resto, como se sabe e pode ainda hoje ver, ficaram com o corpo todo escuro. De Armani, Boss ou Versace, é verdade, mas escurinhos todos, embora de gradação fácil entre o cinzento e o azul, mas nunca de preto (o que é coisa para outra história…)
O pequeno, talvez porque já não fosse tão miúdo assim, levou as mãos à cara, baixou a cabeça e suspirou.
- Já tinhas ouvido? Pois é: vem nos manuais.
com agradecimento às memórias de Miguel Rovisco, do país novecentista e das realidades mediáticas do nosso dia-a-dia.
Três primeiros capítulos de «Sonhos de Lobo»
/O lançamento do livro terá lugar neste sábado, 13 de Setembro, pelas 18 horas na Fyodor Books. A apresentação estará a cargo de Pedro Mexia. Ver mais aqui.
Eu, rudo, velo
/Uma catrefada de desacertos cosida com agulha no peito, um conjunto de erros, um ano de erros, de pensamentos errados, um ano de fantasias. Escreveu, riscou, rasgou o papel e esmurrou a mesa. Cliché, pensou, clichés, só clichés: o papel, os desgostos amorosos, a chuva que batia na janela, a gabardina, o cigarro entre os dentes, o riscar do papel. A minha existência, esta solidão, o buraco negro na minha barriga. Deitou-se na banheira cheia de água e espuma e imaginou como seria se cortasse os pulsos. Recordava as palavras do psiquiatra, o imbecil que lhe aumentava a medicação, que só lhe sabia aumentar a medicação. Dois ao pequeno-almoço, três ao lanche, dois ao deitar. Era o tomavas. Tomava se quisesse. Se estivesse para isso. Não mandam em mim, eu é que sei, eu é que mando. Quem manda em ti? Mastigava as palavras do doutor. Você não tem vontade de morrer. Eu não me desejo matar mas regressar ao útero materno e à paz. Thanatos. Remascar. Sabe o que é? Psiquiatra louco, deus o salve. Thanatos. Pulsão de morte, não era bem isso. Deixou o telefone tocar, não devia ser ninguém que interessasse, ninguém por quem o seu coração batesse. O telefone tocava e tocava, vestia-se e o telefone tocava, fumava e o telefone tocava. Comprimidos que o salvassem da obsessão pelo futuro, da obsessão de ser outro, progressivamente outro. Precisava de uns comprimidos assim. Ambicionava ser uma cobra a largar a pele, uma criatura nova, apesar das rugas e dos cabelos brancos e da dificuldade, da dificuldade, que dificuldade? Esquecia-se. Não se ajoelhava sem dor. Era uma dificuldade ser ao mesmo tempo racional e animal, pensar e sentir dor aguda. Reumático fleumático sorumbático. Que significados têm estas palavras, que pomada esfregar nestes joelhos arrombados? Banha da cobra, mistelas compradas no chinês. Sentou-se num café, pediu um bagaço e uma puta, o empregado não percebeu e repetiu, quero um bagaço e uma puta. O empregado sorriu e encolheu os ombros. Mais um velho. Trouxe-lhe o bagaço. E a puta?, perguntou o velho. Na ponta do meu pé, se não se portar bem. A fineza do empregado. Comprou o jornal desportivo e perguntou ao dono de quiosque se sabia de algum sítio onde se pudesse pagar a uma puta. O dono do quiosque, conhecendo um cortiço ali pertinho, esticou o braço e afirmou duzentos metros para a direita e está lá, diga que vai da minha parte. Entrou no cortiço, pediu uma puta e em troca recebeu um estalo, que aquilo não era modo de se dirigir a uma artista do sexo. Escolheu uma senhora a seu gosto, deixou-se levar para um quarto, tirou uma pomada do casaco. Esfregue-ma nos joelhos, por favor, não aguento mais de dores. A artista obedeceu. O senhor gemeu. Que grande massagista. Para além de puta, que grande massagista. É uma pena. Uma pena ter sangue reles. Degolou a prostituta e a seguir cravou a faca no joelho e zurrou. Apareceram os seguranças que o esmurraram até o deixarem inconsciente e depois surgiram a polícia e as ambulâncias. Na prisão não existiam comprimidos. Enforcou-se. Quero uma puta. E morreu.
Sábado na Fyodor Books
/Apresentação do livro Sonhos de Lobo, de Paulo Rodrigues Ferreira, no Sábado, às 18h. A apresentação ficará a cargo de Pedro Mexia.
