podemos cantar um canção os dois

podemos cantar um canção os dois
a valsa da matilde do waits
a voz do vinagre onde o álcool se transforma em som

algures no nosso oeste
cactos e bagaço
o blue valentine na kentucky avenue

uma lágrima numa longa
noite sem fim
porque esperamos?
não sei
juro que não sei sentada na berma
já tenho doses de noites a
mais
de esquinas e portas
de adeus em adeus
elas não suportam a separação
não choram mais porque secaram
i never talk to strangers

o som da cidade
fica restabelecido e já não tenho horas
o relógio parou
e eu fiz um gesto obsceno
e desapareci

A condição humana

Inverno. Interior. Noite. Uma tristeza extra-large. A voz gravada anuncia, através dos altifalantes, que o tempo vai acabar. Repete o aviso em várias línguas e depois começa a soar Mittwoch aus Licht de Stockhausen. 
Estou sentado na cadeira disciplinada de um avião. O som moribundo da máquina ocupa grande parte do meu campo visual. Uma longa sala de espera flutuante. Filas intermináveis de cadeiras e passageiros sentados, higiene e geometria postural, anjos com uma enorme capacidade de resignação. 
Uma hospedeira de bordo, muito aérea e decotada, aproxima-se de mim, inclina-se, deixando entrever a força e o argumento da sua amabilidade. Oferece-me uma demonstração gratuita do seu sorriso profissional, pergunta-me se está tudo bem, se preciso de alguma coisa, e por fim deseja-me boa viagem. 
Uma senhora de idade está sentada ao meu lado. Olha indisfarçavelmente pela pequena escotilha do avião. A julgar pela fisionomia de ave frágil e pálida, não parece portuguesa. Não parece sequer real. Tem um sorriso pendurado nos lábios. Ignoro a causa que a pôs a bordo da sua derradeira viagem. Seria de muito mau tom, aliás, questioná-la a respeito da sua própria extinção. Mas não resisto a perguntar-lhe para onde tão alegre e insistentemente está a olhar. Lá em baixo, down there, aponta com o indicador esguio e enrugado através da pequena janela do avião, the human condition, a condição humana.

A vida e as opiniões do barnabé guilherme gontijo flores, servidor do estado  

O tédio é a pior forma de tristeza.
(rodrigo madeira)

 

1. Begin the beguine

    Não fui criado para o filho certo
nem para o único
e mesmo assim em algo o sou
ainda que isso nada diga
de mim de outro estulto qualquer
eu não me congratulo
pois cada meu fracasso
não fora antes planejado
porém não disse nada inusitado
e em cada passo armado
o risco de cair 
se deu como a delícia
por  descumprir a sina ignorada
    O tédio não foi bom
nem mau nem meu nem médio
e confesso que nunca
pensei pular do prédio
para espetáculo da turba
que ajuntada na pressa 
logo estaria estupefatamente
desinteressada
    Eu pensei no passado
aquela velha igreja por exemplo
eu muito mais me a adentro
do que alguma vez 
pisei no seu mistério
e cada templo em que passei
mais parecia a casa
envelhecida dentro de um museu
como aquela matriushka que nunca tive
porque estava em outra parte
falseando outra história
    Eu não sorvi do sangue das vitórias
eu nem mesmo as contei
em nada fui desapontado
e creio não desapontei
na tarefa tão árdua de um abraço
eu recuava ao tempo da família
dos quadros apagados
dos nomes sem memória
e de um brasão talvez
perdido nas gavetas inventadas
de algum antepassado
que hoje sumiu sem deixar traço
e sem abrir no espaço 
uma ferida falsa
à qual eu me apegasse 

Toda história é cansaço

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maçã mal cabida

faz já dois candelabros que ela não olha para trás
uma mulher de olhar para trás
mas então agora é o prato chinês
os ossinhos do pato no canto perto
da mão esquerda
o garfo com seus dentes virados
para o quadro onde um cavalo e sobre ele
uma garotinha forçando o rosto num
raio de sol muito mal pintado num
tom de maçã mal cabida ali
pobre
pobre beleza pobre mal cabido ali
faz já umas três ou quatro eternidades que ela não olha para trás
metodologia de sondar sem ver
uma faca no assoalho de cupins
uma vaca bordada no guardanapo novo
uma mulher e um homem e uma roda de tortura
uma vaca bordada na cara da mulher

onde o homem maria de deus
uma propaganda de desodorante e uma cachoeira e a torradeira quebrada
uma vaca bordada na cara dela
e se ela se botasse a cantar e se
se ela botasse a querer lamber um peito marinho
e se ela se botasse
a pensar num estupro supracoreografado
uma vaca e três ou quatro búfalos que ela não
ela usa um terno cinco tamanhos maiores
faz treze luas que ela não
faz treze náuseas que ela não olha para trás
uma sala escura bordada no estofo da cadeira vazia
uma mesa tão longa que ninguém deu-se a bordar
um tipo incerto de deus que fez da incerteza da mulher
coisa bordada no quadro com a maçã sobre o rosto mal chaveado
cavalo sob menina rija sobre raio de sol fruto de fruta mal cabida ali
se ela se bota a voltar a olhar para trás
se ele se bota a pensar em sexo com talheres de azar
se ela se bota a criar uma boa superstição com taças
já uma colisão de ângulos entre a janela e o espelho que ela não olha para trás
se ela se bota a querer o tórax a devolver a coxa e a asa
se ela se bota a entortar o quadro
uma maçã e uma rigidez infantilizada e uma cor de tortura
uma carcaça bordada na cara da mulher
onde o homem maria de deus onde o homem
se ela se bota a cruzar os ossos
essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca
se ela se bota a estranhar os milagres ali sobre a mesa sob as unhas
se ela se bota a pentear a franja com o garfo
se ela se bota a cruzar os ossos ou os dedos ou as pernas
se ela se bota a contrair o útero se ela se bota a relaxar o útero
essa mulher que morrerá em menos de sete ou dezessete sopros na nuca
se ela se bota a contrair o útero entre o primeiro e o último sopro fatal
faz já onze moscas que ela não olha para trás